A entrevista de Passos: quem te avisa teu amigo é!

1 Por um conjunto de razões, só consegui assistir à primeira entrevista de Pedro Passos Coelho desde que abandonou a política activa vinte e quatro horas depois de ela ter sido feita. Pelas reacções que fui lendo, achei que o tema da entrevista tinha sido o Chega, a quem Passos Coelho teria feito juras de amor, enquanto proclamava André Ventura como o seu delfim.
Evidentemente, nada disto corresponde à verdade. Numa entrevista de mais de quarenta minutos, o antigo primeiro-ministro referiu vários assuntos e fez também a análise do actual momento político que atravessamos. Um momento de clara paralisia, em que o Governo, apesar das suas boas intenções, não tem a força política para levar à frente qualquer reforma, como ainda recentemente se viu com a lei laboral.
E sublinhou um facto evidente: quando o PS perdeu a maioria absoluta em 2024, demonstrando a vontade do país numa mudança, o PSD tinha a obrigação de procurar uma maioria à direita que tornasse possível governar.
Esta análise é bastante factual e até, a meu ver, colocada de forma muito simpática. Porque não aponta o erro principal dessa eleição, que foi fingir que o PSD a ganhou, quando, de facto, empatou com o PS. E não fora a maioria à direita e o PS teria continuado a governar.
Mas, sobre o Chega, Passos Coelho não falou apenas da obrigação do PSD de procurar acordos, de forma a não mergulhar o país no actual imobilismo. Apontou também que a única forma de os partidos populistas deixarem de o ser é obrigando-os a responsabilizar-se por aquilo que defendem. Ou seja, de forma menos simpática do que a usada por Passos Coelho, o Chega diz estupidezes porque não tem de as pôr em prática. No dia em que as tiver de pôr, ou muda de discurso ou desaparece.
Afirmar que não se pode ignorar o desejo de mudança que as pessoas expressaram nas urnas, ou que, havendo uma maioria de direita, é importante o diálogo para que se possam realmente fazer reformas, não é uma declaração de amor ao Chega. Nem sequer uma aprovação do Chega. É simplesmente reconhecer e respeitar a vontade dos eleitores.
Eu não gosto do partido de André Ventura. Penso que tem a densidade doutrinal e ideológica de uma folha de papel-bíblia e que vive apenas da exploração da insatisfação. Também acho que negociar com o Chega é quase impossível, porque hoje é verdade para ele, amanhã é mentira. Mas eu valho um voto, e há mais de um milhão de pessoas que não pensam como eu e que decidiram votar no Chega. E fingir que isso não aconteceu, para além de não ser especialmente democrático, é também pouco eficiente, como se pode ver pelas constantes subidas da votação dos populistas.
A recusa de Luís Montenegro em tentar um diálogo com o Chega coloca-o numa posição impossível. Porque todo e qualquer ímpeto reformista choca de frente com o bloqueio do Parlamento. Porque, para o Chega, quanto pior, melhor. E o PS fica apenas a fazer de morto, à espera de que o poder lhe venha cair nas mãos.
O Governo tem feito bastantes coisas boas. Mas o país tem problemas estruturais gravíssimos, que precisam de reformas urgentes. E essas o Governo não pode fazer, pelo simples facto de não ter apoio parlamentar para isso.
2 Muitos viram a entrevista de Passos como um ataque a Montenegro e uma estratégia para assaltar o poder. Parece-me que estão bastante enganados. O primeiro-ministro está num buraco que ele próprio escavou com a política do «não é não». E o seu predecessor está a tentar explicar-lhe isso e a dizer-lhe como pode sair dele.
Mas, como a política em Portugal é feita de jogos contínuos de poder, em que não há qualquer abertura para ouvir uma crítica, os apoiantes do Governo preferem fingir que está tudo bem e que, no fundo, Passos está só a promover Ventura.
Penso que era difícil ter a cabeça mais enterrada na areia. Primeiro, o PSD arrisca-se, neste momento, a ter um resultado ainda pior do que aqueles que teve com Rui Rio (o que não é fácil), o que torna evidente que não está tudo bem. Depois, Ventura, que já lidera a oposição, já vai nos 30% nas sondagens, mostrando que não precisa de qualquer ajuda para chegar ao poder.
Se alguém devia ficar preocupado com esta entrevista, não é Luís Montenegro, porque, se continuar a não ouvir o que Passos lhe diz, tem um brilhante futuro como ex-primeiro-ministro. Quem se devia preocupar com a entrevista é André Ventura.
Neste momento, ele é, por muito incómodo que isso seja, o mais forte candidato a liderar o espaço da direita em próximas eleições, e isso seria o fim do PSD. Foi contra essa possibilidade que Passos se posicionou. O que ele disse foi que, se o PSD não conseguisse ter um bom resultado, ele podia avançar. Ou seja, recusa-se a entregar a Direita a Ventura. Pode conversar com ele, até eventualmente fazer uma aliança com ele, mas não tenciona entregar-lhe o poder.
Passos tem uma ideia para o país: reformas estruturais corajosas. E uma ideia para esvaziar o Chega: obrigá-lo a responsabilizar-se pelo que defende. Montenegro tem a oportunidade de ouvir os avisos amigos ou de ficar à espera de que outros os ponham em prática, enquanto ele vai escrever as suas memórias.
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