Roteiristas de ‘GTA 6’ explicam a sátira do jogo: ‘Se você vai criar uma versão do mundo de hoje, ela precisa ser mais insana que o mundo real’

Em entrevista, equipe de narrativa da Rockstar explica por que o estúdio deixou de lado modismos da internet
Kadu Soares (@kadusoares__)
Antes de incluir uma referência cultural em Grand Theft Auto VI, a Rockstar Games fazia uma pergunta simples: ela ainda faria sentido no futuro? A resposta determinava o que entraria no jogo e o que ficaria de fora. Em entrevista à LOVE Magazine (via Eurogamer), Rupert Humphries, vice-presidente sênior de narrativa do estúdio, explicou a lógica por trás das escolhas criativas de um projeto que levou cerca de uma década para ser desenvolvido. O resultado, segundo ele, é um mundo intencionalmente exagerado e grotesco, bem mais absurdo que a realidade.
O longo ciclo de desenvolvimento está no centro desse raciocínio. Séries como South Park conseguem abordar uma tendência cultural poucas semanas depois de ela surgir — e deixá-la de lado quando perde força. Já a Rockstar trabalha em ciclos de cinco, seis ou até dez anos. Um modismo da internet incorporado ao jogo em 2020, por exemplo, poderia estar ultrapassado quando o título chegasse ao público, em 2026. Por isso, a equipe preferiu apostar em fenômenos mais duradouros: teorias da conspiração, reações coletivas a acontecimentos banais e o absurdo estrutural da vida contemporânea nos Estados Unidos.
“Na maioria dos casos, em vez de tentar reproduzir algo real do mundo, criamos nossas próprias versões distorcidas e exageradas”, disse Humphries. O jogo também inclui propagandas eleitorais, chamadas automáticas de campanha e programas de rádio políticos, mas sem retratar figuras reais identificáveis.
A entrevista também aborda como o conceito do Sonho Americano mudou ao longo da franquia. Em GTA IV (2008), Niko Bellic — um imigrante que descobre que os Estados Unidos não correspondem ao que lhe prometeram — já questionava a ideia de mobilidade social no país. GTA V (2013) foi além: seus três protagonistas já faziam parte do sistema e, ainda assim, encontravam vazio e corrupção por toda parte. Em GTA VI, a ambição parece mais modesta. “Talvez o Sonho Americano seja mais modesto agora”, disse Humphries. “Uma casa para a sua família e os financiamentos quitados — mas talvez hoje isso já esteja fora do alcance da pessoa comum.” A Flórida fictícia de Leonida, cenário do jogo, é descrita pelo roteirista como um lugar em que fortunas absurdas e ambições sem limites colidem com a realidade de quem tenta apenas sobreviver, “uma panela de pressão para todo tipo de insanidade”.
Esse pano de fundo ajuda a compreender a construção dos protagonistas Jason Duval e Lucia Caminos. As roteiristas Elizabeth Gauvey-Kern e Alexa D’Agostino descrevem Lucia como alguém movida pelo desejo de construir uma vida melhor: determinada e disposta a enfrentar o que vier. Jason tem temperamento oposto: suas circunstâncias muitas vezes decidem por ele, e o personagem tende mais a reagir do que a agir. A equipe quis que ambos fossem, ao mesmo tempo, duros e vulneráveis, com imperfeições reais e espaço para aprender um com o outro. A comparação com Bonnie e Clyde é uma referência para o tom da relação, mas a Rockstar evita apresentar qualquer um dos dois como consistentemente certo ou heroico.
Grand Theft Auto VI será lançado em 19 de novembro de 2026 para PlayStation 5 e Xbox Series X/S. A versão para computadores ainda não tem data confirmada.
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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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