Masséna chegou cedo demais para o Carnaval

Há cidades que passam a vida inteira à procura de uma identidade. Torres Vedras teve a sorte de encontrar duas, separadas por duzentos anos e, à primeira vista, completamente incompatíveis: primeiro tornou-se célebre por não deixar entrar franceses; depois tornou-se célebre por deixar entrar toda a gente.
É uma evolução civilizacional apreciável.
Hoje, quando Torres Vedras é invadida, a Câmara ajuda. Fecham-se ruas, montam-se palcos, chegam autocarros, enchem-se cafés e restaurantes e aparecem milhares de pessoas dispostas a passar várias horas dentro de um perímetro do qual, curiosamente, também não é fácil sair. Há cabeçudos, carros alegóricos, matrafonas e aquela alegria muito portuguesa que consiste em levar o absurdo suficientemente a sério para que ele se torne tradição.
Em 1810 a invasão era menos divertida.
A 12 de outubro, durante a terceira invasão francesa, as tropas de Masséna chegaram à zona de Sobral e encontraram diante delas as Linhas de Torres Vedras. Napoleão não estava lá, apesar de hoje parecer existir uma espécie de lei da Internet segundo a qual qualquer francês com um cavalo entre 1807 e 1811 era Napoleão. Quem comandava era André Masséna, marechal de França, veterano de campanhas suficientes para não se impressionar facilmente.
Torres Vedras conseguiu impressioná-lo.
Masséna vinha de uma Europa onde os franceses tinham adquirido o hábito pouco simpático de aparecer, dar batalha, vencer e continuar viagem. Portugal decidiu não colaborar com o hábito. Em vez de tentar ser mais francês do que os franceses, fez aquilo que os portugueses fazem melhor quando deixam de perder tempo a discutir consigo próprios: olhou para o que tinha e tratou de o usar.
Tínhamos colinas.
Fortificámo-las.
Tínhamos caminhos.
Controlámo-los.
Tínhamos Lisboa atrás.
Decidimos que os franceses não chegariam lá.
Há uma simplicidade maravilhosa nisto.
As Linhas de Torres Vedras foram um gigantesco sistema defensivo preparado para bloquear o avanço francês, aproveitando o terreno e articulando fortificações, artilharia, estradas militares e tropas. Hoje, com a linguagem delicada das autarquias, chamaríamos àquilo “condicionamentos temporários à circulação”.
Só que os condicionamentos tinham canhões.
Masséna descobriu, portanto, uma realidade que qualquer pessoa que já tentou atravessar Torres Vedras em pleno Carnaval conhece bem: aquilo que no mapa parece ser o caminho mais curto nem sempre é uma opção.
Hoje encontra-se uma grade.
Em 1810 encontrava-se um forte.
Hoje pergunta-se ao polícia:
— Não posso passar só por aqui?
Em 1810 também se podia perguntar. A resposta era mais barulhenta.
Os franceses chegaram a obter um sucesso local em Sobral, e convém dizê-lo porque patriotismo não é falsificar o resultado até parecermos invencíveis. Os países seguros da sua História não precisam de ganhar todas as páginas. Uma coisa, porém, era tomar uma posição avançada; outra era atravessar todo aquele sistema e chegar a Lisboa.
E aí começou o problema de Masséna.
Talvez seja essa a parte mais bonita das Linhas: funcionaram antes de ser necessário provar até ao fim que funcionavam. Um grande dispositivo defensivo não serve apenas para vencer quem ataca; serve para fazer o atacante pensar duas vezes.
Masséna pensou.
Foi uma vitória da inteligência antes de ser uma vitória das armas.
E há qualquer coisa de profundamente português nisso, não no sentido folclórico do desenrascanço mal preparado, mas precisamente no contrário: preparámos, antecipámos, aproveitámos a geografia, cooperámos com os britânicos e transformámos um território aparentemente banal numa barreira que um dos melhores exércitos da Europa não conseguiu simplesmente atravessar.
É pena que sejamos tão modestos nas coisas certas e tão vaidosos nas erradas.
Dois séculos depois, Torres Vedras voltou a especializar-se em invasões, apenas mudou o regulamento. Agora, os invasores são recebidos com música, comida e vinho; as ruas são ocupadas voluntariamente; e a maior ameaça militar conhecida é talvez uma matrafona de salto alto a tentar manter uma trajetória retilínea depois da meia-noite.
É uma melhoria considerável.
O Carnaval de Torres Vedras é, de certa forma, a inversão perfeita das Linhas. Em 1810 construiu-se tudo para manter gente de fora. Hoje organiza-se tudo para que gente de fora venha. Antes, o objetivo era que ninguém atravessasse Torres em direção a Lisboa; agora o objetivo é que ninguém atravesse Torres sem parar para beber qualquer coisa.
Há uma continuidade, no entanto.
As estradas continuam fechadas.
E continua a existir alguém que não percebe porquê.
Em 1810 era Masséna.
Hoje é normalmente um senhor num Peugeot que só queria ir para casa.
Talvez seja isto que torna a História tão divertida quando sai dos manuais: os lugares mantêm hábitos, mesmo quando mudam completamente de significado. As mesmas terras que um dia fizeram parte de uma enorme máquina defensiva são agora atravessadas por pessoas mascaradas, famílias, turistas e foliões que desconhecem provavelmente que, onde hoje há trânsito e serpentinas, houve um dia uma questão bastante séria sobre se Lisboa continuaria ou não fora do alcance francês.
E gosto especialmente dessa passagem do tempo porque ela permite uma espécie de patriotismo mais saudável.
Não precisamos de fingir que Portugal derrotou sozinho Napoleão, nem de transformar cada episódio numa epopeia onde um português vale por cinquenta estrangeiros. Tivemos aliados, tivemos Wellington, tivemos tropas britânicas, tivemos portugueses e tivemos populações que suportaram custos enormes.
Mas também tivemos inteligência, resistência e capacidade de organização.
E isso chega.
Aliás, chega muito.
Um dos maiores poderes militares da Europa mandou um dos seus melhores marechais chegar a Lisboa. O pequeno país que supostamente devia ser apenas o corredor entre Espanha e o Atlântico respondeu transformando as suas próprias colinas numa porta fechada.
Masséna chegou.
Olhou.
Esperou.
E Lisboa ficou do outro lado.
Hoje Torres Vedras recebe toda a gente com muito mais simpatia. Ainda bem. Entre uma bateria de artilharia e um carro alegórico, escolho sempre o carro alegórico.
Mas há qualquer coisa reconfortante em saber que, por baixo do Carnaval, das matrafonas, dos corsos e da festa, existe a memória de uma terra que já soube dizer a um exército imperial:
por aqui, não.
E talvez seja essa a melhor definição do espírito português.
Fazemos festa quando podemos.
Mas quando é preciso fechar a porta, sabemos onde pôr a tranca.
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