Contenção e ataques. O debate para convencer indecisos

O objetivo do candidato do PL é garantir a transferência de votos da terceira via da primeira volta — principalmente os dos candidatos Augusto Cury e Ronaldo Caiado (que já declararam o seu apoio a Flávio Bolsonaro). Mesmo que não tenham chegado aos 3% de votos cada um, foram os votos de quem não gosta nem dele, nem de Lula da Silva. É a estes eleitores que o senador quer chegar: aquelas pessoas que não gostam do petista, mas que também têm reservas em relação a si.
Neste debate, Flávio Bolsonaro tentou mostrar-se como alguém contido, moderado e com espírito colaborativo. O objetivo passa por capitalizar o desgaste associado à imagem de Lula da Silva e mostrar que o ainda senador tem competências mais do que suficientes para ser Presidente. Quando foi acusado pelo rival de ser um “rapaz”, o candidato elencou os cursos que tirou, recordando que já é político desde os 21 anos.
Ainda assim, apesar do verniz mais moderado, optou por debater assuntos mais à direita durante o debate: num dos poucos momentos em que se exaltou, defendeu o agravamento das penas para quem comete crimes — principalmente para aqueles que foram condenados por “violação”. Falou ainda sobre empreendedorismo e recordou a importância dos grandes negócios na área da agropecuária. A base eleitoral pode ter ficado desiludida com o discurso — mas esses já iam votar nele sim ou sim.
Quanto à capacidade de convencer os indecisos, ainda não é claro se o terá conseguido. Lula da Silva trouxe alguns fantasmas do passado de Flávio Bolsonaro, como uma alegada festa de barco que aconteceu durante a pandemia. Lembrou também a sua homenagem a milicianos. E trouxe a mãe de uma criança assassinada por um polícia para a plateia do debate da TV Globo. Assuntos que contribuem para desmontar a sua possível moderação e revelar que o candidato, afinal, é tão radical como o pai.
Na defensiva, Flávio Bolsonaro não deu muitas vezes uma resposta eficaz perante a pressão de Lula da Silva, não respondendo cabalmente a algumas acusações. Tentou defender-se das homenagens às milícias. A estratégia do candidato foi outra: recordar as polémicas de Lula da Silva. Embora o estilo tenha sido bem mais contido, o senador do PL lembrou várias controvérsias do chefe de Estado, em particular uma suposta oferenda de um uísque de “meio milhão de reais” de Daniel Vorcaro — o alegado cabecilha do caso Master — a Lula da Silva.
Lula recordou polémicas e foi mais incisivo
Lula da Silva chegou a este debate em desvantagem. Mesmo que as sondagens mais recentes sejam animadoras — terá recuperado vantagem face a Flávio Bolsonaro —, o Presidente tem de conseguir colmatar a diferença de dois milhões de votos que o rival obteve a mais na primeira volta. Os candidatos da terceira via da primeira volta? Quase nenhum lhe declarou apoio. Por isso, a estratégia é outra: convencer quem não foi votar no dia 4 de outubro, que foram cerca de vinte milhões de brasileiros.
Daí que, neste debate, Lula da Silva tenha tentado denunciar as polémicas de Flávio Bolsonaro. O voto em si é a única forma de “não colocar um miliciano no poder”. O discurso foi bastante menos contido do que o do adversário: não houve pedidos de desculpas, nem a simulação de uma postura mais polida. É preciso tirar pessoas de casa no domingo para irem votar — e não é com palavras simpáticas que o chefe de Estado acredita que esse objetivo será concretizado.
Além disso, a postura de ataque de Lula da Silva é também uma forma de cativar o eleitorado de centro. Pintando o rival como um “miliciano” e como alguém que defende o uso da violência estatal — além de o ter acusado de querer fazer cortes nos serviços sociais —, o Presidente brasileiro quis alertar o eleitorado centrista e indeciso de que, afinal, Flávio Bolsonaro está muito longe dessa posição ideológica.
Noutra estratégia que já vem da primeira volta, Lula da Silva procurou sublinhar a sua experiência no cargo e o seu legado. “Retirei o Brasil do mapa da fome”, reiterou, lembrando que os seus Governos foram aqueles que “ajudaram os mais pobres”. Tentando mobilizar alguns abstencionistas, o chefe de Estado fez questão de recordar os seus sucessos, como o programa de apoios aos mais desfavorecidos, um dos quais o Bolsa Família, avisando que podiam estar em risco se o adversário chegar ao poder.
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