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Saturday, October 10, 2026

Trabalharemos para que relação com Brasil avance, diz China sobre eventual eleição de Flávio Bolsonaro

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O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que o país está disposto a trabalhar com o Brasil para que as relações avancem, ao responder à questão que citava a liderança de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência. O último Datafolha, publicado nesta quinta, mostra Flávio com 52% dos votos válidos e Lula com 48%.

A Folha perguntou à chancelaria chinesa se, diante do alinhamento de Flávio ao presidente dos EUA, Donald Trump, e dos atritos diplomáticos registrados entre Brasil e China durante a gestão de Jair Bolsonaro, Pequim vê a parceria estratégica entre os países como um compromisso de Estado ou de governo.

No primeiro caso, os compromissos assumidos permaneceriam independentemente do governo. No segundo, não necessariamente.

Em resposta, a pasta declarou que "a China está disposta a trabalhar com o lado brasileiro para que as relações avancem de forma estável e duradoura".

"Nos 52 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas, independentemente de como mude o cenário internacional, as relações entre China e Brasil sempre mantiveram uma boa dinâmica de desenvolvimento", diz, em nota.

"A amizade sino-brasileira se tornou um amplo consenso entre todos os setores dos dois países, e a cooperação bilateral beneficia de forma concreta os povos de ambos."

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Além das cinco décadas de relações diplomáticas, os países se tornaram parceiros estratégicos globais desde 2012, quando foi enfatizado o compromisso com o multilateralismo, o crescimento econômico e a ampliação do comércio bilateral e dos investimentos mútuos.

O status da parceria não mudou durante a gestão de Jair Bolsonaro, mas a relação ficou tensionada diante de falas do presidente e de outros episódios envolvendo sua família e membros do governo.

No mais notável, o ex-presidente chegou a pedir que Pequim trocasse o embaixador no Brasil, Yang Wanming. A solicitação ocorreu após o diplomata ter publicado nas redes sociais uma crítica ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que havia responsabilizado o Partido Comunista Chinês pelo início da pandemia. As autoridades chinesas ignoraram o pedido.

Desde o início da candidatura, Flávio tem sido questionado sobre qual será a sua postura diante da China. O senador tem dado indícios de que terá uma atitude pragmática. Em evento nesta quinta-feira (8), afirmou que, se eleito, o Brasil terá relação com países de todos os espectros.

"Por questão ideológica, o atual presidente acaba querendo escolher um lado. Eu não vou escolher lado, meu lado vai ser o do povo brasileiro, independentemente de ser China, Israel, Oriente Médio, Argentina, Índia, não importa", completou.

Em audiência pública no USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) no início de julho, Flávio afirmou que Lula "lambe as botas" da China. Ele também já havia dito, em entrevista ao Financial Times em abril, que o petista trata o Brasil como uma "colônia chinesa".

"Ele [Lula] coloca a ideologia acima dos interesses do povo brasileiro, é isso que ele está fazendo. A todo momento lambe as botas da China e taca pedra nos EUA", declarou.

Lá Fora

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Setores da indústria com relações com a China avaliam que o candidato tem se esquivado de reuniões para tratar do assunto. Ao Painel S.A. interlocutores afirmaram ter interpretado o gesto como uma tentativa de não se comprometer sobre a relação comercial que terá com Pequim em um eventual governo. Um dos auxiliares do candidato teria dito "não ser a hora" de tratar do tema.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e calcula os riscos de uma eventual eleição do candidato. Como mostrou a Folha, a proximidade dele com Washington é fonte de preocupação, mas Pequim espera que as pautas econômicas não sejam influenciadas por seu alinhamento com Trump.

Até agora, o único comentário oficial chinês sobre as eleições brasileiras ocorrera em setembro, quando o porta-voz da chancelaria, Guo Jiakun, afirmou que "a China mantém o princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países" e desejou "eleições tranquilas e sem incidentes" ao responder a uma pergunta sobre a pressão americana em diferentes áreas, em um momento em que o Brasil se preparava para o primeiro turno.

Abster-se de interferir ou mesmo de comentar assuntos domésticos de outras nações tem como objetivo, segundo especialistas, manter outros países fora dos assuntos internos da China, especialmente aqueles considerados sensíveis e alvo de críticas do Ocidente.

Esse é o argumento usado para manter terceiros longe de questões sensíveis, como a disputa pelo mar do Sul da China, a reivindicação do território das ilhas Diaoyu, os movimentos separatistas de Xinjiang e do Tibete e, principalmente, a unificação com Taiwan.

"Se realizadas tentativas de interferência nesses temas, com certeza, haverá reação da parte chinesa", afirma Ana Tereza de Souza, docente em ciências e humanidades e relações internacionais na UFABC (Universidade Federal do ABC).

A especialista afirma que o posicionamento resguarda Pequim de sofrer interferência externa e, ao mesmo tempo, de ser pressionada a intervir em alguma situação no exterior que não seja de seu interesse central.

"Qualquer discurso ou ação que seja visto como hostil à China, particularmente se relacionando às questões que ela considera central, será visto como tentativa de interferência", diz.

O alinhamento de Bolsonaro com os EUA foi motor para o distanciamento político de Pequim, fazendo com que, hoje, a proximidade de Flávio com Trump seja ponto de atenção do regime chinês.

Na época, assim como agora, questões econômicas eram ponto central da relação bilateral, dada a expressiva troca comercial entre os países. Para Maurício Santoro, essas questões devem permanecer como interesse central de Pequim nas relações com o Brasil, embora iniciativas políticas, como o Brics e a cooperação na ONU, possam ser afetadas por iniciativa do candidato do PL.

O especialista afirma que há preocupação da China em relação ao alinhamento de Flávio a Trump, mas que o país asiático responderia com pragmatismo, "dadas as lições aprendidas nos conflitos com o governo de Bolsonaro pai, e também no cenário atual, em que governos pró-EUA em países sul-americanos como Argentina, Chile e Peru seguem mantendo boas relações com a China".

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