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Thursday, September 24, 2026

Investigação da polícia mira suposto esquema de venda de imóveis da Cohab em SP

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Investigações em andamento nos âmbitos criminal e administrativo na cidade de São Paulo apuram denúncias de que um grupo cobrava para intermediar o acesso a dezenas de apartamentos e furar a fila da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação). Parte dos envolvidos admitiu o esquema à polícia em depoimentos a que a Folha teve acesso.

Um dos investigados é Odeilto Prospero dos Santos, 62, sócio da Lubens (empresa de intermediação de negócios) e presidente da Amit (Associação de Moradia Igualdade para Todos). Ele também tem sido acionado na Justiça e denunciado em boletins de ocorrência por pessoas que alegam ter pago por moradias que deveriam ser entregues pelo programa habitacional a famílias de baixa renda.

Em nota, a defesa de Prospero destacou que a investigação não foi concluída. Em depoimento, o empresário afirmou não ter cometido crimes, embora admita ter recebido o que chamou de uma "comissão". À reportagem fez acusações contra a principal denunciante.

O esquema ainda envolveria ao menos uma servidora aposentada da Secretaria Municipal de Habitação e uma ex-estagiária do jurídico da Cohab. Inquéritos analisam indícios de que o grupo tinha acesso a dados e contatava potenciais compradores.

Hoje, cerca de 330 mil famílias estão inscritas no cadastro de demanda da Cohab, voltado a reduzir o déficit habitacional da cidade.

Documentos a que a Folha teve acesso apontam que as famílias-alvo eram atendidas em uma sala comercial da Lubens, na rua da Consolação, no distrito Jardim Paulista.

Segundo a denúncia, Prospero se apresentava como intermediador cadastrado na Cohab. No local, havia placas e referências à companhia, à prefeitura e à Caixa.

O grupo oferecia acesso a imóveis supostamente de desistentes em prédios nas zonas sul, leste e central. As investigações começaram em 2024, mas avançaram principalmente desde o fim do ano passado, com a coleta de depoimentos.

O inquérito policial apura o crime de estelionato, com a Cohab registrada como vítima. Os casos remetem especialmente ao período de 2017 a 2022.

Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que a investigação administrativa feita pela própria prefeitura está em etapa final e que elementos técnicos apontam ausência de ilícitos praticados por pessoas hoje ligadas ao poder municipal.

Inquéritos policiais, processos judiciais e depoimentos de parte dos próprios envolvidos trazem, contudo, indícios de cobrança de valores.

Como supostamente funcionava o esquema

A ex-estagiária da Cohab Sara Monteiro dos Santos, 39, teria ajudado a selecionar os imóveis que seriam vendidos. Em depoimento na Polícia Civil, em setembro de 2025, afirmou que Prospero lhe ofereceu R$ 2.000 por apartamento indicado.

À polícia ela contou ter sido procurada pelo empresário em 2019, o qual teria afirmado que tinha acesso a funcionários da Cohab para agilizar e furar a fila de inscritos para atendimento habitacional.

De acordo com o depoimento de Sara, o empresário cobrava R$ 35 mil para acelerar o acesso a uma unidade. Parte desse valor seria destinado a trabalhadores da companhia, ainda segundo o relato.

Além disso, a ex-estagiária contou ter recebido valores em sua conta, mas que os repassou a Prospero. À Folha o advogado dela respondeu que não tinha nada a declarar.

Entre os imóveis citados no inquérito estão unidades nos conjuntos Phobus A e Phobus B, entregues pela Cohab em 2021 e 2022 no distrito São Mateus, na zona leste. Publicações da prefeitura à época apontaram que as famílias beneficiadas eram de remoções para obras em área de risco.

O esquema envolveria também outros servidores da prefeitura. As investigações apuram a suposta participação de Sueli Aparecida Pace Girardi, 64, que trabalhou como assistente técnica na Secretaria de Habitação e foi servidora municipal de 1981 a 2016, quando se aposentou.

Ela afirmou à polícia que recebia de Prospero fichas cadastrais de interessados na aquisição de apartamentos e que as repassava a pessoa da Cohab referida no processo apenas pelo apelido (com a indicação de que teria morrido recentemente).

Segundo a servidora aposentada, o empresário pagava uma "ajuda de custo". O valor variava de R$ 2.000 a R$ 4.500, dividido entre trabalhadores da companhia.

Sueli negou à polícia ter ficado com qualquer dinheiro. A aposentada reconheceu que a atividade era ilegal, mas alegou que não sabia que o esquema envolveria furar a fila de espera –segundo ela, o grupo dizia se tratar de vagas para público especial.

A versão apresentada pela ex-servidora é distinta, porém, do que ela mesma alegou em ação que moveu contra Prospero em 2022. No processo, admitiu que manteve parceria com o empresário desde 2019 e que recebia R$ 1.000 por família, o que resultou em R$ 150 mil em cerca de três anos.

O acordo acabou quando ela foi procurada e ameaçada por pessoas que não receberam os apartamentos. Dizendo-se assustada, procurou Prospero e propôs devolver o dinheiro recebido ao longo da parceria.

O empresário, porém, teria exigido os R$ 150 mil à vista, não parcelados, o que deu origem à ação movida por Sueli. No processo, a ex-servidora requeria o parcelamento da devolução.

Procurada por email e mensagem em 12 de agosto, Sueli não respondeu à Folha. O advogado dela questionou o acesso da reportagem às informações e não enviou posicionamento.

Na apuração principal, Prospero reconheceu que tinha negócios para viabilizar aquisição de habitação junto à Cohab com Sara e Sueli. Afirmou que atuou "sempre dentro da legalidade", mas admitiu receber cerca de 2% como "comissão".

'Contribuições associativas'

Há poucos dados públicos sobre a Lubens e a Amit, hoje inaptas no cadastro federal. No caso da associação de moradia, a Folha não encontrou publicações de mobilizações, perfil em rede social ou outros registros de atos ou reuniões.

Segundo documentos obtidos pelos investigadores e apresentados pela denunciante, parte dos valores pagos pelas unidades era registrada em recibos de "contribuições associativas". Isto é, mensalidades pagas voluntariamente por pessoas que mantêm vínculo com organizações.

Esses documentos estão anexados ao inquérito, com valores de R$ 8.000 a R$ 20 mil. Há casos de até R$ 40 mil por apartamento. O montante chegava a tal valor porque seria uma contribuição acumulado de diversos anos paga de uma só vez, conforme indicavam recibos.

De acordo com denúncia anexada aos autos, Prospero também indicava às famílias como driblar os tetos de renda da Cohab, assim como tinha conhecimento de medidas do tipo tomadas pelos adquirentes. Isso incluía, por exemplo, sugerir a declaração de separação de corpos por casal ou aceitar a inscrição no nome de outro familiar, como idoso ou jovem.

Grande parte dos empreendimentos da Cohab em São Paulo é de unidades para famílias com renda de até três salários mínimos. A prestação paga à companhia não pode ultrapassar 15% da renda nesses casos, por período de cerca de 25 anos. A seleção dos atendidos considera critérios de prioridade (como idade e morar em área de risco) e não segue necessariamente ordem cronológica de inscrição.

Investigação na prefeitura aponta 'ausência de ilícitos' de servidores

A comissão de apuração da prefeitura foi instituída em março, após despacho do TCM (Tribunal de Contas do Município), que encaminhou a denúncia após análise de que a apuração não seria de sua competência.

A gestão Nunes prorrogou duas vezes a investigação, a última em julho, para manifestação do Departamento de Procedimentos Disciplinares da secretaria municipal. O processo ainda está em andamento.

Em 12 de agosto, a prefeitura respondeu à reportagem que a apuração estava em fase final, "acumulando elementos técnicos que comprovam a total regularidade dos procedimentos e a ausência de ilícitos ou de envolvimento de servidores". Procurada novamente em 16 de setembro, disse que não havia atualização.

A gestão Nunes reforçou que não cabe a servidores definir beneficiários e que é expressamente vedada a venda de vagas ou cobrança de taxas, inclusive de desistentes e leilões. Também negou que a abertura da apuração tenha ocorrido depois de comunicação pelo TCM.

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