Guiné-Bissau: a porta de saída aberta a Sissoco

Não havia nada a saber. Ante tão convincentes perspectivas de uma derrota eleitoral (era o que os primeiros resultados demonstravam), mandou parar o respectivo processo. De caminho engendrou um muito imaginoso golpe de Estado contra si próprio, no rescaldo do qual partiria para um pretenso exílio. No seu lugar deixava uma caterva de submissos e indefectíveis, todos escolhidos a dedo, e aos quais confiara a missão de um dia o receberem em triunfo para lhe devolver o poder.
Umaru Sissoco Embaló, o General-Presidente da Guiné-Bissau, é o sujeito da trama aqui apincelada. Ver o céu cair-lhe na cabeça quando lhe vieram comunicar que “ia perder as eleições” foi coisa a que não terá sido estranho o excesso de confiança com que se abalançara às eleições presidenciais de Novembro de 2025. Afinal de pouco servira a manipulação a que sujeitou a campanha eleitoral, incluindo o regime de exclusão política imposto ao seu principal adversário – Domingos Simões Pereira.
Os seus prosaicos instrumentos de poder – entre outros, o dinheiro, vindo-se sabe-se lá de onde, o nepotismo e a repressão política – também não lhe serviram tanto assim. E a magreza da votação por ele de facto alcançada também revelava que não era levado a sério (se era não passava de fingimento) ao fazer-se passar por alguém ungido de uma espécie de direito natural de “mandar” na Guiné-Bissau. Ou por alguém que pusera nos píncaros o prestígio internacional da Guiné-Bissau.
O excesso de confiança que levou Sissoco (Sissocô, como localmente o tratam), a não esperar mais nada senão uma esmagadora vitória eleitoral também não lhe permitiu ver (se viu, deu de barato) alguns “pequenos problemas” práticos: a máquina eleitoral da Guiné-Bissau continuava a não estar martelada; os balantas, maioritários e senhores de um forte espírito de grupo, não estavam com ele, mas sim com o seu adversário, Fernando Dias, um balanta como ele; conotar-se tão ostensivamente com o islamismo (sempre de turbante) não era coisa avisada, sobretudo conotando-se mais com os fulas do que com os mandingas, rivais entre si.
Da torre de marfim instalado na qual mirava o seu país também nunca deve ter conseguido ver a sua legião de indefectíveis como uma minoria sociológica, provavelmente não tão influente como a considerava. Além de que o interesseirismo presente na história de vida de muitos deles, talvez ainda se mantivesse intacto, ou seja, que em chegando a hora, haveria de revelar que apreciavam muito o dinheiro e as mordomias que Sissoco lhes proporcionava, mas não o respeitavam como devia ser.
Faz alguns meses, talvez cinco, que se começaram a manifestar na conduta de alguns daqueles que Sissoco deixara no poder, sinais de que estava a esmorecer o sentido de dever que Sissoco esperava deles, como firmes guardiães do seu poder e por isso prontos a estender-lhe uma passadeira vermelha no momento do seu regresso. Consultavam-no cada vez menos, nem sempre lhe atendiam os telefonemas que lhes fazia ou não acantando como ao princípio as “orientações” que lhes dava.
Em tempos do presente, a evolução que foi a desses sinais viria mesmo a ver neles uma crescente erosão da predisposição ou da vontade de o “aceitar de volta” por parte daqueles que há um ano deixou em Bissau feitos seus pró-cônsules políticos. Conhecida a data escolhida por Sissoco para o seu regresso a Bissau, 4 de Outubro, eis que lhe impuseram “restrições”, entre elas a de não se instalar numa morada sua perto do palácio do palácio presidencial. Imediatamente antes tinham-lhe desmantelado o seu exército privado e promovido o “saneamento” de muita da sua gente de confiança no aparelho de Estado.
Ilídio Vieira Té foi, entre aqueles a quem Sissoco confiara a sacrossanta missão de o receber, aquele que mais cedo terá começado a vacilar. A ele, homem de sua consabida confiança, deixara-o à frente do governo, acumulando a pasta das Finanças, de que já era titular. Em fins de Setembro, o que um acalorado telefonema entre Vieira Té, então em Nova Iorque, e Sissoco, ele no seu exilio de Casablanca, revelou foi uma clara ruptura entre ambos.
O general Horta Int-a, deixado por Sissoco como presidente de Transição, esse foi aquele que mais tempo levou a romper com aquele de quem fora guarda-costas. Numa reunião de um orgão “de cúpula” com o pomposo nome de Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública, que se estendeu por todo o dia 1 de Outubro, Horta Int-a viria, porém a alinhar com a maioria dos membros – fechando a porta a um regreeso de Sissoco , Por razões “securitárias”, foi feito constar.
Nas nuvens em que viveu o seu exílio marroquino e continuando a olhar para si mesmo como um predestinado que todos venerariam, nunca deve sequer ter assaltado a Sissoco o pressentimento de que aqueles que deixou em seu lugar tenderiam a apegar-se ao poder e por via disso a alimentar ambições políticas. Foi o que manifestamente se passou, a par de certezas de que um regresso de Sissoco ao poder se viria a revelar prejudicial para o país.
Não goza de aceitação ou de popularidade interna – especialmente entre os balantas e os papéis de Bissau, mas sobretudo nas Forças Armadas, estas muito influenciadas por alguém reverencialmente escutado no seu corpo de oficiais: o general António Indjai, antigo CEMGFA. A má reputação de Sissoco, vinda de trás, mas consideravelmente agravada pelo seu fantástico auto-golpe de Estado, “queimou-o” na região e internacionalmente, é o que dizem aqueles que agora o querem ver pelas costas.
O ambiente de festa, exuberante festa, com que o anúncio do não regresso de Sissoco foi acolhido pela população de Bissau e em influentes meios da sociedade, deve ter levado aqueles que lhe fecharam as portas a dar por acertada a sua decisão. Assim se criando uma dinâmica da qual há esperar o fim da sua vida política. O desmantelamento do Estado paralelo por ele criado, incluindo a purga dos “seus”, contribuirá para isso.
O que virá a seguir a Sissoco é uma incógnita. A lógica que até agora seguiram as grandes mudanças políticas na Guiné-Bissau – a uma situação má seguiu-se outra pior – recomenda prudência. A ideia de que com Sissoco o país bateu no fundo dos fundos, (não há mais fundo para bater) permite, todavia, acalentar alguma esperança. As ruindades que lhe apontam – aventureirismo político, tráfico de influências, inépcia governativa e o mais – não parece que se repitam em mais alguém.
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