Saber sair também é amor

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Hoje trago aqui duas amigas. Vai ser mais uma terapia de amigas, mas neste caso são duas pessoas que eu conheci por causa das redes sociais e principalmente o ponto que tínhamos em comum era até mais a parte do movimento, do exercício físico. Temos, por um lado, a Marta Liberal, que é professora de barre, que eu já fiz imensas aulas com ela e foi por aí que eu a conheci. E depois nós demo-nos bem e fomos tomar um café e percebemos que tínhamos muitos outros pontos em comum. E depois temos aqui a Regina da página Nutrime, que também conheci por causa dos negócios e das corridas, e marcamos um daqueles cafés no Instagram e depois demo-nos logo bem. Foi um clique imediato. E por que eu as trago aqui hoje? Porque a última vez que nós estivemos juntas, fomos as três almoçar e percebemos que estávamos as três, não é na mesma fase, mas a passar por coisas que nos faziam identificar umas com as outras. Basicamente, a Regina foi casada durante meio ano, esteve numa relação 11 anos, casou-se, durante meio ano esteve nesse casamento e depois divorciou-se. A Marta esteve numa relação de oito anos e este ano terminou esse relacionamento. Entretanto, começou um novo relacionamento e está grávida. E eu estava na minha fase em que eu também tinha terminado a minha relação e também estava ali a passar por esse processo. E de repente estavam três pessoas a conversar juntas, a falar um bocadinho sobre estas fases de estar a passar por uma mudança grande na vida, recomeços, como voltar a confiar. Todas estas coisas que acabam por ser, por mais que as situações sejam todas muito diferentes, há sempre pontos em comum que nos fazem nos sentirmos identificadas umas com as outras. E aquela conversa foi tão fixe que eu pensei: "Eu tenho que trazer isto para podcast". Portanto, nós vamos aqui sentar. O início da conversa está muito à volta da nossa relação com o nosso corpo e com a comida, que também temos esse ponto em comum e que também acho que está muito interessante, mas a partir daí, a meio do episódio, mudamos para o tema dos relacionamentos. Cada uma delas vai contar um bocadinho da história daquilo que aconteceu, onde é que foram buscar força para acabar relacionamentos que já não eram certos para elas, e como abraçar novas fases. A Marta também partilhou muito a fase da gravidez agora e acho que foram as duas bastante honestas, bastante vulneráveis e agradeço mesmo muito às duas pela confiança de estarem aqui a expor este lado delas, que não é tão público ou tão vocal nas redes sociais, mas acho que se criou aqui um ambiente muito confortável para esta partilha e espero que também recebam as histórias delas com empatia, que acho que acima de tudo é o mais importante. Portanto, espero muito que vocês gostem desta conversa. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
E nota-se diferença, nota-se quem é magro, atlético e quem é magro das dietas.
Mas não sei, às vezes eu não consigo bem perceber.
Eu nem sei como é que as pessoas não pensam, como é que primeiro não tentam por si só, dar algum tempo, fazer um esforço com calma, que por vezes vem.
Ao pouquinho, aos poucos.
Sim, mas imagina, já tentaste mil dietas e eu percebo este pensamento porque eu já estive lá.
Eu percebo também.
É o pensamento desesperado. Já não há uma solução. Apareceu a pílula mágica.
É isso, porque é que eu fiz dietas também dessas aí, leve assim? Porque está ali, é o shiny object.
Mas hoje em dia, a tua vida é tu comes, alimentas-te, fazes desporto e estás bem, não é?
Pronto, mas demorei muitos anos a chegar lá.
Sem dúvida, eu também. Mas será que tu sentes esse efeito com os medicamentos? Será que tu te sentes bem, confortável contigo, com energia? Não sei.
Dizem que as pessoas ficam mal dispostas.
Há muita gente que fica mesmo: "Não consegue comer porque está muito mal disposta".
Estás a ver? Isso não é bom para a pessoa, nunca. Acho eu.
Tens que passar por esse estar desconfortável diariamente.
Eu lembro-me de uma fase em que eu estava a fazer leve, certinho, estava a perder muito peso, então sentia-me bem quando acordava, porque todos os dias eu ia à balança e perdia 300, 400 gramas.
A leve era que ela já não impõe.
É produtos deles. Temos barrinhas, chocolates.
Por isso é que as pessoas chegam a um ponto que até estão magras demais, mesmo quando já foram.
Sim, porque estás a comer coisas tipo chocolate, sem dizer o quê. Mas não tens energia.
Não tens nutrientes.
Eles recomendam-te mesmo tu não treinares nessa fase.
Estás a ver? Isso para mim não dá.
Mas é quase como uma droga, porque depois, imagina, chegas ao ponto que estás magra demais e depois, se calhar, cometes um erro, não sei o quê, e voltas a um loop de voltares a engordar tudo ou pior.
Não, é isso.
Porque não fazes um equilíbrio.
E mentalmente ficas destabilizado porque sentes que nunca consegues.
E não tinha energia. Eu lembro perfeitamente. Estava num evento uma vez de uma marca em Lisboa e eu estava só a seguir certinho a dieta e tinha-me esquecido de trazer um produto comigo, tinha de ter sempre à mão.
Era tudo deles, eu não comia nada fora.
Só isso é super limitativo. Isso não é uma vida real.
Eu via um bando das minhas amigas: "Maria, tu estás branca". Eu ia cair para o lado, porque eu estava sem energia nenhuma e cheia de fome.
Só isso, teres que estar limitada a um produto, uma marca para comer.
Claro, mas eu sabia.
O corpo já está forte, isso por si só já não é bom, não é saudável.
Mas eu sabia que estava mal. Claro que tu sabes disso. Mas depois é isso, no dia a dia acordas e depois sais à rua e as pessoas dizem: "Ai, estás tão bonita, estás com uma energia".
Depois é isso.
Mas agora compara, imagina, fotos tuas dessa altura e agora. Tu não estás com muito mais saúde, a tua pele, não sei. Claro, mas é um processo e eu percebo quem se deixa ceder.
Por isso eu quase nunca quando noto que alguém emagreceu eu digo alguma coisa de estar mais bonita ou não por causa disso, porque eu acho mesmo que às vezes a pessoa até emagreceu e não está melhor mentalmente. E muita gente diz isso e depois a pessoa fica mesmo mal psicologicamente, pensa assim: "Eu estou-me a sentir uma merda, mas estou magra".
Ainda bem que eu agora estou num ponto confortável, porque eu quando acabei a minha relação, eu durante uma semana e tal não conseguia comer. Eu perdi quatro quilos e eu fui para Ibiza na altura com a Glória na despedida de solteira, eu estava o mais magra que estive recentemente. Já voltei a engordar esse peso porque foi só não comer.
É normal ficares assim.
Eu também.
Recebi imensos comentários na altura. "Ai, estás tão bonita", não sei o quê
E eu a pensar: eu não estou a comer. Se vocês soubessem que eu estou de má disposta constantemente.
Lá está, é aquela cena das pessoas acharem que nós magras não comemos bem.
Eu nunca fico magra, porque eu sou gorda.
Eu quero ser magra também.
Mas foi na pior fase, foi quando fui sozinha uma semana lá para Mafra, para o Doma. Também era uma fase que eu estava mal.
E eu quando não estou bem, também não como.
Estavas meio que a acabar a relação. Não estava com ele.
As pessoas a achar que estávamos superbem e tudo a correr.
Superbem, não, eu simplesmente descarregava tudo que tinha, ia ao ginásio e a treinar e apanhar sol e ficar muito bronzeada.
Pronto, mas andas bem.
Parece que estás incrível e não estás, mentalmente.
Por isso é que não podemos olhar para as redes e achar que dá para comparar.
Mas eu acho que isto da medicação, imagina, eu acho que uma pessoa obesa, que já fez mil dietas e que não quer ir à faca, não quer fazer uma cirurgia, mas precisa de um estímulo, eu até entendo. Ok, vai tomar aquilo, que aquilo vai lhe dar resultados mais rápidos e depois eu me controlo.
Eu acho que o principal problema é que quem toma isto não está a fazer uma reeducação alimentar.
Pois não.
O que acontece é que vão ter de tomar a vida toda para conseguir continuar a ter estes resultados, porque mal deixem de tomar, e isso já aconteceu em vários casos, volta, porque aquilo corta-te a fome. Se tu deixas de tomar, tu voltas a ter fome normal. É como na fase em que eu não comia, depois voltei a engordar o mesmo peso, porque voltei a comer. É tão simples quanto isso.
E aquilo deve desacelerar o metabolismo. Ou seja, tu se calhar ainda vais engordar mais, porque quanto menos ingeres, quanto menos calorias metes no teu corpo, o teu metabolismo vai abrandando. Por isso é que a gente come tão pouco e basta aumentar umas 200 calorias por dia e engorda muito fácil, enquanto há pessoas que até comem muito e não engordam facilmente, porque o teu metabolismo vai desacelerando. Eu acho que isso com o Mounjar, se comem muito pouco, depois quando tiram o Mounjar, têm a fome e o metabolismo ainda por cima está mais lento.
E ainda não sabemos os efeitos que aquilo vai ter, porque nós estamos a falar de uma coisa que está a ser testada agora, aquilo pode ter efeitos a longo prazo.
Tu estás a comer pouquíssimas calorias, então também estás a perder músculo. E não tens força suficiente, não vais ao ginásio, então também não estás a conseguir reconstruir a massa muscular e de repente estás a perder as duas. E ficas com aquela cara escorrida, que se nota.
Branca, seca, pálida. Eu tenho uma rapariga que foi comigo agora à Tailândia, que ela é nutricionista, e ela contou-me de imensa gente que anda a tomar o medicamento, mas que depois aquilo que come durante é tipo um KitKat, umas Oreo. E é isto a alimentação deles, estão magros, mas estão completamente sem saúde nenhuma.
Normalmente o KitKat é um complemento a toda a tua alimentação diária, ou seja, excedeste-te pelo KitKat. Agora não, não comem nada, comem o KitKat e depois emagrecem.
E aí podes comer tudo e estar magra.
KitKat são 100 calorias no dia. Se tu comeres dois KitKats ou três, podes comer o que tu quiseres.
Outra vez, um amigo meu que começou a tomar uma segunda-feira, chegou à quinta-feira e disse-me: "Olha, a única coisa que eu comi esta semana foi uma banana, porque eu não consegui comer mais nada". Segunda a quinta.
Como é que há energia?
Juro.
Ele estava em jejum puro.
Jejum de quatro dias. Não é possível estar sem comer.
Como é que estava a cara dele?
Branca, de certeza.
Ele perdeu logo muito peso logo nesses dias, não é?
Isso não é saudável, tudo cai muito rápido.
E perdes água, perdes tudo.
E depois outra coisa, eu acho que há pessoal que não faz a dosagem certa, toma mais para ter efeito mais rápido, porque depois aquilo as pessoas tomam por sua conta, não vão ao médico.
Mas vocês costumam compensar na comida quando hormonalmente, emocionalmente têm essa tendência?
Já compensei muito.
Imagina, eu como não tomo a pílula, eu cada vez mais percebo melhor o meu ciclo e sei quando é que me apetece doce e quando estou com TPM preciso mesmo de comer um docinho.
Eu sempre tive uma má relação com a comida. Pronto, que eu já fui gordinha em criança, mas eu achava que tinha episódios de compulsão alimentar e realmente eu acho que tenho, mas depois eu ouço as histórias das outras pessoas e são tipo hardcore comparado com as minhas. Porque a minha compulsão alimentar não é pegar numa tablete de chocolate e um pacote de Oreos e comer tudo. Era exceder-me na comida até saudável, era compulsão alimentar com comida saudável. Não consegui parar de comer.
Quantidades.
Eu adoro quantidade.
É quantidade, parece que tem um buraco negro.
Imagina, eu odeio pôr uma travessa na mesa, porque eu sei que enquanto tiver comida na travessa, eu vou estar sempre a picar as batatas, o que for.
Sempre me fascinou amigas.
Só comem o que está no prato.
Não, está no prato e depois, às vezes, estão a terminar, deixam um pedacinho de carne.
Eu não consigo deixar nada.
Quando me deixam pedacinho de carne, um pedacinho de arroz, um pedacinho de legumes, eu assim: "Mas isto não te cabe no estômago? Porque é que deixas um pedacinho de cada treta?" Aquilo para mim era tipo envia para frente.
Eu também, mas eu adoro comer. Eu gosto mesmo de estar sentada à mesa.
Então se a comida me está a saber bem, esquece.
Um cesto de pão e broa e queijo ao lado, esquece, eu não consigo, eu vou comer enquanto aquilo estiver ali. Mas depois eu penso: "Se eu treinar, eu compenso."
Eu faço um esforço para parar.
Eu também.
Imagina, estou a adorar a broa.
Sempre gosto, mas eu não acho que isso seja compulsão alimentar. E eu sei que se quiser mesmo, não é aquilo que eu poderia atacar a porcaria.
Compulsão tu comes coisas que sabes que te fazem mal até te sentires mal disposta. E um sentimento de culpa absurdo.
Eu só fico aquela coisa de-
Deves ser horrível comer às escondidas.
Pois, também as anorexias e não sei o quê.
Mas às vezes comer às escondidas, mas coisas às vezes que não eram não saudáveis, é comer por comer.
A minha compulsão, quando eu estava em Lisboa, tinha imensos episódios que era mandar vir, mandava vir McDonald's, não estava satisfeita, mandava vir um gelado do outro lado, não estava satisfeita, mandava vir chocolates do outro lado.
Não, isso nunca me aconteceu.
Até comer uma quantidade absurda de calorias, para ficar com uma dor de barriga horrível e eu sentir-me mal comigo. Horrível.
Imagino.
E por acaso no outro dia até estava a falar com uma amiga minha a dizer: "Já não tinha episódios de compulsão há muito tempo e tive agora, na semana passada, um", e estava-lhe a dizer que mandei vir um hambúrguer, não sei o quê. E ela: "Mariana, isso é só normal."
Pois, isso não é compulsão.
Isso não é compulsão, mas na minha cabeça eu andar assim, mandar vir para casa uma coisa que não seja saudável, é estar a ter compulsão, mas não, eu só comi uma hambúrguer e batatas fritas. É normal.
É normal e está tudo bem.
Mas na minha cabeça ainda é difícil desligar dessa realidade.
Não, para mim é isso de eu estar num estado e ter que fazer um esforço para parar. Imagina que adorei uma fatia de bolo. Tenho um bolo ali. Adorei a fatia de bolo. Eia, apece-me continuar a comer. Comi aquela fatia, quero mais.
Mas isso também é o açúcar, que é um vício que é difícil.
E tu ficas assim: "Como mais uma, não como mais uma?" Ficas ali naquela batalha. É que eu no Gather, todos os dias tenho essa luta comigo, que é: como um biscoito, como ou não como? Como ou não como? Como ou não como? E estou sempre vou, não vou, vou, não vou. E todos os dias que saio de lá e não como, penso: é uma vitória, mas eu não acho que isto seja uma compulsão.
Estás ali no meio.
É isso, aquilo é bom, eu já sei que aquilo é bom, eu gosto de doces, sempre fui gulosa, sempre fui comilona.
Sim, mas eu não sou adepta de que tens que cortar o açúcar para dar aí.
Não, de todo. Eu acho que nós temos que ser equilibrados e eu acho que nós somos pessoas com uma vida ativa.
Sabes em que eu tive a melhor forma física? Foi quando eu era equilibrada. Até quando tu cortas tudo, depois vais compensar de alguma maneira.
Claro que vais.
Estás tão a: "Não posso comer este grupo alimentar". Compensas noutras cenas, até se calhar o teu corpo inflama só por si. Eu acredito mesmo nisso. Quando estás mais saudável mentalmente, libertas-te disso e até comes mais controlada. Se eu posso comer massa, até vais comer menos, porque sabes que podes. Agora, se não comeres, não comes a massa, mas depois vais compensar noutro lado.
Muitas vezes é isso, sabes que não posso, então isso depois põe-te mais pressão. Mas eu uma altura em que eu passei todas as fases também, que eu também já fui gordinha, depois emagreci muito, depois entrei na fase de extremista, que toda a gente passa também um bocado, que era eu não comia glúten, eu não comia fritos, eu não comia açúcar, eu não bebia álcool. Carne, peixe, mas depois estava a ficar insuportável. Primeiro eu estava magra, eu estava com menos 5 kg do que tenho agora, estava a pesar 47 quilos. Mas a minha mãe dizia-me, eu: "Não, eu estou ótima". E agora quando vou ver fotos, eu estava mesmo magra. Mas na altura eu era: "Ai, não, eu não vou jantar convosco. Eu não como glúten porque faz mal. Eu não bebo álcool, não bebo um copinho porque faz mal". E depois fazia as outras pessoas quase se sentirem mal com as minhas decisões. Pronto, e depois passado um tempo pensei: isto não é ser feliz, porque eu não vou a lado nenhum. Estou tão obcecada com isto, eu posso engordar dois ou três quilos e permitir-me viver.
Tu pões o que vais comer à frente de tudo.
Que nem faz sentido.
O relacionamento foi sempre a tua vida, já foi supercente na minha vida.
Num extremo como no outro, quando eu estava na fase mais de compulsão, eu se era convidada para ir a um restaurante, eu ia ver o menu, ver tudo, contar as calorias.
Eu pensava: "Vou comer a sopa em casa e depois lá já o pessoal come qualquer coisa."
Houve uma altura da minha vida que eu já pensei em comodar desculpas porque eu não queria ir.
Era como eu.
Estar naquela interação social em que depois toda a gente queria pedir. Imagina, quando era um restaurante francinho, e eu assim: "E agora o que é que eu vou comer?"
E depois se eu pedir um bife...
E se eu pedir um bife, eles vão dizer isso a todos. Vão gozar.
Enfim, já todas passamos por essas fases.
É horrível.
Mas não é nada bom ser extremista, e ainda há muita gente extremista. Eu agora entendo mesmo que isso não te leva a lado nenhum. Eu acho que o equilíbrio dá para tudo.
Mas para mim foi o desporto que salvou nisso.
Como eu.
Que me ajudou a equilibrar.
E a perceber que dá para tudo.
E eu sinto que a minha alimentação, eu consigo comer de tudo porque treino.
E gostas de comida saudável, e de vez em quando também sabe bem.
Eu gosto mais de comida saudável. Eu agora prefiro muito mais às vezes um bolo, aliás, prefiro mesmo, do que um bolo saudável feito com ingredientes de confeitaria.
Eu também.
Eu acho que nesta sociedade é difícil tu teres essas opções.
Mas agora com esses sítios de brunch e assim há mais.
Mas é difícil. Por exemplo, eu tenho uma vida que tenho muitos planos sociais e para mim ainda é muito difícil lidar. Eu consigo estar constantemente em manutenção, não estar a ganhar peso, porque eu treino muito, porque o meu estilo de vida é comer praticamente todas as vezes fora de casa.
Isso faz toda a diferença.
É horrível.
E o objetivo dos sítios, dos restaurantes, é fazer bom.
É ser bom. Nunca é comer saudável como em casa.
Sim, nós tivemos esta conversa lá quando fomos almoçar. Que é, por mais que estejas verde...
Imagina o Gather é saudável, mas imagina a tosta no Gather passa por azeite antes e não sei o quê, que eu em casa não faço, é mais saudável do que McDonald's, sem dúvida, mas é mais calórico.
Pois é isso, o que é que é saudável, o que é que é calórico?
Podes fazer aquele balanço das pessoas sentirem que estão a comer minimamente saudável, mas também, mas olha, mas é bom.
É isso, claro. Nós temos que ser ativas e se formos ativas dá para comer um bocadinho de tudo. Acho que é essa a base, não é?
Mas eu estou agora a passar um bocadinho pela fase de tentar também ter noção de macros que estou a comer, porque eu sinto que não tenho muita noção.
Mas é importante para os treinos, porque estás com muito reforço de treino e precisas mesmo de te alimentar com muita proteína, muitos hidratos, muita gordura. Tu tens nutri?
Já tive vários nutricionistas.
Não, eu não sou nutricionista, eu sou só nutri de nome.
Nutri de nome.
Tens nutri e tens aqui.
Não, porque eu quando fui para a maratona, foi a única vez na minha vida que eu senti mesmo que eu precisava que alguém me dissesse as quantidades que eu tinha que comer. Eu tinha que comer 200 g de tofu em todas as refeições.
Eu tenho um bocado medo, porque como eu já estive nesses loops.
Pois, eu percebo.
Eu já estive em vários nutricionistas e que depois aquilo gera-me ansiedade por ter de cumprir um plano.
Eu odiei quando tentava pesar comida para mim. Sentes-te outra vez como as dietas que tens que comer só de uma marca, estás ali limitada. Eu tenho mais ou menos noção das quantidades. Se for para competição, acredito que é melhor fazeres isso.
Olha, mas estamos a gravar e estás aí a parar o episódio a meio.
Hã?
Já estamos a gravar há muito tempo, amiga.
Hã? Não estamos a gravar.
Nós estamos há 17 minutos a conversar. E tu estás aí a meio do episódio.
Não fazia a mínima ideia.
O quê?
Nós não sabíamos que estávamos a gravar?
Puxa a micro.
Eu por acaso era para te dizer: "Não vamos começar nunca mais."
Nós já estamos há 17 minutos.
É que ela disse: "Vou buscar água", e também acabou a minha água. Desculpem, não percebi. Mas tu disseste, tu avisaste-nos?
Não.
Nós estivemos aqui a falar.
Olha, que boas ainda. Ainda bem que agora já percebi.
Vou beber água.
E eu a vê-la a levantar-se a meio do episódio, eu: "Olha que essa vai..." A meio do episódio.
Mas assim foi bom, que eu estava mais descontraída.
Bea, ficou engraçado. Ficou muito engraçado. E trazemos de volta para este episódio a About You, uma das maiores plataformas, lojas online de roupa, porque tem mais de 1500 marcas, montes de opções diferentes e faz todo sentido estar a juntar a este episódio, quando se pensarmos bem, o resumo desta conversa é muito à volta de construirmos a nossa confiança e com base nisso somos capazes de tudo, até acabar relacionamentos de oito anos em que parece que estamos completamente lá enfiados e é possível dar a volta. E a confiança transmite-se através da forma como cuidamos do nosso corpo, que nós as três falamos muito disso, do movimento, do exercício, do comer bem, mas também da forma como nós nos apresentamos. E eu acho que isto vem mesmo com o processo de desenvolvimento pessoal, de encontrarmos o nosso caminho, encontrarmos o nosso estilo e depois de estarmos lá, a forma como nós nos mostramos ao mundo vai ter um impacto gigante, porque vamos nos sentir bem e vamos passar aos outros essa energia. E eu acho que a moda tem muito mais a ver com isso, com a forma como tu te sentes do que propriamente aquilo que é para os outros. A About You é uma plataforma que tem um monte de marcas diferentes, seja roupa de esporte, roupa casual, roupa para casamentos. Eu acabo por usar muito, até nestas fases em que agora começam a surgir muitos casamentos. Tem imensas opções diferentes e ajuda principalmente o fato de ter devoluções gratuitas em que podemos mandar vir pra casa, estamos em casa confortáveis, mandamos vir e depois podemos experimentar no conforto da nossa casa, que eu adoro isso, detesto ir para shoppings. Podemos experimentar em casa, devolver gratuitamente e facilita todo o processo. Outra coisa muito fixe é os pagamentos, que também são superfacilitados na About You. Temos a Klarna, que acaba por facilitar com pagamentos a 30 dias ou pagamentos à cobrança ou pagamentos em prestações e portanto, acaba por ajudar muito. Se não conhecem a plataforma, convido-vos a ir ver porque vale mesmo a pena e tem mesmo opções para literal todas as ocasiões e todos os gostos. Tenho também um código de desconto que é AMIGA20, tudo em caps lock. Eu vou deixar aqui no ecrã também e fica na descrição todas as informações com o link direto também para poderem ir espreitar e também para estarem a par de timings das promoções e qual é o código certinho. Portanto, se nunca conheceram esta plataforma, acho que vão gostar e que vai facilitar, seja a fase em que estiverem. Portanto, fica aqui a recomendação.
Também achei que o tema do podcast não ia ter nada a ver com alimentação. Eu realmente quero aprofundar mesmo este tema. Mas eu tipo, pronto, vamos continuar. Está tanto tempo a falar sobre isso.
Sim, mas a verdade é que o tema do episódio não é este.
Todas nos roçamos.
Mas é isso. É isso, porque acho que é um tema que também nós temos em comum.
Agora estou a tentar pensar em tudo que eu disse ou não disse.
Já agora esquece. Só disseste coisas interessantes.
Não, foi superinteressante.
Superinteressante.
Super relevável. Porque amizades e idade adulta, que eu queria também entrar por aí no início, é muito isto. É encontrar pontos em comum, que se calhar é muito mais fácil do que te identificares do que amizades de sempre. Nós conhecemo-nos também muito por causa do desporto, da alimentação.
Eu acho que as minhas amizades mudaram muito nos últimos anos, que tem mesmo a ver com isso. É atrair pessoas, para mim, que gostam de mais ou menos o mesmo estilo de vida que eu e manter as amizades que tinha antes, mas muitas delas também sinto. Primeiro, que às vezes não compreendem e se calhar até julgam um bocadinho, tipo: "Esta agora só pensa em desporto, em alimentação saudável, whatever". E, por outro lado, às vezes também sinto que os temas que hoje em dia tenho para falar com pessoas que conheço há 20 ou há 25 anos, já é um bocado estranho. Então tenho muitas amizades recentes, mas que adoro estar e que até estou super confortável, porque sinto que estamos alinhados naquilo que é o nosso modo de vida.
Mas como é que foste conhecendo essas pessoas? Foi digital também?
Olha, sei lá, imagina. A corrida, sem dúvida que trouxe muita gente. O ginásio, depois acabas por conhecer uma ou outra pessoa, mas foi a corrida, porque a minha PT, eu desafiei para fazer uma meia maratona comigo, que eu nunca tinha feito nenhuma e ela já tinha feito uma. Entretanto, ela chamou mais uma outra amiga, decidimos criar o Run Club. Aí entrou muita gente nova na minha vida, que hoje em dia fazem parte da minha casa e do meu dia a dia. Muito porque lá está, ao sábado encontrámo-nos, estávamos ali todos. Depois apanhamos uma fase, que foi também a fase em que eu me divorciei, que muita gente apareceu ao Run Club, porque ou estavam a separar ou estavam solteiras.
Identificavam-se, é sério?
Super.
Que giro!
E já tenho casais que surgiram no meu Run Club. E bebés! Juro.
Que giro. Por acaso, a seguir vou conversar com a Mia do Ken também. E ela também tem imensos testemunhos de casais que se formaram no Run Club. Acho giríssimo.
Imagina, antes as pessoas tinham que ir se calhar para uma discoteca ou algo do gênero para se conhecer. Agora têm um evento social e vais encontrar provavelmente uma pessoa que tem os mesmos interesses que tu.
Pelo menos um ponto em comum.
Pelo menos um ponto. Exatamente, então é muito mais fácil. Eu acho que isso das amizades em vida adulta, acho que acontece muito de forma natural, porque se tu fores sentindo: "Olha, adoro estar com esta pessoa, apetece-me marcar outra coisa." Muitas das amizades que eu fui construindo ao longo destes dois anos são alunas minhas, das aulas de pilates, porque são pessoas realmente que também valorizam o movimento, gostam desse tipo de planos e tu vais encontrando pontos em comum. Então acho que é um bocadinho isso que aconteceu.
Já não é como aquelas amizades de antigamente em que tu estavas na escola e tinhas que conviver com aquelas pessoas.
Um bocado forçadas. É só do género, quero ter amigos.
Nem sabias quem eras. Estavas te a conhecer a ti, então também não sabes aquilo que-
E depois também num centro em que naturalmente foram saindo da nossa vida. Depois se calhar querias marcar, mas era sempre muito difícil, porque não tens tanta vontade.
Não faz parte do teu dia a dia.
Não faz parte do teu dia a dia, sim.
E mesmo pessoas, por exemplo, que trabalhem por conta própria, eu sinto que é mais fácil de manter uma amizade mais recorrente, porque consegues combinar durante o dia, por exemplo, ir trabalhar para algum lado.
Tem outros horários, outras disponibilidades.
Foi se calhar um bocadinho isso também que aconteceu conosco. Marcamos a meio da tarde ou um almoço que às vezes as pessoas também não conseguem no seu dia a dia.
Nós marcamos tipo um almoço.
Mas foi almoço. Não, foi um café até de manhã ou assim, ou a meio da tarde. Eu acho que isso é incrível. Eu adoro isto, todos os dias serem diferentes e tipo, hoje posso ir almoçar, amanhã até tenho amanhã livre.
E às vezes trabalhas mais horas que uma pessoa normal, mas ao menos tens essa, sentes que tens mais flexibilidade.
Imagina, é o que eu digo, não trabalho menos, se calhar até trabalho mais horas, mas a forma como eu faço a gestão das minhas horas permite-me, se calhar, olha, ir uma hora à praia porque estava bom tempo, então até vou tirar uma hora de almoço ou de manhã. Isso é muito fixe na questão de trabalhar por conta própria.
E a última vez que nós estivemos juntas, fomos almoçar e de repente tínhamos as três meio que
Quando é que foi? Lembram-se?
Foi em julho.
Foi em julho.
Foi em julho? Ok, portanto sabes bem.
Era eu e a Márcia: "Mãe, eu acabei minha relação", e tu a contares-nos: "Divorciei-me".
Já me divorciar, já te ouvir contar a história toda.
Sim, mas eu não sabia esse lado teu e eu também a contar que tinha acabado uma relação. Portanto, de repente estamos ali.
Foi muito giro.
Terapia.
Terapia.
Terapia total.
E isso é outra coisa que eu também acho. Eu acho que, às vezes, quando tu não conheces as pessoas de há muito tempo, parece que tens mais facilidade em falar sobre a tua vida do que às vezes amizades antigas, em que parece que tu estás com vergonha de partilhar e se calhar com vocês, não vos conheço assim há tanto tempo e partilho facilmente, porque acho que há um alinhamento.
E também no meu caso, é porque senti que vocês também me iam compreender e que eu também vos ia compreender, porque estávamos muito, apesar de isto ser um divórcio, se calhar ser uma relação mais curta ou mais longa, não interessa, mas estávamos todas minimamente sabendo mais ou menos o sentimento umas das outras. E senti mesmo que estava num espaço seguro pra falar, porque não é com qualquer pessoa que eu vou falar. Aliás, às vezes nem apetece, não é? Quando estamos nestas fases.
Tens de sentir abertura pra isso.
Sim. E eu ali senti que a conversa fluiu supernatural e senti que tudo que eu fosse dizer, vocês iam acolher e perceber.
Mas quando é que tu te divorciaste? Foi há quanto tempo?
Eu já me divorciei há três anos. Não, vai fazer quatro anos agora no início do próximo ano.
Já foi há bastante tempo.
Já. A relação foi longa, que foi o que eu vos disse, foram 12 anos, 11 a vivermos juntos. Hoje em dia somos amigos. Ele vive no Algarve, eventualmente agora até está em Lisboa, não sei. Mas pronto, foi uma pessoa que passou pela minha vida, que foi muito importante, teve um papel essencial. Eu guardo mesmo as melhores memórias. Acho que eventualmente, que é um trabalho que também tenho feito agora mais recentemente, se calhar até foi a única pessoa, o único namorado, que eu amei na minha vida, porque semana passada eu fui a uma psicóloga nova e adorei uma coisa que ela me disse, que foi: "O amor é leve, é paz, é tranquilidade, é serenidade. Se o amor te dá apertos no peito, ansiedade, sofrimento, não é amor." Depois ela virou-se para mim e perguntou: "Regina, já amaste alguém? Eu tenho dúvidas." E eu fiquei a olhar pra ela. "Não, o Gonçalo amei, amei mesmo", porque os primeiros anos da nossa vida, os primeiros e bastantes anos, foram mesmo felizes. Só que o que eu acho que aconteceu no nosso caso, que até já partilhei, é que começamos a namorar aos 21 anos, eu tenho 35.
Puxeram pra lados diferentes.
É isso, objetivos de vida diferentes. Ainda era muito nova, achava que já era superadulta, mas ainda era muito nova, ainda estava a perceber o que eu gostava. Essa Regina com 21 anos não fazia esporte, não comia saudável, só queria sair à noite e beber copos. E está tudo bem, eu adorei isso e de vez em quando gosto de o fazer. Mas depois, entretanto, nós crescemos, amadurecemos e acho que os objetivos de vida vão mudando e pronto. E chega uma altura que é muito difícil terminar, ainda por cima eu divorciei meio ano depois de casar.
Pois é, isso era o que eu te queria perguntar, quão difícil é tu saíres de uma coisa que já está há tantos anos, e mais um casamento, e mais junto à família. Expectativas.
É difícil, foi muito difícil. Eu acho que o mais difícil foi pensar naquilo que os meus pais iam sofrer, porque os meus pais são muito católicos, gostam muito do Gonçalo e sabia que pra eles era o desmoronar de um sonho, como também era pra mim. Mas sendo muito sincera, o meu coração deixou de amar. Então a partir do momento que deixa de amar, por mais que eu quisesse forçar, ainda tentei forçar um bocadinho, eu percebi que já não estava feliz ali. E também já estava numa fase de maturidade e de crescimento e desenvolvimento pessoal que sabia que eu sou a pessoa mais importante da minha vida e se eu não estou bem, eu nunca vou fazer outra pessoa feliz.
No fundo, escolheste a ti também.
É isso. E ele também não estava bem e se calhar ao início ele não compreendeu isso tão bem, mas hoje em dia tenho a certeza, e já tivemos essa conversa os dois, que ele também sabe hoje em dia que nós já não estávamos bem. Nós éramos mais amigos do que propriamente namorados.
Mas é porque tiveste muita confiança em ti e chegaste a um ponto em que estás confortável em tomar uma decisão dessa, porque certeza que também tinhas medos de: "Mas eu não vou encontrar mais ninguém."
Sem dúvida, e continuo a tê-los, até porque a vida vai continuando e eu tenho 35 anos, eventualmente, porque estas coisas vêm à nossa cabeça, se quiser ser mãe, se quiser construir uma família. Eu tinha tudo lá. Eu supostamente estava a seguir aquilo que é-
Pois é, aí o relógio biológico.
Sim, eu estava a seguir aquilo que é a tradição, aquilo que é suposto fazer, apesar de que eu acho que hoje em dia o suposto é o que te faz feliz. Imagina, eu logo após casar, eu tinha a família toda a perguntar: "E então, estás grávida? Quando é que vem o bebê?" E nós, por acaso, nem sequer estávamos a pensar nisso na altura. Mas, sei lá, eu hoje em dia acho que se antigamente eu até achava que seguir esse caminho é que é o certo, hoje em dia eu estou tão contente por me ter escolhido a mim e por ter tido coragem de sair de uma coisa que já não me fazia bem, que é o que é. Agora, claro que foi superduro e eu antes de o fazer, fui passar um fim de semana com as minhas amigas a Barcelona, com o meu núcleo forte, em que lhes contei tudo, expliquei-lhes exatamente o que é que estava a passar. E eu não sei, se eu não tivesse ido nesse fim de semana, como é que teriam sido as coisas, porque foi um fim de semana em que eu tive 48 horas com elas e elas a ajudarem-me a ganhar coragem de chegar a casa e separar-me. E foi o que aconteceu. Eu cheguei de Barcelona e tive a conversa com o Gonçalo. E foi muito porque tive as minhas amigas ali a apoiar-me e a mostrarem-me que a vida continua.
É bem importante o núcleo nessas fases.
É, e eu nunca tive medo de dizer: "Olhem, eu estou mal", que era uma coisa que há uns anos eu tinha muita dificuldade em assumir o fracasso ou a tristeza. Eu hoje em dia não, se não estiver bem, e se tu me perguntares: "Está tudo bem?" Se eu não estiver bem, eu vou dizer: "Não, não está tudo bem." E na altura, quando isto aconteceu, eu mandei mensagem pra algumas pessoas a dizer: "Olhem, isto está a acontecer. Eu casei há meio ano, eu sou conhecida, entre aspas, o que eu vou fazer à minha vida? Como é que eu vou lidar com isto? Porque eu já não consigo mais estar aqui." E falar com as pessoas e partilhar.
Mas tu falavas com ele sobre isso?
Com o Gonçalo? Não, sim, falei. Antes de nos separarmos, nós falamos. Nós ainda tomamos a decisão de fazer terapia de casal, ou eu sugeri um bocadinho isso, primeiro dele fazer terapia sozinho, depois fazermos de casal. Ele eventualmente achava que eu não tinha coragem para sair dali. Por mais que ele até tivesse vontade, ele nunca tomou a decisão. Eu estimulava-o, mas ele nunca o fez. E depois eu também senti que andava ali atrás de alguma coisa que eu já não tinha força para lutar sozinha. E acabamos por não fazer terapia de casal e separamo-nos ainda uns meses antes de nos divorciarmos. E lembro-me mesmo bem, porque nós estivemos dois meses sem nos ver e depois eu fui a Lisboa ter com ele. Bem, eu não sei se ele me vai matar por contar isto, portanto, Gonçalo, desculpa. E fomos almoçar, que foi a última vez que estivemos assim os dois. Ele trouxe-me um ramo de flores, eu lembro-me perfeitamente, e o meu coração não sentiu nada. Eu lembro-me de chegar ao pé dele, estar nervosa, por ser tipo date, o primeiro date após tantos anos. E eu senti um carinho muito grande, mas o meu coração não bateu e eu percebi: não vale a pena, já não é isto. E é assim. Mas desejo que ele seja muito feliz mesmo, que ele merece. E quem o encontrar vai ser muito feliz também.
E tu também vais encontrar.
Exatamente, eu também hei de encontrar a minha pessoa.
Estás solteira?
Estou solteira. Oficialmente e nos ouvidos de ninguém. Estou solteira há duas semanas.
Não acredito.
Revelação do episódio, estou chocada!
Também não sei se vinha preparada para partilhar isto.
Depois de tudo que nós já partilhamos, já nada me choca, vou-te dizer.
É verdade, estou solteira.
Verdade.
Na altura do nosso almoço eu estava a namorar.
Então, na altura do nosso almoço estavas a namorar. A Marta tinha acabado de sair de um relacionamento.
Tu também?
Já tinha saído há uns meses.
Agora estás grávida.
Agora estou grávida.
E a vida muda.
A vida muda muito rápido e às vezes de forma inesperada.
E como é que estás neste momento? Como é que te sentes?
Agora estou mais estável. Não vou dizer que está a ser um ano fácil, está a ser um ano muito transformador na minha vida. E eu não me casei, mas estive noiva. Estive num relacionamento durante oito anos, que terminou este ano. Agora estou noutro relacionamento e estou grávida desse relacionamento. Por isso, para a minha cabecinha, eu até me considero uma pessoa muito estável e acho que se não o fosse, estaria a ser um ano ainda mais difícil do que se caso está a ser. Está a ser um ano feliz, mas difícil. Mas é isso, é muita coisa para processar. Há dias que a pessoa está melhor, há dias que a pessoa está pior. Também estou grávida, por isso deve também ter a ver com as hormonas. As hormonas também não estão no sítio certo. Estão no sítio certo. Estão aqui desreguladas. Todos os dias é uma nova emoção. Todos os dias é uma nova emoção.
Mas também te custou muito a sair, porque acredito eu, são oito anos, é muito tempo.
Sim, foi um casamento.
Não é um casamento, mas é quase.
Tenho muito carinho pela pessoa com que eu estive. Vivemos momentos muito felizes, viajamos muito. Eu não falo assim imenso, mas tenho muito carinho e muitas vezes penso nisso. Mas é isso. Chega um momento que às vezes acordas e as coisas já estão desalinhadas, porque também parece que eu comecei no início da faculdade. Depois a minha vida mudou muito. Primeiro eu tirei Gestão, depois tirei pós-graduação em Marketing, depois mudei a minha vida 360, fui para o mundo do movimento, do pilates, do bem-estar. Mudou muita coisa. E às vezes os relacionamentos não seguem o mesmo caminho. E havia ali qualquer coisa que não estava certa. Havia momentos melhores, havia momentos em que a incerteza voltava, mas eram tantos dias assim, que a pessoa às vezes pensa: "Oh pá, já não tenho vontade de lutar".
E onde é que foste buscar essa coragem de acabar? Porque também acredito que tenha sido difícil.
Foi muito difícil.
Moram juntos, é família.
Estavam noivos também.
E mesmo sem filtros, às vezes o que te dá força para saíres de um relacionamento é começares a ver que te despertam interesse outras pessoas. E eu sempre fui fiel, leal. Agora, quando já começas a olhar um bocadinho para o lado, não é saudável, e eu percebi logo isso. E tentei logo, quase desde o início, a pessoa até ficou apanhada de surpresa, como é óbvio, eu também ficaria e sofreria muito, e sofri de uma maneira diferente. Sofri do lado de quem está a terminar um relacionamento, mas quando tu começas a ter interesse por outras pessoas ou a sentir alguma coisa.
Atração.
Acho que é um sinal e muita gente às vezes não tem coragem de dizer isto, mas acredito que já tive conversas com uma amiga e nós sabemos disso.
Sim, é verdade. Eu durante 11 anos, eu nunca olhei para nenhum rapaz. Nunca olhei com interesse nada.
E lutas, e esforças.
E houve um dia que eu olhei para um amigo meu, que era nosso amigo, que fazia parte da nossa vida, e que olhei de forma diferente. E eu pensei: "Isto não é normal, não devia sentir isto, alguma coisa aqui não está certa".
E isso nem é sobre outra pessoa. Isso é alguma coisa que está errada no vosso relacionamento.
E eu tentei dizer à pessoa na altura, e isto parece clichê, mas é tão verdade: não é contigo.
Mas tu sou eu. Somos nós, é nós a lutar.
É difícil.
O amor é assim.
E ver a pessoa ali a sofrer ou a chorar e eu também não querer magoar. E queres também se calhar ser um bocadinho fria para não deixar extrapolar as emoções. É muito difícil, mas eu se calhar, e claro que não foi vai e volta na relação, mas de sentimentos. É isso. Já estava noiva. Conhecíamos as famílias uns dos outros. Tínhamos uma vida feita, vivíamos juntos.
É o conforto também. Estás com aquilo tudo planeado. Tens o caminho.
A tua vida vira do avesso, porque tu estás habituada a viver com aquela pessoa, a teres as rotinas com a pessoa, a viajar com a pessoa, a ir jantar com a pessoa e de repente estás por ti. E é isso.
E não acham que ajuda? Eu sinto que as vossas histórias são um bocadinho parecidas.
Por acaso é engraçado.
São um bocadinho.
Ajuda vocês gostarem do que fazem, terem encontrado o vosso caminho?
Ajuda muito o trabalho.
Independente financeiramente.
O trabalho é o meu escape, sem dúvida. O trabalho ocupa a cabeça.
Gostarem daquilo que fazem.
Exatamente.
E terem o movimento também como desforramento.
O desporto foi terapia, o trabalho foi o escape, completamente.
Porque ao menos tens alguma coisa para acordar e lutar por algo. É uma força.
Mas eu acredito que quem esteja num relacionamento assim, de longa duração, que queira terminar, sente-se descontente, mas ao mesmo tempo, no resto da vida também não gosta.
Deve ser muito mais difícil.
Não gosta do que faz, não tem o sistema de apoio.
E muitas vezes não tens apoio. Imagina, família, por mais que tenha custado aos meus pais, na reta final, o que eles queriam era que eu estivesse bem e feliz. Portanto, foi difícil comunicar-lhes, mas depois tive o apoio deles. Tens o apoio dos teus pais, da tua família.
Faz toda a diferença. Mas não te sentes sozinha. Apesar de estares a ficar sozinha, não te sentes sozinha.
Mas a vida muda muito.
Tens para onde ir.
Muda muito, porque já estás habituada a viver com aquela pessoa. Eu acho que muitas vezes o mais difícil até é o quebrar a rotina. E eu acho que isso em todos os relacionamentos.
Vocês sentiam-se muito sozinhas no início?
Eu não, porque eu sempre gostei. Imagina, eu e o Gonçalo, eu também acho que nós funcionamos super bem, porque nós sempre tivemos a nossa independência. Sempre fizemos questão de termos a nossa vida os dois, mas cada um tinha a sua vida. Eu ia na mesma jantar com as minhas amigas, eu viajava sozinha com as minhas amigas. Eu fazia outras coisas. E na verdade, no meu caso, até pode soar um bocadinho mal dizer isto, eu sofri, claro que sofri, mas não foi assim tão difícil para mim a separação, porque eu também estava a precisar de viver. E eu já estava há 12 anos com a mesma pessoa e eu também quis ir viver, ir para a Ásia três meses. Eventualmente estava a fugir de alguma coisa, não sei, mas não me custou assim tanto porque eu estava mesmo com aquela sede, eu agora fiz isto, mas eu agora quero é viver a vida.
E foi uma decisão que não é um dia e no dia a seguir faço. Ficas ali tanto tempo a pensar.
A primeira vez que eu senti foi em outubro.
É um alívio, mas depois...
Tu vais fazendo luta dentro do relacionamento, então quando acaba já não custa tanto.
Se tiveste uma força tão grande para comunicar que queres terminar o relacionamento, que tu já fizeste um processo muito grande para trás. Não sei se com os homens é igual, eu acho que isso nem é de sexos, mas às vezes dizem que as mulheres fazem o luto antes para conseguir comunicar e que depois às vezes só cais em ti passado umas semanas, quando as coisas começam a atenuar, porque no início realmente é um alívio do gênero. Está me a custar muito ver a pessoa sofrer, mas eu ao menos consegui, porque às vezes tu pensas que não vais conseguir.
Libertaste o peso que tinha aqui.
Sim. Estou livre. Não é livre, mas...
Não, é porque é aquela coisa daquele aperto que te dá no peito e aquela ansiedade que é do gênero: eu estou aqui, mas eu já não quero estar aqui, mas eu também não o quero magoar, não quero fazer as coisas mal, mas já não é aqui que eu estou.
Sim, nós estávamos em relacionamentos saudáveis, não tínhamos raiva nenhuma da pessoa.
Tem isso, se houvesse violência, coisas assim palpáveis, tu pudesse dizer.
Não podes dizer: "Acabei porque há uma traição, porque ele me tratou mal."
Por isso é que as pessoas me diziam, e por isso é que eu tive pessoas, eu acho que comentei isto convosco no almoço, que me chegaram a dizer: "Mas por que tu vais divorciar? Por que não engravidas?" E eu: "Mas por que engravidar é a solução para alguma coisa?" E há muita gente que também achava: "Mas ele não te traiu, tu não traíste, vocês estão bem."
Nós estamos habituados a estar na sociedade muito assim, a ter relacionamentos que não façam barulho.
Eu acho que nós não temos nada de estabostura na vida, não consigo estar no mais ou menos bom.
Ou estou ou não estou.
Ou estou ou não estou.
Eu também. Cada vez mais.
Até a nível profissional e tudo. Eu sei que às vezes é de um lugar de privilégio, mas eu não acho que é porque eu não estou aí para conquistar o lugar onde estou, não é que esteja em lado nenhum.
Estás, estás muito bem e tens todo o orgulho que quero.
E eu não consigo estar no mais ou menos. Eu tenho que estar a adorar o que eu estou a fazer. E na minha vida, nos relacionamentos, em tudo, eu tenho que adorar, porque se não adorar, para mim não faz sentido.
Vives as coisas superintenso, não é?
Vivo.
Acho que é assim que deve ser.
E acham que há um timing para entrar num novo relacionamento?
Achas, Mariana?
Bem, eu vou acreditar que não pela tua história, não sei.
Mas achas que tens de te sentir pronta ou é só deixar levar?
Eu sou muito do coração. Acho que é sentires o teu coração. Agora, se eu pudesse escolher, e digo isto para dar conforto também, se calhar, a algumas mulheres que possam estar a passar pelo mesmo. Se eu pudesse escolher, não teria engravidado na altura que engravidei, nem teria entrado no relacionamento na altura que entrei, porque acho que tudo leva o seu tempo, mesmo que estejas super certa terminar um relacionamento, tu precisas de tempo para processar as coisas. Eu, se calhar, não tive esse tempo todo. Estou a fazer agora este processo numa fase em que, para além disso, tenho que processar muitas outras coisas. O que eu estou a sentir por estar grávida. Agora, se puderes ter calma, mas às vezes nós não controlamos a vida. Ou tentamos e achamos que temos o controle. Eu sempre achei que tinha supercontrole, do gênero: "Eu este ano vou fazer isto, isto e isto, para chegar a isto, depois vou entrar ali, vou fazer aquilo, fazer aqueloutro." E às vezes a vida troca-te as voltas. E eu gosto muito de falar de confiança, mais direcionado ao público feminino. Nós às vezes achamos que confiança é tu sabes o que estás a fazer, vais forte, poderosa para tudo. E às vezes a confiança e tu seres confiante em ti e forte, é mesmo tu não podendo controlar o que te aconteceu na vida.
Aceitar e deixar-te levar.
E cá estamos.
E vai correr tudo bem.
Deem um desconto que as hormonas dela devem estar...
E ela faz anos hoje ainda por cima.
Pois é, ela faz anos hoje. Não, mas eu por acaso acho que não vale a pena fazer muitos planos para a vida. E falo também pela minha história e por tudo aquilo que tenho estado a viver. Também estou numa fase de mudança outra vez. Não vale a pena. Eu cada vez mais acredito, e não acreditando, quero tentar acreditar Que o que está destinado para ser nosso vai nos encontrar no tempo que tem que nos encontrar. Às vezes é saíres de uma relação e aparece logo outra, ou saíres de uma relação e passados só uns anos é que encontra. Eu acho que não há timings certos, mas acho que não temos que nos inibir de fazer nada só porque acabou. Agora eu acabei uma relação muito recentemente que não estava à espera de terminar.
E às vezes é muito mais opiniões externas, porque se está a fazer sentido para ti, se está certo, o que interessa?
Olha, tu amanhã apanhas um avião, acontece alguma coisa.
Se eu estou mais feliz com aquela pessoa do que não estar.
Essas opiniões que te entram na cabeça do que propriamente...
Eu senti que foi tudo muito rápido no meu novo relacionamento, mas imagina, se eu no meu dia era mais feliz a estar com a pessoa do que estar sozinha, se eu não pensar no exterior, eu estou melhor a passar o dia com a pessoa e jantar com a pessoa.
E porque é que estás a inibir disso?
Para que me estou a inibir se de fato estou livre?
E a vida é muito curta.
É isso, podemos não estar cá amanhã. Eu penso muito nisto. E a minha psicóloga também me diz isso muitas vezes.
Vai chegar em casa a pensar: "Eu podia ter ido jantar com a pessoa. Estou aqui porque terminei um relacionamento há dois meses, porque não faz sentido, as pessoas vão julgar." O que interessa das pessoas? Podias estar feliz a passar um bom tempo no jantar.
Quando às vezes me dizem: "Ai, não sei o quê, eu não quero dar demais, eu não vou convidar, eu não vou fazer isto, não vou fazer aquilo." Por quê?
Vive, e depois a pessoa pode te encontrar que não quer.
Já estás a limitar-te de uma coisa que, na verdade, é a tua vida.
Tu és assim. Então depois, se as coisas realmente derem certo, vais ter que conviver com essa pessoa diariamente e vais te limitar depois?
Não, tens que mostrar logo desde o início.
Se já és uma pessoa assim, não de impacto, mas que segue as suas emoções, tu depois vais ser assim também, ou não vais querer mudar essa tua parte?
Senão vais viver uma farsa o tempo todo a tentar te limitar, para agradar.
E por isso é que muitos relacionamentos não prosperam por causa disso, porque tu tentas criar uma personagenzinha. "Sou muito controlada, não, hoje não, não me apetece."
Não faz sentido nenhum.
E depois apetece-te de tudo e não te apetece nada.
Eu sou superapologista que nós temos que viver intensamente, pensar no agora, porque a verdade é que nós não sabemos o amanhã. Isto é mesmo só uma passagem e nós criamos muito estresse, muita ansiedade entre nós, a pensar o que o outro vai dizer, o que o outro vai fazer. Depois, na reta final, ao final da tarde, quem chega à casa e está conosco, somos nós. Portanto, nós é que temos que saber lidar com as nossas decisões. E eu acho que nós não temos que deixar de fazer nada, só pensar: "E se isto, e se aquilo?" Faz, correu bem, correu, ótimo, vais ser feliz.
Se não correu, aprendes com as coisas.
Se não correu, pelo menos fizeste, já sabes porque fizeste, tentaste e saíste em frente.
E deste deixas a consciência tranquila. Imagina, isso faz parte da vida. Não fizeste mal a ninguém.
Eu acho que sim também.
E muitas vezes as pessoas que apontam o dedo são aquelas que estão mais insatisfeitas na sua vida, nos seus relacionamentos.
E normalmente são essas que vêm falar da tua, porque não têm nada para fazer e vêm cuscar a tua vida e depois comentam sobre ela. Porque se tu estiveres bem com a tua vida, tu não vais andar a ver a vida dos outros.
Mas não acham que o fato de nós termos exposição também traz outras camadas?
Eu não tenho a vossa exposição.
Traz, mas olha, ainda esta semana que passou, recebi uma mensagem de uma menina que de vez em quando manda mensagens, em que mandou uma foto do meu ex-marido, meu ex-marido já há algum tempo, no Bumble. E eu: "Ótimo, boa, espero que ele dê muitos matches." E ela manda uma foto dizendo: "É o teu marido, não é?" E eu: "Olha, por acaso é ex-marido e eu desejo mesmo que ele faça muitos."
Por que ela tirou o print e te mandou?
Para mexer comigo, só para me afetar.
Olha, a mim só me preocupa.
Eu estou separada, separei-me quase há quatro anos. Obviamente, o Gonçalo está no Bumble, no Tinder ou então até tem namorada, não interessa.
Não, mas a pessoa mandar, eu acho que é irrelevante como é que ele está. O que me afronta é a pessoa mandar.
Confio, penso que a pessoa...
Por isso é que eu digo que tem outras camadas.
Não tem mesmo com o que se preocupar.
Porque além de as pessoas da tua vida a dar opiniões sobre aquilo que estás a fazer, tens outras pessoas que não te conhecem de lado nenhum, mas que acham que te conhecem.
A parte das redes sociais é complicada e quando eu me divorciei, foi uma coisa que mexeu comigo, porque as pessoas mandavam-me fotos, tipo zooms da minha mão sem aliança, a dizerem-me: "Tu estás separada, não tens aliança, onde é que está o Gonçalo?" Eu ficava chocada, porque eram pessoas que nunca me tinham mandado uma mensagem na vida e nem sequer me perguntavam se eu estava bem. E era só para saber, é literalmente isso.
As pessoas são cuscas.
É normal despertar interesse. Agora, eu não vou mandar uma mensagem.
Mariana, mas eu posso desconfiar que tu estás separada e que tu te divorciaste. E até te conheço e até posso ter à vontade contigo para perguntar. E a primeira coisa que eu te vou perguntar é: está tudo bem? Estás bem? Agora, eu nunca na vida te ia mandar uma foto a dizer: "Olha, reparei que não tens aliança, eu não tinha coragem de fazer isto."
Porque o que acontece é que acham que as pessoas deste lado não são pessoas. Então há uma distância tão grande que tu podes só dizer aquilo que te apetece.
Pois é isso. E nós somos aliançadas.
Às vezes assumem só um lado. Imagina, tu até podes ter sido tu a terminar o relacionamento, mas há muitas facetas. Foram oito anos, 11 anos, whatever. E às vezes, pronto, e faz parte. Eu estou super em paz com isso, mas claro, a outra parte tinha um grupo de amigos e não sei o quê, que se calhar nunca me perguntaram também, e não têm que perguntar, está tudo tranquilo, estou em paz com isso, mas nunca perguntaram se eu estou bem, não me deram os parabéns quando eu engravidei. Sou uma pessoa com sentimentos, foram pessoas que fizeram parte da minha vida durante muito tempo e não me perguntaram ou não me deram os parabéns da minha gravidez. Eu sei que é difícil, que eu estava num relacionamento, saí e tudo, mas é isso. A mim só me faz sentido ter na minha vida pessoas que, apesar de tudo que pode acontecer, e eu sei que foram muitas coisas inesperadas, é perguntar se eu estou bem. Tal como quando eu gosto de alguém, ela pode me dizer: "Olha, a Regina disse agora que terminou o relacionamento, o que me está a preocupar não é saber por que terminou, é estás bem?" É só me perguntarem se estou bem e eu já noto que a pessoa quer saber de mim. Agora, o teu namorado está ali, ou o teu ex-namorado esteve ali na noite. Eu não quero saber, não precisam.
É isso, é cousquice, pura e dura, que eu acho que é sorrível.
Chegaram: "Ai, o teu ex-namorado estava ali." E eu: "Estava, e então?"
Eu nem te perguntei.
Eu nem te perguntei, nem quero saber.
Estava bem? Boa, se estava bem, deixa de ser cousquice.
Olha, eu estou aqui após o dia de trabalho, está tudo...
E foi difícil de contar todas estas novidades às pessoas à tua volta?
Família.
Eu entrava em stress de contar. À minha mãe até sentia que era a pessoa com quem eu iria ter mais conforto, mas contar ao meu pai, contar aos meus avós, contar tudo, eles quase nem conheciam a pessoa em questão.
Não havia muito convívio familiar? Gonçalo era filho dos meus pais.
Não, do novo relacionamento. Contar que estava grávida. Que foi difícil para mim. Mas depois tu até te surpreendes, porque para mim estava a ser superdifícil contar, adiei imensas vezes. "Hoje vou contar à minha mãe, hoje vou contar ao meu pai." Aliás, meu pai já sabia, porque eu contei primeiro à minha mãe, e a minha mãe não conseguiu. E até para me proteger um bocadinho, contou ao meu pai para o meu pai também ficar bem. O meu pai já sabia há três semanas e eu andava a combinar jantares com ele. Fui de férias com ele, não consegui contar no primeiro dia. E eu estava ali a adiar, e o meu pai farto de saber que eu estava grávida.
Mas eu acho que os pais depois querem tanto ser avós, que isso é uma bênção para eles.
Fiquei surpreendida. Achei que me iam julgar.
Não estás só sozinha.
Achei que me iam julgar e eles só me perguntaram: "Estás bem? Está tudo? Estamos aqui, vais ser uma ótima mãe." Às vezes nós criamos um bicho de sete cabeças onde não existe.
Nós sofremos muito de antecipação e isso é das piores coisas que há, que não vale a pena.
Começas a criar histórias e a imaginar a forma como vão lidar e depois se calhar até é muito mais fácil. E a nível de amizades, sentiste que depois tinhas mais apoio?
De amizades, senti superapoio, porque é isso, eu já nos últimos dois anos e último ano, criei uma rede que eu gosto muito e que me sinto muito bem. Não tenho amizades em que eu sinto que se contar, vou ser julgada. Ou seja, senti-me superapoiada. Aliás, as pessoas mais fáceis de contar, por incrível que pareça, se calhar não é incrível, estás mais à vontade se calhar contar a uma amiga do que à família. Amigas para mim também foi um ótimo suporte.
Sim, eu acho que sentimo-nos mais identificadas e consegues mais perceção.
Estamos na mesma faixa etária.
A nível de família, traz outras camadas de gerações mais antigas que gostam daquele caminho já definido.
É o normal, passa pela cabeça.
Do antigo relacionamento, era normalíssimo. Neste caso.
Sim, mesmo por exemplo, a minha avó, tenho uns primos que agora compraram casa, estão a morar juntos. Só o facto de não serem casados e estarem a morar juntos, para a minha avó é uma questão.
Para a minha avó também era. Ela sempre: "Vocês vão casar, não é? Depois têm os filhos." Eu não casei.
Fizeste tudo ao contrário.
A minha avó acha que eu sou maluca, mas ela já se habituou.
Lá está, são outros tempos. Antigamente era obrigatório, as pessoas eram infelizes, mas tinham que estar ali. Nós agora temos a liberdade de tomar as decisões da nossa vida, isso é incrível.
O que sabem hoje sobre o amor que há uns anos não sabiam? Perguntas difíceis.
Eu, por acaso, e indo de encontro ao que estava a vos a contar há pouco, eu tive uma experiência com uma nova psicóloga na semana passada, que foi incrível e gostei muito, e que me fez muito pensar sobre efetivamente o que é o amor. E eu acho que estou numa fase de refletir sobre o que é o amor, mas cada vez mais acho que o amor tem mesmo que ser uma coisa que só te traga coisas boas, porque se efetivamente for para tu sofreres, então mais vale estares sozinha. Acho que o amor tem mesmo que ser leveza e paz. E companheirismo, obviamente. E chegar a casa ao final da tarde e teres alguém só para estar. Às vezes estar só em silêncio e estar bem. Quando traz muita camada e muita coisa, eventualmente já não é amor.
Por acaso eu vi uma coisa há uns tempos que dizia que antigamente as mulheres precisavam dos homens para o sustento, para tu teres a família, o sustento financeiro, ficavam em casa, não criavam uma vida por elas. E hoje em dia as mulheres são todas independentes, fazem os próprios negócios, a sua carreira, super orientadas para isso. Então aquilo que o homem lhes vai dar é a forma como as trata. Isso é o barómetro.
Isso é muito interessante. É mesmo isso.
Chegas a casa, é isso que tu queres. Acho que agora até é bastante semelhante, o homem chega à casa de trabalho, quer se sentir bem com a pessoa. Tu tens que ter vontade de ir para casa e estar com a pessoa.
Isso é um excelente sinal.
Tu passares o dia inteiro a trabalhar e não te apetecer ir para casa ter com a pessoa ou sentires que não vais conversar nada.
Ou estás só a adiar a ida para casa, já sabes que não é por ali, não é amor. Já não é amor, já pode ter sido, mas já não é.
Acho que o amor não pode ser só conforto, que acho que há muitas pessoas que confundem isso. "Porque eu sinto-me muito em paz e muito confortável." É bom, obviamente.
Também tem que desafiar um bocadinho.
Tem que ser desafiante, senão é uma amizade.
Mas também não pode ser só faísca, emoção. Temos que encontrar ali um equilíbrio de continuar a estimular todos os dias, sentir aquele conforto de paz. Se eu tiver um dia mau, a pessoa está lá para mim, mas também não deixar que isso, porque nós caímos muito nos relacionamentos longos. Acho que também deves sentir isso, nos relacionamentos longos, nós depois até nos orgulhamos, dizemos: "Porque eu sinto-me superconfortável." E depois, se calhar, também caímos na preguiça.
Rotina, que depois já não é nada.
De não estimular nada.
Vocês já não faziam dates diferentes?
Eu, por acaso-
Usávamos as viagens, como sabes.
Eu também. Nós viajávamos muito e fazia também questão de uma vez por semana irmos jantar ou normalmente ao sábado íamos a um sítio sempre diferente. E é preciso, tu tens que alimentar. E acho que ainda mais, e tenho muitas amigas agora que são mães. A partir do momento que és mãe, ainda mais tens que alimentar isso, porque o casal deixa de ser prioridade e passa a ser prioridade o filho, e tu tens mesmo que criar esses momentos. E quando tens uma relação, mesmo sem filhos, é preciso, porque senão é só todos os dias igual, a rotina do dia a dia. Depois tu já nem sabes se tens ali um namorado, um marido ou um companheiro, um amigo, também não é suposto. É preciso alimentar o amor também.
E quão fácil ou quão difícil é entregares-te outra vez?
É difícil, mas é possível. No meu caso, eu demorei algum tempo. Primeiro queria aproveitar a vida e viver a experiência. E a verdade é que o ano passado acabei por me permitir. Andei muito tempo pra o fazer, porque eu acho que é aquele medo. Imaginem, pra mim, às vezes até o que é mais chato, e se calhar é feio dizer isto, mas é o que eu sinto, todo o processo de conhecer a família, os pais e os amigos, e depois os grupos dão-se bem. Tudo isso, toda essa envolvência, que é necessária também, eu acho que é um bocado desgastante e acho que às vezes é isso que me faz também inibir. E o medo de: "Ok, vou voltar, vou assumir, vou assumir nas redes sociais", que na verdade foi o que eu fiz. Portanto, eu só tinha assumido o Gonçalo e assumi agora recentemente o João. E foi difícil pra mim tudo isso. E se calhar, se fosse hoje, sendo muito sincera, eventualmente não o tinha feito, porque neste momento terminou e não vai voltar. E acho que podia me proteger um bocadinho se não o tivesse feito. Só que depois também há outra coisa, que é quando tu estás felicíssima, apaixonada, e aquilo é lindo, e tu queres é partilhar com o mundo, porque o amor é lindo, pronto, e está tudo bem. Mas depois também tens que pensar que a seguir, se não correr bem, depois também vais ter que lidar com isso.
Mas depois vais entrar numa cena e vais estar a inibir, porque estás com medo que acabe?
É difícil. Não é com medo que acabe, não sei. Ainda mais, se calhar, a parte familiar. Se calhar podia ter protegido um bocadinho os meus pais, que ainda não sabem, portanto, ainda vão saber. São as únicas pessoas que ainda não sabem, mas hei de lá chegar, porque lá está, já sei que os vou fazer sofrer. Não quero fazê-los sofrer, não há necessidade. Eu estou bem. Já estive mal, agora estou bem, estou a cuidar de mim. Mas eu acho que é só nessa parte. Eu se calhar acho que o assumir, começar uma coisa toda nova, é por tudo aquilo que te traz, que também cabe a ti pôr ou não mais leveza. Eu agora terminei, ainda não contei aos meus pais, mas já tive o cuidado de contar a todas as pessoas que fazem parte da minha vida. Estou muito bem com a minha decisão. Acho que fiz aquilo que tinha que ser feito. Sofri, sofro ainda, gosto ainda, mas escolhi-me a mim e acho que isso é o mais importante. E acho que os meus pais também vão entender. Mas esta parte custou um bocadinho. Então eu penso, claro, agora que acabei: "Ui, vou ter que passar outra vez por tudo e vou ter que conhecer outra pessoa".
E entrar no mundo do dating.
É isso. Vocês são um pouquinho mais novas, mas é uma realidade tão diferente.
Que idade é que tu tens?
Eu tenho 35. Eventualmente, as pessoas que encontro agora, como era o caso do João, já têm filhos, já trazem outras camadas. Portanto, tudo isso também é muita coisa.
Assusta-te?
Não me assusta.
Ou deixa-te só, tipo: "Ah".
Não me assusta, mas se fosse hoje também fazia diferente, porque neste caso eu envolvi-me muito com a filha dele, e isso é motivo de um grande sofrimento pra mim. É uma bebê ainda, que entrou em minha casa e, portanto, acabei por ser muito amiga dela. Nunca quis fazer o papel de mãe, nunca foi essa a minha intenção, nem ela, tem a mãe dela, que sei que a trata muito bem, que ela ama muito. Mas tentei fazer um papel de amiga, que também não sabia muito bem como fazer, porque estou a aprender. E eventualmente, se hoje em dia começar a namorar com alguém que tenha filhos, eu acho que numa fase inicial, se calhar, antes de tu teres a certeza, que também a certeza vale o que vale, não é? Porque nós nunca sabemos. Mas tentar me proteger um bocadinho mais, porque é muito difícil tu começares a amar alguém que meio que tratas como um filho e que depois quando acabas uma relação-
Tem que sair completamente das suas vidas.
Tem que sair da tua vida e também o que aquela bebê vai pensar, que também é uma coisa que me preocupa. Mas eu acho que o tempo é o melhor amigo e eu espero que ela saiba que eu vou ser sempre amiga dela e vou sempre fazer o melhor por ela, mas deixo de estar presente na vida dela, porque tem que ser.
Sim, mas isso agora já é um trabalho do pai.
É isso.
Dos pais.
Dos pais, sim. Mas é difícil essa parte. Então eu acho que agora o mais difícil é pensar nisso. Lá está, se o amor é leve, tem que me trazer leveza. E estas camadas todas é mesmo preciso. Tu tens que estar muito forte contigo e muito segura de ti, daquilo que tu queres, daquilo que tu não queres, acima de tudo, pra conseguires entrar. Mas eu acho que é o mais difícil, e a mim custa-me. Imaginem, eu durante muitos anos eu nunca pensei muito em ser mãe. Hoje em dia, acho que o meu relógio maternal está a bombar, porque acho que também a presença deste bebê na minha vida.
Eu empresto de vez em quando.
Não, mas eu não me importo. Eu já disse, eu adoro ser tia também, porque imagina, eu adoro bebês e adoro ficar com os bebês dos meus amigos, e depois quando eles começam a chorar, passar de duas horas, eu entrego. A minha vida é melhor assim.
É o melhor cargo.
Mas claro que tu questionas isto, que é: será que eu vou construir família? Será que eu vou encontrar alguém pra ser o homem da minha vida? Eu mereço isso, porque eu sou uma mulher incrível. Eu acho isso. Mas também acho que se calhar ainda não é pra ser e vai ser quando eu menos esperar.
Não adianta colocar pressão também.
É isso.
Tu serias mãe solteira?
Não, não faz sentido pra mim, agora. Daqui a um ano, dois, 10, não sei. Mas ao dia de hoje, não. Acho que se fosse mãe, aliás, quando conheci o João, foi a primeira vez que senti vontade de ser mãe. Acho que ele me deu ali, provavelmente por vê-lo no papel de pai, que era uma coisa que eu antes não pensava muito com o meu ex-marido. E deu-me vontade e até por momentos achei que se calhar vai ser. Mas hoje em dia também agradeço não ter sido, porque acho que foi melhor assim. Portanto, acho que se tiver que ser mãe, vou ser. Não tenho dúvidas que vou ser uma excelente mãe, mas não quero sofrer com isso, porque se não for mãe, também está tudo bem. Porque imagina, eu acho que aqui, se calhar, tu até consegues compreender. Eu adoro a liberdade de hoje pego na mala e vou pra Bali e só venho daqui a dois meses, se me apetecer, e se não me apetecer fico lá. Se for mãe, eu vou deixar de ter isto. Então eu quero muito ser mãe, mas também quero muito a minha liberdade. Mas estou numa fase que acho que se engravidasse agora, se tivesse um relacionamento e engravidasse, acho que ia ser um momento feliz pra mim, mas também estou a trabalhar muito numa de se não for pra ser mãe, também porque não era pra ser e outras coisas vão surgir na minha vida.
Ou seja, tu queres mais ter uma pessoa do que propriamente ser mãe.
Eu quero ser feliz, sabes, Mariana? Acho que quero ser feliz.
E o que é que tu achas que te vai dar mais felicidade? Encontrares esse parceiro de vida?
Eu acho, se calhar, isto vai ser um bocadinho clichê. Eu acho que eu não posso precisar de ninguém pra ser feliz. E este é o trabalho que eu estou nesta fase agora. Porque eu já fui assim, eu já fui muito feliz sozinha. Eu depois de acabar o meu casamento, eu trabalhei muito pra ser feliz sozinha e eu estava superfeliz. Sinto que nos últimos três meses da minha vida esqueci-me um bocadinho de quem eu sou, em prol de outra coisa, e que esqueci-me de ser feliz. Então agora o que eu quero é reaprender a ser feliz sozinha. Se depois aparecer alguém para me acrescentar, tudo bem, mas eu acho que só preciso de mim pra ser feliz. E eventualmente, se aparecer alguém que combine comigo, ainda mais feliz serei.
Que bonito!
Ai, estás aí a queimar uma cria.
A lição que tiramos daqui é que não devemos colocar pressão em algo que não podemos controlar. E acho que nós temos que olhar para os pontos positivos de cada fase, porque, por exemplo, tu se calhar estás ou não estás num relacionamento, estás sempre a pensar: "ai, eu devia estar num relacionamento, a Regina, eu não sou mãe. Ai, quem me dera ser mãe." Agora já que não és mãe, aproveita os pontos positivos de que não és mãe. Podes ir para Bali quando quiseres. Eu agora estou com medo, porque se calhar não posso.
Podes noutras condições, vais poder noutras condições.
Ou seja, acho que é deixar a vida fluir e a vida acontece em movimento e acho que não fizeste mal nenhum, essa é minha opinião e cada pessoa pensa por si. Não fizeste mal nenhum em partilhar o teu relacionamento. Tu partilhas a tua vida, as partes que queres. Era uma parte que te fazia feliz, que fazia parte do teu dia a dia.
Sim, sem dúvida.
Depois, a consequência de seres conhecida é as pessoas poderem te perguntar, mas tu também podes filtrar.
Sim, imagina, eu nunca tive problemas em falar de fracassos, que eu não acho que seja fracasso nenhum. As pessoas é que põem este peso. É isso, mas eu nunca tive problemas em falar das coisas que correm bem, das coisas que correm menos bem. Às vezes é mais a pressão das pessoas, que é tipo, eu tenho que falar quando eu quiser falar, e não quando as pessoas querem que eu fale. Pronto, e às vezes é mais um bocadinho isso, é por aí, porque por mim, se eu tiver que dizer hoje, estou solteira, eu não tenho problema nenhum em dizer que estou solteira. E se amanhã estiver, também está tudo bem.
É sinal que não te acomodas, é sinal que tu disseste que querias ser feliz e tu estás a lutar pela tua felicidade.
É isso.
Sentiste que se calhar não fazia sentido e estás em busca da tua felicidade. Acho que isso prova. Tu tens ficado num sítio em que se calhar não te iria fazer feliz a longo prazo.
Era o caminho mais fácil, mas não era pra mim.
E foi difícil fazer a partilha da gravidez nas redes?
Não, aí já não foi.
Por que escolheste partilhar?
Aí já não foi difícil, porque eu já tinha contado às pessoas importantes da minha vida. Ou seja, eu já tinha passado o mais difícil, que era contar à minha mãe, contar aos meus pais, contar aos meus avós, conhecer os pais do pai do filho. Então, partilhar nas redes sociais, pra mim, eu sabia que ia ser um choque pra muita gente e o vídeo ainda teve alguma repercussão, mas não, não foi difícil.
E foi depois bolha de amor.
Sim, foi só comentários positivos.
Olha, uma curiosidade: como é que lhe contaste a ele, se quiseres partilhar? Ou estavas com ele quando soubeste?
Não, estava sozinha.
Soubeste primeiro.
Sim. Estava com uma amiga, estava com a Catarina. Fiz o teste uma vez, não acreditei, comprei o teste mais barato da farmácia que existia, pai, €4 ou €5.
Dizem que não há falsos positivos.
Mas eu queria acreditar que se calhar aquilo não estava bem. Ainda por cima, eu estava tão assim: "não, vai dar negativo". Que eu não esperei tempo nenhum. Eu fiz lá o testezinho, não sei se sabem como é que é.
É esperar uns minutinhos.
Eu esperei ligeiramente 30 segundos, só vi uma risca e eu assim: "não estou grávida". Já lhe mandei pelo WhatsApp, não estou grávida.
Não esperaste o tempo pra dar o resultado.
Eu vi o risco, assim, se só aparecer um risco, não vai aparecer outro, não é? Só aparece um risco. Mandei-lhe: "Não estou grávida". Depois fui à cozinha, não sei o quê, volto a pegar no teste e vejo duas riscas. Uma mais transparente que a outra, e eu: "o que está a passar?" E eu mandei-lhe. E ela por acaso é farmacêutica, trabalha na área de saúde. Mas isto qualquer pessoa consegue perceber. E eu: "amiga, está aqui uma risca ligeiramente mais transparente que a outra". E ela nem me disse nada, nem disse: "estás grávida". Eu percebi que estava grávida, mas a pessoa não quer acreditar, ainda estás ali num filme. E ela: "amiga, vou já pra aí, vou te levar outro teste", a mãe dela também é enfermeira. "Vou te levar outro teste", comprou um teste melhorzinho. Pronto, fizemos o teste.
Grávida.
Positivo. E pronto, ainda fui dar aulas nesse dia. Estava numa montanha de emoções.
Não contaste a mais ninguém aí nesse dia?
Não. Fui dar aulas nesse dia, dei três aulas seguidas. Já sabem a onda da minha aula, toda energética, eu ali a tentar processar as minhas emoções e no final da aula ligo ele, precisava de falar com ele. Até íamos dar uma volta à praia. "Vamos dar uma volta à praia." "Não, quero estar aqui sentadinhos no carro." E contar-lhe. E claro, foi também um choque, mas fiquei tranquila, no fundo, porque não foi um choque do gênero: "meu Deus, como é que vamos fazer?" Não, tentou me confortar e perceber se eu estava bem.
Que bom!
Então eu senti-me do gênero, vamos conseguir superar isto.
E não estou sozinha.
Não estou sozinha, quer seja para levar pra frente isto ou não, existe essa opção, ok. Se alguém não quiser prosseguir uma gravidez e isto não foi planeado, como dá pra perceber na nossa conversa. Às vezes tu tens que criar um filho que vá ter um bom ambiente, que vai estar saudável. E pra mim também não me iria fazer sentido ter um filho sozinha, de ser mãe solteira. Então nós primeiro tivemos ali um longo processo, ainda tinha algum tempo para me decidir. Tivemos ali um longo processo de perceber se isso for pra frente, nós primeiro temos que estar bem em casal. Estar bem em casal, porque essa é a base de tudo, pra mim, pelo menos. E percebemos que estávamos bem, que íamos os dois prosseguir com isto E aqui estamos. Mas foi uma conversa.
Porque é uma responsabilidade diferente.
Eu já sou emocional e chorona, então agora ainda sou mais. Mas foi assim. Senti-me sempre apoiada, nunca me senti: "Meu Deus, estou aqui sozinha, vou ter que lutar contra isso, vou ter que passar por este processo sozinha."
E não é como se fosse uma gravidez quando tens 18 anos.
Não.
Já tens estrutura, já pode tomar uma decisão.
Eu senti-me uma adolescente, mas já não sou.
Já tens estrutura pra poder tomar uma decisão.
Sim. E é isso.
E vai correr muito bem.
Claro que vai.
Espero que sim.
Ainda não sabes o sexo do bebê?
Não, acho que vou saber pra semana. Vou.
E já tens nomes?
Olha, eu nem te vou dizer o nome.
Porque é dos meus ex.
Ainda não sei se será, mas se for menino, nós estamos a pensar em Gonçalo.
Olha, é bom nome, porque Gonçalo é muito boa pessoa. É bom nome. Por acaso eu acho o nome Gonçalo muito bom.
Mas tu achas que é menino ou menina? Estás a sentir?
Acho que é menino.
Menino?
Sim.
Eu, se fosse mãe, gostava muito de ter um menino, também. E adoro o nome Gonçalo, mas achei que não seria muito boa ideia pôr o nome do meu ex-marido ao meu filho.
Pra mim, diria que não.
Acho que não.
Mas olha, toda a gente diz, mas é mesmo a verdade, o mais importante é que seja saudável e que esteja tudo bem. Tenho preferência por menino? Tenho uma ligeira preferência por menino, mas se for menina, tudo bem.
Tu és bué girly.
Mas lido com muitas girlies. Então, se calhar, prefiro um menino em casa, porque eu já lido com muitas mulheres durante o meu dia. Se for preciso-
Maneira ali o balanço.
Ali o balanço, sim. Não sei, porque não sou mãe nem de menino nem de menina, mas eu acho que se calhar os meninos são um pouquinho mais simples.
Ok. Eu também acho.
Mas são mais tranquilo.
Não tenho que comprar mil lacinhos, mil fitinhas. Vai ser mais prático pro meu dia a dia.
Só querem jogar a bola.
Se calhar. Não, vai fazer pilates, meu filho.
Isso faz muito bem.
Menino ou menina, vai fazer pilates.
Uma curiosidade, agora com mudanças do corpo e tudo, tu sentes que em termos de trabalho assusta? Tipo, tens que parar de dar aulas.
Assusta-me um pouco, principalmente no primeiro trimestre, assustou-me imenso. Eu sei que cada mulher tem uma experiência diferente. Normalmente, o primeiro trimestre é dos mais complicados e eu sentia-me literalmente doente.
Muito cansada.
Muito cansada, e eu a ter que dar quatro aulas por dia. Eu dava a aula com o máximo de energia que tinha, eu acabava a aula, deitava-me, se fosse preciso, no chão do estúdio, a dormir. Eu tenho fotos minhas do meu colega, que eu literalmente precisava me deitar automaticamente mal acabava a aula, eu sentia-me doente.
Sim.
Completamente.
Mas estás melhor agora?
Agora estou muito melhor. Acho que no segundo trimestre acalma muito. Nunca te sentes igual. Eu não me consigo sentir igual a quando não estava grávida. Sentes sempre com menos energia, sentes as mudanças acontecendo no teu corpo. Eu sinto esta região toda pélvica a expandir. Sinto algum tipo de desconforto.
Mas desconforto nem se nota, na verdade.
Nota-se.
Muito pouco. Também estás com as calças largas.
Eu escolhi bem a roupa, estou confortável.
Mas estás a gostar de te sentires grávida ou não? Também está tudo certo se não, acho eu.
Não adoro, mas acho que também tem muito a ver com a minha profissão, porque sinto que me torno menos eficiente. E eu durante muitos anos tive o foco profissional.
Pois, por isso é que eu estou a perguntar, porque o teu trabalho é tão físico.
E há certos movimentos que eu sei que já não são bons fazer e às vezes tenho que demonstrar na aula. E o fato de eu tentar não me prejudicar, mas querer dar a melhor aula possível, afeta-me psicologicamente também. Mas faz parte, não é?
É uma fase.
É uma fase.
É uma fase, Marta, e já toda a gente que faz as tuas aulas sabe como as tuas aulas são incríveis.
E olha, eu fiquei muito contente, porque eu passei o primeiro trimestre que passei e a maior parte das alunas me disse: "Marta, eu não senti nada, que tu tinhas mudado. Às vezes parecia que estavas um pouquinho mais cansada, mas também com o teu ritmo também é normal." Por isso, acho que consegui disfarçar bem o que não tem. E também gostava de dizer isto, que acho que o primeiro trimestre pras mulheres às vezes é muito ingrato, porque há muito aquela coisa de se dizer que a mulher não deve partilhar até saber se está tudo bem, a primeira ecografia. Eu acho que o primeiro trimestre é a fase, e muitas mulheres dizem isto, e eu vou replicar porque concordo, acho que o primeiro trimestre é a fase que a mulher se sente mais grávida, de sintomas, e é a fase em que ninguém percebe que tu estás grávida, porque ainda não tens a barriga.
E tens que esconder tudo.
Mas tens uns enjoos loucos. Não consegues comer comida que sempre adoraste. Pelo menos no meu caso, que só queres dormir, só queres estar deitada. Ou seja, toda gente pensa que tu estás ali.
Estás doente ou que se passa algo.
Estás doente ou que se passa algo. E as pessoas não reparam. É que quando tens uma barriga, tudo é justificável, só que a mulher fica ali numa pressão de não dizer. Eu acho que a mulher deve fazer o que quiser, mas chegou uma fase que eu disse: "Não, esquece."
Sim, mas tens que perceber que é mais pela questão de se perderes, lidares depois com a perda.
Mas é uma escolha da mulher também. E eu escolhi, chegou um momento, que eu não vou partilhar nas redes sociais, que é uma coisa muito mais pública, mas chegou algumas aulas que eu no início da aula já dizia, antes de ter pra publicar nas redes sociais. É muito cedo, mas eu estou me a sentir um pouco diferente e com menos energia, porque estou grávida e preferi isso do que estar a penar durante três meses a sentir-me mal. Mas também acho que tem um pouco com a minha profissão.
As mulheres que perdem o bebê, é muito difícil. Porque está a custar pra ti, tu tens que partilhar com os outros.
Uma coisa é estares, se calhar, a um trabalho de escritório, à frente do computador, que consegues controlar. Eu lidava todos os dias com muitas pessoas. É um trabalho que tu entregas muita energia de ti.
E ainda por cima é constável tu partilhares. E depois, se perderes.
Não, eu preferia não partilhar, mas como eu não me sentia. Se calhar até era mais meu, mas como não me estava a sentir bem, eu comecei a sentir interessada em algumas aulas em partilhar. E também conhecia muitos dos alunos.
Não, eu por acaso, lá está, eu não vejo nada contra partilhar, mas por exemplo, já tive situações familiares em que partilharam e depois perderam. As pessoas sofrem e não sei o quê. Pronto, é mais isso. Mas no fundo, acho que é sempre uma decisão dos pais.
E o primeiro trimestre é o período mais provável de poder haver algum aborto espontâneo. É sim, pode acontecer a qualquer altura.
Eu lembro-me sempre de algumas histórias, nem vale a pena pensarmos nessas coisas.
Pronto. É, sim.
Mas é, sim, fala-se pouco.
Eu só quero que as mulheres se sintam livres para tomar a decisão, sabendo que têm que lidar com o peso das consequências disso. Mas não é obrigatório tu não contares até teres a ecografia do primeiro trimestre
E pode acontecer a si. E o aborto é muito mais comum do que nós imaginamos.
E muitas vezes não se fala e as pessoas não encontram a identificação.
Nós não imaginamos a quantidade.
Também é isso. Imagina, tu não partilhaste, estiveste a sofrer, não é sofrer, mas estiveste numa fase mais difícil.
Mas sofreste, claro, não é? Sofres.
Mas só mais tarde é que vais ter coragem de falar com as pessoas à tua volta, porque até processaste tudo.
E tu se calhar ou vais sofrer sozinha ou vais ter que depois partilhar que estiveste grávida e que agora não estás numa boa fase da tua vida porque lidaste com um aborto. Ou seja, é escolher as lutas. Cada pessoa deve escolher as suas lutas. Mas também se estás com medo de partilhar, porque podes ter um aborto, mas depois se tiveres o aborto também não vais partilhar?
Eu acho que há vários temas que têm que se falar.
Há pessoas que não partilham mesmo de todo e partilham só meses mais tarde ou quando voltam a engravidar, é que trazem esse assunto porque já processaram tudo.
Eu acho que cada pessoa tem que escolher, mas eu acho que é muito bom falar sobre a gravidez, porque é uma coisa muito boa, é uma coisa muito feliz, mas o aborto, as pessoas que nem sequer conseguem engravidar, que há tantas. Há tantas a fazerem tratamentos de fertilidade e não conseguem.
Também se lida com isso totalmente em silêncio.
Claro, por quê? Porque não se fala, porque é vergonha, porque é o julgamento. Não, é mesmo comum. E eu acho que era importante falarmos sobre essa vulnerabilidade, que existe. Mas lá está, as redes sociais nisso ainda não há assim, as pessoas ainda não se sentem confortáveis. E de certeza que já houve centenas de mulheres que já tiveram abortos, mas não falam.
E também muitas mulheres sentem a pressão de dizer que estão a adorar estar grávidas ou que a gravidez é incrível.
E as mães caem em cima.
Não quer dizer que tu vás amar menos ou mais o teu filho quando ele estiver cá fora. Eu conheço pessoas que não gostaram nada, disseram: "Má, eu odiei estar grávida, não me sentia eu." Está tudo certo. E amam os filhos. Às vezes é um processo.
Não são experiências únicas.
É a pressão que se coloca.
É como tu adorares fazer uma maratona e se calhar não teres adorado o processo, mas adorares dizer: "Fiz a maratona e sofri esta."
É muito aquilo de nós tentarmos todos ser baunilha e ser perfeitinhos e ser bonitinhos.
É como aquela história, por exemplo, eu tenho amigas minhas que estavam grávidas e que sentiam um amor enorme por aquilo que estava aqui dentro. Havia outras que nem quando ele nasceu, que elas disseram: "Foi uma coisa estranha, mas eu não senti aquele amor quando o vi nascer." Passado uns dias, esquece.
E eu acho que havia menos depressão pós-parto, se falássemos sobre estes temas sem tabus. Está tudo certo se não sentiste logo o amor. Tudo o que é natural em nós e inconsciente, nós não conseguimos lutar contra isso. E acho que as mulheres não devem ficar com...
Tentar controlar as reações como decentes. Eu acho que isso resume um bocado da nossa conversa.
Ficamos muitas grávidas.
Seja gravidez, seja entrar em relacionamentos, sair de relacionamentos, escolha profissional.
Tudo.
Nós tentamos controlar ao máximo pra tudo ser perfeitinho, pra todos sermos iguais e termos experiências iguais, e é tudo diferente.
E nós somos todos diferentes.
É isso.
É isso mesmo.
Obrigada por terem estado aqui. Adorei a nossa conversa. Obrigada pela confiança de serem vulneráveis. E vai correr tudo bem. É deixar a vida seguir. Acho que é mesmo o resumo.
Estou ansiosa pro próximo café, que nós temos sempre novidades.
Pois, estes cafés... Hoje foi em podcast?
Hoje foi em podcast.
E acho que ficou uma conversa fluída.
Eu hoje já tomei café, não vou tomar mais nenhum, acho.
Obrigada.
Obrigada, foi mesmo giro. Obrigada.
Obrigada.
Não é fácil, eu sei. Mas, amiga, faz parte. Encontramos domingo à hora do costume?
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