Porque é que Moisés não chegou a entrar na Terra Prometida?

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Porque é que Moisés nunca chegou a entrar na Terra Prometida? Este é o terceiro episódio da terceira temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
E esta semana vamos falar sobre uma das personagens centrais do Antigo Testamento e de toda a história bíblica: Moisés. O homem que resgatou o povo hebreu do Egito na história épica do Êxodo e da travessia do Mar Vermelho, que trouxe do topo do monte as tábuas com os 10 Mandamentos e que acabou por morrer às portas da Terra Prometida, onde nunca chegou a entrar. É na história atravessada pela vida de Moisés que encontramos alguns dos momentos mais importantes de toda a Bíblia. E é nestes textos que assentam as normas, regras, tradições e práticas que vão definir a religião judaica. Mas quem foi, afinal, Moisés? Como é que um hebreu nascido no cativeiro se transformou em libertador? Como foi a experiência como líder? Por que ele não entrou na Terra Prometida? E será que existiu mesmo? Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, quero aproveitar para lembrar os nossos ouvintes que a nossa caixa de e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt, está sempre à disposição para perguntas, sugestões e comentários. Nós procuramos responder às perguntas dos nossos ouvintes num episódio especial todas as quintas-feiras. Esse episódio é exclusivo do podcast, portanto, não passa na Rádio Observador. E não se esqueça de seguir o programa nas plataformas habituais onde nos ouve, para não perder nenhum episódio. Ora bem, nesta semana vamos falar sobre Moisés, uma figura absolutamente decisiva do Antigo Testamento. Moisés, na verdade, não é bem um estreante no nosso podcast. Quem tem acompanhado as histórias da Bíblia sabe que na primeira temporada nós já fizemos um episódio sobre o Êxodo, especificamente, e na segunda temporada falamos bastante de Moisés num outro episódio em que falamos sobre Josué, que foi o sucessor de Moisés. Mas esta semana queremos olhar especificamente para esta personagem, Moisés. Daniel, estamos a falar, sobretudo, de uma personagem literária, mais do que uma figura histórica? É a pergunta que eu faço sempre.
É interessante que coloque essa questão assim, porque de facto, fora da Bíblia, não há traços de Moisés. Na literatura egípcia, noutros contextos literários circunvizinhos, a arqueologia não nos dá provas da existência de Moisés. No entanto, é uma personagem absolutamente central e é a figura principal do Pentateuco, ou seja, destes primeiros cinco livros da Bíblia, porque embora seja no Êxodo que normalmente nos centremos, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio vão nos fazendo acompanhar a vida de Moisés de formas bastante diferentes. E talvez culturalmente saibamos muito sobre Moisés, sobretudo o seu nascimento, o seu crescimento, a literatura e sobretudo o cinema, as artes visuais vão desenvolver muito aquilo que é... E também recuperando uma tradição já antiga da literatura não bíblica, mas desta literatura pós-bíblica, parabíblica, literatura antiga que comenta e desenvolve os textos bíblicos, os midrash e outro tipo de textos judaicos, vão nos encher a história e a vida de Moisés com mais cor, com mais detalhes. Se olharmos para aquilo que o livro do Êxodo nos diz sobre Moisés, a forma como nasce, como depois, porque o povo de Israel é escravo e perseguido no Egito, a mãe tenta salvar o seu filho colocando-o numa cesta, depois é salvo, é resgatado pela filha do faraó, cresce no corte do faraó. Tudo isso é muito igual a outros exemplos literários. Há um famoso rei, Sargon, ou Sargão, acho que se diz em português, de Acad, uma espécie de fundador também meio mítico do Império Assírio, que a literatura cuneiforme, que depois foi descoberta no século XIX, mostra-nos que aconteceu a mesma coisa. Esta figura também teve um nascimento secreto, também foi escondido em criança, também foi colocado numa cesta no rio, também foi resgatado do rio e depois subiu ao poder. E portanto, há aqui, nesta vida inicial de Moisés, um certo paradigma literário que, por um lado, leva os autores a duvidar dos traços históricos que aí estejam presentes, mas que também inserem Moisés numa tradição literária do antigo Próximo Oriente.
João, e a partir da narrativa da Bíblia, conseguimos traçar uma biografia desta personagem, Moisés? O Daniel falava aqui deste facto, ou melhor, deste dado muito conhecido da história de Moisés, que é o nascimento e a questão da cesta, deixado no rio Nilo numa cesta.
Sim, biografia conseguimos, mas talvez não biografia no sentido moderno. Até porque, como o Daniel referiu, há poucas informações extrabíblicas. Aliás, não acho que não há nenhuma. E mesmo essa questão A biografia é sempre um pouco difícil, mas o que nós podemos saber? Moisés nasce no Egito, num tempo de perseguição ao seu próprio povo, aos judeus. A sua primeira infância é dominada por um ciclo de figuras femininas: a irmã, a mãe e esta filha de Faraó. É curioso que quando Moisés é colocado nas águas e chega até à filha de Faraó, a irmã vai vendo se o Moisés está bem, se não é comido por nenhum crocodilo ou coisa assim, e sugere à filha do Faraó, não percebemos bem como é que aquela relação nasce, para que seja uma mulher que ela conhece, que por acaso é mãe de Moisés, a ser também uma espécie de ama. Portanto, há ali também umas relações um bocado esquisitas, mas também percebemos que ele não é propriamente um príncipe do Egito, no sentido em que nós não temos propriamente referências a uma educação cortesã e a uma posição política. O que nós sabemos é que a certa altura, Moisés, antes deste êxodo nacional, épico, há um êxodo pessoal. Moisés sai do palácio, confronta-se com o sofrimento que o seu povo passa, tem um episódio, mais do que cenário, de violência matando um egípcio.
Que estava a maltratar um hebreu.
Os próprios hebreus ficam com um bocadinho de medo de Moisés. Moisés é colocado fora, porque Moisés, na verdade, tem uma identidade, se disséssemos uma biografia moderna, tem uma identidade um bocado fragmentária, muito retalhada. Portanto, ele é hebreu entre egípcios, mas depois também é egípcio entre hebreus, portanto, ele não pertence necessariamente a lado nenhum ou a um sítio. Aliás, o próprio nome do filho de Moisés significa estrangeiro numa terra estrangeira, porque entretanto Moisés vai pro deserto, encontra um pastor, casa-se com a filha do pastor, tem um filho, etc. O próprio Moisés tem um bocadinho esta ideia de que a sua identidade está muito retalhada, porque é frequente ele referir-se à sua autoimagem como pesado de boca, pesado de língua, lábios incircuncisos, ou seja, ele neste fenômeno físico de dificuldade em falar, de uma espécie de gaguez, parece também se reflete aquilo que é uma gaguez pessoal. Moisés é um egípcio entre hebreus, um hebreu entre egípcios, parece uma pessoa que é de todo lado, mas na verdade não é de lado nenhum.
Estás a falar dessa fase da história em que Moisés sai, encontra o pastor, casa-se com Séfora. É nessa altura, mais ou menos, da narrativa que aparece o famoso episódio da sarça ardente, que ele percebe a sua missão de vida, basicamente.
Sim, a certa altura aparece uma crise de identidade que é composta a partir deste episódio da sarça ardente, que é também um episódio onde Deus se diz ao mesmo tempo que não se diz. Isso contrapõe-se com a imagem do Faraó, que representa, como já falamos noutros episódios, uma espécie de divindade controlável e identificável numa só pessoa, e Deus que nunca se identifica, e mesmo quando dá um nome, dá o nome um bocado às fugidas, só pra haver uma espécie de rastilho para se poder nomear.
Sobre esse tema, convido os nossos ouvintes a revisitarem o episódio da primeira temporada em que falamos sobre o nome próprio de Deus, em que falamos justamente sobre este episódio em específico. Mas Daniel, logo neste início da vocação de Moisés, nós começamos a identificar um aspeto que parece depois ser constante ao longo da história, um aspeto da personalidade de Moisés, que é: ele fica com muitas dúvidas, acha que ninguém vai acreditar nele, que pede a Deus algum sinal que o ajude depois a comprovar a veracidade daquele relato perante os hebreus. Isto depois ao longo da vida parece que vão acontecer crises de autoridade, hesitações, dúvidas. Estamos a falar de uma personagem complexa.
É uma personagem também muito moderna nesse sentido. O que eu quero dizer com isto? Que encaixa bem nos nossos paradigmas modernos de dúvidas e de crescimento interior. Ainda agora, neste recente filme sobre a Odisseia, uma das críticas que se fizeram foi transformar o Ulisses num traumatizado, com traumas mais modernos ou pós-modernos, mais do que propriamente o retrato que a Odisseia lhe dá. No caso de Moisés, e isto é uma característica interessante da literatura bíblica, que na sua rapidez ou no seu caráter parco em detalhes, abre espaço para depois criarmos e construirmos o personagem. Qualquer filme, desde "O Príncipe do Egito" ao "Êxodo", o filme do Ridley Scott há uns anos, desenvolve este tema de Moisés que cresce no corpo do Faraó, com Ramsés, que vai ser o futuro Faraó. Enfim, é anônimo no texto bíblico, mas geralmente é um candidato adequado para ser esse Faraó. Mas estes dramas da amizade e de sentir-se egípcio, mas depois descobrir que é hebreu, enfim, tudo isto encaixa bem nos nossos paradigmas modernos. Mas a literatura bíblica de certa forma permite isso, precisamente porque nos dá espaços também para irmos construindo esse personagem
Também nestas dúvidas, que não são propriamente umas angústias depressivas do século XXI, mas correspondem a uma dinâmica muito bíblica de um paradigma, de um template, por assim dizer, de chamamento profético. Muitos destes episódios da vida de Moisés, não é tanto pôr em causa a vida ou a historicidade de Moisés, mas dizer que muitos destes acontecimentos, sobretudo destes primeiros anos, o seu nascimento, a sua descoberta de si, a sua vocação neste episódio da sarça ardente, correspondem a modelos que vamos vendo reproduzidos noutros lugares da Bíblia. E, neste caso, este chamamento vocacional: Deus que aparece a alguém, Deus que dá uma missão a esse alguém, esse alguém que se sente indigno e diz: "Não sou capaz", mas Deus depois dá um sinal, e depois a história segue. Isso acontece com Moisés, acontece com outros profetas, acontece com outros personagens do Antigo Testamento e portanto, vemos aqui uma forma de contar a história muito comum na Bíblia. Por exemplo, também o seu casamento com Séfora, a sua descoberta da mulher, um encontro junto a um poço.
Que é salva de uns ladrões.
Sim, também salva de uns ladrões, de uns pastores. Também isso já no livro do Gênesis vimos acontecer várias vezes.
Isso depois vai ser importante ao longo da história de Moisés. Como eu disse no início deste episódio, como já tivemos um episódio em que falamos especificamente sobre o Êxodo, vamos passar rapidamente por cima desses acontecimentos, as pragas do Egito, o Mar Vermelho, o faraó e a perseguição. Mas, João, vamos já pro outro lado do Mar Vermelho nesta história, quando Moisés consegue finalmente salvar, resgatar o povo hebreu. Estão livres, o faraó foi derrotado, mas aí começa um novo desafio, quer pro povo, quer também pra própria autoridade de Moisés, porque eles começam a perguntar se valeu mesmo a pena seguir Moisés quando não têm comida, não têm rumo.
O texto diz a certa altura que eles não escutam Moisés, por exemplo, por falta de fôlego e de trabalho duro. Pode não ser propriamente o fato de eles estarem a ser infiéis ou estarem a ser pouco agradecidos. Talvez eles realmente ainda não tenham a capacidade de receber a promessa, porque ainda têm esta falta de fôlego e este hábito de trabalho duro próprio da escravidão. O deserto, de certa maneira, é um tempo, um espaço-tempo necessário para recuperar estas capacidades. Nós já vimos noutros episódios, até nesta temporada, a ideia de uma certa pedagogia que a Bíblia tem de poucos imediatos. E o deserto também tem esta função. Moisés aqui acaba por ser uma espécie de mediador, porque ele fala de Deus ao povo e fala do povo a Deus. O que não deixa de ser curioso, porque nós já vimos que Moisés era alguém que tinha algumas dificuldades a falar. Não era propriamente um orador moderno, muito empolgado e, portanto, uma pessoa com uma voz muito débil é aquela que é escolhida, também dentro destes modelos que Daniel falava, proféticos, de pessoas com muitas debilidades, que depois são escolhidas, que têm que se superar quase a si mesmas ou assumir as suas fragilidades diante de Deus, são muito comuns. É curioso que na primeira parte da vida de Moisés, ele faz muitos golpes, ou seja, ele mata o tal egípcio, o golpe com os faraós com as pragas, o golpe no mar, o golpe na rocha, e ele agora vai passar de golpes para palavras. E há aqui uma espécie de transição que acontece.
E nós vamos encontrando ao longo dessa narrativa do deserto que Deus, de certa maneira, está do lado de Moisés e vamos continuar a falar disso na segunda parte deste episódio das Histórias da Bíblia e vamos tentar perceber por que Moisés, na verdade, nunca chegou a entrar mesmo na Terra Prometida. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte das Histórias da Bíblia, com os padres João Basto e Daniel Nascimento, e esta semana estamos a falar sobre Moisés. Nós na primeira parte já estivemos a conversar um pouco sobre a primeira parte da vida de Moisés no Egito, como libertador do povo que lá estava escravizado. Depois da fuga e da travessia do Mar Vermelho, Moisés vê-se no deserto com um povo que olha pra ele como líder. Mas, Daniel, como falávamos na primeira parte, a autoridade de Moisés é muitas vezes posta em causa. E aliás, como o João dizia no final desta primeira parte, vão acontecer algumas situações em que o povo sente que se meteu num beco sem saída, na prática, que não tem o que comer, não tem um plano a curto prazo para o que fazer. Moisés perde a paciência, irrita-se, vai tentar falar com Deus, o povo também se irrita com ele. Se calhar esta pergunta pode ecoar aqui nos nossos ouvidos um pouco: por que Deus vai escolher um líder tão imperfeito pra esta missão que é tão complicada de tirar o povo da escravidão e pô-lo na Terra Prometida?
Eu acho que se olharmos pra vida de Moisés no seu todo, vemos essa imperfeição, essa impaciência, o seu pecado, a sua humanidade, se quisermos. Eu acho que isso também diz um bocadinho do que é a Bíblia, é um livro de humanidade. Deus escolhe homens numa vertente espiritual, diríamos assim, Deus escolhe homens e não anjos. Mas é interessante que se perguntarmos a alguém o que sabe sobre a vida de Moisés, se calhar fica-se por aquilo que já se falou em outros episódios. Começamos aqui a falar hoje desta vocação, do nascimento, da vocação, das pragas, da libertação, e a história parece que acaba quando executa este milagre de fazer o povo passar através do Mar Vermelho. Mas o resto da história de Moisés, que é, no fundo, a maior parte deste bloco de textos, a partir de metade do livro do Êxodo, todos os outros livros a seguir até a sua morte no livro do Deuteronómio, sobretudo o livro dos Números, mostram-nos outras características de Moisés que acho que são interessantes. E, sobretudo, Moisés vai ajudando o povo a perceber, a fazer este caminho de deserto e a perceber se Deus está no meio deles ou não. Há um episódio no livro do Êxodo ainda, em que estão com sede, estão a passar o deserto, é uma altura difícil, não há água e queixam-se. Moisés faz este milagre, golpeando a rocha, sai dali água. E depois o texto bíblico diz-nos a questão fundamental: Deus está no meio de nós ou não? Deus está com o povo ou não? Deus está a acompanhar este povo ou não? Ou seja, na dificuldade, quando as coisas se tornam difíceis, reconhece-se Deus ou não? A resposta do povo, muitas vezes, é este protesto, este querer voltar pra trás, este dizer que não valia a pena. Enfim, aquilo que corresponde a uma tendência muito humana de preferir, de certa forma, a previsibilidade e a certeza, já saber o que se conta da escravidão, do que propriamente a aventura difícil no deserto.
E no meio do deserto vamos encontrar o famoso episódio em que Moisés sobe ao Monte Sinai pra receber os mandamentos. Esse talvez seja o momento fundamental em que Moisés se assume como o grande mediador entre Deus e o povo. É aí que há não só os 10 mandamentos, mas depois um longo discurso sobre as normas e as regras, é, no fundo, um código penal ou um código legal que ali está. Sobre, por exemplo, as instruções pra construir a tenda do santuário, etc. Podemos até encontrar aí, de certa maneira, uma raiz pra religião judaica, do ponto de vista das práticas, etc. E depois quando ele finalmente desce, vai encontrar um povo que, de certa maneira, está a ser infiel a Deus. Há o célebre momento do bezerro de ouro. Nós falamos disto no último episódio, mais uma vez, temos aqui estes ciclos de infidelidade e fidelidade do povo, punição, transgressão, redenção, etc. Como é que Moisés lida com isto tudo, com estes questionamentos da sua autoridade e até da sua credibilidade?
Mesmo a imagem de ciclos de fidelidade e infidelidade pode ser insuficiente, porque é pouco complexa para o texto propriamente narrado e que nós podemos ler, porque não se tratam propriamente de coisas sucessivas. O povo está a ser fiel e depois é infiel. Muitas vezes não é isso que acontece. Por quê? Porque Israel, não sei se está no Talmud ou no Documentar a Escritura, é vista como uma noiva que se prostitui ainda debaixo do véu nupcial. Ou seja, não existe propriamente um período estável de fidelidade antes de uma espécie de apostasia ou de recusa a Deus. As coisas vão muito de lado a lado. Talvez aqui, nesse sentido, valha a pena reforçar que não é assim tão claro que Moisés tenha recebido os mandamentos isoladamente no Sinai. Se nós formos olhar pro texto, o que acontece é que no capítulo 19, Moisés termina de descer o Monte Sinai por ordem de Deus, e é precisamente no momento em que Moisés está junto da comunidade que os mandamentos são proclamados por Deus pela primeira vez. Segue-se depois também a cena do bezerro de ouro, que é acima de tudo uma resposta à ausência de resposta. Moisés está com Deus, posteriormente, e parece que o povo, que tinha sido libertado do Egito, precisa de uma presença palpável e de alguma estabilidade, que aquelas ausências de Moisés parece que não lhe dão.
E a fome e a sede. Ou seja, ser fiel a este Deus não está a resolver problemas deles, vamos tentar outro.
Como é que se diz isto? "A economia, estúpido". Portanto, não é só uma questão de estarmos a ser fieis a Deus, pois se isto também não tem resultados práticos, então realmente que Deus é este? O bezerro de ouro tem um pormenor curioso, nós acho que vimos na primeira temporada isso, que existem agora algumas indicações de que esta ideia do ouro, dos relâmpagos, de ter algum contexto metalúrgico, pode ter sido influenciado por realmente um conjunto de povos que viviam ali na zona da Península Arábica, etc, a sul de Israel, que acabaram por influenciar o culto monoteísta, a ideia que Deus vem do sul poderá precisamente vir dali de uma zona onde Deus estava muito relacionado com a questão metalúrgica e terá influenciado até esse tipo de linguagens
A ideia de que o povo não sai só pra uma terra prometida, mas para uma fidelidade a uma lei, que é uma parte importante da questão dos mandamentos, foi até reforçada no século XX, num livrinho muito pequeno chamado "Introdução ao Espírito da Liturgia", em que Bento XVI, Joseph Ratzinger, escreveu que, ao contrário do que nós podemos imaginar, de que o povo saiu unicamente para uma terra de liberdade, o povo saiu para obedecer a uma lei. Deixar de obedecer a um faraó, um deus inexistente, injusto, para passar a viver uma vida conforme uma lei. E que o fato dessa lei existir é o que lhe permite a liberdade. Muitas vezes nós achamos que a liberdade existe quando não há lei. O mundo bíblico acha o contrário. Só há liberdade quando existe lei.
Porque deixa de haver uma autoridade arbitrária.
Deixa de haver uma autoridade arbitrária, as coisas são mais definidas e, portanto, as pessoas podem viver em liberdade dentro do campo da lei.
E a lei-
Sim, e esse episódio do bezerro de ouro é interessante porque se calhar diríamos imediatamente que há aí um episódio de idolatria, ou seja, eles vão construir um bezerro de ouro, ou seja, escolhem, quando não está ali Moisés, adorar um outro deus. Não é questão de um outro deus, porque esse bezerro, no fundo, representa ou pode representar também a ideia de adoração a este mesmo Deus. Mas é a questão de querer um deus à nossa maneira, um deus feito por nós, um deus que possamos ver, tocar, manipular. Portanto, não é uma questão de este deus não nos serve, vamos trocar por outro. Não. Queremos nós controlar, entre aspas, manipular este deus. E nesse sentido, toda a pedagogia que é feita nestes livros é perceber: não, não és tu que decides, mas o teu papel é escuta e obediência a esta lei. Aliás, em hebraico bíblico, estas palavras, que são diferentes em português, são a mesma palavra. Escutar é obedecer. Escutar a voz de Deus é obedecer a voz de Deus.
E a lei tem, pois, um papel fundamental na religião judaica, religião da lei. Já agora, só tentar perceber até o próprio contexto em que este texto foi escrito. É também uma forma de colocar uma origem divina na lei, naquilo que era a lei daquele povo?
Sim, o texto bíblico narrativiza isto. A entrega de uma lei que vem diretamente de Deus, mas corresponde, em muitos casos, a uma espécie de lei natural. Que é colocada no Sinai, que é legitimada. Os Dez Mandamentos, o mais claro nem são os Dez Mandamentos, mas depois uma série de preceitos que são colocados também a seguir aos Dez Mandamentos como coisas ditadas por Deus, que têm a ver com a vida agrícola, com o que se faz com o boi que está ali a lavrar os campos, com o que se faz com a propriedade, o que se faz com a casa. E, portanto, percebe-se que são coisas que têm a ver com uma realidade, não de um povo que está no deserto, mas de um povo que já está na terra prometida e que, de alguma forma, projeta para o seu passado, legitimando assim uma série de coisas que fazem parte da vivência, não do tempo de Moisés, mas da vida já estabelecida na terra prometida.
E que fazia parte ali de um conjunto também de códigos legais da região. Muito bem, Daniel, agora retomando aqui o fio narrativo, dada a altura, Moisés vai também entrar em crise com a própria família, sobretudo com os irmãos, Maria ou Míriam e Arão. O que sabemos sobre quem eram estes irmãos, como é que eles aparecem aqui? Depois, o que acontece nesta história que surge depois no Livro dos Números?
Sim. Não ia dizer que aparecem aqui de paraquedas, mas aparecem um pouquinho.
Já vêm desde o início.
Já vêm desde o início, mas vão tendo um papel muito secundário. Arão, por exemplo, logo desde o início, aparece como uma espécie de porta-voz de Moisés. Míriam também, nas nossas traduções em português, geralmente mete-se Maria, mas Maria ou Míriam é o mesmo nome em hebraico. No desenvolvimento do texto, acabam por ter um papel muito secundário. Arão depois aparece como uma figura típica do culto. E aqui questionam Moisés, porque Moisés toma uma outra mulher, uma mulher etíope, e de certa forma utilizam isso como desculpa neste episódio do Livro dos Números para pôr em causa a liderança de Moisés. Isto corresponde também a um padrão que se vai repetindo, não só a rebelião do povo, que se queixa, que quer voltar pra trás ou que acha que isto não valeu a pena, mas também a questão da autoridade de Moisés. E Deus, como personagem, aqui também vai repetidamente afirmando essa legitimidade de Moisés estar aqui a liderar o povo.
E a crise familiar também acaba por ser mais uma camada nestas várias crises interiores e de relação de Moisés com o povo ali. Finalmente, nós quando chegamos ao Livro dos Números, já passou mais de um ano desde a fuga do Egito. Começa a chegar aqui a hora de entrar na terra prometida. Começamos a ler sobre, por exemplo, os recenseamentos militares, a famosa história dos 12 espiões. Falamos dela no episódio sobre Josué, que era um destes 12 espiões e que há de ser o sucessor de Moisés. Na sequência dessa história, depois acaba por haver uma grande desmoralização ou desmotivação em relação ao sucesso Que se pode ter a tentar conquistar a terra prometida. Isso vai fazer com que Deus decida punir aquela geração, adicionando mais uns anos de deserto. Mas, Daniel, o próprio Moisés também vai acabar por ser punido e vai acabar por ser proibido de entrar na terra prometida. O que é que acontece aqui? O que ele fez de mal para não ter direito a entrar na terra prometida?
O livro dos Números, cujo nome parece-me sugerir uma espécie de lista de números, e começa, de facto, com o recenseamento do povo. Enfim, tem dois grandes recenseamentos nesse livro, mas é um livro que nos conta algo de muito essencial. E estes episódios da travessia do deserto, sobretudo este que referias, destes espiões que são enviados para fazer uma exploração provisória desta terra prometida, mostra-nos algo que está no centro e é muito central de toda esta dinâmica. E mostra, no fundo, outro grande problema e talvez o pecado por excelência deste povo: ter medo de entrar na terra prometida, não querer aceitar o dom de Deus, ter receio da dificuldade que é conquistar esta terra e confiar na promessa de Deus. E é essa desconfiança que vai levar à punição. Nós às vezes temos esta ideia de: "bem, demoraram 40 anos". Até nos parece um pouco estranho. Olhamos para o mapa, pensamos: "como é que é possível demorar 40 anos a fazer este percurso que é relativamente pequeno?" Mas até no próprio texto, os 40 anos não são um tempo que demora a chegar do ponto A ao ponto B. No próprio texto vemos que isto demora meses. A questão é que os 40 anos, que é um número simbólico, representa uma geração, é o castigo por essa desconfiança, por essa falta de confiança na palavra de Deus em querer entrar na terra prometida.
Portanto, eles demoram cerca de um ano até chegar às portas da terra prometida.
Exatamente.
E depois têm que ficar ali mais.
Sim, tem a ver com essa ideia. No fundo, dizer que só vão chegar depois de 40 anos é como dizer: esta geração que saiu do Egito não vai ser a mesma que entra na terra prometida. De certa forma, como que indicando que têm que ser pessoas diferentes, têm que ser transformados nesta viagem. Esta é uma viagem de mudança, de transformação, de purificação. E só dois destes espiões que vão fazer esta exploração da terra dizem: "não, vamos pra frente, vamos lá", que são Caleb e Josué, e são estes dois que são poupados deste castigo e, portanto-
E já conseguem entrar
...são esses dois que vão conseguir entrar.
Mas e o próprio Moisés?
O texto é muito explícito. De certa forma, estes primeiros líderes, também Moisés, Arão e Míriam, vão entretanto morrer, como que se juntando a esta primeira geração.
Mas há aquele episódio das águas de Meribá, que parece ser a gota d'água, digamos assim, ou parece ser o que espoleta a decisão de Deus acabar por não permitir.
Sim, Números 20, esse episódio das águas de Meribá é muito interessante, porque se o vermos, ficamos com uma certa dúvida: mas o que ele fez de mal? Foi porque não cumpriu exatamente-
Mas o que acontece? Conta-nos rapidamente.
É um episódio, de certa forma, repetido ou muito semelhante ao que eu já referi há bocadinho, deste episódio da água da rocha, em Êxodo 17. Portanto, no início da travessia, agora, outra vez o povo tem sede e outra vez reclama, e outra vez Moisés providencia uma solução com a ajuda de Deus. Deus diz para falar à rocha e a rocha iria de novo providenciar água. Moisés parece que em vez de falar, bate na rocha, e bate duas vezes.
Porque isso já tinha resultado no passado.
Já tinha resultado no passado, a água vem à mesma, portanto, parece que tudo correu bem, mas estranhamente há este castigo de Moisés e Arão não poderem conduzir o seu povo e entrar na terra prometida. Parece um relato um bocadinho construído para explicar algo que acabou por não acontecer, que foi a entrada na terra prometida. Mas de certa forma associa também Moisés a este castigo por este pecado da infidelidade e da desconfiança da palavra de Deus.
E nós vamos chegar ao fim da vida de Moisés com o livro do Deuteronômio, que é composto essencialmente por grandes discursos de Moisés, em que ele vai lembrando a fuga do Egito, os mandamentos, a lei, etc. Depois ele, no fim, abençoa as tribos de Israel e acaba por morrer no monte Nebo, a ver a terra prometida, mas sem entrar lá. Este dado, rapidamente, João, foi importante depois pro modo como a história e a tradição passaram a ver Moisés.
E quando dizes que a ver a terra prometida, é mesmo verdade, porque o monte Nebo está na atual Jordânia e vê-se mesmo no topo aquele planalto do Jordão.
Está diante de Jericó. Há lá um pequeno santuário, até.
Sim.
Onde teria sido a-
A morte de Moisés. Portanto, é mesmo a ver, é morrer mesmo na praia. Acho que há aqui dois pontos. Primeiro, como o Daniel disse, há sempre a tendência de nós fabricarmos um deus à nossa imagem e um deus que nós podemos manipular. E o fato de Moisés morrer no monte Nebo mostra que, possivelmente, Moisés também não é dono da promessa. E, portanto, Moisés morre porque não é ele que detém o domínio sobre a promessa, sobre a terra prometida. Portanto, ele também tem que morrer para dar quase que um arco narrativo que nos ajude a perceber também isto. Ou seja, não é só Deus. Sim. O ponto é, de certa forma, Moisés é este guia provisório para sair da escravidão, mas já na terra prometida, o guia já não vai ser Moisés, nem o homem que sucede a Moisés, que é Josué. O guia é a lei.
Portanto, aqui alguém tem que morrer. No "007 - No Time to Die", o James Bond tem que morrer para que a filha e a mulher vivam. Peço desculpa o spoiler. E acho que há aqui um bocadinho esta dimensão, ou seja, o 007, este Moisés, tem que morrer para que a lei tome o seu verdadeiro protagonismo e ele não seja uma espécie de obstáculo. O que não deixa de ser curioso que a origem daquele povo também remeta para um espaço exterior. O povo nasce no estrangeiro. Muito bem, com esta referência ao 007, fica por aqui o terceiro episódio desta terceira temporada de "As Histórias da Bíblia". No próximo episódio vamos avançar umas centenas de anos na história bíblica, até ao cativeiro em Babilônia, e vamos conhecer o profeta Daniel. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós voltamos na próxima semana. Até lá. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.
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