"A Caça ao Estripador de Lisboa": o que é o teatro imersivo?
O espectáculo estreia-se a 28 de outubro, a partir de um podcast do Observador. Mas como é que a "imersão" é um dos protagonistas? Quais os maiores desafios? E até que ponto se pode tornar tendência?
O amplo espaço do parque de estacionamento da Comunidade Hindu de Portugal, servirá a partir do final de outubro como palco de uma nova abordagem a um dos casos criminais mais famosos da história portuguesa recente. Depois da série que faz parte dos Podcast Plus, A Caça ao Estripador de Lisboa é agora uma peça de teatro imersivo, resultado de uma parceria entre o Observador e a agência Kilt.
Com estreia marcada para o dia 28 de outubro, o espetáculo está em cena até ao final de 2026, prometendo uma experiência diferente daquela a que o teatro tradicional nos habituou. Cenários interativos, proximidade com o elenco e liberdade para explorar os vários fios narrativos são ingredientes comuns deste modo de expressão artística, há vários anos consolidada fora de portas e que começou mais recentemente um percurso de expansão em Portugal.
“Tudo isto partiu de uma proposta feita pelo Ricardo Soares, o produtor executivo da Kilt”, começa por explicar ao Observador Simão Biernat, encenador da Caça ao Estripador. O também ator, que já conta no currículo com alguma experiência neste tipo de proposta, explica o que poderá o público esperar do espetáculo, e onde o “fator imersão” assume um papel preponderante para as cerca de 100 pessoas previstas como lotação máxima a cada sessão.
“Basicamente, os espectadores vão poder entrar num espaço que tem 1500m², cenografias espalhadas por toda a área e vão poder circular livremente. Cada ator vai interpretar vários personagens ao longo de todo o espetáculo, de toda a narrativa também”. O objetivo, esclarece, é que cada espectador possa individualmente “escolher que personagem ou parte da história é que lhes interessa e querem acompanhar, neste caso, na investigação. Desde testemunhas a polícias judiciárias, a suspeitos, no fundo poderem escolher que parte da história é que querem pesquisar”.
A segurança e os limites da interatividade
A envergadura e complexidade de uma produção deste tipo ultrapassa frequentemente as de espetáculos de teatro ditos “normais” – também por aí se explica o valor mais avultado de cada bilhete (49,50 euros), concede o encenador. “São 10 atores, no nosso caso, com 100 pessoas a assistir. Normalmente, quando vamos ver um espetáculo em teatro, são 300, 400 pessoas numa sala, e aqui temos um limite de 100. Mais esta logística toda de mudar o espaço, de reconstruir tudo do zero, é preciso tempo, é preciso uma grande equipa, muita paixão e investimento”.
▲ "A Caça ao Estripador de Lisboa" parte do Podcast Plus do Observador e estreia-se a 28 de outubro
Para lá da dimensão logística, Biernat reconhece também tratar-se de um desafio acrescido à segurança, quer do público, quer dos atores em cena, uma vez que a barreira da proximidade entre os intervenientes é, forçosamente, muito mais reduzida. Nesse sentido, explica, haverá regras que terão de ser escrupulosamente cumpridas.
“Não há interatividade de atores com o público, a não ser que os atores assim o façam. E há espaços mais específicos em que vai haver essa interação, mas que está tudo mais marcado e o próprio público saberá quando isso acontecer”. Está ainda estipulada uma distância de segurança de cerca de 1 metro entre atores e público, e cada apresentação contará com a presença de um aparelho de segurança para garantir que todos os limites são respeitados e que a experiência possa ser aproveitada por todos.
“A ideia não é que isto seja uma escape room ou que as pessoas tenham de investigar o seu próprio caso, mas sim que o público escolha qual das várias perspectivas quer ouvir… onde o público constrói um bocado a sua versão da peça, de alguma maneira”, explica.
Com uma duração que poderá variar entre os 90 e os 105 minutos, o bem-estar do público é também uma consideração no desenho deste espetáculo. Dada a natureza deambulante da experiência, “as pessoas acabam por ficar muito tempo em pé”, razão pela qual Simão Biernat e a restante equipa pensaram o espaço para incluir zonas de descanso com cadeiras – “o que não impede que continuem a ver as cenas em si também”, sublinha o encenador, enfatizando uma das vantagens que o “palco” do parque de estacionamento traz: um campo de visão de 360º, que permite a qualquer pessoa assistir a tudo o que se passa à sua volta.
Na Caça ao Estripador de Lisboa, o objetivo é que cada espectador possa individualmente “escolher que personagem ou parte da história é que lhes interessa e querem acompanhar, neste caso, na investigação. Desde testemunhas a polícias judiciárias, a suspeitos, no fundo poderem escolher que parte da história é que querem pesquisar”.
Até abraçar este projeto, o artista confessa que não sabia sobre o caso do assassino em série de prostitutas que aterrorizou a noite de Lisboa no início da anos 90 – e que, à semelhança da óbvia comparação internacional, o inglês “Jack o Estripador”, nunca foi apanhado. Para construir o guião, baseou-se sobretudo no material recolhido originalmente para o podcast do Observador e em conversas com Carlos Ademar Fonseca, o único investigador da PJ ainda no ativo que acompanhou o caso do Estripador.
Por uma questão de “sensibilidade” para com as vítimas, o encenador diz ter tomado a opção de não contactar os familiares. “É um caso muito recente, há que compreender que as famílias podem não querer reviver esses casos, dar-lhes espaço para fazer o seu luto. De qualquer modo, serão sempre muito bem-vindas a vir recordar e recuperar o que foi, infelizmente, aquele tempo”, diz Biernat, explicando que a intenção, em última análise, é que o espetáculo se trate não de “uma coisa de entretenimento”, mas de uma “homenagem às três vítimas”.
O “momento Corvo” e o teatro para uma nova geração
Ainda que incomum, o fenómeno do teatro imersivo vai sendo cada vez menos uma novidade. Ao longo da última década, projetos deste tipo têm-se multiplicado, alguns com ambição e escala que rivaliza com propostas semelhantes a nível internacional. Um dos principais impulsionadores da modalidade em Portugal é Nuno Moreira, fundador da agência de publicidade digital Fullsix, docente na Nova SBE e parceiro da House of Neverless, empresa focada em experiências imersivas para empresas, que aproveita vários conhecimentos adquiridos pelo profissional do marketing ao longo de mais de uma década.
Ao Observador, explica que a paixão pelo teatro imersivo começou numa visita aos EUA. “Em 2013 fui a Nova Iorque ao Advertising Week, mesmo só para ver coisas de publicidade, e alguém disse-me para ir ver uma peça chamada Sleep No More, que era uma peça dos Punchdrunk, que são os mestres do teatro imersivo. Nem sabia o que era na altura, entrei num edifício de cinco andares durante três horas e a minha vida mudou, saí de lá com a cabeça feita num oito, nem sabia o que é que me tinha acontecido”, recorda.
▲ Não sendo a primeira produção imersiva em Portugal, "E Morreram Felizes Para Sempre" revelou-se um sucesso entre o público
A adrenalina da experiência convenceu-o de que o formato tinha potencial, ainda que na altura estivesse longe de imaginar vir a desenvolver atividade no setor. “Sou de marketing, não tinha experiência nenhuma de teatro. Mas achei logo que aquilo tinha muita adrenalina, era muito mais interessante do que um teatro clássico em que estamos sentados e todos vemos a mesma coisa num palco”.
A oportunidade surgiu, já em Portugal, no âmbito da iniciativa Lisbon Week, em 2015. O desafio então apresentado à Fullsix passou por reaproveitar um edifício devoluto no antigo Júlio de Matos; Nuno Moreira, que entretanto havia realizado em Londres uma formação em teatro imersivo com os Punchdrunk, propôs a ideia de um espetáculo de exploração livre, baseado num cruzamento entre a lenda de D. Pedro e Inês de Castro e a vida e obra do Nobel da Medicina português, Egas Moniz.
Não sendo a primeira produção imersiva em Portugal, E Morreram Felizes Para Sempre revelou-se um sucesso entre o público, um resultado que, diz o criador, premiou sobretudo o esforço e o investimento da equipa envolvida. “Só foi possível porque criámos aqui uma equipa artística fantástica, a Ana Padrão, que era a encenadora, depois tinha contactos em tudo o que interessava na área da cenografia, da parte de iluminação, do som e por aí adiante, porque em trabalhos imersivos tem que se ter muito cuidado com o detalhe, não se pode abrir brechas para as pessoas fugirem dessa imersão”.
“As novas gerações interessam-se muito mais por coisas como o true crime, as séries que passam nas plataformas de streaming. Ou até a minha geração, recordo-me muito do CSI, das séries policiais que davam também na RTP, dos casos de tribunal... até os videojogos, que são muito mais violentos e interativos hoje em dia. Portanto sim, hoje estamos muito mais abertos a esse tipo de experiências”, diz Simão Biernat.
O sucesso repetiu-se de forma ainda maior anos mais tarde, com A Morte do Corvo, espetáculo novamente da autoria de Nuno Moreira, ambientado nos anos 20 e no universo literário de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Edgar Allan Poe. Estreada em 2023, permaneceu em cena no Hospital Militar da Estrela por três anos, concluindo as suas apresentações no início de 2026, atraindo cerca de 40 mil espectadores ao longo de mais de 500 apresentações.
O sucesso da iniciativa alavancou ainda o crescimento da House of Neverless, mais focada em experiências para o mundo corporativo. O elo entre o teatro imersivo e o mundo da publicidade é de resto reconhecido pelo marketeer, que ao longo dos anos desenvolveu ainda iniciativas do género em parceria com diferentes marcas. “Para nós é uma questão financeira, fizemos tudo com fundos próprios, não tivemos ajuda nem da Câmara, nem do Estado, nem da DGArtes, nada. Por isso precisamos de recorrer a marcas para nos ajudarem financeiramente, e depois de recorrermos às marcas, temos a obrigação de lhes dar valor acrescentado e de as integrarmos na experiência”, justifica.
▲ A Morte do Corvo, espetáculo da autoria de Nuno Moreira, ambientado nos anos 20 e no universo literário de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Edgar Allan Poe
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Ainda que alguns possam olhar para o exercício com algum cinismo, Nuno Moreira prefere enquadrar a questão como um desafio de evolução ao mundo das artes do espetáculo. “Percebo perfeitamente que a nível de teatros mais clássicos tenha que haver lugar para as peças de sempre do Shakespeare, do Tchekhov… já se viu 40 e tal adaptações do Macbeth, venha a 43.ª. Mas em paralelo, tem que haver também lugar para coisas mais arrojadas, criações originais e não só adaptações. Para diversificar o público, para conseguirmos atrair até as camadas mais jovens ou pessoas que normalmente não iriam ao teatro se calhar temos mesmo que arriscar”.
Também Simão Biernat vê no momento atual uma oportunidade para captar novos espectadores, alimentados pelos estímulos do audiovisual e mais predispostos a uma abordagem deste tipo. “As novas gerações interessam-se muito mais por coisas como o true crime, as séries que passam nas plataformas de streaming. Ou até a minha geração, recordo-me muito do CSI, das séries policiais que davam também na RTP, dos casos de tribunal… até os videojogos, que são muito mais violentos e interativos hoje em dia. Portanto sim, hoje estamos muito mais abertos a esse tipo de experiências.”
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