Digimais, banco de Edir Macedo, investiu em papéis podres iguais aos usados pelo Master em fraude
Brasília O banco Digimais comprou R$ 271,4 milhões em papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) por meio de um fundo de investimentos chamado Betel.
A aplicação se assemelha às realizadas pelo Banco Master, como revelado pela Folha em janeiro deste ano. No caso do banco de Daniel Vorcaro, fundo ligado à instituição financeira comprava títulos do Besc, que não valem praticamente nada no mercado, como se valessem milhões, com o objetivo de inflar os balanços.
Esses dados inflados permitiam retiradas vultosas do Master via empréstimos, uma vez que os fundos com papéis podres eram usados como garantia. Isso também ajudava a melhorar o balanço do Master, aumentando seus ativos artificialmente, o que permitia ao banco de Vorcaro seguir captando recursos no mercado via oferta de CDBs (Certificado de Depósito Bancário).
Publicidade
Investigadores trabalham com a hipótese de que o ex-banqueiro, familiares e aliados usavam essa estrutura de fundos artificialmente inflados para desviar dinheiro do banco.
Tanto os fundos do Master quanto os do Digimais eram administrados pela Reag, gestora que foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano, sob a acusação de violar normas do sistema financeiro.
Publicidade
O Digimais era, até janeiro deste ano, o único cotista do Betel, de acordo com dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) enviados à CPI do Crime Organizado do Senado e obtidos pela Folha. Todo o montante de recursos depositados no fundo, de R$ 271,4 milhões, estava aplicado em cártulas do Besc.
O montante representa 82% do patrimônio líquido do Digimais, que de acordo com o último balanço era de R$ 331 milhões.
Procurada pela reportagem, a Reag não respondeu. João Carlos Mansur, dono da gestora, apresentou uma proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República e aguardava aprovação do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) até a crise na corte paralisar as investigações.
Não há nenhuma menção ao Fundo Betel no balanço do Digimais. O fundo também não está listado como parte do conglomerado prudencial da instituição no Banco Central.
Procurado, o Digimais afirmou que o Betel não integra mais seu portfólio desde outubro de 2025. A afirmação contradiz os dados da CVM enviados à CPI do Crime Organizado do Senado.
Publicidade
Questionado sobre isso, o Digimais manteve a resposta de que o fundo não faz mais parte do portfólio da instituição desde outubro de 2025. O banco não informou quanto recebeu pelas cotas do fundo, caso tenha sido vendido.
Betel significa "casa de Deus" em hebraico e é o nome de uma cidade retratada na Bíblia como tendo sido fundada por Jacó após um sonho profético. O Digimais é controlado pelo grupo Record, que por sua vez é do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
O Digimais é investigado pela Polícia Federal por ter supostamente manipulado os seus relatórios financeiros para esconder sua real situação e aparentar solidez diante dos órgãos de controle. Nesta quinta-feira (17), o banco divulgou balanço com prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre deste ano.
A PF identificou que o Digimais usava diversas estratégias para inflar o patrimônio e, assim, captar mais dinheiro no mercado —o montante que um banco pode buscar no mercado é proporcional ao que tem em ativos no balanço.
Os investigadores já identificaram que alguns dos métodos utilizados pelo banco de Edir Macedo para melhorar artificialmente seu balanço eram semelhantes aos do Master, mas o uso de cártulas ainda não apareceu nas investigações.
Publicidade
Os crimes sob apuração incluem gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e a realização de empréstimos e financiamentos que a lei proíbe um banco de fazer justamente para evitar manipulação. Um dos focos da investigação é a compra de precatórios —títulos de valores a receber em sentenças judiciais contra o Estado.
O Fundo Betel foi criado em 24 de abril de 2025 com o nome de PNG International Bank. Dois meses depois, em 26 de junho, o fundo fez uma emissão de cotas, todas compradas pelo Digimais. É nesse momento que o fundo muda de nome para Betel.
O investimento nos papéis do Besc aparece já nas informações do fundo de julho de 2025 e continuam até o dado mais recente, de agosto deste ano.
Carregando...
As cártulas foram adquiridas de outros dois fundos, o SDG II e o BB Claim. Ambos fazem parte de uma cadeia de fundos que tem como proprietários finais os filhos de Mansur, da Reag. O SDG II foi utilizado pelo Master para esconder R$ 5,4 bilhões em empréstimos do banco.
Operações de fundos da Reag com papéis do Besc são investigadas pela CVM desde 2022, como mostrou a Folha. A investigação apura eventuais irregularidades em operações feitas por cinco fundos de investimento geridos pela Reag em 2020.
Publicidade
O Besc foi comprado pelo Banco do Brasil em 2008. Os certificados de ações do extinto Besc que existiam na época são chamados de cártulas e são um documento físico.
Na época, os acionistas receberam ações eletrônicas do Banco do Brasil em troca, mas não precisaram entregar os documentos físicos. A partir daí, esses papéis passaram a ser usados em fraudes, como se ainda representassem ações do Besc.
"Nenhum ex-acionista do Besc ficou sem ter a opção de ser alçado à condição de acionista do Banco do Brasil", afirma o Tesouro Nacional em uma cartilha sobre fraudes divulgada em 2025. Segundo o órgão, as cártulas do Besc têm hoje só valor histórico.
No caso do Banco Master, os valores declarados em cártulas superavam R$ 850 milhões.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.