Por que nem o recorde de encomendas da Embraer animou a ação da empresa
A carteira de pedidos da Embraer chegou a US$ 35,7 bilhões no terceiro trimestre, novo recorde, com alta de 14% em um ano
Mesmo assim, EMBJ3 recuava nesta sexta-feira e acumula queda de 1,81% em 2026
Dólar mais fraco, entregas abaixo do consenso e a migração de investidores para ações domésticas no rali eleitoral ajudam a explicar a apatia
O BTG Pactual mantém recomendação de compra e vê potencial de valorização de 46% para o ADR
A Embraer (EMBJ3) informou nesta sexta-feira, 23, que sua carteira de pedidos firmes atingiu US$ 35,7 bilhões no terceiro trimestre de 2026, o maior valor da história da fabricante. O número supera em 3% o recorde anterior, registrado no segundo trimestre, e fica 14% acima do patamar de um ano antes.
Na bolsa, a notícia passou quase em branco. Por volta do meio-dia, as ações recuavam 0,54%, a R$ 87,08, depois de oscilarem entre R$ 86,24 e R$ 88,19 ao longo da manhã.
O desempenho morno não é novidade. Os papéis acumulam queda de 1,81% no ano e estão entre as oito ações do Ibovespa que caíram desde o primeiro turno da eleição presidencial. No mesmo intervalo, o índice subiu acumula alta de cerca de 10%. Em 2 de outubro, quando a companhia divulgou as entregas do trimestre, a ação chegou a ser negociada na casa dos R$ 97. Mas o papel perdeu força após a primeira etapa da corrida eleitoral.
Recorde nas quatro divisões
O crescimento da carteira foi espalhado pelos negócios da companhia. A Aviação Comercial, maior divisão, somou US$ 15,8 bilhões em pedidos, alta de 5% sobre o trimestre anterior e de 4% em um ano. No período, a Embraer fechou 36 pedidos firmes e 30 opções ou direitos de compra para os jatos da família E2.
A maior encomenda veio do Grupo Abra, com 20 aeronaves E195-E2 firmes, além de 10 opções e 15 direitos de compra, o que pode levar o pedido a até 45 jatos. A Binter encomendou mais 5 E195-E2, a Luxair converteu 3 direitos em pedidos firmes do E190-E2 e a japonesa ANA Holdings comprou mais 8 E190-E2, chegando a 23 unidades. De janeiro a setembro, foram 72 pedidos firmes para a família E2.
A Aviação Executiva bateu recorde, com US$ 8,2 bilhões (alta anual de 12%), e o trimestre marcou a tripla certificação do novo Phenom 300EV pela ANAC, pela FAA, dos Estados Unidos, e pela EASA, da Europa. Serviços & Suporte também atingiu o maior nível da história, US$ 5,6 bilhões, avanço de 14% em um ano.
O salto mais forte ocorreu em Defesa & Segurança, cuja carteira de US$ 6,1 bilhões ficou estável em relação ao trimestre anterior, mas cresceu 56% em 12 meses. O destaque foi o contrato com a Força Aérea Colombiana para 2 cargueiros KC-390 Millennium. As seleções do KC-390 por Eslováquia e Lituânia, de 3 aeronaves cada, ainda não entram na conta porque os contratos não estão efetivos.
Todas as divisões venderam mais do que faturaram nos últimos 12 meses. Em Defesa, a relação chegou a 2,9 vezes, o que significa que, para cada dólar de receita reconhecida, a empresa fechou quase três dólares em novos contratos. Na Executiva, o índice foi de 1,4 vez. Em Serviços, de 1,3 vez, e na Comercial, de 1,2 vez.
Por que o mercado não comemorou
Parte da explicação está na falta de surpresa. Boa parte das encomendas que engordaram a carteira foi fechada durante a feira de aviação de Farnborough, em julho, como lembra o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME). E os números de entregas, repetidos no comunicado desta sexta, já eram conhecidos desde o início do mês.
Esses números, aliás, frustraram parte dos analistas. A Embraer entregou 66 aeronaves no trimestre, melhor terceiro trimestre de sua história e alta de 6% em um ano. Mas a Aviação Comercial entregou 22 jatos, ante 23 esperados pelo consenso, e a Executiva entregou 41, ante 45. Pelas contas do JPMorgan, foram 64 jatos contra 69 projetados pelo mercado.
O Bradesco BBI calculou que o volume menor e o mix de modelos entregues podem deixar a receita do trimestre cerca de US$ 120 milhões abaixo do consenso, uma diferença de 5%. O Itaú BBA classificou o dado como levemente negativo e avaliou que ele reduz a chance de novas revisões para cima nas projeções. Santander e BBI, por outro lado, destacaram que as entregas estão menos concentradas no fim do ano, o que diminui o risco de a companhia não cumprir suas metas.
De janeiro a setembro, a Embraer entregou o equivalente a 67% do ponto médio de sua estimativa anual para as aviações executiva e comercial (de 240 a 255 aeronaves), 8 pontos percentuais acima da média dos últimos cinco anos para o período.
O peso do dólar e do rali eleitoral
O fator que mais pesa sobre a ação, porém, vem de fora da empresa. Como a Embraer vende seus aviões em dólar, a valorização do real reduz o valor das receitas convertidas em moeda brasileira. O dólar recuou 2,63% em outubro, até o fechamento de ontem, e acumula queda de 8,2% em 2026, num movimento que tem levado a moeda americana para perto de R$ 5.
"A queda do dólar reduz a receita convertida, o que comprime margens operacionais e diminui a expectativa de geração de caixa em moeda local", disse à EXAME Matheus Jaconeli, analista da ZIIN Investimentos.
Há ainda um movimento de troca de posições na bolsa. Desde o primeiro turno, os investidores têm buscado empresas ligadas ao consumo doméstico e sensíveis à queda dos juros, como varejistas, construtoras e locadoras de veículos. Poucas empresas concentraram boa parte do rali eleitoral, e a Embraer não está entre elas.
O próprio BTG reconhece no relatório divulgado nesta sexta o efeito do câmbio e a migração dos investidores para ações mais arriscadas, que tendem a subir mais em momentos de otimismo. Para o banco, a Embraer funciona como uma proteção de qualidade para a carteira, papel que perde apelo quando o mercado está disposto a correr risco. Com o segundo turno marcado para domingo, 25, e as pesquisas mostrando empate, a dinâmica pode mudar rapidamente.
Longe do fundo do ano
Apesar do saldo negativo em 2026, a ação está bem acima do piso do ano. Em 10 de junho, os papéis fecharam a R$ 69,65, menor patamar de 2026. Desde então, acumulam alta de cerca de 25%. Em relação à máxima de 52 semanas, de R$ 104,88, a cotação atual está aproximadamente 17% abaixo. A empresa vale hoje cerca de R$ 64,4 bilhões na B3.
O BTG mantém recomendação de compra, com preço-alvo de US$ 101 para o ADR negociado em Nova York, o que representa potencial de valorização de 45,9% sobre a cotação de US$ 69,21. Os analistas Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim afirmam que a carteira recorde mostra a combinação de demanda resiliente e melhora na execução, num momento em que a cadeia de suprimentos dá sinais de normalização.
O banco projeta receita de US$ 8,6 bilhões em 2026, alta de 14% sobre o ano passado, e lucro de US$ 575 milhões, ante US$ 352 milhões em 2025. A Embraer deve divulgar o balanço do terceiro trimestre até 10 de novembro, e o BTG espera que a companhia esteja entre os destaques positivos da temporada, com margens sólidas. Para os analistas, novos anúncios de pedidos nas quatro divisões devem sustentar o interesse pela ação.
Perguntas e respostas sobre a Embraer
O que é pedido firme?
"Encomenda" é o termo genérico usado para qualquer compra anunciada por um cliente. Nos números da Embraer, porém, só conta o pedido firme, que é um contrato assinado e com compromisso de compra. É esse valor que forma a carteira de pedidos, os US$ 35,7 bilhões divulgados nesta sexta-feira.
Ficam de fora as opções e os direitos de compra, que funcionam como reservas. Eles garantem ao cliente a possibilidade de comprar mais aeronaves no futuro, em condições combinadas, mas sem obrigação. No pedido do Grupo Abra, por exemplo, apenas os 20 jatos E195-E2 firmes entraram na carteira. As 10 opções e os 15 direitos de compra só serão contabilizados se forem convertidos em contratos.
O mesmo vale para governos que escolheram um avião, mas ainda não formalizaram a compra. As seleções do cargueiro KC-390 pela Eslováquia e pela Lituânia, de 3 aeronaves cada, não estão na carteira porque os contratos ainda não estão efetivos. Na Aviação Executiva, as opções somam US$ 5,2 bilhões, calculados pelo preço de tabela, e também ficam fora do total.
Quais são as divisões da Embraer e qual o peso de cada uma?
A Embraer tem quatro unidades de negócios. Pelo tamanho da carteira de pedidos no terceiro trimestre, o peso de cada uma é o seguinte.
Aviação Comercial (44% da carteira, US$ 15,8 bilhões). Fabrica jatos regionais de 70 a 146 assentos, como o E175, muito usado por companhias americanas, e a família E2 (E190-E2 e E195-E2). É a maior divisão em pedidos, com 479 aeronaves firmes ainda a entregar. Os principais clientes incluem American Airlines, SkyWest, Porter e Avelo.
Aviação Executiva (23%, US$ 8,2 bilhões). Produz jatos executivos das linhas Phenom e Praetor. O Phenom 300 é o jato leve mais entregue do mundo há 14 anos consecutivos. É a divisão que mais entrega aviões em volume, com 115 unidades de janeiro a setembro, e a meta para 2026 é de 160 a 170 jatos.
Defesa & Segurança (17%, US$ 6,1 bilhões). Fabrica o cargueiro militar KC-390 Millennium e o avião de ataque leve A-29 Super Tucano. Foi a divisão que mais cresceu em um ano, com alta de 56% na carteira, impulsionada por contratos com forças aéreas da Europa, da Ásia e da América Latina. Tem hoje 43 KC-390 e 25 Super Tucanos encomendados e ainda não entregues.
Serviços & Suporte (16%, US$ 5,6 bilhões). Cuida da manutenção, de peças, de treinamento e de suporte técnico para aeronaves já em operação nas três outras divisões. Os contratos costumam ser de longo prazo, o que garante receitas recorrentes e menos dependentes do ritmo de vendas de aviões novos.
Por que a Embraer não acompanhou o rali das eleições?
Desde o primeiro turno da eleição presidencial, o Ibovespa renovou recordes, mas a alta se concentrou em empresas ligadas à economia brasileira. A leitura do mercado é que uma eventual mudança na política fiscal abriria espaço para a queda dos juros, o que favorece varejistas, construtoras, empresas de educação e companhias endividadas, que dependem de crédito e do consumo interno.
A Embraer está do outro lado dessa equação. A empresa vende quase toda a produção no exterior e recebe em dólar, então ganha pouco com a melhora das expectativas para a economia doméstica. Ao mesmo tempo, o otimismo com o cenário eleitoral ajudou a derrubar o dólar, o que prejudica exportadoras. Por isso, a ação caiu 6,53% entre o primeiro turno e a quarta-feira, 21, enquanto o Ibovespa subiu 10,82% em outubro.
O BTG Pactual aponta ainda uma troca de posições. Em momentos de euforia, investidores vendem ações vistas como defensivas, caso da Embraer, para comprar papéis mais arriscados, que tendem a subir mais rápido quando o humor melhora.
Como o dólar interfere no balanço da Embraer?
A Embraer divulga seus resultados em dólar, e praticamente todas as suas vendas são cotadas na moeda americana. Parte relevante dos custos, porém, é em reais, como os salários da mão de obra nas fábricas no Brasil. Quando o real se valoriza, esses custos ficam mais caros quando convertidos para dólar, e a margem de lucro encolhe.
"A queda do dólar reduz a receita convertida, o que comprime margens operacionais e diminui a expectativa de geração de caixa em moeda local", afirma Matheus Jaconeli, analista da ZIIN Investimentos.
Há também um efeito direto na cotação. A ação da Embraer na B3 acompanha o preço do recibo negociado em Nova York (ADR) convertido para reais. Se o ADR fica parado e o dólar cai, a ação brasileira recua. É o que tem acontecido em 2026, com o dólar acumulando queda de 8,42% frente ao real até a quarta-feira, 21.
Perguntas e respostas sobre a Embraer
Qual é a diferença entre encomenda e pedido firme?
"Encomenda" é o termo genérico usado para qualquer compra anunciada por um cliente. Nos números da Embraer, porém, só conta o pedido firme, que é um contrato assinado e com compromisso de compra. É esse valor que forma a carteira de pedidos, os US$ 35,7 bilhões divulgados nesta sexta-feira.
Ficam de fora as opções e os direitos de compra, que funcionam como reservas. Eles garantem ao cliente a possibilidade de comprar mais aeronaves no futuro, em condições combinadas, mas sem obrigação. No pedido do Grupo Abra, por exemplo, apenas os 20 jatos E195-E2 firmes entraram na carteira. As 10 opções e os 15 direitos de compra só serão contabilizados se forem convertidos em contratos.
O mesmo vale para governos que escolheram um avião, mas ainda não formalizaram a compra. As seleções do cargueiro KC-390 pela Eslováquia e pela Lituânia, de 3 aeronaves cada, não estão na carteira porque os contratos ainda não estão efetivos. Na Aviação Executiva, as opções somam US$ 5,2 bilhões, calculados pelo preço de tabela, e também ficam fora do total.
Quais são as divisões da Embraer e qual o peso de cada uma?
A Embraer tem quatro unidades de negócios. Pelo tamanho da carteira de pedidos no terceiro trimestre, o peso de cada uma é o seguinte.
Aviação Comercial (44% da carteira, US$ 15,8 bilhões). Fabrica jatos regionais de 70 a 146 assentos, como o E175, muito usado por companhias americanas, e a família E2 (E190-E2 e E195-E2). É a maior divisão em pedidos, com 479 aeronaves firmes ainda a entregar. Os principais clientes incluem American Airlines, SkyWest, Porter e Avelo.
Aviação Executiva (23%, US$ 8,2 bilhões). Produz jatos executivos das linhas Phenom e Praetor. O Phenom 300 é o jato leve mais entregue do mundo há 14 anos consecutivos. É a divisão que mais entrega aviões em volume, com 115 unidades de janeiro a setembro, e a meta para 2026 é de 160 a 170 jatos.
Defesa & Segurança (17%, US$ 6,1 bilhões). Fabrica o cargueiro militar KC-390 Millennium e o avião de ataque leve A-29 Super Tucano. Foi a divisão que mais cresceu em um ano, com alta de 56% na carteira, impulsionada por contratos com forças aéreas da Europa, da Ásia e da América Latina. Tem hoje 43 KC-390 e 25 Super Tucanos encomendados e ainda não entregues.
Serviços & Suporte (16%, US$ 5,6 bilhões). Cuida da manutenção, de peças, de treinamento e de suporte técnico para aeronaves já em operação nas três outras divisões. Os contratos costumam ser de longo prazo, o que garante receitas recorrentes e menos dependentes do ritmo de vendas de aviões novos.
Por que a Embraer não acompanhou o rali das eleições?
Desde o primeiro turno da eleição presidencial, o Ibovespa renovou recordes, mas a alta se concentrou em empresas ligadas à economia brasileira. A leitura do mercado é que uma eventual mudança na política fiscal abriria espaço para a queda dos juros, o que favorece varejistas, construtoras, empresas de educação e companhias endividadas, que dependem de crédito e do consumo interno.
A Embraer está do outro lado dessa equação. A empresa vende quase toda a produção no exterior e recebe em dólar, então ganha pouco com a melhora das expectativas para a economia doméstica. Ao mesmo tempo, o otimismo com o cenário eleitoral ajudou a derrubar o dólar, o que prejudica exportadoras. Por isso, a ação caiu 6,53% entre o primeiro turno e a quarta-feira, 21, enquanto o Ibovespa subiu 10,82% em outubro.
O BTG Pactual aponta ainda uma troca de posições. Em momentos de euforia, investidores vendem ações vistas como defensivas, caso da Embraer, para comprar papéis mais arriscados, que tendem a subir mais rápido quando o humor melhora.
Como o dólar interfere no balanço da Embraer?
A Embraer divulga seus resultados em dólar, e praticamente todas as suas vendas são cotadas na moeda americana. Parte relevante dos custos, porém, é em reais, como os salários da mão de obra nas fábricas no Brasil. Quando o real se valoriza, esses custos ficam mais caros quando convertidos para dólar, e a margem de lucro encolhe.
"A queda do dólar reduz a receita convertida, o que comprime margens operacionais e diminui a expectativa de geração de caixa em moeda local", afirma Matheus Jaconeli, analista da ZIIN Investimentos.
Há também um efeito direto na cotação. A ação da Embraer na B3 acompanha o preço do recibo negociado em Nova York (ADR) convertido para reais. Se o ADR fica parado e o dólar cai, a ação brasileira recua. É o que tem acontecido em 2026, com o dólar acumulando queda de 8,42% frente ao real até a quarta-feira, 21.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.