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Friday, October 9, 2026

Do Rolex ao lema ACAB. Uma tarde nos protestos em França

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Niels aproveita a paragem na marcha para se sentar no murete da ponte de Saint Nicolas. O jovem de 16 anos, que estuda na Escola Marie Curie de Estrasburgo, explica calmamente ao Observador o que o levou ali em primeiro lugar: “O orçamento cresce cada vez mais para o exército e desce para a Educação. Não é aceitável”. Mais tensos, a cerca de dois metros, jovens com vários tipos de máscaras, de passa-montanhas a máscaras de gás, juntam-se para provocar a polícia que também se alinha com os escudos à prova de bala no outro lado da ponte. “ACAB” repetem os manifestantes, naquela que seria a palavra mais repetida da manifestação de estudantes que esta quinta-feira voltou às ruas de Estrasburgo.

ACAB é um acrónimo que significa All Cops Are Bastards (em português, numa tradução livre, “Todos os polícias são sacanas“). A frase está também por muitos dos cartazes que os estudantes mostram, por vezes em forma numérica: 1312, que corresponde à posição de cada uma das letras no alfabeto inglês. A luta por melhores condições nas escolas parece ter-se transformado mais numa luta contra a violência policial. E o dia, como seria de esperar, não iria acabar sem caixotes do lixo incendiados e gás lacrimogénio disparado pela polícia.

Niels, e o seu amigo Pierre, vão tentando abstrair-se da tensão entre manifestantes e autoridades. O jovens queixam-se de mau planeamento, de passarem demasiadas horas na escola, com uma carga letiva muito elevada e pouco sucesso. “Se olharmos outros sistemas, como a Alemanha ou a Finlândia, eles têm muito menos horas e os resultados escolares são melhores”, diz ao Observador Niels. Pierre interrompe-o. E diz-lhe: “Fala-lhes do calor que faz nas salas”. O jovem explica que a sua escola em Estrasburgo até tem condições, mas que já “não é assim, por exemplo, nos subúrbios de Paris”. A luta também se faz por solidariedade. O amigo insiste: “Fala-lhes do calor nas salas”.

“Pronto, está bem”, concede Niels. “No inverno temos aquecimento e está sempre calor nas salas, mais de 30 graus, mas no verão estão muito mais de 30 graus e não há ar condicionado. Não temos condições para trabalhar”, reclama, após a insistência do amigo.

O aluno da escola secundária Marie Curie diz que os estudantes têm sido convocados presencialmente e de forma espontânea junto às escolas, mas que os eventos são promovidos através do Signal. “Também há mobilização pelo Snapchat, WhatsApp e Instagram”, explica. Na manifestação não se veem só alunos. Há membros de sindicatos, movimentos anti-fascistas e movimentos anarquistas radicais. São esses que mais provocam a polícia. Há também grupos internacionais que se juntam em solidariedade como os jovens comunistas alemães (Sozialistishche Deutsche Arbeirterjugend). Niels admite que “há líderes de opinião dentro das escolas do partido de Le Pen e do Mélenchon”, mas que naquele caso “é mais esquerda, é mais Mélenchon”. Os cartazes e as palavras de ordem que se vão ouvindo comprovam-np: “Há aqui, an-ti-ca-pi-ta-lis-tas”.

Também há alguns professores no grupo de manifestantes. Poucos, mas há. Uma das professoras na manifestação de Estrasburgo dá umas breves palavras ao Observador, sem se querer identificar nem alongar: “Estamos aqui por duas razões: em primeiro para defender os nossos alunos, segundo também para melhorarmos as nossas condições de trabalho”. “Os professores são bem-vindos à nossa luta”, diria ao Observador um outro manifestante.

Os jovens seguem em marcha com palavras de ordem e vão tendo manifestações de apoio pela cidade. Há moradores que os saúdam das janelas. Do interior de uma obra, há um trabalhador que não se mostra, mas que se faz ouvir com gritos: “ACAB”. Os alunos repetem. Mais à frente, dois moradores de um segundo andar, atiram um unicórnio de peluche, que logo uma das manifestantes coloca às cavalitas e segue viagem.

Há alguns jovens no meio do grupo que têm a indicação de “médico” no capacete ou no colete e seguem equipados com borrifadores de soro fisiológico para colocar nos olhos de quem venha a ser atingido por gás lacrimogénio. O que viria a acontecer. Os confrontos não foram tão intensos como os de terça-feira, mas voltaram a existir. Se na terça-feira as estimativas falaram na presença entre 5 e 15 mil manifestantes, a polícia garante que, desta vez, eram apenas 1200.

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