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Saturday, October 24, 2026

Decisivas, mulheres seguem com Lula, mas com vantagem quase duas vezes menor que em 2022

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Na véspera do segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda conta com as eleitoras, mas a margem de apoio entre elas do petista caiu quase pela metade em relação a 2022, pleito que o elegeu para o atual mandato.

De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, 22, o presidente tem 49% das intenções de voto entre as mulheres, contra 44% de Flávio Bolsonaro (PL).

Em 2022, na véspera do segundo turno, a vantagem do petista entre elas era de 9 pontos no mesmo instituto, 51% a 42%.

Nas outras quatro pesquisas registradas no TSE com campo entre 18 e 22 de outubro, a vantagem de Lula entre as mulheres varia de 2 a 7 pontos. E é preciso destacar que todas foram feitas antes do debate da TV Globo, que aconteceu na noite desta sexta-feira, 23.

Atualmente, mulheres representam 52,84% do eleitorado, segundo o TSE, ou 83,9 milhões de pessoas. Com a disputa empatada no total, 47% para Flávio e 46% para Lula no Datafolha, a margem entre elas pode decidir a eleição.

Contudo, é preciso entender o que mudou no comportamento de um público que aparenta seguir com Lula, mas por uma vantagem menor que a de quatro anos atrás. E também o que pode ser determinante nas horas que antecedem a votação.

Um Senado mais feminino e mais à direita

O resultado do primeiro turno, em 4 de outubro, culminou em um Congresso mais feminino do que nunca.

A partir de 2027, a Câmara terá 109 deputadas, ante 90 eleitas em 2022. Para o Senado, foram eleitas 12 mulheres para as 54 vagas em disputa - passando de 15 para 18 senadoras -, recorde desde a redemocratização, com a direita como maior grupo entre elas.

Das 12 senadoras eleitas, cinco são de partidos de direita, e três delas saíram do próprio PL de Flávio: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pelo Distrito Federal, e Carol De Toni, por Santa Catarina. As outras sete se dividem entre quatro de legendas de esquerda e três de centro.

Um avanço, portanto, de perfil mais conservador, como mostra o histórico de votações de parte das eleitas na Câmara dos Deputados. Bia Kicis e Carol De Toni, ambas do PL, votaram contra a lei da igualdade salarial, em 2023.

Bia Kicis também assinou o PL 1904, que equipara o aborto após 22 semanas de gestação ao homicídio, inclusive em caso de estupro.

A missão de falar com elas

Talvez apostando nesse eleitorado, Flávio chegou ao debate da TV Globo com o voto feminino entre as prioridades. Ao longo do programa, tratou do custo de vida e da segurança a partir do impacto sobre as famílias.

Na segurança, prometeu reduzir a maioridade penal para 16 anos, e para 14 em casos como estupro, além de aplicar castração química a condenados por estupro e abuso sexual de crianças.

Na economia, acusou o governo de deixar as famílias mais endividadas. Um tema que atinge diretamente as mulheres, atualmente responsáveis por 49,1% dos lares brasileiros, segundo o Censo 2022 do IBGE.

Pelos dados do Banco Central, as dívidas das famílias somavam 49,9% da renda acumulada em 12 meses em julho, o maior nível da série.

Lula, por sua vez, insistiu que o adversário cortaria programas e benefícios sociais - mais um tópico sensível sobretudo para eleitoras: segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, as mulheres são as responsáveis por 84,2% das 18,7 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família.

Confrontado pelo opositor por já ter chamado o programa de “bolsa-farelo” em suas redes sociais, em 2011 e 2013, quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio rebateu com a promessa de manter os programas e a política de reajuste do salário mínimo.

E acusou o atual governo de só ter se lembrado dos beneficiários às vésperas da eleição, com o reajuste anunciado 17 dias antes do primeiro turno.

Tropeços com as mães

Desta vez, na plateia do estúdio, Flávio teve a seu lado a esposa, Fernanda Bolsonaro - uma companhia mais constante em suas aparições e manifestações públicas nos últimos dias.

Já Lula levou como convidada, Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes Machado, morta aos 5 anos por um tiro de fuzil em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa, durante uma ação policial em Niterói, no Rio de Janeiro.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio, o disparo que vitimou a criança partiu do fuzil do policial militar Bruno Dias Delaroli, que nega a acusação e ainda não foi julgado.

A versão de confronto é contestada: testemunhas, entre elas a mãe e a tia de Ana Clara, negam que tenha havido troca de tiros antes de a menina ser atingida.

Em 2024, já senador, Flávio passou a integrar a defesa de Delaroli, sem cobrar honorários. E assinou um recurso no Superior Tribunal de Justiça para tentar evitar o júri popular.

No bloco sobre segurança, Lula então cobrou do adversário explicações sobre essa atuação, apontando para Cristiane, sentada na primeira fila. Na resposta, o senador se confundiu e dirigiu-se à mãe pelo nome da filha morta.

Depois, embora tenha classificado o fato como uma tragédia, sustentou a alegada troca de tiros "numa comunidade conflagrada pelo tráfico", lembrou que o policial sequer foi julgado e que confia que o disparo não partiu dele.

O episódio, que se converteu em um dos de maior repercussão após o debate, toca um ponto central da estratégia de Flávio, a segurança pública.

É preciso lembrar ainda que o tema mobiliza as mulheres, em especial as mães.

Num país em que 10,3 milhões de lares são chefiados por mães solo, segundo o Censo 2022 do IBGE, o candidato que promete proteger as famílias com mais rigor contra o crime é o mesmo que atua na defesa do policial acusado de matar uma menina de 5 anos.

A maternidade também esteve em pauta no bloco sobre políticas sociais, quando Lula cobrou do senador o voto contra a ampliação da licença-maternidade.

Em 2009, como deputado estadual, Flávio foi o único a votar contra a proposta que aumentou de 120 para 180 dias a licença das servidoras do Rio de Janeiro.

Ao se justificar, o candidato disse que, à época, temia dificultar a contratação de mulheres e, em seguida, admitiu: “eu estava errado”. Por fim, citou o casamento e as duas filhas para dizer que hoje votaria de outra forma.

A revisão do voto foi um gesto direto às eleitoras, o público em que a rejeição ao senador é maior. Contudo, se o aceno compensou o efeito do caso Ana Clara, só as pesquisas feitas depois do debate vão mostrar.

Entre a vitrine e a chapa

Importante destacar que, ao longo da campanha, a aproximação com as eleitoras teve contradições dos dois lados.

Lula insistiu na figura da primeira-dama, Janja, para assumir a interlocução com o público feminino mesmo sem cargo formal, com eventos pelo país e discurso centrado no combate ao feminicídio e no fim da escala 6x1.

Porém, no ato de lançamento da candidatura do presidente, em agosto, nenhuma mulher estava escalada para discursar.

Para Flávio, o caminho natural até as eleitoras passaria por Michelle Bolsonaro. Então presidente do PL Mulher, a ex-primeira-dama é a política mais conhecida do país, segundo levantamento do movimento Confia Nelas: 47% dos entrevistados dizem conhecê-la muito bem.

Em junho, porém, a relação com o enteado se desgastou publicamente. Michelle publicou vídeos em que disse ter sido humilhada por Flávio, numa divergência sobre alianças no Ceará. O candidato pediu desculpas, mas ela deixou o comando do braço feminino do partido dias depois.

O afastamento não tirou da ex-primeira-dama a força eleitoral. Na primeira disputa da carreira, ela se elegeu senadora pelo Distrito Federal com 938.496 votos, ou 29,1% dos válidos, a maior votação entre os candidatos ao Senado da região.

Antes disso, em julho, veio a reconciliação com o enteado, de novo por meio de vídeos de parte a parte.

Ainda assim, Michelle seguiu longe dos momentos decisivos da corrida presidencial: não compareceu à convenção que oficializou a candidatura de Flávio, à qual enviou uma gravação, e, no segundo turno, fez uma única agenda pública ao lado dele.

Com a madrasta distante, Flávio anunciou, em junho, que pretendia ter uma mulher como vice. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, foi cogitada para o posto, mas a direção do Progressistas decidiu, no fim de julho, manter a legenda neutra na disputa.

Para o posto, foi anunciado em agosto, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), alvo de uma acusação de estupro de vulnerável, levada à Polícia Federal em março por dois parlamentares de oposição, mas arquivada em outubro, a mando do ministro do STF Gilmar Mendes.

Neste cenário, o protagonismo feminino ao lado de Flávio coube a Daniella Marques. Respeitada no mercado financeiro, a economista presidiu a Caixa Econômica Federal, onde criou um programa de orientação financeira para mulheres, incluindo vítimas de violência doméstica.

Daniella, que hoje responde pelo plano econômico do senador acompanhou da plateia os dois debates do segundo turno. No confronto da Band, no domingo, 18, Lula se referiu a ela como “a tua mulher da economia” ao criticar as propostas de Flávio.

O senador e aliados classificaram a fala como machista, e a própria Daniella reagiu nas redes, chamando-a de misógina e lembrando que tinha nome.

Cinco institutos, uma mesma direção

A urna eletrônica não registra o sexo de quem vota, e o TSE divulga os resultados apenas por seção, município e estado. Não existe, portanto, um resultado oficial do voto das mulheres, nem em 2022 nem agora.

Mas até o momento, as cinco pesquisas nacionais com campo entre 18 e 22 de outubro apontam na mesma direção: Lula à frente entre as mulheres, por margens diferentes.

Agora, no início da noite deste sábado, 24, o Datafolha e a Quaest divulgam hoje suas últimas rodadas antes da votação, para medir os possíveis efeitos do confronto na TV Globo.

De acordo com o Ipespe/Abrapel, feito por telefone com 1.500 entrevistas entre 20 e 22 de outubro, Lula tem 50% das eleitoras e Flávio, 43%.

Segundo a RealTime Big Data, também por telefone, com 2.000 entrevistas entre 19 e 22 de outubro, a vantagem de Lula entre as mulheres cai para 49% a 47%. A Alfa Inteligência, com 2.700 entrevistas presenciais entre 18 e 22 de outubro, registra o mesmo placar.

Na RealTime e na Alfa, a diferença de 2 pontos entre as mulheres configura empate técnico.

Os recortes por sexo têm margem de erro maior que a do total, porque cada grupo reúne apenas metade da amostra.

A Vox Brasil, com 2100 entrevistas domiciliares entre 20 e 22 de outubro, é a única das cinco em que Lula aparece à frente no total, com 45,4% contra 44,3%. Entre as mulheres, ele tem 44,9% e Flávio, 40%.

A amostra da Vox também destoa das demais: nela, 84,1% dos entrevistados têm renda familiar de até 2 salários mínimos, enquanto no Ipespe, na RealTime e na Alfa, essa faixa fica entre 40% e 46%.

Como Lula vai melhor entre os mais pobres, o perfil da amostra ajuda a explicar o resultado diferente.

É preciso olhar também a rejeição, para compreender a vantagem de Lula entre eleitoras. Na Vox, 46,8% das eleitoras não votariam em Flávio de jeito nenhum, contra 40,7% que rejeitam Lula. Na Quaest, com campo de 17 a 20 de outubro, são 57% e 42%.

Há também mais indefinição entre elas em parte das pesquisas. Na Vox, 15,2% das eleitoras dizem votar em branco, anular ou ainda não sabem em quem votar, e 6,8% não votariam em nenhum dos dois. No Ipespe, branco, nulo e indecisas somam 7%. Na RealTime e na Alfa, esse grupo é menor.

O que 2022 deixou de herança

A vantagem de 9 pontos entre as eleitoras, em 2022, terminou numa vitória apertada para Lula nas urnas. O atual presidente venceu por 50,9% a 49,1% dos votos válidos, uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos.

Em 2026, o ponto de partida foi outro. No Datafolha de julho, Lula tinha 50% entre as mulheres, contra 40% de Flávio. De lá para cá, a vantagem caiu de 10 para 5 pontos.

Isso ajuda a explicar por que a vantagem de Lula entre as mulheres é menor que a de 2022. Flávio começou a campanha perto do patamar a que o pai só chegou na véspera daquela eleição.

Há, contudo, um precedente recente de que a preferência feminina, sozinha, pode não bastar. Em 2024, Kamala Harris fez do direito ao aborto o centro do apelo às eleitoras americanas.

Na reta final, porém, Donald Trump concentrou a campanha em promessas de segurança para as mulheres, associadas ao endurecimento contra a imigração, e moderou o discurso sobre o aborto. Harris venceu entre as eleitoras, mas a vantagem não foi suficiente para elegê-la.

Na reta final da eleição brasileira, pesará ainda o comparecimento. No primeiro turno, 78,92% dos eleitores foram às urnas, segundo o TSE.

A abstenção, de 21,08%, foi a maior num primeiro turno de eleição geral desde 1998.

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