24% das empresas não sabem impacto da reforma tributária, aponta levantamento
Praticamente uma em cada quatro empresas ainda não simulou os impactos financeiros da reforma tributária, que começou a ser implementada em 2026 e irá até 2033, quando haverá a completa substituição dos tributos atuais por dois novos: a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), federal, e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de competência de estados e municípios.
É o que aponta levantamento realizado em maio e junho pela Roit, companhia especializada em soluções para gestão tributária, que ouviu 70 diretores e gestores das áreas financeira, fiscal e de tecnologia de médias e grandes empresas inseridas em sua base. Somadas, as receitas dessas empresas ultrapassam R$ 2 trilhões por ano —o equivalente a cerca de um quinto do PIB.
A sondagem revela que 37% dos entrevistados ainda não avaliaram o impacto da reforma no seu capital de giro, considerando, especialmente, os efeitos do split payment, novo mecanismo de arrecadação tributária em que o tributo é recolhido no mesmo momento do pagamento.
E 34% das empresas não têm ideia sobre se os preços finais de seus serviços e produtos estarão iguais, mais caros ou mais baratos em 2027, com a cobrança dos novos tributos. Além disso, 27% delas também não sabem se sua margem de lucro tende a aumentar, diminuir ou permanecer neutra no mesmo ano.
A maior parte das empresas que já tentou calcular os efeitos financeiros da reforma fez isso apenas de maneira preliminar. Segundo o levantamento, 49% estão nessa situação. Outros 19% fizeram simulações com dados estruturados e apenas 9% chegaram a uma análise detalhada por item e fornecedor.
Os dados revelam como boa parte das empresas ainda não tem clareza dos impactos da reforma, o que, segundo a Roit, pode trazer riscos relevantes. "A avaliação do capital de giro (split payment), a adequação de TI e a revisão contratual ainda estão em fase inicial na maior parte das empresas, e a percepção sobre a reforma está dividida entre risco e oportunidade, com leve predominância da visão de riscos", afirma o estudo.
A própria preparação tecnológica dos entrevistados ainda é incerta. Apenas 1% das empresas consultadas considera que sua área de TI está pronta para conviver com os dois sistemas tributários entre 2026 e 2033 —já que CBS e IBS passarão a ocupar gradualmente o espaço de PIS, Cofins, IPI (em parte), ICMS e ISS.
Outros 40% ainda estão em planejamento; 31% já iniciaram adequações; 14% dizem não estar preparados e 13% ainda não discutiram o assunto.
A indefinição também aparece na área jurídica: 37% das empresas ainda não revisaram contratos com clientes e fornecedores considerando as novas regras, enquanto 36% estão apenas começando a fazer esse trabalho. Só 20% já fizeram uma revisão parcial e 7% estão assinando aditivos.
A revisão dos contratos pode ser relevante para companhias que terão de renegociar preços, responsabilidades tributárias e condições comerciais durante o período de transição.
A dificuldade de estimar os efeitos aparece também na formação de preços: 46% das companhias esperam que seus produtos e serviços fiquem mais caros em 2027, enquanto 11% acreditam que os preços permanecerão iguais e 9% projetam redução. A parcela que ainda não sabe como os preços irão se comportar chega a 34%.
No que se refere às margens de lucro, 30% das empresas acreditam que a rentabilidade tende a diminuir com a entrada do IBS e da CBS, enquanto 20% esperam aumento e 23% projetam estabilidade. Outros 27% não conseguem estimar qual será o efeito.
"A percepção de risco sobre margens supera a de oportunidade: mais da metade das empresas está insegura ou pessimista quanto à rentabilidade futura", afirma o estudo.
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A incerteza também chega ao caixa. Na sondagem, 41% das empresas afirmam ter avaliado apenas superficialmente os efeitos do split payment sobre o capital de giro e 37% ainda não fizeram qualquer avaliação. Apenas 10% já analisaram o impacto utilizando dados reais e 11% afirmam estar ajustando sua estratégia financeira.
Isso significa que 78% das empresas ou não avaliaram o efeito sobre o caixa ou fizeram apenas uma análise superficial. Para a Roit, o resultado indica um risco de impacto ainda não mapeado pelas empresas, uma vez que o split, ao recolher o tributo no momento da operação, pode alterar a dinâmica financeira das companhias a partir da indisponibilidade do dinheiro correspondente ao tributo no caixa.
A falta de clareza, contudo, não está restrita à própria empresa: 82% dos entrevistados consideram que seus principais fornecedores não estão ou estão pouco preparados para a reforma. Desse total, 56% classificam os fornecedores como pouco preparados e 26% dizem que eles não estão preparados. Outros 19% consideram que os parceiros comerciais estão moderadamente preparados.
A preocupação com os fornecedores ocorre porque a adaptação ao novo sistema depende também das informações e dos documentos produzidos ao longo da cadeia, já que a reforma altera a forma de apuração dos novos tributos e o aproveitamento dos créditos, o que aumenta a importância da correta classificação das operações e da documentação fiscal.
Apesar do grau de incerteza, a reforma é vista como uma mudança capaz de alterar a posição das companhias no mercado: 33% acreditam que talvez haja mudança em seu posicionamento competitivo, 27% dizem que isso provavelmente ocorrerá e 23% afirmam que ocorrerá com certeza. Apenas 17% não esperam alterações. Ao todo, 83% enxergam alguma possibilidade de mudança.
Já a percepção sobre a própria reforma está dividida. Para 40% dos entrevistados, ela representa um risco maior que uma oportunidade, e 14% a classificam como risco. No outro campo, 26% veem uma oportunidade maior que o risco e 20% consideram a mudança uma grande oportunidade estratégica. Assim, 54% têm uma percepção predominantemente de risco, contra 46% que enxergam algum grau de oportunidade.
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