As geometrias de poder

Durante décadas habituámo-nos a pensar o poder como uma linha, a que separava o Leste do Oeste, o bloco do outro bloco, o aliado do adversário. Tranquilizadora na sua simplicidade, essa linha desapareceu. O que vemos hoje são geometrias variáveis, em que os ângulos se medem em barris, em quilowatts e em dependências, e em que as velhas alianças valem tanto quanto o papel dos comunicados que as celebram. Convém olhar para o tabuleiro sem o verniz diplomático, e é isso que aqui se propõe, uma leitura, forçosamente especulativa, de como as peças podem estar a ser dispostas.
Comecemos pelo petróleo, que continua a ser o sangue do poder. Washington pede aos governos europeus que abram as suas reservas estratégicas, apresentando-o como gesto de solidariedade e de estabilização dos mercados. Há quem veja nisso apenas prudência. Eu vejo uma aritmética elegante, esvaziar o depósito do vizinho é a forma mais económica de lhe garantir futura clientela.
Se a hipótese for lida até ao fim, o negócio fecha-se com uma simetria quase estética. Compra-se crude a Moscovo a preço de saldo, enquanto as reservas europeias se esgotam, depois, quando a Europa precisar de reabastecer, vende-se-lhe o produto, reembalado e multiplicado, a um preço dez vezes superior. O intermediário não produz, não arrisca, não sangra, cobra. É a diferença entre quem joga xadrez e quem é jogado, sem sequer se aperceber de que está sentado à mesa.
As consequências são mais graves do que a mera fatura energética. Uma Europa que cede, que esvazia as reservas e paga o sobrepreço, é uma Europa com menos fôlego orçamental. E o fôlego orçamental é, neste momento, o oxigénio da Ucrânia. Cada euro desviado, para comprar a energia que antes guardava, é um euro que deixa de chegar a Kiev em munições, em blindados, em defesa antiaérea.
Aqui a geometria torna-se cruel. Se os europeus deixam de poder financiar o esforço de guerra ucraniano, e se o dinheiro que Washington arrecada de Moscovo, a título comercial, acaba por irrigar a economia russa, então o resultado é de uma ironia que dispensa adjetivos, os Estados Unidos passam, na prática, a financiar a máquina de guerra que a Ucrânia combate, e a Ucrânia, sem retaguarda, caminha para a rotura. Ninguém precisa de declarar que mudou de lado. Basta que os fluxos financeiros o façam por ele.
Nada disto se compreende isolado do essencial, que se joga mais a Oriente. Nas visitas cruzadas de Trump a Pequim e de Xi aos Estados Unidos, o que se terá desenhado, para lá do protocolo e dos sorrisos de circunstância, é uma partilha de dois hemisférios de influência energética. O oriental, elétrico, assente nas renováveis, nas baterias, nos painéis, na cadeia industrial que a China domina, e o ocidental, fóssil, assente no petróleo, no gás e na força bruta de quem ainda pode extraí-los. Duas potências, dois modelos, e uma tácita promessa de não se pisarem os calcanhares.
Não é uma guerra fria, é um condomínio. E num condomínio de dois proprietários, quem não tem fração própria é, no melhor dos casos, inquilino.
É neste contexto que o Ocidente se desloca, definitivamente, para a “grande ilha americana”. O continente inteiro, de norte a sul, tratado como um quintal estratégico a arrumar. A Venezuela foi o tiro de partida, o ensaio geral. Seguir-se-ão, à vista de todos, as peças que ainda destoam, um Brasil cujo Lulismo parece cada vez mais próximo do fim de ciclo, um México incómodo pela proximidade e pela dimensão, uma Cuba que há demasiado tempo resiste por teimosia e por inércia. Não é preciso invadir ninguém. Basta asfixiar, condicionar, esperar. A doutrina Monroe, que supúnhamos peça de museu, regressou do arquivo com a pressa de quem tem contas a ajustar.
E o Médio Oriente? E o Irão? Servem, cada vez mais, de ruído de fundo. Faits divers de luxo, úteis para alimentar propagandas, entreter audiências e conservar a degenerescência macular dos cegos de espírito do regime, que olham para o dedo enquanto o mapa muda de lugar. Enquanto se discute a crise da semana, redesenham-se as fronteiras da década.
Resta a Europa. Resumir-se-á à sua insignificância, ao papel de museu aprazível, de parque temático da civilização, com boa gastronomia e péssima estratégia? Ou cairá de vez, ou renascerá? E, se renascer, como?
A resposta não virá de Bruxelas enquanto, Bruxelas, se limitar a produzir regulamentos para um mundo que já não lhes obedece. Virá, se vier, de uma coisa muito simples e muito rara, vontade política. Energia própria, defesa própria, voz própria. Sem isso, a Europa será apenas o território onde os outros concluem os seus negócios.
E convém avisar, com a prudência de quem leu a história, que há soluções que assustam mais do que o problema. Só não calcem botas aos alemães porque se o fizerem, temo que comecem, de imediato, a marchar. A Europa, que acorda sobressaltada, tende a escolher mal o que veste.
No fim, a geometria é irrepreensível. Os Estados Unidos vendem à Europa o petróleo que compraram à Rússia, a Rússia recebe o dinheiro com que a Europa já não pode defender a Ucrânia, a China sorri, de painel solar na mão, enquanto o Ocidente se entrincheira no seu continente-ilha e a Europa, a velha senhora do Ocidente, fica na plateia a aplaudir, convencida de que foi convidada para o palco.
Que ironia suprema a de um continente que inventou a diplomacia, a balança de poderes e o próprio conceito de real-politik, e que descobre agora, tarde e a preço de retalho, que o poder nunca foi um direito adquirido. Era uma forma, e a forma, como qualquer geometria, só existe enquanto alguém a desenha. Quem não desenha, é desenhado.
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