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Sunday, October 25, 2026

Ativos financeiros nativamente digitais: RWA foi só a porta de entrada

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Durante os últimos anos, a tokenização ganhou espaço no mercado financeiro apoiada em uma ideia relativamente simples: representar ativos do mundo real em redes blockchain. Imóveis, recebíveis, títulos de dívida, cotas de fundos e outros instrumentos passaram a ser apresentados como candidatos à digitalização, aproximando uma tecnologia ainda pouco compreendida de produtos conhecidos por investidores e instituições.

Essa abordagem cumpriu uma função importante. Os chamados Real World Assets (RWA) ajudaram a demonstrar que blockchain não precisava estar limitada às criptomoedas e poderia participar de processos financeiros tradicionais. Mais do que isso, permitiram que instituições começassem a discutir emissão, distribuição, custódia, transferência e liquidação de ativos em ambientes digitais.

Entretanto, o sucesso dessa narrativa trouxe uma limitação que merece atenção. Ao concentrar o debate na representação digital de ativos existentes, parte do mercado passou a tratar a tokenização como um novo formato de registro, sem necessariamente questionar se os processos financeiros poderiam ser estruturados de maneira diferente.

Representar um ativo tradicional na blockchain pode trazer benefícios, mas não significa, por si só, transformar a maneira como ele funciona. Se o instrumento continua sendo administrado integralmente em sistemas externos, com controles paralelos e conciliações constantes, a tecnologia acaba reproduzindo boa parte das limitações que deveriam ajudar a superar.

RWA foi uma porta de entrada importante. O erro seria confundir essa porta de entrada com o destino final da tokenização.

Da representação digital à criação de instrumentos financeiros

O mercado financeiro construiu seus produtos a partir de regras, instituições e tecnologias disponíveis em cada período. A forma como os títulos são emitidos, transferidos, registrados e liquidados não é consequência apenas de requisitos econômicos ou regulatórios. Também reflete décadas de escolhas tecnológicas e operacionais.

Historicamente, diferentes participantes precisaram manter seus próprios registros para acompanhar a mesma operação.

Essa fragmentação criou estruturas complexas de comunicação, validação, reconciliação e controle. Embora necessárias dentro do modelo tradicional, essas estruturas não precisam ser reproduzidas integralmente quando se desenha um instrumento para uma infraestrutura digital compartilhada.
É nessa mudança de perspectiva que surge a oportunidade dos ativos financeiros nativamente digitais.

Em vez de partir de um instrumento tradicional e perguntar como representá-lo em blockchain, a instituição começa com outra questão: como esse ativo deveria ser concebido se sua emissão, titularidade, circulação e seus eventos econômicos fossem organizados desde o início para operar digitalmente?

A diferença pode parecer sutil, mas altera profundamente o trabalho de estruturação. O foco deixa de ser a conversão de um registro e passa a ser o desenho do próprio processo financeiro.

Um ativo nativamente digital não é definido simplesmente por ter nascido em uma blockchain. Ele precisa ser estruturado para que suas funções essenciais sejam executadas, registradas ou coordenadas de maneira consistente na infraestrutura digital, com efeitos jurídicos e operacionais compatíveis com o instrumento e com a regulação aplicável.

Isso inclui identificar quem pode adquiri-lo, como sua titularidade é reconhecida, quais restrições existem para sua circulação, como eventos de remuneração ou amortização são processados e de que maneira a liquidação se conecta aos demais participantes do mercado.

Essa concepção não elimina a necessidade de bancos, custodiantes, registradoras, escrituradores ou outras instituições quando suas funções são exigidas ou necessárias. Ela cria a possibilidade de integrar essas responsabilidades em processos menos fragmentados.

A transformação, portanto, não está em eliminar participantes, mas em diminuir a quantidade de etapas e controles redundantes necessários para que eles atuem de forma coordenada.

RWA e ativos nativos não são conceitos opostos

É importante evitar uma falsa oposição. Um ativo pode ter lastro em um bem ou direito do mundo real e, ao mesmo tempo, ser estruturado como instrumento financeiro nativamente digital. O problema não está no RWA, mas na interpretação limitada de que tokenizar significa apenas criar uma representação digital de algo que já existe.

Um recebível, por exemplo, pode dar origem a um instrumento cuja estrutura financeira, regras de circulação, condições de pagamento e controles de titularidade sejam concebidos para operar em uma infraestrutura blockchain. O crédito subjacente continua existindo no mundo jurídico e econômico, mas o instrumento financeiro pode ter seu ciclo de vida organizado digitalmente desde a emissão.

Da mesma forma, uma emissão de dívida privada pode ser estruturada com regras de elegibilidade dos investidores, restrições de transferência, cálculo de remuneração, amortizações e vencimento integrados ao ambiente operacional. Nesse modelo, a infraestrutura deixa de atuar apenas como registro de uma posição e passa a coordenar etapas relevantes do funcionamento do título.

A distinção exige cuidado. A execução de regras por contratos inteligentes não substitui automaticamente os requisitos jurídicos necessários para constituir direitos, reconhecer titularidade ou assegurar a eficácia das transferências. A tecnologia precisa operar em correspondência com esses requisitos, e não presumir que eles desapareçam.

O avanço está justamente em aproximar a estrutura jurídica, o registro operacional e a execução financeira, reduzindo a distância entre o que o instrumento estabelece e o que os sistemas efetivamente realizam.

Ciclo de vida, não apenas na emissão

Uma das limitações recorrentes das iniciativas de tokenização é dedicar grande parte do esforço ao momento da emissão.

Criar um token, distribuí-lo a uma carteira e demonstrar sua transferência são etapas visíveis e relativamente fáceis de apresentar. Entretanto, o custo operacional de um ativo financeiro se estende por toda a sua existência.

Um título pode permanecer em circulação durante meses ou anos. Nesse período, poderá gerar juros, amortizações, alterações de posição, bloqueios judiciais ou contratuais, mudanças de elegibilidade e obrigações de informação. Cada evento demanda registros consistentes e, muitas vezes, interação entre diferentes instituições.

Em uma infraestrutura concebida para ativos nativos, o ciclo de vida passa a ser parte central do projeto. As regras do instrumento podem orientar eventos programáveis, manter registros compartilhados e permitir que participantes autorizados acompanhem estados operacionais consistentes. Isso não significa que todos os eventos possam ou devam ser executados automaticamente. Uma obrigação de pagamento, por exemplo, pode depender de disponibilidade financeira, instruções autorizadas, verificações de conformidade ou sistemas externos de liquidação.

A vantagem está em estruturar essas dependências de forma integrada e auditável. Um evento econômico não deveria exigir a reconstrução manual de informações que já estão disponíveis e validadas na infraestrutura.

O valor de um ativo digital não pode ser medido apenas pela facilidade de emissão. Precisa ser medido pela eficiência de administrá-lo até sua extinção.

Os ganhos podem estar em mercados que hoje não fecham a conta

A consequência econômica dessa mudança talvez seja mais relevante do que o avanço tecnológico.
Parte dos produtos e operações financeiras enfrenta custos relativamente fixos de estruturação, distribuição, registro, administração e liquidação. Quando o volume financeiro é pequeno, esses custos podem consumir uma parcela significativa do resultado, tornando determinadas operações pouco atraentes. A tokenização nativa abre a possibilidade de rever essa equação.

Imagine uma instituição que pretenda estruturar emissões menores, com condições específicas de remuneração e distribuição restrita a determinados perfis de investidores. No modelo tradicional, cada emissão pode exigir uma combinação de cadastros, controles, integrações, reconciliações e rotinas administrativas que eleva seu custo.

Se parte significativa dessas atividades puder ser padronizada e executada em uma infraestrutura compartilhada, novas estruturas podem se tornar economicamente interessantes. Não porque blockchain elimina todos os custos, mas porque reduz determinadas despesas operacionais recorrentes e permite maior reutilização dos componentes tecnológicos.

Esse raciocínio também se aplica a operações com garantias, instrumentos de crédito especializados e estruturas que exigem acompanhamento frequente de posições e eventos.

Mas existe uma condição importante: a redução do custo tecnológico precisa vir acompanhada de simplificação efetiva do processo. Se a infraestrutura digital for apenas adicionada à operação tradicional, a instituição continuará suportando os custos anteriores e ainda terá de administrar a nova camada.

Por isso, falar em novos mercados exige mais rigor do que simplesmente associar tokenização à democratização dos investimentos ou à liquidez imediata. Liquidez depende de demanda, formação de preços, participantes, regras de negociação e mecanismos adequados de liquidação. Um token não cria compradores por existir.

O potencial está em reduzir barreiras operacionais que hoje restringem certos modelos de negócio, preservando os requisitos econômicos e regulatórios necessários para sua viabilidade.

Conectar registro, dinheiro e instituições

Não basta que o ativo nasça digital. Ele precisa conseguir participar do sistema financeiro real.

Há ainda um desafio que costuma receber menos atenção do que merece: um ativo financeiro digital não opera isoladamente. Sua transferência pode exigir pagamento, validação de participantes, atualização de posições, cumprimento de obrigações e integração com instituições responsáveis por funções específicas. Uma infraestrutura de tokenização que resolva apenas o registro do ativo não resolve necessariamente a operação financeira completa.

A liquidação é um bom exemplo. Transferir um token entre carteiras não equivale, por si só, à liquidação integral de uma negociação. É preciso considerar como a entrega do ativo se relaciona com a transferência dos recursos financeiros, quais são as condições de irrevogabilidade e finalidade da liquidação e como os participantes reconhecem o resultado.

Mecanismos como Delivery versus Payment (DvP), que condicionam a entrega de um ativo ao pagamento correspondente, ilustram a importância dessa integração. Seu funcionamento efetivo depende do desenho jurídico e operacional das infraestruturas envolvidas, inclusive quando diferentes redes ou sistemas de pagamento participam da operação.

A mesma lógica se aplica à interoperabilidade. Ativos digitais dificilmente alcançarão relevância institucional se permanecerem confinados a plataformas que não conseguem interagir com os sistemas utilizados pelo restante do mercado.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre ativos nativos deixa de ser exclusivamente tecnológica. Ela passa a envolver padrões operacionais, governança, responsabilidades institucionais, integração regulatória e mecanismos de liquidação.

Regulação deve fazer parte da origem do instrumento

A criação de ativos financeiros nativamente digitais não reduz a importância da regulação. Ao contrário, torna ainda mais necessário considerar os requisitos aplicáveis desde a estruturação. Dependendo da natureza do instrumento, sua emissão, distribuição, negociação, registro e custódia poderão envolver diferentes responsabilidades institucionais e exigências regulatórias. O uso de blockchain não altera automaticamente a classificação jurídica de um ativo nem dispensa obrigações relacionadas à sua operação.

Isso significa que o desenho tecnológico precisa incorporar controles de acesso, elegibilidade, restrições de transferência, rastreabilidade e mecanismos de governança compatíveis com o produto.

Há uma diferença importante entre programar uma regra e garantir que ela corresponda à obrigação jurídica que se pretende executar. Essa correspondência deve ser construída com participação das áreas de negócio, jurídica, compliance, risco e tecnologia. O objetivo não é transformar toda disposição contratual em código, mas identificar quais funções podem ser executadas ou verificadas digitalmente, quais dependem de decisões institucionais e como essas responsabilidades se conectam.

Nesse modelo, conformidade regulatória deixa de ser uma adaptação realizada depois da emissão. Passa a integrar a concepção do instrumento e da infraestrutura responsável por sua operação.

Uma nova pergunta

A evolução da tokenização será menos uma disputa sobre quantos ativos podem ser representados em blockchain e mais uma discussão sobre quais processos financeiros podem ser redesenhados a partir dela.

RWA teve e tem um papel importante ao aproximar o mercado de uma tecnologia que, durante muito tempo, esteve associada principalmente às criptomoedas. Essa aproximação ajudou a construir conhecimento, testar modelos e criar condições para aplicações institucionais. Agora, a oportunidade é avançar da representação para a concepção.

Em vez de perguntar apenas quais ativos existentes podem ser tokenizados, instituições financeiras deveriam começar a discutir quais instrumentos poderiam ser criados de maneira diferente se não precisassem reproduzir todas as limitações operacionais dos sistemas tradicionais.

Isso exige mais do que contratos inteligentes. Exige compreender profundamente o produto financeiro, seu ciclo de vida, suas obrigações, seus participantes e os custos que hoje dificultam sua operação.
A infraestrutura digital precisa ser consequência dessa análise, e não o ponto de partida de uma solução procurando um problema.

A próxima etapa é demonstrar que ativos financeiros podem ser concebidos para funcionar de outra maneira: como criar instrumentos financeiros que utilizem essa infraestrutura para operar melhor, reduzir custos e permitir modelos de negócio que antes encontravam barreiras econômicas ou operacionais.

Essa será a diferença entre usar blockchain para registrar o mercado que já existe e utilizá-la para ampliar as possibilidades do mercado financeiro que ainda podemos construir.

*André Carneiro é CEO da empresa de infraestrutura blockchain, BBChain

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