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Thursday, October 1, 2026

Região onde passageiro foi morto em BRT, na zona sudoeste do RJ, vira líder em mortes violentas no estado

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O gerente de farmácia Flávio de Abreu Lira, 53, morreu baleado num ônibus do BRT na manhã desta quarta-feira (30), em Jacarepaguá, na zona sudoeste do Rio, enquanto a Polícia Militar fazia uma operação na comunidade Dois Irmãos.

O caso ocorreu na área que passou a liderar, em 2026 em números absolutos, o indicador de mortes violentas e mortes causadas pela polícia em todo o estado fluminense.

Segundo a polícia, a alta é consequência da disputa entre grupos criminosos —o CV (Comando Vermelho) se expande, entrando em confronto com milícias e com o TCP (Terceiro Comando Puro). No caso do BRT, não se sabe de onde partiu o disparo nem se ele tem ligação com a ação policial. A Delegacia de Homicídios investiga a ocorrência.

De janeiro a agosto, a área do 18º BPM (Batalhão de Polícia Militar), que abrange bairros como Jacarepaguá, Taquara, Praça Seca e Rio das Pedras, registrou 177 mortes violentas, contra 112 no mesmo período de 2025, alta de 58%, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública).

É o maior aumento do estado. No restante do Rio, o indicador caiu 7,4%.

A região, que ocupava o sétimo lugar no ranking de letalidade violenta em 2025, assumiu a primeira posição, à frente das Aisps (Áreas Integradas de Segurança Pública) 15, em Duque de Caxias, com 168 mortes, e 41, Irajá, com 145. Não há dados disponíveis que levem em consideração no cálculo a população que vive em cada área.

O indicador soma homicídio doloso (com intenção de matar), morte por intervenção de agente do Estado, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

A alta foi puxada pelos homicídios, que passaram de 64 para 108 (+69%), enquanto no restante do estado caíram 7,7%. Com isso, a área saltou do nono para o terceiro lugar em homicídios no Rio.

A polícia também mata mais ali, na contramão do estado. As mortes por intervenção de agente do Estado subiram de 47 para 64 (+36%), o maior número entre as Aisps; no restante do Rio, caíram 6,2%.

A PM disse que a Subsecretaria de Inteligência monitora os grupos criminosos responsáveis pelos confrontos armados na região para subsidiar estratégias conjuntas para prender integrantes dessas quadrilhas.

A Polícia Civil disse manter "investigações contínuas sobre a atuação de grupos criminosos e possíveis alianças entre organizações, incluindo disputas territoriais, fornecimento de armas e apoio logístico".

"O trabalho busca alcançar toda a cadeia criminosa, identificando executores, articuladores, lideranças e demais integrantes das estruturas responsáveis pelas atividades criminosas", afirmou. A corporação disse também que "não há necessidade de reforço do efetivo".

Segundo a PM, desde 2023, quando os confrontos entre grupos criminosos se intensificaram, foram feitas mais de 5.700 prisões e mais de 320 apreensões de adolescentes na área do 18º BPM.

A corporação também afirmou que mantém duas companhias destacadas em Jacarepaguá, uma na Praça Seca e outra nas imediações da rua Tirol, perto da Freguesia, para coibir a circulação de criminosos vindos da Gardênia Azul e da Cidade de Deus.

Desde o início de setembro, segundo a nota, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) mantém uma base avançada dentro da Muzema, numa área de mata entre a comunidade e Rio das Pedras, perto do corredor do Itanhangá, para conter confrontos entre grupos rivais.

A região é disputada há anos por milícias e pelo CV, acirramento que se intensificou na pandemia. Segundo o Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos), da UFF (Universidade Federal Fluminense), a facção passou a se expandir pela zona oeste nos últimos anos e conquistou território na Grande Jacarepaguá.

Para a socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Geni, a escalada tem relação direta com o avanço da facção. "O aumento de operações e da letalidade não é surpreendente."

Grillo afirma que a atuação policial não se distribui de forma igual entre os grupos armados. "Além disso, é importante notar que nossas pesquisas apontam, há muito tempo, que as regiões controladas pelo CV são mais submetidas a operações do que as de milícia. Há um direcionamento."

Policiais responsáveis por operações afirmaram à reportagem que as planejam conforme a mancha criminal.

A disputa tem se refletido em episódios de violência nas últimas semanas. Na noite de 29 de agosto, tiroteios em Jacarepaguá deixaram quatro mortos e um ferido, e 14 ônibus foram usados como barricadas na Muzema, em Curicica, na Gardênia Azul e na Taquara.

Em 17 de setembro, o Bope fez operação nas comunidades da Chacrinha e do Jordão, e criminosos incendiaram barricadas.

O gerente Flávio Lira estava em pé no ônibus, que passava pelo corredor Transolímpico, perto da estação Ventura, quando foi atingido na barriga, segundo testemunhas. O motorista seguiu até a estação Asa Branca, onde bombeiros tentaram socorrê-lo por volta das 6h. Ele morreu no local.

A operação foi coordenada pelo 18º BPM. De acordo com resumo de inteligência da PM, obtido pela Folha, os agentes entraram na área para localizar suspeitos de matar um homem na comunidade Asa Branca na terça-feira (29).

Segundo o documento, os autores seriam da comunidade Dois Irmãos, área de milícia, e tentariam tomar nesta quarta a Asa Branca, hoje dominada pelo CV.

Na versão da PM, os policiais foram recebidos a tiros por homens armados em um carro e revidaram. A corporação afirma que a reação foi feita "de forma técnica, moderada e proporcional".

Um suspeito foi preso com quatro fuzis, sete rádios transmissores, dois artefatos explosivos, um colete à prova de balas, duas câmeras e dois veículos roubados.

Em um segundo confronto, numa área de mata, outro homem foi preso com um fuzil calibre 5,56. Ele foi baleado sem gravidade e levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge. Segundo o documento, os policiais só souberam da morte do passageiro depois dessa segunda prisão.

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