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Monday, November 2, 2026

Vladimir Brichta desafia mito do pai-herói em peça que tensiona masculinidade

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Vladimir Brichta transitou por diferentes cenários ao longo da carreira. Ele caminhou sobre o pasto de uma fazenda na novela "Coração de Estudante" e sobre o asfalto das ruas de Copacabana na série "Tapas e Beijos". No cinema, o ator já andou por uma favela carioca em "Alemão 2" e por uma cidade sertaneja em "A Máquina". Agora, em seu primeiro monólogo no teatro, o artista volta a encarar um cenário inteiramente novo.

Durante pouco mais de uma hora, Brichta se vê confinado em um espaço exíguo formado por painéis de papelão na peça "O Menor Palco do Mundo", em cartaz no Teatro Vivo, na capital paulista. O espaço claustrofóbico ajuda a contar a história de um homem determinado a preservar a relação com a família mesmo em meio ao cárcere.

Preso por traficar maconha, o personagem cria histórias para enviá-las aos filhos como uma forma de estar presente na vida deles, apesar da distância. Esse é um acontecimento real vivido por Kim Crotty, dramaturgo australiano que escreveu o texto que agora é adaptado para os palcos do Brasil.

"O que me encantou nessa peça foi o fato de ser a história sobre um homem fragilizado pela limitação de exercer a paternidade", diz Brichta, para quem a peça desmistifica uma série de pressupostos sobre a figura paterna. Um deles é a imagem do pai-herói, ou seja, o arquétipo do homem desprovido de falhas e fraquezas.

"Pais não são infalíveis e heroicos, mas muitas vezes performam essa imagem", afirma o ator. "É uma carga tremenda para os filhos, porque eles crescem sob o signo do fracasso, sentindo que nunca vão ser iguais aos pais."

O próprio artista tem refletido mais sobre a paternidade nos últimos tempos após Agnes, sua filha mais velha, e Vicente, fruto da relação com a atriz Adriana Esteves, terem saído de casa.

A ausência física da prole fez Brichta encarar a chamada síndrome do ninho vazio —a melancolia que os pais sentem quando seus filhos decidem morar em outro lugar.

"Esse vazio é uma experiência que me tomou de uma forma muito forte no ano passado, muito mais do que eu podia imaginar." De certa forma, é um incômodo que se entrelaça à história de seu personagem, um homem que precisa encontrar maneiras de enfrentar a saudade e encurtar a distância.

"O que a gente faz com todo esse sentimento, com todo esse cuidado e essa atenção? Eu acho que tudo isso, de alguma maneira, está presente na peça."

Essas perguntas não são exatamente novas para o artista. Em 2001, ele foi separado de Agnes, filha que teve com a cantora Gena Karla Ribeiro, morta aos 28 anos em razão de uma doença rara que causa distúrbios do metabolismo.

Após a morte da mãe, a criança foi passar férias com a avó materna, a procuradora Maria Eugênia da Silva Ribeiro. Ela, no entanto, se recusou a devolver Agnes ao pai após o fim desse período.

Brichta decidiu, então, entrar numa batalha judicial com a ex-sogra para reaver a guarda da filha. Os dois só voltaram a morar juntos um ano e dez meses após a separação.

"Eu lutei firmemente para ter a Agnes de volta e para ser pai dela, ainda que eu soubesse que seria uma jornada difícil", diz o ator, para quem esse é mais um ponto de conexão entre a sua biografia e a história da peça. "O personagem está distante dos filhos, mas ele fala: ‘Eu preciso dar um jeito de mantê-los perto de mim’."

Existe, ainda, outro elemento que conecta a vida do artista ao enredo da peça. A exemplo do personagem principal, o pai do ator, o geólogo Arno Brichta, se viu distante da família após ser preso.

Ele foi detido pela ditadura militar acusado de ajudar grupos de resistência e perdeu o título de professor da Universidade Federal da Bahia, a UFBA.

"Eu cresci ouvindo as histórias e pensando a política a partir do ponto de vista de alguém que teve a sua liberdade cerceada por pensar diferente." O artista, aliás, foi batizado em homenagem a Vladimir Herzog, jornalista morto pelo regime militar.

"O jogo democrático precisa ser preservado. Do contrário, uma opinião divergente pode ser suficiente para você ser preso e ter a liberdade de estar com seus filhos cerceada."

O artista enxerga com preocupação o fortalecimento de discursos autoritários em países como Alemanha, Estados Unidos e no Brasil. "É pavoroso. A ameaça é de truculência. Não é um retrocesso do tipo vai ter menos verba para as universidades, e sim de tacar fogo em universidade."

Os paralelos entre a vida do artista e o enredo do espetáculo ganham mais força a partir de uma mudança feita em relação ao texto original. Além do pai encarcerado, ele dá vida a um ator que tece reflexões sobre a própria vida. Essa figura flerta com a trajetória de Brichta, artista que encara o primeiro monólogo de sua carreira.

Essa novidade fez com que ele precisasse fazer uma inflexão em seu modo de atuar. "Primeiro, tive que aprender a respirar e deixar o público respirar também, porque está nas minhas mãos. Eu posso matar o público sufocado se eu não parar para respirar."

Outra mudança aconteceu justamente no modo como ele encara a plateia. Em peças coletivas, o artista não precisava interagir com o público em razão da presença dos colegas de cena.

"Mas, quando você faz um monólogo, é muito improvável que consiga manter a quarta parede ali, ou seja, ignorar que as pessoas existem. Alguém precisa ser o seu interlocutor. E esse interlocutor será muitas vezes o público", diz ele. "Isso foi absolutamente novo para mim."

Por outro lado, trabalhar com monólogos já não é uma novidade para Luiz Felipe Reis, diretor do espetáculo. O encenador entrou em contato com o gênero ao dirigir peças como "Vista", de 2023, e "Deserto", de 2024.

Reis aceitou conduzir esse novo solo por considerar que o texto reflete sobre a subjetividade dos homens.

"Existe uma instância do masculino muito premente e duradoura que é uma espécie de negação a tudo que remete ao frágil, ao vulnerável e à falta de controle", diz Reis, para quem é importante desafiar a ideia de que homens devem ser indestrutíveis.

"Questionar esse modelo do pai-herói, forte e que não tem medo é contribuir para uma possibilidade de transformação no modo de agir no mundo. Essa é uma pedagogia que desmistifica a condição ilusória do herói. Isso não existe. Nós somos seres falíveis, frágeis e vulneráveis."

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