Trump e Xi: muita parra e pouca uva?

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Começa agora a habitual viagem pelos cinco continentes. Eu sou o Luís Soares e temos hoje, como é habitual, o Bruno Cardoso Reis. Bem-vindo, Bruno. E se há local para onde esta semana convergiram os cinco continentes, foi a semana de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, que teve a sessão 81. Por isso, esta semana, em vez de um país em destaque, temos uma instituição em destaque e queres trazer aqui algumas datas, alguns dados precisamente relacionados, Bruno, com a história da ONU.
Sim, exatamente. Olá a todos. Realmente, é uma história bastante interessante e é uma instituição também muito frustrante, embora já vamos aí. Mas é verdade que a ONU e a sua antecessora imediata, a Sociedade das Nações, a ONU vai literalmente herdar não só a missão, mas o património, algumas agências, por exemplo, todas as instalações da antiga Sociedade das Nações em Genebra, vão ser herdadas pelas Nações Unidas. A Sociedade das Nações criada em 1920, a ONU é criada a seguir à Primeira Guerra Mundial, pelo tratado que termina o Tratado de Versailles, que põe fim à Primeira Guerra Mundial, é criada essa Sociedade das Nações, que funciona com o mesmo princípio das Nações Unidas, reúne pela primeira vez, de forma permanente, todos os Estados soberanos e internacionalmente reconhecidos, no fundo, todos os Estados independentes, na altura poucas dezenas. Depois, de facto, as Nações Unidas são criadas a 24 de outubro de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, procurando fazer uma versão melhorada, uma espécie de Sociedade das Nações 2.0, uma versão melhorada desse modelo, que nós chamamos em relações internacionais, diplomacia multilateral permanente. Multilateral quer dizer que envolve muitos países, à partida, pelo menos mais do que dois, porque senão é bilateral, que é a diplomacia tradicional, mas à partida e por convenção, um número significativo de países. E quando se fala em multilateralismo, também que é um termo que é muito usado, por exemplo, pela diplomacia portuguesa, o que estamos a falar é a ideia de que é importante existir esse tipo de organizações intergovernamentais, organizações de Estados, que reúnam um número importante de Estados. Ou para resolver problemas regionais, é o caso da União Europeia, por exemplo, ou da NATO. Ou para resolver problemas globais, temos as Nações Unidas. Aí realmente o grande marco é o final da Segunda Guerra Mundial. O termo Nações Unidas, aliás, é a designação oficial dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Os países que, liderados pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, vão combater a Alemanha nazista e também o expansionismo japonês na Ásia. As Nações Unidas são uma série de órgãos que são criados nessa altura, também uma série de agências, sobretudo humanitárias, algumas delas que já vinham até de trás. Estamos a falar de um clube de 193 Estados soberanos, começa por ser 51 em 1945. Portugal, aliás, não faz parte das Nações Unidas, porque não era um beligerante, foi neutro durante a Segunda Guerra Mundial, portanto, não fazia parte do grupo original e depois não consegue ser admitido, juntamente com uma série de outros países, porque os Estados Unidos vetam uns, a União Soviética veta outros. Como sabemos, o órgão mais importante do sistema das Nações Unidas é o Conselho de Segurança. E aí temos 15 membros, 193 no total hoje em dia, mas 15 realmente têm mais peso. Portugal, por sinal, vai ser um dos 10 membros eleitos do Conselho de Segurança. Os países são eleitos por mandatos de dois anos, em blocos regionais. Portugal conseguiu ser eleito para o mandato que se inicia agora em janeiro de 2027 e temos, de facto, essa questão que é Portugal não é um Estado membro até janeiro de 1956, quando há um acordo entre a União Soviética e os Estados Unidos. Mas em todo caso, as Nações Unidas realmente começam a sua atividade em outubro de 1945 e têm como grande missão, basta ler o seu documento fundador, a Carta das Nações Unidas, que é o pilar da lei internacional atualmente vigente. A ideia fundamental, basta ler o preâmbulo, é evitar uma nova grande guerra mundial. E como é que se faz isso? Criando órgãos para diálogo permanente entre os Estados. Temos a Assembleia Geral, que é o que se tem falado mais agora, temos o Conselho de Segurança, que é o mais poderoso. A Assembleia Geral só faz recomendações, mas é o grande palco pra diplomacia global. Depois temos o Conselho de Segurança, que tem os tais 15 Estados membros. Depois temos outros órgãos, por exemplo, o Conselho dos Mandatos, que entretanto basicamente está extinto, que tinha a ver com uma espécie de colônias, mas sobre os quais as Nações Unidas tinham uma autoridade especial, como era o caso, por exemplo, da Palestina. Desde a independência de ilhas no Pacífico, Palau, que esse conselho ficou suspenso. O próprio Tribunal Internacional da Haia também faz parte do sistema das Nações Unidas. E depois tem entre 15, depende como é que se conta, 15 e 18 agências, a par obviamente de uma coisa importante, que é o secretariado, que trabalha para o secretário-geral, atualmente António Guterres, como sabemos há alguns meses.
Está em final de mandato, não é?
Que está em final de mandato. Essas 15 agências, o secretariado tem à volta de 120 mil funcionários, pode parecer muito, mas só o município de Nova Iorque tem mais gente a trabalhar pra eles, que é onde fica a sede das Nações Unidas Tem havido cortes importantes, também orçamentais e no pessoal, numa tentativa de ser mais eficiente. Foi uma das prioridades de António Guterres, mas no fundo, o secretário-geral é um pouco o porta-voz e o responsável máximo por executar aquilo que é decidido pelos Estados. Ou seja, aí o ponto também fundamental é sempre este, voltamos a esta ideia que é, no fundo, um clube de Estados. As Nações Unidas têm essa missão primordial de tentar evitar conflitos, promovendo o diálogo entre os Estados, prevenir crises, que crises se tornem mais graves, se tornem conflitos armados e, no caso de elas acontecerem, ajudar as pessoas. Ou seja, estas agências têm muito essa missão. Não apenas, temos, por exemplo, a UNESCO, que tem uma missão de promover o diálogo cultural a nível global, mas por exemplo, a UNICEF ajuda as crianças, o Alto Comissariado dos Refugiados, que aliás, foi um cargo que António Guterres exerceu antes de ser secretário-geral, ajuda milhões de pessoas que são forçadas a fugir das suas casas, seja no interior do país, seja pra outros países, por causa de conflitos armados e situações de insegurança. É essencialmente isso. As Nações Unidas correspondem a uma ideia que nós vemos que vai crescendo, sobretudo a partir do início do século XIX, que é esta ideia de que não basta fazer cimeiras, na altura dizia-se conferências, não basta fazer conferências de paz depois de haver conflitos. O ideal é reunir os Estados antes disso pra tentar evitar que as crises se transformem em guerras, que as guerras se alarguem, se alastrem, se intensifiquem, se tornem grandes guerras. No fundo, é essa a ideia de base das Nações Unidas.
E nesse sentido, e muito se tem falado também disso por causa dos conflitos entre a Rússia e a Ucrânia e também entre os Estados Unidos e o Irão, pra que serve afinal a ONU, a Assembleia Geral, tudo isto ainda tem alguma utilidade nestes dias que correm?
Realmente há que reconhecer que há uma divisão importante que é o antes e o depois da Guerra Fria. Basicamente, a ONU é criada logo a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial pelos aliados vencedores, que incluíam a União Soviética e os Estados Unidos. Aliás, queremos perceber por que estão lá estes cinco membros permanentes. Basicamente são as principais potências vencedoras no final da Segunda Guerra Mundial, incluíam a Grã-Bretanha e a França, que na altura, por sinal, ainda eram grandes impérios também, mas a China, que também estava do lado dos aliados ocidentais e depois os Estados Unidos e a União Soviética, actualmente Rússia. Mas realmente até 1990, 91, talvez podemos dizer até 1985, 86, até à fase final da Guerra Fria, durante grande parte da sua existência e nas décadas iniciais, as Nações Unidas estavam muito limitadas, porque realmente, quer a União Soviética, quer os Estados Unidos podiam vetar qualquer ação mais musculada. Se nós quisermos uma intervenção militar, por exemplo, em nome das Nações Unidas, ou impor sanções, um custo econômico que seja obrigatório a nível global, isso realmente só o Conselho de Segurança é que pode fazer e tem que ter o acordo, obviamente, dos cinco membros permanentes. Precisa de haver uma maioria. Os outros 10 membros eleitos não estão lá só pra enfeitar, podem tomar iniciativas e são cruciais para conseguir uma maioria, mas não basta uma maioria. É preciso uma maioria e é preciso que nenhum dos cinco membros permanentes vete. Tem, pelo menos, ou de se abster ou votar a favor. Isso realmente cria um problema, um bloqueio quando há uma situação de conflitualidade, choque entre grandes potências, a ONU tende a ficar muito bloqueada.
É mais ou menos isso que temos visto agora nestes meses, anos.
Nos anos 90, no início dos anos 2000, houve muitas vezes muito consenso. Por exemplo, a intervenção norte-americana no Afeganistão, depois do 11 de setembro, que estivemos agora a falar dos 25 anos, foi aprovada unanimemente no Conselho de Segurança. A China, a Rússia votaram a favor dessa intervenção militar. Obviamente, sabemos que depois a intervenção no Iraque já foi muito mais controversa e foi o início de tensões crescentes que se acentuaram ainda mais com figuras como Putin e Xi, que têm claramente uma agenda de, no fundo, quer a China, quer a Rússia, se assumirem como grandes potências rivais dos Estados Unidos ou reassumirem essa postura e não hesitam muitas vezes em vetar, em bloquear coisas. Os próprios Estados Unidos, que foram os grandes promotores das Nações Unidas, originalmente, é sobretudo uma ideia do presidente Franklin Roosevelt, com o Trump, obviamente, ele não esconde que não é propriamente um grande fã das Nações Unidas. A questão é: ainda serve pra alguma coisa? Eu creio que sim. Alguém que tem grandes razões de queixa potenciais sobre as Nações Unidas, uma vez que a sua principal missão é evitar conflitos armados, o presidente da Ucrânia, Zelensky, numa dessas conversas com os jornalistas, paralela à Assembleia Geral, disse: "Bem, realmente, não serve pra muita coisa, mas pelo menos serve pra falarmos, o que já não é pouco." Eu acho que apesar de tudo, e objetivamente, serve para uma espécie da abertura do ano diplomático, esta semana de alto nível da Assembleia Geral. É o grande palco pra diplomacia pública, pros Estados explicarem aos outros Estados o que acham que é importante. Desse ponto de vista, é relevante. Dá pra perceber um bocadinho pra que lado é que a maioria dos Estados ou muitos Estados ou certos grupos de Estados estão a apontar, o que eles consideram importante. Também serve pra outra coisa, que é encontros discretos, paralelos, à porta fechada.
Porque estão todos no mesmo sítio.
Estão todos no mesmo sítio. Muitos dos chefes de Estado e de governo, quase todos os ministros dos Negócios Estrangeiros, senão todos, estão lá de todos os Estados. Este ano, os dados são mais de mil encontros bilaterais durante esta semana e também serve pra isso, pra encontros discretos. Sabemos, por exemplo, os Estados Unidos e o Irão pela primeira vez voltaram a reunir desde que interromperam qualquer tipo de negociação. Aparentemente, há uma nova proposta de que já iremos falar brevemente. Há essa possibilidade de encontros paralelos Em termos da sua missão fundamental, eu diria que as Nações Unidas falharam se considerarmos que a missão fundamental é evitar qualquer tipo de conflito armado. Temos 66 conflitos armados em curso, é um número recorde desde 1945. Na verdade, muitos desses conflitos, inclusive, são conflitos por exemplo internos, são guerras civis, também vamos falar disso. As Nações Unidas não foram desenhadas exatamente para resolver esse tipo de conflitos. À partida, é para resolver conflitos entre Estados e, sobretudo, para evitar uma Terceira Guerra Mundial. Desse ponto de vista, com essa ideia mais minimalista, eu diria que, apesar de tudo, nesse aspecto, não falhou ainda. Se calhar, não é a única razão pela qual não tivemos uma Terceira Guerra Mundial desde 1945, mas apesar de tudo, acho que provavelmente ajuda qualquer coisa. Portanto, realmente tem um papel mais limitado, está mais bloqueada. E aí realmente também há que reconhecer isso, que é outro papel que as Nações Unidas têm, muitas vezes é servir de bode expiatório conveniente para os Estados, que podem sempre dizer: "Isto não se resolve, devia ser as Nações Unidas", quando obviamente as Nações Unidas não conseguem resolver, porque muitas vezes esses Estados, inclusive grandes potências, estão envolvidas nos conflitos ou não lhe dão as tropas, os meios financeiros, por exemplo, para ter uma ação mais eficaz.
Bruno, nestes últimos cinco minutinhos antes do final da primeira parte, ainda vamos falar dos encontros importantes de Donald Trump, que marcaram também a semana, desde logo com a Dinamarca e a Gronelândia, para assinar o acordo sobre esta ilha, depois também com o presidente interino da Venezuela, por fim, com o presidente chinês, que até foi recebido na Casa Branca. Bruno, que significado têm estes encontros?
Eu acho que são significativos realmente da forma muito diferente de fazer diplomacia e das prioridades muito distintas de Donald Trump. Ou seja, temos a resolução de uma crise gravíssima entre um aliado, um país membro da NATO, um país europeu, a Dinamarca, e os Estados Unidos. Foi a primeira vez desde que a NATO foi criada que os Estados Unidos ameaçaram militar e eventualmente até usar a força contra outros países membro da NATO. E tudo isto para quê? Para termos um acordo com alguns ligeiros acrescentes, que não são completamente irrelevantes, mas que no essencial mantêm aquilo que já existia antes. Donald Trump vem gabar-se: "Agora vamos fazer duas bases na Gronelândia." Eles já tinham direito a fazer isso desde 1951, até mesmo desde 1941, mas pelo menos desde o acordo de 1951. E mesmo as coisas que foram aqui acrescentadas, a Gronelândia e a Dinamarca, a Gronelândia como região autónoma da Dinamarca, há muito tempo dizia que estava disposta a negociar um acordo nestes termos. Mas portanto, isto mostra bem realmente o grau de hostilidade que muitas vezes Donald Trump tem em relação a aliados tradicionais, que ele considera mais fracos, que ele considera mais fáceis de coagir, de pressionar. No caso da Dinamarca, apesar de tudo, a Dinamarca mostrou que é possível dizer que não ao Donald Trump, estabelecer algumas linhas vermelhas e conseguir um acordo que no essencial mantém o status quo e em que os Estados Unidos se obrigam a reconhecer a integridade territorial, a soberania dinamarquesa, os interesses da população local, do ambiente, etc. Depois, por contraste, temos estes encontros extremamente cordiais com a líder do regime chavista na Venezuela, um regime que não organiza eleições livres e justas há umas quantas décadas, e que com este lado irônico, que é o anterior presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, está preso a poucos quilómetros do local onde corre a Assembleia Geral das Nações Unidas e onde ocorreu este encontro paralelo entre Delcy Rodríguez e Donald Trump. Donald Trump fez questão de se gabar no discurso na Assembleia Geral de que a Venezuela e os Estados Unidos em conjunto controlam 60% das reservas de petróleo do mundo. Acho que as contas não serão bem essas, mas enfim. Mas realmente é o maior bloco em termos de reservas e dizendo: ao vencedor, no fundo, os despojos de guerra. Portanto, isto realmente é bastante revelador da forma de pensar de Donald Trump, que é uma forma de pensar que é mais típica de líderes autoritários, de grandes potências predatórias do passado, do que propriamente aquilo que era a postura típica dos Estados Unidos. Muita gente que já tinham estes preconceitos antiamericanistas, antiamericanos antes, vêm dizer: "Donald Trump é a prova que nós estávamos certos." Na verdade, é a prova de que estavam errados, porque as diferenças são flagrantes e são muitas vezes chocantes. E depois temos a receção a Xi Jinping. Eu fui confirmar, a última vez que um presidente recebeu um chefe de Estado ou de governo no aeroporto foi em 1962, o presidente Kennedy, que fez questão de receber o seu velho amigo, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, MacMillan, mas obviamente é um aliado histórico muito próximo dos Estados Unidos, era alguém também mais velho do que o próprio presidente Kennedy. O presidente Obama também recebeu, é verdade, o papa Francisco, mas obviamente o papa Francisco é chefe de Estado, mas também é um líder religioso, moral, global. Mas realmente com Trump já é a segunda vez, primeiro Putin no Alasca e agora Xi Jinping a ser recebido no aeroporto. Nem sequer houve reciprocidade, diga-se, porque quando Trump esteve na China, Xi não o foi receber ao aeroporto. E portanto, o que é que podemos dizer deste encontro? Falou-se dos vários T, em inglês, trade, Taiwan, technology, portanto também a inteligência artificial e companhia, portanto as rivalidades comerciais e sempre esta questão de Taiwan. Acrescentou-se ainda Teerão, ou seja, a questão do Irã. Mas realmente em nenhum desses aspectos houve avanços significativos. Portanto, foi realmente muita pompa e muito pouca substância. Donald Trump entregou aqui uma espécie de vitória em termos protocolares de imagem ao presidente chinês, sem obter nenhumas concessões evidentes do lado da China. Mas isto realmente corresponde muito a esta ideia de Donald Trump de admiração, de afinidade por homens fortes, líderes autoritários, que conseguem governar grandes potências sem ninguém impor limites. Enfim, podemos até suspeitar que eventualmente era esse o modelo que ele gostava também de seguir nos próprios Estados Unidos.
Bruno, ainda vamos falar de mais algumas questões relacionadas com esta Assembleia Geral, mas é na segunda parte. Vamos fazer uma curta pausa neste Cinco Continentes. Até já. Segunda parte do Cinco Continentes. Bruno, ainda vamos falar de mais um ponto na Assembleia Geral, porque escreveste um texto a apontar dois grandes temas que seria interessante perceber se iriam aparecer ou não nesta reunião, nomeadamente a segurança marítima ligada ao bloqueio de estreitos e também a questão da inteligência artificial. Apareceram ou não apareceram?
Sim. Realmente, na semana passada, na coluna para O Observador, eu destaquei esses dois pontos. Obviamente, ninguém que perceba minimamente como é que funciona a política internacional está à espera que seja a Assembleia Geral que vai decidir como é que isso se resolve, como eu acabei de dizer, até à luz da carta, a Assembleia Geral não tem poder vinculativo. Faz basicamente recomendações, as suas resoluções são basicamente opiniões. Agora, isso não quer dizer que seja irrelevante neste sentido, precisamente que eu indiquei, que é no fundo percebermos quais são as grandes prioridades dos Estados, se há ou não há grupos importantes de Estados que estão a apontar em determinado sentido. Realmente, eu acho que o que é interessante sublinhar é que a questão da segurança marítima foi muito referida, a maioria dos Estados referiram essa questão.
Até porque tem impacto na economia, não é?
Exato, com mais ou menos destaque, mas referiram essa questão. O Bahrain, que é também um membro eleito no Conselho de Segurança, tem levantado muito essa questão. O Bahrain é uma pequena ilha no meio do Golfo Pérsico, é daqueles Estados que não tem nenhuma alternativa em relação a exportar pela via marítima os seus recursos petrolíferos a partir do Golfo. Tem acentuado muito essa questão e organizou já alguns encontros sobre este tema no Conselho de Segurança, mas promoveu uma declaração que foi assinada por mais de 80 Estados a destacar esta questão, que não se pode tolerar esta ideia de que de repente os estreitos começam a ser atacados, bloqueados, taxados à vontade dos Estados vizinhos ou de grupos armados que estejam ali na zona. Isso realmente seria terrível, viola a lei internacional de forma flagrante, são crimes de guerra, porque estão a atacar a navegação civil e, além disso, tem um impacto económico tremendo, como estamos realmente a ver. Desse ponto de vista, esse tema realmente confirmou-se como um dos grandes temas desta Assembleia Geral e uma das grandes preocupações dos Estados. Agora, este problema é uma declaração, ou seja, não quer dizer que o problema esteja resolvido, nem se apontou nada de concreto, não se avançou com uma missão militar para resolver o problema. Isso obviamente teria sempre que passar pelo Conselho de Segurança, de qualquer forma, onde poderia ter problemas com vetos da Rússia ou da China, eventualmente, mas realmente é significativo. Em termos da inteligência artificial, a ideia de que seria preciso um regime global para lidar com esta questão, com aquilo que muitos especialistas em inteligência artificial, muita gente tem trabalhado e ganha aliás imenso dinheiro a fazer inteligência artificial, diz que é um risco muito real, inclusive até de extinção da humanidade. Digamos, se há um órgão que poderia pensar e que poderia legitimar algo desse tipo, um regime global, um enquadramento legal aceito por todos, realmente seria o sistema das Nações Unidas, quer através da Assembleia, quer sempre também através do Conselho de Segurança. Mas realmente aí o que eu diria é: nota-se que o tema começa a aparecer, mas o que tivemos foi, comparando por exemplo com o Bahrain, uma iniciativa liderada nomeadamente pelo presidente da Finlândia, o Alexander Stubb, mas que teve 22 países subscritores, está bastante longe dos 193. Há claramente aqui muita prudência. Talvez isso também se explique em parte porque Donald Trump não deixou dúvidas sobre ser muito hostil a essa ideia de que seria preciso algum tipo de controle. Se calhar temos de esperar pela China, porque o presidente Xi foi bastante mais claro e assertivo a dizer que é preciso garantir que os humanos continuam a controlar esta questão, mas realmente temos esse problema. Basicamente, isto é, neste momento, uma questão entre estas duas grandes potências, entre estes chamados G2. Quem lidera claramente este campo é a China e os Estados Unidos. No top 10 de empresas nesta questão da inteligência artificial, há apenas uma europeia, que é a Mistral francesa, as outras são chinesas ou norte-americanas. Por muito que a Europa ache que é preciso fazer coisas, aqui a palavra decisiva seria realmente da China e dos Estados Unidos. Não houve avanços nesse sentido nesta cimeira, embora a China aparentemente esteja a perceber que seria importante avançar nesse sentido. Nos Estados Unidos, há sinais, não do presidente, mas de senadores, de congressistas, inclusive cada vez mais republicanos. É possível que Donald Trump acabe por ser forçado a mudar de ideias. Esta ideia que ele defendeu esta semana que para resolver o problema bastava alguém como ele, um presidente com uma inteligência muito elevada, era a única garantia que era preciso de segurança em relação à inteligência artificial.
Bruno, falávamos há pouco da questão do petróleo e dos estreitos, mas olhando e focando-nos mais agora nos conflitos, tanto na Ucrânia como no Irão, fazer um ponto de situação e também perceber qual é que é o verdadeiro peso destes dois conflitos, nomeadamente no mercado de combustíveis.
Realmente, os conflitos não pararam. Como eu referi, há esta especulação de que poderá haver um novo plano para um cessar-fogo de uma semana e um plano de desengajamento e de fim dos bloqueios mútuos americano e iraniano, sendo que há sempre um problema, que é não sabermos o que é que acontece no Estreito de Aden, porque agora o Irão tem essa arma adicional, que é os seus aliados houthis também a ameaçarem a navegação no outro grande ponto de estrangulamento nesta região da Península Arábica, sendo que aí o impacto é também muito grande em termos do comércio entre a Ásia e Europa, e não apenas na questão do mercado dos combustíveis. Em relação à Rússia e à Ucrânia, há sempre rumores de alguma possibilidade de acordo, esforços de mediação dos Estados Unidos, mas realmente não se perspectivou nada de muito concreto. Sabemos que Donald Trump pressionou, no entanto, Zelensky a acabar com a campanha contra as refinarias, o sistema de refinação de hidrocarbonetos russo, com o argumento que isso era a grande causa do aumento do preço dos combustíveis. Isso, evidentemente, é ridículo. A guerra entre a Ucrânia e a Rússia já dura vários anos. Estes ataques também já duravam há bastantes meses quando começou o conflito entre os Estados Unidos e o Irão. E obviamente, embora a Rússia seja um exportador importante de hidrocarbonetos, não se compara com os países do Golfo. Estamos a falar de 5% pra 20% ou 25%. Além do mais, temos ainda este dado fundamental, que já referimos aqui várias vezes, que é o que torna o Golfo tão importante, tão estratégico, tão central, e em particular a Arábia Saudita, mas mesmo outros países do Golfo, é que não só têm reservas muito abundantes destes recursos, mas têm reservas fáceis de explorar, têm uma grande capacidade sobrante de produção. A Arábia Saudita não está a usar toda a capacidade de extração que tem e pode funcionar como uma espécie de mecanismo de compensação. Se há falhas no mercado, se há cortes, se a Rússia de repente já não consegue exportar tanto, como está a ser o caso, então a Arábia Saudita facilmente pode compensar isso, e o mercado sabe isso. O problema é que precisamente essa válvula de escape é o que está agora a ser estrangulado, o que está a ser atacado, o que está a ser ameaçado. Portanto, o problema é sobretudo esse. Em todo caso, como eu dizia, Zelensky veio dizer: "Nós estamos dispostos a fazer um acordo em torno das infraestruturas energéticas". Ou seja, nós deixamos de atacar as deles, as da Rússia, se a Rússia deixar de atacar as da Ucrânia. Agora, como sabemos, a estratégia da Rússia tem sido sempre, todos os invernos, de focar os seus esforços, porque aí é mais difícil avançar na guerra terrestre, onde aliás, se tornou também muito mais difícil avançar com esta superabundância de drones e de sistemas de vigilância, etc. E concentra-se sobretudo em atacar, em tentar provocar o colapso do sistema energético ucraniano e com isso também dos sistemas de aquecimento, que são cruciais para se sobreviver naquele clima. Eu pelo menos não vejo sinais de que isso esteja à beira de acontecer, mas vamos ver se Donald Trump, nomeadamente, exerce também alguma pressão, para variar, sobre a Rússia e não apenas sobre a Ucrânia nestas questões.
Bruno, no meio de tudo isso, há também um crescente alarme com as ameaças híbridas na Europa, inclusivamente com o aparente aviso da CIA sobre ameaças de ataques com drones ao sul da Europa. Esta será uma ameaça real? E já agora, Portugal também poderá estar aqui neste conjunto de visados?
Sim, é uma ameaça credível. A notícia vem de órgãos também credíveis, nomeadamente o "El Mundo", um jornal espanhol de referência, que cita os países bálticos como a fonte sobre este reporte, sobre este aviso da CIA, o que não deixa de ser interessante. Parece-me também evidente que sendo essa a fonte, os países bálticos também estão aqui a usar a CIA pra avisar os países do sul: "Atenção que não somos só nós que temos que nos preocupar com a Rússia". A verdade é que temos falado disso aqui, tem havido um enorme intensificar destes ataques híbridos, também já os caracterizamos, ataques que passam por coisas como sabotagem, assassinatos, portanto, ações violentas, realmente, e que podem causar e que já causaram mortes, mas também cibersabotagem, desinformação, etc. Mas temos o fato de mais de 100 incidentes bem documentados, todos eles apontam no mesmo sentido, pra alvos que seriam do interesse da Rússia. É verdade que a maior parte desses ataques são ou na Europa de Leste, ou agora também muito na Europa Central, países como a Alemanha, que são muito importantes pro apoio logístico e militar à Ucrânia, e muito menos nos países do sul. Por exemplo, em Portugal, que nós saibamos, não houve nenhum incidente desse gênero mais grave, de sabotagem ou de assassinatos. Em Espanha, houve dois assassinatos suspeitos, um deles quase certamente que pode atribuir-se à Rússia, porque era um desertor russo, um piloto russo que desertou no início da guerra e depois se refugiou em Espanha. À partida, têm sido muito mais visadas outras regiões, mas realmente a Europa do Sul corre um pouco o risco de ser o elo mais fraco e da Rússia também no contexto de uma guerra híbrida, que tende a ser muito oportunista, a procurar alvos fáceis, realmente pode tornar-se aqui o elo mais fraco e portanto, desse ponto de vista, é um alvo apetecível. Que a Rússia tem este tipo de capacidades, não há nenhuma dúvida, quer esta frota cinzenta, de navios que ilegalmente traficam petróleo russo, etc. Quer o drones, inclusive drones agora também a jato, que são muito mais difíceis de interceptar. E não há nenhuma dúvida que todos os países têm dificuldades de lidar com esta nova ameaça dos drones, até os próprios Estados Unidos, como vemos na Guerra do Golfo, nesta nova Guerra do Golfo. Mas os países do sul eu diria que estão ainda mais atrasados do que, por exemplo, os países do centro e do leste da Europa. Portanto, era crucial realmente levar esta ameaça a sério. Agora, eu de fato não tenho fontes na CIA, portanto, não sei se foi assim ou não. Que é uma ameaça credível, acho que é, e acho que é um aviso atempado para países como Portugal realmente acelerarem os esforços para se rearmarem, sobretudo nesta área da defesa aérea e da defesa aérea contra drones, e também de resolverem problemas, coisas como, por exemplo, às vezes questões legais, que é: quem é que pode abater isto? Pode-se abater um drone, não se pode, quem é que pode abater, em que condições? E portanto, acho que é fundamental realmente não ficarmos à espera que aconteça alguma coisa de mais séria para levarmos esta ameaça a sério.
Ainda nos conflitos, Bruno, mas agora vamos até a África. Fala-se do recomeço da guerra civil na Etiópia. Será mesmo assim? Que implicações é que isto poderá ter?
Realmente a Etiópia é um país africano extremamente interessante. É um dos dois países, três eventualmente, o Egito, a Libéria e a Etiópia são três países que nunca foram colonizados, embora a Libéria e o Egito, na prática, tivessem umas espécies de estatuto protetorado. A Etiópia só foi muito brevemente ocupada pela Itália fascista entre 1936 e o início da Segunda Guerra Mundial, mas mesmo aí com alguma resistência armada, poucos anos, menos de uma década. Sempre se manteve como um Estado africano independente, um grande império cristão. Mas isso não impediu que acontecesse algo que acontece muito nos países africanos, que é: este império, que era um império africano, também era um império multiétnico, como eram os impérios coloniais europeus. Nós temos mais de 80 grupos étnicos na Etiópia, embora quatro ou cinco sejam os principais. E isso também levou muitas vezes a conflitos. Houve uma guerra civil muito prolongada, praticamente desde o derrube da monarquia em 1974, e depois um regime marxista extremamente violento, basicamente 1990, 91, em que precisamente esta província que agora aparece aqui como liderando este movimento de dissidência armada em relação ao governo central de Adis Ababa, o Tigré, teve um papel de liderança. Essa elite do Tigré, depois de 1990, basicamente dominou política e militarmente o Estado etíope. Isso mudou com o atual primeiro-ministro Abiy, que realmente domina a política etíope desde 2019. Isso rapidamente levou a um conflito armado muito violento, entre 2020 e 2022, precisamente com este grupo que agora lidera esta nova dissidência armada. E nesse contexto nós tivemos cerca de 600 mil mortos. A Etiópia realmente é o segundo país da África em população, tem autour de 140 milhões de habitantes, mas são conflitos muitas vezes muito intensos, muito mortíferos, numa região que já está muito desestabilizada. Temos conflitos, guerra civil no Sudão, ali ao lado, temos refugiados a virem do Iêmen pro Djibuti, que também é um paíszinho da Etiópia. Temos o Al-Shabaab, que é o movimento jihadista na Somália, também outro país vizinho. Realmente seria uma péssima notícia se a guerra recomeçasse. Aqui há o receio de que desta vez não é apenas este movimento armado do Tigré, mas ele aparece aparentemente a liderar uma coligação de vários outros grupos armados ligados a outros grupos étnicos, nomeadamente também os Amara, que é historicamente a população que liderou o Estado etíope, a par do Tigré, e também aliado à Abissínia, que também é aliado à Eritreia, que é a zona costeira que durante algumas décadas foi parte da Etiópia, mas que entretanto se voltou a tornar independente em 1993, e que é um Estado também muito militarizado. Há realmente o receio de voltar a haver um conflito entre a Etiópia e a Eritreia, de haver uma guerra civil mais generalizada. Se for assim, realmente acho que pode ser muito sério, desde logo pra população civil etíope e também vai obviamente piorar ainda mais esta desestabilização desta zona da África Oriental, do chamado Corno da África.
E na África do Norte, Bruno, no nosso vizinho a sul, em Marrocos, houve eleições, curiosamente, a meio da semana. O partido da coligação no poder vai liderando, pelo menos são os números que temos disponíveis nesta altura, mas o que salta mesmo à vista, Bruno, é a baixa taxa de participação. Podemos esperar paz e estabilidade a sul?
Poderia-se pensar isso, tendo em conta que, no fundo, e isso é até bastante raro a nível global hoje em dia, que é o partido do governo volta a ganhar, pelo menos onde há eleições livres e justas. Aqui, realmente eu acho que há essa questão que é: há autour de 40 milhões de eleitores, 38 milhões de eleitores em Marrocos, só 17 milhões é que estão recenseados. Isso já é um indício de pouca mobilização política, pouca participação, pouca credibilidade do sistema eleitoral, partidário, etc. Desses 17 milhões, aparentemente só 38% é que votaram desta vez. A participação tem baixado muito. Eu acho que isso pode ser um indício até oposto, ou seja, um indício perigoso de que cada vez o sistema, esta válvula de escape normal nas democracias, que é as eleições, a possibilidade de mudar o governo por via eleitoral quando estamos insatisfeitos, disso estar cada vez menos a ser visto como credível em Marrocos. Em todo caso, é importante dizer que o partido, aliás, mais próximo também do Rei Mohammed VI, é liderado por um amigo de infância dele, alguém que é visto como muito próximo. Este PAM venceu estas eleições, como além disso, apesar de desde 2011, o rei de Marrocos ter voluntariamente abdicado de alguns poderes e ter dado mais poder ao Parlamento, ainda assim, nas questões que mais nos interessam, ou seja, tudo que tem a ver com política externa, política de defesa, etc., tudo isso é controlado pelo rei. Ou seja, o rei nomeia como chefe do governo o líder do partido mais votado, passa a estar obrigado a fazer isso desde 2011, mas é ele que nomeia os chamados ministros delegados, ou seja, o ministro da Defesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministro do Interior, das Polícias, o ministro dos Assuntos Islâmicos, ou seja, Marrocos tem uma religião oficial, o Islã é a religião oficial. Tudo isso está sob o controle direto do rei. Também por isso não é de esperar grandes mudanças. Vamos ver. Esta ausência de grandes mudanças, no fundo, não vai aumentar a insatisfação, nomeadamente dos jovens marroquinos, que já se manifestaram aqui há um ano naquela vaga de manifestações da chamada Geração Z, com mobilização por via digital, etc. E obviamente, mesmo esta crise agora em Ceuta, também resultou muito do facto de muitos jovens marroquinos não encontrarem uma saída profissional à altura das suas qualificações. Diga-se que em Portugal nós também temos esse problema, mas apesar de tudo, em Marrocos, numa escala ainda maior.
Bruno, vamos ainda ao Pacífico. Os Estados Unidos querem maior presença nas Ilhas Cook e a Austrália assinou uma nova parceria estratégica com as Fiji. Por que isso é relevante?
Nós temos falado aqui disso algumas vezes, portanto os ouvintes mais atentos saberão a resposta. No fundo, é esta ideia de que temos este paradoxo que é o Pacífico é basicamente constituído por pequenos territórios insulares, alguns ainda territórios ultramarinos. Por exemplo, a França tem dois territórios muito importantes, a Nova Caledónia, próximo da Austrália, e depois a Polinésia Francesa, o famoso Taiti, no Pacífico Sul, já mais oriental, mas tem também Estados independentes, pequenas repúblicas insulares, às vezes com um estatuto que não é bem de plena independência. Por exemplo, no caso das Ilhas Cook, é dos mais pequenos, tem apenas 17 mil habitantes, são umas dezenas, à volta de 20 ilhas, mas que no conjunto andam à volta dos 200 km², mas depois controlam uma zona marítima com quase dois milhões de quilómetros quadrados nesta zona do Pacífico Sul, um pouco a norte da Nova Zelândia. E, portanto, o que é que tem acontecido aí é, no fundo, um jogo de xadrez entre potências rivais, sobretudo com a China cada vez mais a procurar ter aí uma presença forte em termos de investimento e também em termos de presença naval. Eu diria que nos últimos anos o que aconteceu foi: a China apanhou um pouco em contrapé, quer os Estados Unidos, quer a própria Austrália, que é tradicionalmente a potência regional dominante, o gigante nesta região. Assinou, por exemplo, acordos com as Ilhas Salão, que estão logo a norte da Austrália, e também de Timor. Isso levou a um despertar muito rápido da Austrália, que tem mobilizado grandes recursos para acordos, por exemplo, com um novo acordo com as Ilhas Fiji, com investimento muito significativo, mas também com uma dimensão importante na defesa. Aqui as Ilhas Cook foram interessantes porque são um Estado associado à Nova Zelândia, portanto foram durante muito tempo uma colónia britânica e sobretudo da Nova Zelândia, deste domínio britânico aqui no Pacífico Sul. Mas a certa altura, a China começou também a mostrar interesse. O atual governo da Nova Zelândia deixou claro que isso significaria o fim dos apoios financeiros da Nova Zelândia, que basicamente são cruciais para sustentar o orçamento destas ilhas. Isso levou a uma reversão de política. Aqui a novidade é: os Estados Unidos e a Nova Zelândia anunciaram um porto, que eles dizem que não é estritamente uma base militar, mas que também pode ser, nas ilhas mais a norte, que são muito pouco povoadas e pouco desenvolvidas, um projeto de 60 milhões de dólares, o que para as Ilhas Cook é uma coisa enorme, com 50 milhões dos Estados Unidos, 10 milhões da Nova Zelândia, portanto, o parceiro menor aqui é a Nova Zelândia, o parceiro maior é os Estados Unidos. Isso mostra realmente também os Estados Unidos despertaram, mesmo com Donald Trump, para esta competição estratégica na zona do Pacífico.
Bruno, quase no final destes Cinco Continentes, vamos à tua recomendação de hoje.
Sim, é um livrinho publicado pelo Cámos Vaz Marques, pela Zigurat, de um ensaísta argentino-espanhol, que eu tive aliás o prazer de conhecer, porque o Cámos Vaz Marques convidou-me para discutir com ele o livro no Instituto Cervantes esta semana, o Santiago Gershuny, que vive em Madrid, é professor em Madrid, e o título é "Um pormenor sinistro no uso da palavra fascismo para que não serve a história". Realmente são dois temas que me interessam muito, a questão do fascismo e a questão da história. O livro lê-se muito bem, são 70, 80 páginas pequeninas. É realmente um ensaio filosófico, de filosofia política, se quisermos. O que o Santiago Gershuny argumenta, eu acho que é algo que é muito importante, que é: devemos ter cuidado com as palavras. No fundo, o que diz é que há aqui uma espécie de uso quase mágico da palavra fascismo, em que nós ao usarmos a palavra para denunciar alguma coisa como fascista, nos estamos a assumir como parte da heróica resistência contra este mal terrível, encarnado por figuras como Hitler ou Mussolini. Mas, por um lado, há aqui um pormenor sinistro, que é: esse uso muitas vezes parte desta ideia que é atribuída ao Bertold Brecht, mas que na verdade é de um pastor protestante que alinhou com o nazismo. Esta ideia de que primeiro vieram buscar os judeus, eu não era judeu, não me importei, depois vieram buscar os comunistas, eu não era comunista, não me importei, e por fim vieram buscar a mim, mas aí já era tarde. O que ele diz é que esta ideia, esta imagem, no fundo, por um lado, culpa as vítimas do seu próprio destino, como se elas fossem obrigadas a adivinhar aquilo que iria acontecer. Desse ponto de vista, há aqui realmente um pormenor sinistro. Por outro lado, no fundo, dá a ideia de que basta denunciar isto a tempo, basta pôr a etiqueta para resolver o problema. Eu acho que isso é realmente um uso bastante perigoso do termo. E depois há uma reflexão mais genérica sobre os abusos da história, que é uma coisa que também me preocupa muito, ou seja, nada é exatamente igual a outra coisa no passado. Isso não quer dizer, no entanto, eu talvez seja um pouquinho menos cético do que o Santiago, eu acho que é possível tirar lições da história e tirar lições para o futuro da história. É mesmo a única forma de tirar lições com alguma base para o futuro. Agora, é preciso é ter o cuidado de não o fazer de forma simplista, mecanicista, pensar que uma coisa é exatamente igual à outra, perceber as diferenças e as semelhanças. Os movimentos antidemocráticos atuais, que existem, por exemplo, na Europa e não só, não vão andar a marchar com camisas castanhas ou pretas com suásticas para nos facilitar a vida. Há grupos minoritários que até fazem isso, mas obviamente vão refletir as características do tempo atual e sobretudo, essas questões não se resolvem com palavras mágicas, com o policiamento da linguagem, com simplesmente colar fascismo em todo lado. E para terminar, a mim preocupa-me realmente a falta de rigor nos conceitos, não apenas como acadêmico e alguém que trabalha com a história, nomeadamente deste período do século XX, mas eu acho que é perigoso nós abastardarmos as palavras, abusarmos de tal forma das palavras, que depois quando precisamos realmente delas, elas perdem todo o significado e toda a força.
Bruno, fica por aqui estes Cinco Continentes. Estás de regresso, Bruno Cardoso Reis, no próximo sábado. Até para a semana.
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