Liderança mal dormida, clima mal gerido
Toda equipe encontra um jeito informal de prever o clima organizacional. Alguém chega cedo, vê a chefia passar pelo corredor e avisa no grupo de whatsapp: "hoje não". Ninguém precisa de pesquisa para saber que “vai chover com trovoada”.
O que pouca gente percebe é que esse contexto costuma ser preparado na noite anterior. Não na sala de reunião, mas no quarto de quem lidera.
Uma pessoa, duas lideranças
Uma pesquisa que li e achei muito interessante para esse tema foi conduzida por Christopher Barnes, professor da Universidade de Washington, com colegas de outras universidades, e publicada em 2015 na Academy of Management Journal, uma das revistas de gestão mais respeitadas do mundo. Eles acompanharam 88 líderes e seus times durante duas semanas. Todo dia de manhã, cada líder contava como tinha dormido. Todo fim de tarde, o time contava como tinha sido a liderança naquele dia e o quanto ele próprio tinha se engajado no trabalho.
Resultado: a mesma pessoa era ríspida em um dia e simpática no outro, e a diferença acompanhava a qualidade da noite anterior. Nos dias seguintes a uma noite ruim, o engajamento do time caía junto.
Ou seja, uma parte do que chamamos de "estilo de liderança" talvez seja só uma noite mal dormida repetida muitas vezes.
O freio que falha
Outro estudo que me marcou é do neurocientista Matthew Walker, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicado em 2007 na revista Current Biology. A explicação é simples. Nosso cérebro tem um alarme, que reage rápido a qualquer ameaça, e um freio, que avalia se aquilo merece mesmo uma reação. Depois de uma noite sem dormir, a equipe de Walker viu o alarme disparar bem mais forte e o freio responder bem menos.
Na vida corporativa, isso tem cara conhecida: a resposta atravessada no e-mail, a impaciência com a pergunta óbvia, o "isso de novo?" que escapa na reunião. Ninguém ficou pior de caráter, mas apenas sem freio.
O cansaço é contagioso
E aqui está o ponto que mais me interessa: o sono de quem lidera não fica só com quem lidera.
O mesmo Christopher Barnes publicou um estudo mostrando que lideranças que dormiram mal são percebidas como menos inspiradoras, mesmo quando dizem as mesmas coisas. E Matthew Walker, com a pesquisadora Eti Ben Simon, na revista Nature Communications, mostrou que pessoas descansadas saem se sentindo mais distantes e sozinhas depois de poucos minutos de convivência com alguém que não dormiu. O cansaço passa de um para o outro como “gripe de escritório”.
Não por acaso, nas pesquisas de clima que a Winx conduz, a pergunta sobre estresse aparece quase sempre entre as piores. Costumamos procurar a causa nas metas, nos processos, na estrutura. Raramente alguém pergunta sobre a qualidade de sono da liderança.
E o assunto não fica dentro da empresa. Desde 2023, a Winx realiza a pesquisa Melhores Empresas para se Trabalhar na Perspectiva das Famílias, em que perguntamos às famílias o que elas pensam da experiência de trabalho de seus parentes. Desde a primeira edição, a pior avaliação é sempre a mesma: a qualidade do sono em relação ao trabalho. Quem dorme ao lado percebe antes de qualquer pesquisa de clima.
A armadilha: quem dorme mal nem sempre percebe isso como causa
Tem um detalhe cruel nessa história que aprendi nesses estudos que tenho lido. Pessoas que dormiram seis horas por noite durante duas semanas chegaram a um nível de desempenho comparável ao de quem passou até duas noites em claro. E diziam estar apenas "um pouco cansadas".
Ou seja, a pior avaliação do seu sono é a sua, depois de uma noite mal dormida. E no mundo corporativo ainda tem gente que conta as poucas horas de sono como quem exibe medalha.
Quero deixar claro: não estou defendendo menos exigência. Gente cresce em ambiente desafiador. O problema nunca foi a carga alta, mas liderar com o tanque vazio e achar que ninguém nota.
O dia seguinte começa na noite anterior
Essa é a ideia que eu gostaria que toda pessoa que lidera levasse para casa ao ler esse artigo. A reunião difícil de amanhã, a conversa de feedback, a decisão que não pode errar: tudo isso começa a ser preparado na hora em que você se recolhe. Ou na hora em que não se recolhe.
Algumas práticas que fazem diferença:
1. Feche o dia antes de fechar os olhos. Dez minutos no fim do expediente para anotar as três prioridades de amanhã e aquela preocupação que insiste em voltar. Problema estacionado no papel não estaciona na cabeça às duas da manhã.
2. Saiba qual é a sua batalha de amanhã. Se amanhã tem conversa difícil ou decisão importante, a noite de hoje faz parte da preparação, como a véspera de um jogo decisivo.
3. Dê toque de recolher ao celular. O último e-mail da noite costuma acordar dois alarmes: o seu e o de quem recebe. Escrevo isso com a autoridade de quem ainda leva o celular para o quarto. Estou trabalhando nisso.
4. Trate o horário de dormir como compromisso de agenda. Você não falta à reunião com o conselho. A reunião com a liderança que vai entrar na sala amanhã, que é você, merece o mesmo respeito. Regularidade vale mais que compensar no fim de semana.
5. Depois de uma noite ruim, ajuste a agenda, não o humor. Adie a conversa delicada, mude a decisão grande de horário quando der. É, aliás, uma das recomendações do próprio Barnes. E tenha coragem de dizer ao time: "dormi mal, se eu estiver sem paciência hoje, me avise". Isso desarma mais tensão do que qualquer workshop.
6. Cuide também do sono do time. A call das 23h seguida da reunião das 7h cria uma equipe que não consegue ser inspirada, por melhor que seja o discurso. Agenda também é gestão de clima.
A pergunta que fica
Ou seja, lideranças precisam ser boas de cama!
Investimos muito em pesquisa de clima, plano de ação e programa de liderança. Tudo isso importa. Mas parte do clima de amanhã é decidida hoje, na hora em que quem lidera apaga a luz. As famílias já perceberam isso, mas falta a liderança perceber.
Antes de dormir, vale uma pergunta honesta: que líder eu estou preparando para minha equipe amanhã?
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