Caso de peste na Rússia preocupa. Pode chegar cá?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Devemos estar preocupados com o caso de peste que foi detectado na Rússia? "A woman who worked at a laboratory in Irkutsk Oblast has died." Uma mulher trabalhava num laboratório no Oblast de Irkutsk, que morreu, e as autoridades estão a investigar para perceber se a peste pneumónica causou esta morte. O local de trabalho era um instituto que estuda patogénicos perigosos, incluindo a peste, numa região da Sibéria onde esta peste ocorre naturalmente em animais selvagens. As autoridades russas identificaram as pessoas com quem ela esteve em contacto e estão a monitorizá-las. Nenhuma delas apresentou sintomas até ao momento, segundo os relatórios, e os resultados preliminares dos testes até à data são reportados como negativos, embora não seja claro para que patogénico. A avaliação inicial de risco da OMS, com base na informação disponível, estima que o risco seja de moderado a baixo para Irkutsk, um risco baixo para a Federação Russa no seu todo e muito baixo para a região europeia da OMS. Esta mensagem tranquilizadora foi deixada por Christian Lindmeier, porta-voz da Organização Mundial de Saúde. É a posição oficial deste organismo da ONU perante o alarme que se gerou depois de ter sido noticiado o caso de uma morte por peste pneumónica na Rússia. Falamos de Daria Shipilova, uma técnica de laboratório de 28 anos que trabalhava no Instituto Antipeste de Irkutsk, na Sibéria. Ela morreu a 2 de outubro, depois de alguns dias internada. Tinha uma pneumonia grave e esteve mesmo ligada a um ventilador. A Rússia disse que esta mulher morreu de uma pneumonia de origem desconhecida. Garantiu também que os contactos que teve dias antes estão a ser analisados e que a situação está estável. Mas chegaram relatos contraditórios e vários comunicados de entidades russas foram alterados ou até apagados. Um desses relatos é de um governador que primeiro deu como comprovada a morte por peste, mas depois veio dizer que, afinal, era apenas uma hipótese. Alguns jornais independentes russos avançam que quase 200 pessoas ficaram sob observação e que vários hospitais, incluindo uma maternidade, estão em quarentena. Neste momento, a Organização Mundial de Saúde está a investigar. O governo chinês diz que está a manter estreitos intercâmbios e cooperação com a Rússia. Os Estados Unidos da América já se mostraram preocupados e dizem que acompanham a situação, tal como o Centro Europeu para a Prevenção e o Controle das Doenças, que garante que está a acompanhar de perto este acontecimento. Eu vou conversar sobre este caso de peste pneumónica com Miguel Castanho, professor catedrático de Bioquímica na Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de quinta-feira, 8 de outubro. Bem-vindo, doutor Miguel Castanho.
Obrigado pelo convite.
Este episódio pode parecer um regresso a uma doença do passado. Estamos a falar de peste, mas, na verdade, a peste nunca desapareceu por completo, certo?
Não, nunca desapareceu por completo. Reaparece esporadicamente em alguns locais do planeta. Pode, eventualmente, dar origem a alguns surtos, mas nunca desapareceu por completo, porque a bactéria, neste caso é uma bactéria, não é um vírus, consegue conviver pacificamente e harmonicamente com algumas espécies de roedores e, portanto, não mata essas espécies de roedores. Portanto, a bactéria vai subsistindo, vai se multiplicando e vai sobrevivendo ao tempo nessas espécies. De vez em quando, por razões que podem ser mais objetivas ou razões às vezes um pouco desconhecidas, passa pra outras espécies. Normalmente, é porque há uma pulga, que também existe nessas espécies de roedores, que vai picar indivíduos de outra espécie e vai passar a bactéria. Essa bactéria, pois, é muito mortal pra outras espécies, incluindo outras espécies de roedores.
Neste episódio, estamos a falar de um caso de peste pneumónica. Que peste é esta e quão perigosa é?
Essa peste pneumónica é uma das formas da doença. Estamos a falar da mesma bactéria que causou a peste negra. E, portanto, só o nome peste já evoca a peste negra. Enfim, a pneumónica evoca ainda a gripe espanhola, gripe pneumónica. Portanto, a conjugação das duas coisas, de fato, levanta muitos alertas. Mas já não estamos na Idade Média, embora seja a mesma bactéria. E chama-se, neste caso, peste pneumónica, porque terá dado lugar a um alojamento das bactérias nos pulmões e, portanto, causa pneumonia e nesta forma chama-se peste pneumónica. Se por acaso a bactéria tiver o seu alvo principal no sangue, toma o nome de peste septicémica. Se ficar pelo inchaço dos gânglios no pescoço, nas axilas, nas virilhas, chama-se peste bubónica, porque dá lugar aos bubões. São três formas diferentes da apresentação da doença, mas que dizem respeito à mesma bactéria.
Esta é a mais perigosa?
É a bactéria que deu origem à peste negra. Só que peste negra é um nome reservado pra essa pandemia específica lá atrás no século XIV. A pneumónica não é exatamente a mais perigosa, digamos assim, quando falamos do indivíduo, porque elas são todas perigosas, pelo menos a septicémica e a pneumónica, mas tem uma particularidade: como a bactéria está alojada nos pulmões e a infecção causa tosse, é a única forma que existe onde há transmissão de pessoa para pessoa
Questão de contágio.
Exatamente. É a forma mais contagiosa, embora o contágio não tenha a ver com aquilo que observamos, por exemplo, na pandemia de Covid-19. Não é um contágio tão eficiente como a infecção causada por um vírus respiratório, como a Covid-19 ou a gripe.
Quais são os sintomas? Já falava aí tosse.
No caso da pneumónica, é a tosse, porque é uma infecção respiratória. É uma infecção em qualquer um dos casos acaba por haver febre. Há uma debilidade muito grande da pessoa, porque é uma infecção bastante grave. No caso da septicémica, aquilo que se nota mais são manchas na pele, porque aquilo que é mais atacado é o sistema circulatório. Essas manchas na pele levam à necrose e, portanto, umas manchas negras. É daí que vem o nome de peste negra. Porque causava essas manchas negras na pele. E no outro caso, na bubónica, são então os ditos bubões, alguns inchaços e alguma vermelhidão, sobretudo no pescoço, nas axilas, nas virilhas.
E tem tratamento aos dias de hoje?
Tem tratamento. Essa é a parte boa da história. É que esta bactéria, é preciso ver que ela subsiste em alguns roedores, como eu disse, mas que são animais selvagens, que vivem na natureza. Isto é, a bactéria existe em meios, sobretudo no Oriente, também nalguns locais da América do Norte, e não está exposta continuamente a antibióticos. Por quê? Porque não existe em ambiente hospitalar, é muito raro infectar humanos, porque não ataca animais domésticos, porque não ataca gado, por exemplo. Quer na medicina humana, quer na medicina veterinária, não está exposta a antibióticos e não tem tendência a evoluir no sentido de resistir aos nossos antibióticos. Aquilo que ouvimos falar de estirpes super-resistentes, que nos dão muitas dores de cabeça, que causam muitas mortes e que é um problema extremamente sério, neste caso, para esta espécie de bactéria, não existe. Uma vez que estamos a falar de uma bactéria que não está habituada a antibióticos, os antibióticos convencionais resultam e são eficazes.
E na parte da prevenção, há vacinas que ajudem a prevenir esta infecção?
Não existem vacinas, mas se reparar, existem casos em que os antibióticos são tão eficazes, tornam-se a solução e não foram desenvolvidas vacinas, ou ao contrário. Existem casos em que as vacinas são de tal maneira eficazes, resolveram o problema e não se desenvolveram medicamentos. É o caso do sarampo, por exemplo. Nós temos uma vacina extremamente eficaz, acabou por resolver o problema do sarampo, que em determinada altura histórica era um problema muito sério, com muitas mortes, mas a vacina veio resolver, não há medicamentos. A mesma coisa da raiva, por exemplo, que é causada por um vírus. A vacina que usamos para os cães e para os animais domésticos, porque há vacinação obrigatória, acabou por resolver o caso, não temos medicamentos. Neste caso, os antibióticos convencionais resolvem, desde que administrados a tempo, isso é importante. O que é crítico nestes casos é que o antibiótico tem que chegar a tempo, porque a bactéria mata, potencialmente pode matar em pouco tempo. Mas os antibióticos convencionais são uma solução de tal maneira eficaz que não foi necessário até agora desenvolver uma vacina.
O que nos traz aqui, neste caso, é a morte de uma funcionária do Instituto Antipeste de Irkutsk, na Rússia. Primeiro, talvez seja importante perceber isto: por que razão a Rússia estuda a peste e que instituto é este?
Não é só na Rússia, é que está localizado na Sibéria. Se nós formos lá fazer teorias da conspiração, podemos imaginar que é por estar num local remoto e o instituto estuda a peste, que é um animal muito letal, e se nos deixarmos levar pela imaginação, podemos facilmente aqui precipitadamente ligar os pontos numa história em que alguém anda a esconder alguma coisa. Não é assim. Repare que a peste, de facto, não é na forma atual uma grande ameaça real em termos de número de pessoas que adoecem à humanidade. No entanto, nunca se sabe como estes agentes patogênicos podem evoluir e é preciso monitorizar a evolução da bactéria. Com as pandemias do passado, mesmo tendo sido no século XIV, mesmo tendo havido outra, a Justiniana, ainda mais atrás, nós temos que aprender o suficiente para saber aquilo que se pode tornar ou retornar a ser uma ameaça real. E portanto, é preciso fazer monitorização, tal como se faz monitorização da gripe. O que nos protege, sobretudo numa outra grande pandemia de gripe, já existiram várias, é que nós monitorizamos a evolução do vírus. Neste caso da bactéria, onde é que faz sentido fazer a monitorização? Obviamente, é onde está a bactéria. Onde vivem aqueles animais que são o reservatório natural, onde a bactéria sobrevive. Entre outras regiões, na Sibéria, porque é lá que estão os animais. É claro, tem que se fazer lá um instituto, porque é preciso capturar esses animais, é preciso ver se eles estão infectados ou não estão infectados, se as bactérias evoluíram, se não evoluíram, como é que está a ser a evolução dos roedores, se eles estão a deslocar-se, se não estão. E tem que ser lá no local que se faz isso. É por isso que aparece o Instituto da Peste na Sibéria. E é por isso que existem investigadores que estudam a peste e fazem a sua monitorização na Sibéria, entre outros locais.
Era o que fazia esta investigadora, funcionária que terá morrido dias depois de ter tido um acidente em um laboratório. Terá sido um tubo de ensaio que se partiu com material biológico potencialmente perigoso. Várias pessoas do laboratório na Sibéria estão em quarentena, porque existem suspeitas que possa ter morrido devido à peste pneumónica. Falamos aqui ainda em suspeitas, porque a Rússia não confirma isto para já. Confirmou numa fase inicial, mas depois desmentiu. A Organização Mundial de Saúde também tem tido alguma cautela e diz que está a investigar a possibilidade de ser peste. Como é que se explica uma morte nestas condições? Não teria hipótese esta pessoa de sobreviver se fosse tratada logo depois do incidente, por exemplo, como referiu há pouco, com os antibióticos? E se podemos estar aqui perante um caso de negligência.
Que a OMS esteja preocupada é natural, porque é para isso que existe e portanto ao mínimo sinal de alerta, seja só fumo, ou seja, fumo e fogo, mas basta haver fumo para que a OMS obviamente sinalize o caso, se interesse e queira saber o que aconteceu. O facto de a OMS querer saber mais não quer dizer automaticamente que seja um caso muito suspeito ou que haja algo de muito mal. Quer só dizer que existe um risco e esse risco tem que ser estudado, tem que ser analisado e temos que saber até que ponto, o que está em causa, o que está em jogo. Seria importante, de facto, sabermos o que aconteceu, qual foi a cadeia dos acontecimentos, para podermos também melhor ajuizar sobre até que ponto é que isto é o início, por exemplo, de uma cadeia de contágios, ou que isto representa uma alteração da bactéria, uma mutação da bactéria e que vamos ter aqui algo de novo. A sucessão de acontecimentos seria importante nesta perspectiva. Agora, o que é que acontece? Nós temos algumas indicações e temos muitos espaços em branco, temos muitos vazios nesta história. Aquilo que se sabe é que uma pessoa adoeceu, essa pessoa veio infelizmente a falecer dessa doença, essa doença envolvia uma pneumonia. Isto é confirmado pelas autoridades russas. Alguém terá dito, uma autoridade local, que ela morreu de peste pneumónica, o que não é confirmado. Aqui já estamos em terreno um pouco movediço. Alguém terá dito que essa pessoa lhe contou que partiu um tubo de ensaio antes. É muito ouvir dizer para uma história segura. De qualquer maneira, qual é a coleção de factos? Primeiro, a pessoa que morreu era uma investigadora, era uma pessoa treinada para manipular aquelas amostras. Não estamos a falar da maior parte dos casos que acontecem, que acabam sendo crianças ou pessoas que acabam por contactar diretamente com animais selvagens, não sabem bem o que estão a fazer e acabam por ser infectadas. Não, estamos a falar de uma pessoa que tinha formação para isto. Estamos a falar de um contexto de um instituto de investigação dedicado à peste. É um contexto de um ambiente seguro. Mesmo a história do tubo de ensaio, a mim levanta-me algumas dúvidas, porque já não se usam tantos tubos de ensaio assim em laboratório. Hoje está tudo muito mais automatizado, utilizam-se muitos materiais, mas vamos admitir que um tubo de ensaio se partiu. Mesmo que derrame uma amostra com a bactéria sobre uma bancada ou no chão, existe um caminho imenso entre a superfície da bancada ou o chão e o sangue, o interior da pessoa que está formada para trabalhar naquele ambiente com aquelas amostras. Repare que a maior parte dos casos que acontecem são picadas de pulgas, que teriam vindo desses roedores. Alguns contágios são de pessoa a pessoa, nas partículas exaladas quando a outra pessoa tosse. Não estamos a ver, neste contexto, a menos que também haja um corte da experimentadora e que a amostra tenha entrado em contacto direto com o sangue, mas não há qualquer relato de que tenha havido um acidente com lesão da própria pessoa. Mesmo o facto de haver um pequeno acidente, em que um hipotético tubo de ensaio se parte e se derrama, daí até uma infeção vai um largo caminho. Esta história-
Está mal contada, para começar.
Eu diria que está mal contada no sentido de ter poucos dados. Não é de que existam dados errados. Está pouco contada, vamos dizer assim. Esta história está pouco contada, em vez de mal contada. É claro que nalguns países é mais fácil saber a história do que noutros. Alguns países são mais abertos do que noutros.
A Rússia garante que a situação está estável, mas também foi comunicado que há 200 pessoas sob vigilância médica e alguns relatos contraditórios que nós já falámos. Isso preocupa? Qual é o risco, de facto, para outros países?
O número impressiona, mas é uma medida de precaução. Mesmo que o risco seja baixo, o facto de haver algum risco, mesmo que residual, como a bactéria é muito perigosa e pode pôr em risco outras pessoas, medida de precaução, colocam-se as outras pessoas em quarentena ou sob vigilância. Agora, serem 200 ou serem duas, só depende do que aconteceu, do que a pessoa fez nos dias anteriores. Não diz nada sobre a natureza da infeção ou o perigo da infeção em si. Serem 200 pessoas quer dizer só que a pessoa esteve em locais públicos antes e que conviveu com várias pessoas. Mas aconteceria com qualquer um de nós, provavelmente. Se fossem saber com quantas pessoas contactámos, quem é que esteve connosco a partilhar salas e ambientes em três, quatro, cinco dias anteriores, facilmente se chega a esse número. O número impressiona à primeira vista, mas numa segunda análise devemos relativizar. O que é mesmo importante é verificar que a bactéria e a doença causada pela bactéria é grave e evolui muito rapidamente. O período de incubação talvez sejam dois, três dias. Começa a manifestar-se ou por manchas na pele, como eu disse há pouco, ou por tosse, certamente febre, debilidade da pessoa. E o que acontece é que já passaram alguns dias, já passou tempo suficiente para que essas pessoas que eventualmente tivessem sido também infectadas, começarem a manifestar sintomas. Nenhuma dessas 200 pessoas, até agora, que se saiba, tem sintomas de doença.
Ninguém aparenta, portanto.
Ninguém aparenta a doença. Portanto, não há, para já, sinal de alarme.
As autoridades estão a investigar, a Organização Mundial de Saúde também está a investigar. Restantes países da União Europeia, China, Estados Unidos, União Europeia aqui enquanto organização, dizem que estão a acompanhar. Do que estamos a falar quando se fala em investigação ao que aconteceu?
É uma pergunta curiosa, sobretudo de todos esses casos. É natural que os outros países estejam interessados, todos eles. A mobilidade neste momento é muito grande, a mobilidade de populações. O mundo é global e estamos todos expostos muito rapidamente. Aliás, foi o que se viu na pandemia de Covid-19. É muito irônico, por exemplo, que o presidente Trump, que tem as posições que tem sobre as vacinas, que está a braços com um problema gravíssimo de sarampo — que é uma doença para a qual existe vacina — em Nova Iorque, que se portou como se portou durante a pandemia, que tem o seu secretário de Estado da Saúde defendendo o que defende, venha agora manifestar-se muito preocupado com o que se passa na Rússia, com um caso de infeção e a dizer que está muito vigilante e a manifestar-se quase um polícia da saúde pública. De todos os casos que apresentou, nenhum me surpreende, porque é natural que todos os países estejam preocupados, sobretudo os países asiáticos, por causa dos reservatórios naturais. Mas de facto é muito irônico ver a preocupação do presidente Trump.
Perante tudo isto, para terminar, com base no que se sabe, com base no que falámos aqui, podemos dizer que não há caso para alarme ou há algo que o preocupa?
Não, não há caso. Eu creio que não temos nada que nos indique que exista necessidade de algum alarme. Devemos estar vigilantes porque essa é uma atitude que devemos manter sempre sobre qualquer possível foco de doença infectocontagiosa no mundo. O mundo é global hoje em dia, como vimos, aconteceu em Wuhan, o início da pandemia de Covid-19 chegou cá rapidamente. Já tínhamos a lição da gripe espanhola, chamada pneumónica. Que começou na América do Norte, acabou por cá chegar.
Há muitos casos por aí.
Sim, muitos casos. E portanto, nós temos que estar alerta sempre. Temos que estar sempre dentro de alguma prontidão. Os Estados têm que saber o que fazer quando se inicia um foco potencialmente pandémico. Que todos os países agora se manifestem interessados, que a OMS esteja interessada, que se fale disto, é bom. Não porque se pense que vem aí o pior, mas porque quer dizer que os sistemas de vigilância e de reação, pelo menos, estão operacionais. Não existe nada que nos leve a antever que daqui vai sair algo de muito mau. Sobretudo, o indicador que para mim é mais objetivo e mais claro, é que até agora não temos nenhum outro caso. Não devemos parar por aqui, porque é sempre bom esclarecer, afinal, o que é que aconteceu, por que aquela pessoa morreu. E para limparmos completamente a folha e para podermos encerrar o caso, temos que entender o que aconteceu àquela pessoa. Embora eu ache que daqui não vai sair nada que seja uma progressão da doença, ao mesmo tempo também acho que é importante clarificar e que toda a gente saiba com transparência no mundo o que aconteceu, para que obviamente possamos estar todos descansados e para que todos possamos aprender alguma coisa, porque se foi um acidente, de facto, no laboratório, isso quer dizer alguma coisa. Houve alguma coisa que correu mal e algum procedimento tem que ser acautelado de outra forma. Isto pode ter sido um procedimento humano, pode ter sido uma falha humana, pode ter sido uma falha técnica ou mais. Ou então não foi, foi outro agente qualquer, foi outra causa qualquer, não tem nada a ver com o trabalho da pessoa, foi uma coincidência e ficamos todos mais descansados.
Está descansado nesta altura?
Eu estou descansado.
Obrigado, professor Miguel Castanho.
Obrigado.
Miguel Castanho é professor catedrático de Bioquímica na Faculdade de Medicina de Lisboa e é também investigador do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Lourdes Oswald, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.