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Sunday, September 20, 2026

Terapia de amigas: recomeços, ansiedades e medos

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Não é fácil, eu sei. Mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume? Estamos de volta com as nossas sidekicks amiguinhas, mas agora vamos juntá-las.

Vamos lá ver como é que fica.

Estão a se conhecer pela primeira vez.

Pois é.

Which is funny.

Mas tens aquela coisa que é falso, porque nós já nos conhecemos da net. Eu já repeti tantas vezes.

Pois é, é meio blind date.

Pois é.

Não é nada, é zero blind.

Não, a cena de nunca ter feito o podcast.

Sim, está bem, mas vocês já se acompanham, já meio que sabem. Parece que já conhecem pequenas coisas.

Sim, opiniões.

Isso é fixe. Se calhar até mais do que às vezes quando conheces uma pessoa, porque já ouviste a pessoa falar tantas vezes que se tiveres quatro ou cinco vezes só com a pessoa, não sabes tanto assim de opiniões do que vais apanhando na net, às vezes.

Sim, pois não.

Sim, total.

É verdade.

Porque tu até eras para ter ido àquele jantar que eu organizei do friendstorm.

Pois é.

Depois não foste.

E não fui.

Se fosse aí também já tinhas tido, se calhar, o contexto fora da net.

Vocês não sentem imenso? Agora, nada a ver, mas a ver. Nós partilhamos opiniões na internet e não sei o quê, e quando conhecemos uma pessoa que nos conhece da internet, mas nós não a conhecemos, sinto sempre que estás em desvantagem.

Sim.

Total.

Isso é 100%.

Eu já falei imensas vezes sobre dating também.

Pois é.

Bué.

Não sabes nada sobre aquela pessoa, ela sabe imensas coisas sobre ti, portanto é difícil partilhar.

Mas eu acho que já estamos, pelo menos eu já estou há tantos anos nisto, que isso pra mim já não é uma questão que eu pense.

Tu já estás habituada, mas eu penso.

É o normal, é o que é, é a minha vida, não posso mudar isso.

Sim. Mas eu sinto isso porque o meu é muito recente.

Pois.

Então, sei lá, é agora, antes não me acontecia. E dating eu nunca tive assim com pessoas, sei lá, porque eu acho que é tão recente e estou numa relação, portanto, isso não me acontece, é mais com amizades e assim. E depois eu tenho outra coisa, que é eu tenho medo de, não é desiludir, mas eu tenho medo que a pessoa ache uma coisa sobre mim, porque vê na net e depois vê na vida real e é tipo: "Ah, ok."

Não, acho que tu na net és tu.

Eu sei, mas não sei. Tenho medo que depois na vida real não seja a mesma coisa. Eu não sei o que é. Espero que ela lhe goste.

Sempre acho que as pessoas julgam muito, acham que aquelas pessoas que estão na net, se calhar, têm uma imagem que é tipo, têm que ser perfeitas. Por exemplo, aquelas coisas que às vezes se ouve dizer: "Encontrei não sei o quê, aquela atriz no supermercado, olha, super mal-educada. Desde então, não gosto dela, deixei de seguir."

Exato.

Estás a ter opinião com base numa interação, num dia que se calhar ela nem sequer estava assim tão bem.

Estava mal disposta, aconteceu alguma coisa.

É vida, é uma pessoa, uma vida real.

E se calhar estava só normal. A cena é essa, só como tu estás com aquela expectativa: "Não, esta pessoa é megasimpática, é megaengraçada, não sei o quê." Depois vai na vida real, está normal e é horrível. Eu tenho medo disso.

Mas imagina, se estás a conhecer alguém pela primeira vez ou estás fazendo aqueles eventos que tu fizeste, tu sentes que tens de te forçar a estar sempre nesse mood para gerir essas expectativas?

Sim.

Eu hoje estou na minha skin mais simpática.

A pessoa Monica do TikTok.

É isso, eu estou contente. Se bem que eu no TikTok estou zangada. Eu tenho muito dessa, mas não sei. Eu acho que é mais ser extrovertida. Como eu sou introvertida, eu forço-me a estar: "Uou, agora vou falar".

Hypes.

Exato, é isso.

Eu sinto isso, por exemplo, todos os sábados vou ao Run Club da Ois e não é sempre pessoas regulares, tenho sempre novas seguidoras ou pessoas que me conhecem que estão aí pela primeira vez. Até posso estar num dia que não me apetece falar com ninguém e estar na minha, mas se eu vou, então comprometo-me a estar.

Claro.

E a tentar estar e fazer perguntas e falar com pessoas, porque também é pra isso que nós todas vamos, que é para conviver. Então, se eu estiver num dia em que não apeteça fazer isso, se calhar não vou, prefiro correr sozinha.

Pois, é isso, percebo perfeitamente, faz todo sentido.

Vamos passar à nossa rosa, espinho e cimento? Quem quer começar?

Vá, vão vocês. Pode ser eu. Vou dizer a minha rosa, que eu vou trincar a minha língua, que tantas vezes disse à Mariana: "Está sempre a falar de corrida na rosa, espinho e cimento." E hoje eu vou falar de corrida.

Que bom, finalmente! Eu aguardo isto tudo.

Tanto me chateou que vai. Porque eu agora vou fazer a minha primeira prova de 10 km e estou bué certinha nos treinos, bué focada, bué tudo.

E por que isso aconteceu? Tu acabaste os treinos, acabou a época de andebol?

Sim, eu acho que foi combinado várias coisas. Fui jogar outra vez andebol no verão, o que me voltou a trazer: "Eu gosto mesmo disto, gosto mesmo de praticar desporto, voltar a ter essa rotina." Já há muitos meses que eu andava a ir dar corridas, todas as semanas eu ia pelo menos dar uma corridinha, mas eu fazia sempre os meus 3 km, que era 20 minutos, e achava que estava bom, que não dava pra mais, que também não queria mais. E foi assim durante muito tempo, até que há uma semana e tal, fui correr com um amigo meu e ele chegou à minha beira e disse: "Não, vamos fazer isto." Já nem me lembro o que ele disse primeiro, mas é vamos até X sítio. Eu nem sabia quantos quilômetros é que eram. E eu comecei logo a dizer que não, nem pensar, está maluco, eu é que sei, eu faço 3 km, é a minha cena, eu não consigo. Mas ele lá me foi levando e achei mesmo giro. Foi a primeira vez que eu corri sem fones.

Mas também estavas com companhia.

Estava com companhia.

Foste conversar.

Sim.

E ele a conversar e tu calada.

Sim, eu no início ia conversando, mas depois já não conseguia falar. Mas ele a conversar, muito atenta, que acho que é uma coisa fixe, muito atenta à minha passada. E fomos indo. Ele: "Vamos até aqui." Quando ia conseguindo, e como eu achava mesmo que não ia conseguir essas pequenas milestones, quando eu conseguia, eu queria ir à próxima, porque também fisicamente ainda me sentia bem. Quer dizer, doía. Tinha algumas dores, mas ainda conseguia, ia atingindo, ia sempre. Fui aos cinco e quando eu fui aos cinco, eu achei mesmo que eu nunca ia conseguir. Quando eu comecei a correr aquele dia, eu nunca achei que ia fazer 5 km. E quando eu fiz, eu pensei: "Pronto." Agora diz o que queres que eu faça, que eu faço tudo. Senti mesmo que conseguia qualquer coisa. Então fiz sete quilômetros e pensei: "Então eu consigo. Afinal, eu consigo."

É uma cena mental, total. É confiança que a corrida te dá. Se tu sais dali, eu sou capaz de fazer tudo. Então bora correr 10 quilômetros que eu sou capaz.

Eu estou a sentir um impacto gigante noutras coisas da minha vida.

Inês, eu estou há um ano a falar sobre isto, tu não acreditas em mim?

Eu acreditava, mas achava que a mim não dava.

Não era pra ti.

Mas eu acho que isso é toda a gente. Eu também sinto que eu não consigo correr. E eu já tentei várias vezes.

Mas tu já experimentaste.

Já. Eu tive uma fase que corria, só que não sei, eu não entro na vibe da coisa.

Eu acho que pedalar, andar de bicicleta.

Isso é porque não tenho bicicleta, então nunca me deu pra isso, mas era capaz.

Pedalar? Pedalar é mais.

Pedalar é preciso mais equilíbrio, mais skill.

É muito mais giro.

Eu tenho é medo de morrer.

Custa menos.

Custa muito menos.

Mas não tens medo de andar no meio dos carros?

Eu vou sempre acompanhada. Se fosse sozinha, acho que ia ter medo. E eu tento, quem sabe, vai à frente. Mas ainda tenho um bocadinho de medo. Mas é muito mais divertido e é muito mais fácil.

Pois, é menos doloroso. Mas eu acho que a corrida é isso que me dá, que eu estou a sentir agora esse impacto que eu já pratiquei e pratico imensos desportos e que na corrida eu encontro isso, que é que eu me odeio e sinto que é tão difícil e acho mesmo que não vou conseguir, porque eu sou boa a fazer quase todos os desportos. Então eu nos outros desportos não sinto nunca que eu não vou conseguir. Às vezes há uma coisa mais difícil outra e não me apetece, mas eu sei que vou conseguir e faço. Na corrida, eu achava e acho mesmo que não vou conseguir quando eu começo. Então quando eu acabo, fico tão orgulhosa de mim e a sentir-me tão capaz, que eu acho que é por isso que consegue ter esse impacto.

Eu, por exemplo, quando estou a ter um dia mau, não há nada que me salve a não ser ir dar uma corrida.

Mas isso é o que eu estou a sentir.

Imagina, eu estou em casa, estou num loop negativo, não me apetece e vai me custar muito a sair de casa mesmo, mas se eu for dar uma corrida, no final eu vou ficar: "Por que eu estava triste? Eu não me lembro. Qual era o motivo?" Muda o chip logo na minha cabeça, é uma cena, é fascinante.

Eu sinto que exercício normal já faz isso. Se é uma coisa que é difícil e tu ainda consegues ultrapassar, que é a sensação de eu consigo fazer e isto é muito difícil, claro que te dá uma confiança impressionante e dá-te logo ali uma vibe incrível.

Sim, por exemplo, o ano passado, um dos dias mais felizes da minha vida foi correr a meia maratona, porque é isso que tu sentiste, mas em esteroides. É uma descarga de hormonas, de tipo, és capaz de tudo, que tu depois levas isso pro resto da tua vida também, pra outras áreas.

É isso que eu estou a sentir, que em pequenas decisões, eu fico: "Fogo, não."

Eu acho que as pessoas são irritantes, as pessoas que correm são irritantes, parecemos que estamos aqui a pregar.

Mas isso é como toda a gente que faz uma cena muito específica e depois fala muito daquilo. Não é só da corrida, é toda a gente.

É um hiperfoco.

Não, eu estou agora toda excitada com a corrida. Sinto-me ridícula, que agora eu percebo. E amigas minhas que já corriam estão todas histéricas por eu agora gostar e ficam a me mandar mensagem e ficamos horas a falar de sapatilhas e de relógios e de não sei o quê. E olha, faz assim, faz assado, e a ensinarem-me a fazer planos de treino no ChatGPT. Mas acho que é fixe.

É um ótimo hiperfoco. Ótimo. Mas eu sinto que as minhas amigas estão sempre a dizer: "Tu és bué de vibes." Eu ainda sou da corrida, é a minha cena, mas eu agora estou a andar de bicicleta e está a começar a ser um novo bichinho. E eu falo imenso disso. Tu vais ao feed do meu Instagram, não aparece mais nada a não ser bicicleta. É chocante.

Olha, eu quando adotei a minha cadela também era assim, eu era a grande chata, só falava de cães.

Mas isso acontece com tudo, eu acho que não é só no desporto. Toda a gente tem mocas. Eu agora comecei a desenhar, estou louca com desenhar, apetece-me desenhar toda hora.

Tu fazes aquilo da praia, na praia. Agora muita gente no verão eu vi pessoal com aquarelas e coisitas assim ir pra praia.

Tu desenhas em casa, né?

Eu desenho em casa, mas eu sei o que estás a falar, que é o pessoal leva as aquarelas e fica na praia a desenhar. Pronto, agora eu tive uma moca certa altura, foi no início do ano em que eu pintava, que era mesmo comprava as tintas, levava a pintar, não sei o quê. E pintava todos os fins de semana e sempre que eu arranjava tempo. Depois o pessoal começou a fazer na praia, não sei o quê. Depois fartei-me. E agora, por causa da minha psicóloga, que até era a minha rosa? Não, é a minha rosa.

Então olha, partilhas já e...

Então o que ela me começou a dizer? Que eu tinha que começar a fazer alguma coisa que não envolvesse estar na net, estar a consumir um podcast, estar a ouvir música, não podia estar a consumir nada. Zero. E tinha que estar só 10 minutos a fazer alguma cena. E eu houve um dia que me sento no sofá e penso: "Pronto, eu agora não tenho nada pra fazer." E não se pode ler também. Ler não conta. Estou a olhar pro teto, não sei o quê, estava lá um caderno que começo a desenhar. De repente, estou a desenhar e desenhei durante uma hora e meia. E eu pensei: "Ok, é isto."

E consegues estar a desenhar e não estar a pensar em mais nada?

Tenho ideias que vou anotando, mas não estou a trabalhar enquanto estou a fazer aquilo. É vou anotando as ideias e estou só chill.

Mas é difícil encontrar coisas que sejam válidas, se ler não pode ser.

Não, é isso. É estar a fazer cerâmicas ou barros.

Pois, mas a arte é impossível fazer.

Não é pra ti.

Pode ser a parte de escrever, cozinhar. E eu acho que desporto, imagina, a corrida pra mim é treino, mas e jogar paddle ou tênis? Eu não estou a pensar em mais nada, só estou ali.

É super divertido e estás...

Estou completamente numa bolha à parte. Eu hoje fui jogar tênis de manhã, tenho bué estresse de coisas pra fazer, isso desliga. Estou ali numa bolhinha e estou mesmo a aproveitar.

E estás imenso tempo, não é 10 minutos. Portanto, é como se fosse uma meditação. Tu não podes é estar focada na tua vida normal.

Ok.

É isto.

E estás a fazer isto diariamente?

Estou a fazer diariamente, mas lá está, eu estou obcecada agora.

Agora já não vale!

Agora eu não tenho que me começar a fazer isto.

Nós somos bué assim.

É, mas é o hiperfoco, mas isso é sempre assim. Por isso é que eu digo, não é só a corrida, é pra tudo.

É pra tudo. Leitura Eu li 11 livros em agosto.

Isso é insano mesmo.

E no resto dos meses?

No resto dos meses li pouquíssimo, li tipo quatro livros o ano todo.

Eu por acaso estou a dizer para mim, eu acho que não li nenhum livro este ano.

Mas imagina.

Mas eu leio imensos livros, eu não sei o que está acontecendo aqui.

O último episódio que eu fiz com a Mónica foi nós a dizer que nós estávamos fora da leitura. E eu disse: "No verão eu vou entrar na leitura." A questão é: já voltei das férias, não voltei a tocar no livro. Isto é um hiperfoco de férias.

Mas isso faz todo o sentido.

É a praia, sabe bem. É isso.

E o meu objetivo era ler, eu nas férias estava a ler um livro por dia, nas férias em Cabo Verde.

Um livro por dia?

Li sete livros em sete dias.

Mas estavas a ler, porque isso por acaso da leitura eu aprendi, acho que foi o verão passado que eu li muitos livros nas férias. Estavas a ler romance, histórias assim ou foi isso?

Pronto, é isso. Imagina, foi hiperfoco. Eu tive a minha fase de hiperfoco de livros de desenvolvimento pessoal. Cansei-me. Parei com isso.

Esses são muito mais difíceis.

Sim, demora muito mais, mas eu nessa fase eu li imensos também. Eu estava a ler tipo quatro livros por mês, que para esse tipo de livros, eu acho imenso.

É muito.

Mas estava a encarar isso como também terapia. Agora, li no verão, foi livros de ficção ou histórias verídicas, tudo muito à volta de relações. Coisa assim, tipo relatable, 20s, Dolly Alderton estilo. Estão a ver? Foi muito esse estilo que eu li e depois comecei a me cansar outra vez. Por quê? Porque é o mesmo estilo, parece que de repente eu estava lendo sempre a mesma coisa.

Em vez de ler os mesmos autores, ainda por cima superestudante.

Sim, eu li todos a Dolly. Variei depois autores, mas ao mesmo tempo que ia variando, a escrita é diferente, a história é diferente, mas é mais ou menos a mesma coisa. E eu depois acabava um livro e estava sempre a pensar: "Ok, o meu favorito foi o primeiro que eu li." Agora estou naquela de: "É o meu favorito porque é o melhor ou porque foi o primeiro que eu li daqueles sete que eu li parecidíssimos?" Não sei. Eu já não tenho capacidade de avaliar.

Eu percebo, eu acho que é efeito ser primeiro, não dá. Ficaste agarrada ali, aquilo dá-te aquela primeira cena e fica.

E depois entro num loop também nas minhas redes, começa só também a aparecer livros. TikTok só livros, recomendações, e eu a tirar prints de tudo e de repente vivi uma semana só pós livros.

Eu acho impressionante, um livro todos os dias é muita coisa. Isso nunca me aconteceu na vida.

A mim também nunca. Eu li uma vez um livro em 24 horas, que foi aquele "Verity", porque é um thriller e eu estava de férias o dia todo e aquilo parece que estás numa série. Eu já via as personagens. Então foi a única vez que eu li em 24 horas, mas de resto, mesmo nas férias lia em dois, três dias.

Eu acho que leio rápido, mas eu também não fazia mais nada. Era tipo o objetivo era chegar à praia, pegar no livro, ler. À tarde, idem. É isto.

Mas é incrível. Que bom!

Mas pronto, é isso. Ou seja, eu não consegui que voltasse a fazer parte da minha rotina, mas eu acho também que estou um bocado cansada de tipo de livros. Agora vou ter de arranjar outra.

Tens que inventar uma coisa nova. É isso, alguma coisa que viste.

Vês séries?

Vou vendo. Comecei agora "Sterling Point".

Eu comecei a ver, mas depois perdi a meio.

A sério? Eu só vi um episódio, mas amei.

Espera aí, será que eu estou a confundir? Não, sim, foi essa que eu vi.

Também é livro, acho eu.

Acho que sim, mas eu comecei a ver e depois parei. Mas eu tenho este problema que é: eu começo a fazer uma coisa, depois aparece-me outra coisa a meio e eu começo outra e paro. Por exemplo, há séries que eu gostei muito e eu não vi o último episódio. É uma doença.

Se calhar tens de ver seguido, e se não veres seguido...

Tipo passa e nunca mais me lembro e nunca mais lá volto.

Eu sou ao contrário, eu tenho um problema, eu não vejo séries porque se eu começo a ver uma, eu tenho que ver em um dia ou em dois dias. Eu faço "maratona". Eu tenho o mesmo problema com séries.

Mas tu vês muito no verão? Eu sinto que vi mesmo pouco porque eu nunca estive em casa.

Não, mas eu vejo poucas séries, porque eu sei que eu tenho esse problema. Então se eu me sento no sofá e vou começar, eu tenho que acabar. Então depois fico muito tempo, fico planeiro. Tendo de deitar mais de 3, 4 da manhã. E depois fico uma semana toda desorientada das horas.

Eu estou na fase de YouTube. Faço muito mais isso. Quando estou noites sozinha em casa, é tipo, vamos pôr um vídeo do YouTube e ficar a jantar, a ver vlogs.

Eu vejo YouTube todos os dias. Não, eu vejo, mas é a fazer coisas, é tipo, estou me a arranjar, está a dar um vídeo no fundo.

É, estou a jantar e estou a ver.

Isso é mais série para mim.

Isso para mim é podcast.

Ok. Para mim o YouTube é podcast às vezes. Tipo um vlog é um podcast para mim. Eu não me sento a ver um vlog.

A sério? Eu vejo.

Não sei, isso para mim. E depois eu tenho um problema que é, lá está, eu acho que a minha cena com isso não conseguir ler um livro no dia todo, eu tenho que saltar de coisa para coisa. Eu não consigo fazer uma coisa muito tempo seguido.

Mas se tu estás a gostar do livro, não sentes vontade de continuar?

Tenho, mas é durante duas horas, depois farto-me. Depois preciso de ir fazer outra coisa, depois farto-me noutra. Eu a trabalhar também sou assim, começo um projeto, depois estou noutro, depois de repente dou por mim já estou não sei onde e é muito assim, eu não consigo estar focada numa cena só.

Eu tenho isso no meu dia a dia.

Não é.

Às vezes até coincide.

Ya, toda a gente.

Ya, toda a gente tem.

Tua rosa.

É isso, a minha rosa. Pronto, eu ia falar do meu mês, mas também já fiz um episódio recap do mês, portanto acho que não é por aí. Vou falar de um dos dias mais felizes dos últimos tempos, que foi este fim de semana, que foi um dia megacompleto em que comecei o dia a ir correr 14 km. Depois tive uma caminhada de 10 km da clínica da minha irmã em Famalicão, da Soma. E depois fomos jantar, a minha família, amigas minhas do secundário, mais amigas minhas da faculdade, tipo um mix aleatório, e fomos ao Chico Latina. E foi ganda dia. Foi ganda plano e deu-me um momento de ver as cenas de fora e ver toda a gente a dar-se bem, grupos totalmente fora e um grupo mesmo aleatório e toda a gente Na mesma vibe. E eu fiquei muito contente por ser eu a juntar a cena e a fazer as pessoas saírem de casa e fazer coisas dinâmicas.

Não, juntar pessoas que não se conhecem e de repente aquilo funciona e toda a gente se dá, é das melhores sensações. Eu acho isso incrível.

Eu me diverti tanto, já não me divertia tanto assim há muito tempo.

E também eram as tuas pessoas, não é?

E era o Chico Tinho, que eu estava contente por ir ver o Chico Tinho. Tinha sido incrível se nós o tivéssemos conseguido ver, que aquilo estava uma confusão antes com o Manuel.

Conseguiram ver como assim?

Não conseguimos ver o palco. O meu telemóvel excelente no zoom, então era toda a gente a espreitar para o meu telemóvel para conseguir ver o Chico. Mas foi grande a noite. Foi grande a noite e foi grande dia também de planos dinâmicos.

De equilíbrio, investiste um bocado de tudo.

Tive desporto de manhã com amigas, imaginem, queria correr 14, eu não queria sozinha. Mandei mensagem para o grupo de oito e juntou-se seis pessoas comigo a ir correr. Incrível.

Do nada, ainda por cima.

Do nada. E depois à tarde, caminhada, também com a minha família, em Famalicão, natureza. Foi um dia mega completo e eu tinha dormido mesmo pouco à noite, estava mesmo exausta, mas como é tão fixe tudo, parece que nem sentes o cansaço.

Tu não queres perder tempo a dormir.

Não, tu nem sentes o cansaço porque estás te a divertir sempre. Mas também cheguei a uma conclusão nos últimos tempos que os dias em que eu não faço desporto, e se calhar por isso é que foi também um grande dia na minha vida, os dias em que eu não faço desporto, eu sinto que são dias tristes. E será que isto é tipo, obsessão?

Mas aí acho que pode haver duas coisas, que é tu sentires-te mal por não fazer desporto ou é porque fazer desporto te faz mesmo bem.

Não, é porque me faz mesmo bem.

Ok.

Porque imagina, eu tenho que ter dia de descanso e isso para mim é assumido e normalmente tem sido ao domingo. Se eu consigo correr no sábado, que aconteceu, corri sábado, então domingo não fiz nada porque precisava mesmo descansar. Foi um dia que fiquei mesmo tipo, parece que fico apática, parece que não consigo ser eu.

É porque se calhar é o teu hobby principal e tu tens que arranjar outro hobby que não seja desporto.

Sim.

Mas eu, por acaso, acho que não é tanto disso. Eu acho mesmo que também é o facto de que te faz-

Eu acho que é dopamina.

Exato, é dopamina, aquilo faz bem. E até se calhar pode não ser propriamente ires dar uma corrida ou fazeres um grande treino. Se calhar se naquele dia fizesses uma aula de cycling, traz-te na mesma isso.

Não, total, podia só ter ido jogar pádel.

Não precisa de ser uma coisa efetivamente.

Mas será que preciso mexer todos os dias? Mesmo todos os dias?

Eu acho que tu não precisas, mas é normal isso fazer parte da poção para o melhor dia possível, estás a perceber?

Sim. Todos os dias têm que ser mega felizes, não é?

Claro. Quando me dizem: "Como é que seria o teu dia perfeito?" Normalmente é uma tarde duplas na praia, jogar vôlei, não sei o quê. Tenho sempre desporto, porque é mesmo uma coisa que eu adoro, mas se calhar tenho um tipo de desporto mais fun, que eu gosto e quando penso no meu dia perfeito. Mas incluo sempre, porque é uma coisa que me faz bem e que eu me divirto imenso e que a sensação que te traz depois disso é ótima. Eu acho que tem a ver com isso. Acho que se fosse de tu te sentires mal por não fazeres.

Eu acho que não. Imaginem, tive um dia também tão intenso no sábado, depois domingo também precisei descansar e foi um dia família, foi mega chill. E depois acabei o dia a ir ao cinema. Foi um bom dia, mas eu sinto-me, meh.

Mas se calhar precisas ter.

Faz acordar e .

Às vezes há dias bué bons que estás só o dia todo, há poucos, mas alguns sabem mesmo bem. Está a chover lá fora, estás bué sem fazer nada. Se calhar não estás é habituada a isso.

Não estou habituada.

Ou não gostas.

Não adoro. Mesmo nas férias, por exemplo, em Cabo Verde, eu tentava mesmo todos os dias fazer alguma coisa de manhã em termos de exercício, porque quando eu não fazia, para aí dois dias que eu não fiz.

É que também já está entranhado.

É para a cabeça.

Ficas com mau humor.

Fico logo muito menos divertida e bem-disposta.

Mas isso é incrível.

E eu não gosto dessa minha versão.

O quê? Menos divertida? Olha que bom. É mesmo fácil solucionar isso. Fazes desporto todos os dias. Pior era se fosse uma coisa que dependesse de outros.

Olha, e o teu espinho, o que é?

Olha, o meu espinho, eu hoje estou com ressaca emocional, porque fui ao Algarve a última vez agora e cheguei hoje. E estou com ressaca emocional de férias, que eu tenho este problema de não consigo bem ter um equilíbrio e para mim agosto eu fecho, não penso em trabalho, fecho a loja, estou a curtir, sinto que tenho 18 anos outra vez. E depois é mesmo difícil para mim voltar porque sinto-me overwhelmed com tudo. Eu adoro o recomeço, mas parece que vejo uma onda gigante à minha frente com imensa coisa para fazer e eu bué pequenina. E sinto que não sei por onde pegar e por onde começar. Então setembro eu sinto-me empolgada, mas ao mesmo tempo é muita coisa e muitos estímulos e às vezes é para mim difícil começar a andar.

E não sentes que se calhar quando estás assim overwhelmed e com imensa coisa, menos fazes?

Sim, fujo.

Tenho tanta coisa, mais vale nem fazer nada.

Fico com ansiedade e fujo das coisas. Eu tenho dificuldade em ser pragmática e plano de ação. Bora, bora, bora. Óbvio que eu faço porque tenho que fazer.

Mas o que é que fazes quando entras nesse loop? É que o meu espinho também aponta isso, que é muito aquela frase: "Eu adoro rotina até me cansar e adoro viajar até precisar de rotina outra vez."

Exato.

E estamos a precisar de rotina, mas depois tu entras na rotina e tens muita coisa e eu também sinto que eu cheguei completamente ansiosa, ansiedade nível mil, porque é muita coisa que me deixa feliz, porque é adrenalina de trabalhar, mas ao mesmo tempo é isso, não sei por onde me virar, então mais vale nem fazer nada.

Sim.

E o que é que tu fazes nesses casos?

O que eu normalmente faço é começar a organizar as tarefas por blocos Perceber o que eu preciso fazer, o que é prioritário eu fazer, onde é que eu vou encaixar, começo a tentar encaixar. Estou a tentar aprender a ser mais racional nisso, porque às vezes o que me apetece é no primeiro dia que regresso, meto tudo e depois não faço nada e depois ainda fico mais chateada e mais frustrada.

Eu sou 100% igual, que é a lista "to do" gigante e depois claro que não consegues fazer tudo. Percebo perfeitamente.

Depois fico frustrada, porque há coisas também que têm a ver com os outros. E depois tu dás uma expectativa à outra pessoa de que aquilo vai acontecer ou vais entregar ou vais fazer e depois não vais. Então tento fazer isso, organizar por blocos e perceber se há coisas que posso deixar cair. Eu já sou assim: "Isto eu quero mesmo tudo para já, tem mesmo que ser agora, tem mesmo que ser esta semana, tem mesmo que ser este mês. Isto pode cair e ir mais para a frente." E fechar os assuntos, ir ao WhatsApp, tudo o que é coisas para responder, limpar, fazer essa limpeza ajuda-me.

Mas achas que isso do WhatsApp era uma coisa, porque às vezes a mim dá-me ansiedade quando eu abro o WhatsApp e tem muita coisa para responder. Depois às vezes é WhatsApp, é DMs, é e-mails, é tudo. E às vezes é importante tu guardares uma altura para responderes aos WhatsApp como estás a responder ao e-mail. Eu acho que é importante.

Eu faço isso.

É, não é? Que é tipo: "Pronto, agora vou tratar disto, está tratado, amanhã outra vez a hora para isto." E assim não fica tudo ao mesmo. É que é mesmo.

Principalmente quando não é WhatsApp de vida pessoal.

Não, é de trabalho.

De trabalho. Eu também faço isso. Eu hoje ainda não peguei no WhatsApp. Imagina a minha agência, coisas que eu tenho de entregar hoje, é como se fosse o meu trabalho "corporate". Então isso eu tenho que responder ao longo do dia, mas tudo o resto, que são coisas extra, eu reservo ou amanhã ou o final do dia para responder.

É isso.

Não estou ao longo do dia a tratar esses assuntos, porque senão estás sempre a saltar de caixinha em caixinha e não consegues estar focada naquilo que estás a fazer, porque depois estás naquilo e já vem outra mensagem responder a isso.

E eu como tenho aquele problema de andar sempre daqui para acolá, eu antes acontecia-me às vezes até com e-mails, entrava um e-mail, olha, deixa responder já. Depois começo a fazer outra coisa, passava 10 minutos: "Agora olho aqui um WhatsApp, agora respondo a isto." E depois não fazia nada. Chegava ao final do dia, zero.

Já nem te lembras o que é que era.

Tens de tentar responder às pessoas.

Tipo a picar só.

Uma coisa que eu faço imenso é, falei com uma pessoa sobre um tema de trabalho e está lá no WhatsApp e eu já respondi, mas ainda não está feito, eu deixo por ler. Eu tenho imensas coisas por ler no WhatsApp.

Eu também faço isso. Para nessa altura do dia saber quais é que tenho que responder.

Exatamente, é como eu. Uso muito isso.

Mas o que me acalma a mim quando também estou ansiosa é organizar a minha agenda. É vamos ser realistas e por blocos de cores, que eu faço cores, podcast, etc. E tentar mesmo ser realista e pôr mesmo blocos ao longo da semana, porque senão não consigo.

Isso da agenda é uma coisa que eu achava que toda a gente usava, agenda da forma que eu uso, que é muito por aí. Eu tenho tudo da minha vida. Sim, e eu tenho até vários Google Calendars, porque tenho vários e-mails, mas "whatever". Uma pessoa normal que tenha um e-mail, pode organizar dessa forma. Eu tenho tudo. Eu tenho desde o aniversário de não sei quem.

Tem tudo.

Isto também, olha, uma boa cena para setembro. Eu sou péssima com aniversários de pessoas. Então, um dos meus objetivos em 2026 tem sido colocar no calendário os aniversários das pessoas.

Eu ponho.

E pôr lembra-te para o próximo ano.

É um descanso.

Isto é uma grande ideia.

Eu comecei a fazer isto, porque eu esqueço-me mesmo muito dos aniversários das pessoas. Então estou nesse processo e fico feliz. Às vezes estou com alguém, sei lá, vou almoçar contigo e se for ao calendário por algum momento, se calhar vou me lembrar e vou te perguntar: "Qual é o teu aniversário?" E vou pôr.

É sério?

E fica na dica.

Eu não faço a esse nível.

Estou nesse processo, mas é as pessoas que eu gosto.

Mas lembra, a Ayla faz anos em agosto, deixa-me ir ver ao Facebook, faço entre as aspas. Vou ao Facebook. Ok, deixa-me apontar e ponho na agenda.

Estou a fazer isso, mas isto foi um à parte para dizer: a agenda é mesmo uma forma de tu estares muito melhor na tua vida.

Uma despressão tal.

Mas eu acho que as pessoas, tu estavas a dizer que há pessoas que não têm isso.

Como é que não usam agenda?

Há muita gente que não tem.

Como é que elas sabem o jantar que marcaram daqui a duas semanas?

Mas isto acontece, eu acho que se esquecem. Ou então há pessoas que têm uma capacidade impressionante de meter tudo na cabeça, mas isso tem muito a ver com a memória.

Não está na minha agenda, não está na minha vida.

Não sei se tens uma capacidade extraordinária ou tempo livre.

Ou isso, também pode ser isso. Ou então estás sempre num estado de ansiedade. Estás sempre louca de ansiedade. Porque eu estou assim, eu se não tiver as cenas organizadas, fico louca.

Não, se eu não tiver na agenda não vai acontecer. Por isso é que quando alguém me falha e se esquece, eu fico: "Como? Está na agenda, como é que te esqueces?"

Mas não está.

É a minha vida, o meu segundo cérebro é o Google Calendar. Se está lá, vai acontecer.

O jantar do Friendstorm. Eu não fui porque tu não me tinhas dito "está confirmado", então eu não pus na minha agenda.

Eu apareço outra coisa.

Mas alguma rapariga que faltou ao jantar porque se esqueceu.

Ah, pois fui.

Não, não há iPod. Não usas um Google Calendar?

Não, antes de marcar alguma coisa na minha vida, eu tenho que ir à minha agenda, analisar tudo e está aqui.

Sim, até mesmo de vida pessoal, porque pode não dar naquela dia, porque eu tenho minha vida pessoal.

Olha, e acalma-me muito também, estava a dizer, eu estou muito ansiosa com o trabalho e eu vou continuar a ter muitas viagens. Este mês vou quatro vezes a Lisboa, então está já louco.

É muita.

E tenho duas viagens entretanto. E estou mesmo ansiosa, porque geri tudo e agora volta podcast e compromisso e marcas e tudo a acontecer este mês, e treinos, porque depois vou também à maratona em outubro, é um compromisso grande. Então eu também tenho que correr pelo menos quatro vezes por semana e tenho que ir ao ginásio pelo menos duas vezes por semana. Então estou tipo, tenho muita coisa e o que me acalma? É eu pegar na minha agenda e organizar: "Ok, eu amanhã e quinta vou a Lisboa, mas eu vou encaixar aqui uma corrida e vou encaixar aqui uns treinos de ginásio." E organizando isto, eu fico: "Ok, eu consigo, vou conseguir."

Isto está a ser um tema também na minha vida.

De quê? De encaixar?

Porque agora, como eu tenho a prova dos 10 km.

Não é fácil encaixar.

Eu tenho mesmo que treinar. E eu segunda-feira vou para Madrid, vou para Lisboa, e eu estava a olhar para a minha agenda e eu: "Eu não vou estar no Porto até à prova."

Pois é, que susto!

Eu agora tenho que fazer toda uma logística para continuar a treinar fora. Eu antes era: "Estou fora, não treino."

É isso. Quem não tem a cena do treino enraizada em ti, tu vais para fora e associas a: "Estou fora de casa, não tenho que treinar." É fora da cena. Se eu tivesse feito isso em agosto, eu praticamente não tinha treinado. E mesmo o comer e descambar, é chutar o balde porque estás fora. Mas quando tu estás sempre a viajar ou fora de casa, não consegues.

Eu acho que as pessoas que fazem isso vão 15 dias fora uma vez e por isso é que fazem. Mas eu também não sou muito de viajar e eu tento treinar sempre quando estou fora. Não, mas eu vou muito a Lisboa e o que eu tentava fazer é: "Ok, estou dois dias em Lisboa ou três, não treino nesses três dias, treino duas vezes por semana nessa semana só." Mas agora como tenho um objetivo, tenho mesmo que ir.

Sim, e vês que precisas de encaixar tudo.

Sim. E outra coisa, eu acho que as pessoas à nossa volta ficam superorgulhosas de nós cumprimos com as coisas. A sério, eu fiquei a sentir isso.

Tu és bué fofa.

Não, porque eu estava no Algarve, estava com amigos e como eu tenho a prova, eu disse que ia correr. E toda a gente estava na praia de férias e eu disse: "Mãe, vou correr. Até já, pessoal."

Não te sentiste bué orgulhosa também de ti?

Eu fiquei orgulhosa e toda a gente ficou superorgulhosa de mim a dizer: "Estou mesmo impressionada, nunca achei que fosses correr." E parece que é um compromisso que tu tens contigo própria e cumpres. Acho que até inspiras as outras pessoas à tua beira.

100%. E as pessoas começam a ver-te.

E tenho a impressão que sentiram o quê? "Olha, se ela vai, está aqui na praia e vai, também posso ir fazer isto que estou a adiar por estupidez."

É muito giro inspirar pessoas sem teres de dizer: "Olha, queres vir ou queres fazer?" A minha mãe foi treinar comigo em Cabo Verde. Eu não lhe disse: "Queres vir?" Ela tipo: "Vou contigo amanhã de manhã."

Isso é incrível.

A sério?

Olha, no "Let them", o livro, um dos capítulos é sobre isso.

É deixar as outras pessoas.

Ok, faz sentido.

Tu não podes mudar outra pessoa. Tu tens que a deixar ser o que ela quiser ser e o único papel que tu podes ter na vida delas é inspirá-las.

Sim, que é não quereres controlar a vida dos outros. Tu até podes achar que aquela pessoa tem que começar a fazer desporto, mas não podes andar sempre: "Olha, tens que fazer".

É que isso só prejudica as relações.

É isso. É pronto.

É a forma como o dizes. Porque estás sempre a dar na cabeça de: "Tens que fazer, tens que te mexer. Olha para a tua saúde, estás muito pouco saudável."

Tu por acaso não és nada assim. Ou seja, tu és o oposto. Tu puxas para as pessoas fazerem, mas não as chateias.

Ok.

Eu não acho. Tu comigo sempre me convidaste para fazer coisas e puxas-me, e já fui imensas vezes contigo fazer coisas, mas se eu não estiver a fazer, tu não és a pessoa que me dá na cabeça.

E às vezes nem é só o convite, às vezes, por exemplo, só o partilhar o: "Olha, fui fazer isto." Isso aí já inspira as outras pessoas a também quererem.

Por isso é muito diferente o convidar, estar a apontar o dedo. E se calhar a Cristina é exemplo disso. É muito diferente. Enquanto que há pessoas que é muito: "Se eu faço, tu também devias fazer." É como não comer carne, aquelas pessoas que não comem carne e querem que os outros não comam. Eu não como carne, mas se as pessoas não quiserem comer, está tudo bem.

Mas há imensa gente que faz isso com imensa coisa e até com coisas que de facto são más para a saúde. Mesmo assim acho chato. Uma pessoa fuma. "Não vou estar a chateá-la porque ela fuma." Deixa estar.

É o quê?

Ainda ontem fiz um vídeo sobre isso, que é os comentários que as pessoas fazem.

Eu vi, já sei.

Que é um extremo ou outro. Agora é saudável. Se tu treinas duas vezes no dia, estás a fazer nada de mais. Se é um dia em que não fazes nada, é tipo: "Mas tu não costumas treinar todos os dias?" Esses comentários dá sempre. E neste fim de semana também houve um desses, que é tipo: "Tu, a pedires panados?" Foi literal.

Eu adoro panados, fica à vontade. Mas já comeu e tudo.

É bué isso, é os comentários que faz, é a forma como faz.

Mas é com tudo na vida, em relação a namorados. Eu lembro de sermos miúdas e ser super esse tabu. Se tu tinhas um namorado: "Porque ela só tem o namorado a vida toda e não sabe o que é curtir a vida" e não sei o quê. Se tu estás solteira e estás a sair e a estar com um rapaz: "Porque ela é não sei quantas, não sei que mais." Isso acontece com tudo.

Sim, mas eu acho que isso é crescer e perceberes que tens de deixar os comentários passar.

É isso, é a letra. Mas eu acho que isso é aquelas pessoas que têm bué necessidade de comentar a vida dos outros e que estão sempre mais focados no que os outros estão a fazer do que aquilo que elas próprias estão a fazer e depois andam sempre com essas-

É verdade, mas acho que todos nós temos um bocadinho disso.

Não, sim, é verdade.

Mas guarda para ti.

Exatamente.

E eu acho que há pessoas que são piores.

Não, sim, sim.

É tipo pessoal que abusa bué. É aquelas pessoas que comentam na net coisas que são insanas que eu nunca comentaria.

Eu não tinha coragem nunca de comentar nada na net de mal de alguém.

Não é? Ou mandar uma mensagem tipo-

Mas aí estás protegida, não é? Por atrás.

Mas nunca farias.

Como é que tu tens coragem? Eu não tinha coragem.

Vocês não viram aquela coisa do Kiko "Exote", de um professor de surf que lhe mandou uma mensagem tipo horrível. E depois ele partilhou aquilo nos stories, fez prints, não sei o quê. E depois a pessoa, aquilo deve ter corrido mal para o lado dele, e veio dizer que ele tinha sido hackeado e que tinha sido outra pessoa a enviar a mensagem para ele.

A escola de surf veio dizer que tinha sido hackeada.

É pá, não mintas. Mesmo que aches isso, está calado, não digas isso.

Porque se calhar achava que nunca ia chegar ao Kiko ou a estas proporções, porque está protegido.

Que necessidade de dizer?

Mas eu acho que é aquilo que a Mónica estava a dizer, é muito também estares de mal na vida contigo e precisas de largar a frustração para uma pessoa que à partida para ti é um boneco, porque é tão distante que tu sacas pancadas.

No TikTok acontece muito isso. O TikTok às vezes, um post fica wild e tu vais aos comentários, as pessoas acham que podem dizer tudo o que quiserem.

Por acaso o último episódio que eu fiz sozinha, foi o tema que eu levei para a "Friendstorm"

Acho que até foi o meu "spin" deste episódio, foi eu sentir que muitas vezes me abalizava naquilo que eu dizia, que não dava tantas opiniões e que queria ser mais eu, mais extrovertida. Estive a ouvir episódios que fiz de entrevistas e senti que estive muito calada, que tinha coisa a dizer, que estava muito calada. E eu acho que também é um bocado isso, é medo, receio. Muito politicamente correta. Sim, muito vanilha. Mas isso é o contrário do que estamos a dizer. Eu estou a dizer que eu às vezes assumo essa postura com medo das suposições. Já percebi. Destes comentários. Eu percebo, porque eu às vezes digo coisas na net e depois é um "backlash" gigante. E acho que tens de ter muita confiança. Mas acho que tens que pensar que as pessoas que estão a dizer aquilo, são pessoas que estão mal com elas próprias, pelo menos pela forma como estão a dizer. E se discordarem, é normal. Sim, pode ser mal interpretado. Sim, e até pode ser. Eu agora posso dizer aqui uma coisa e tu discordas de mim, a Mariana acha mais ou menos outra coisa e acho que isso é normal. Nós temos que aprender a conviver com haver opiniões diferentes. O que eu acho que é mau é quando as pessoas levam isso para serem "hate" ou para serem mal-educadas. Uma coisa é discordar, outra coisa é ser mal-educado. Acho que é diferente. É não levar isso para o lado pessoal, mas muitas vezes eu tenho essa dificuldade. Eu percebo. Imagina, podem estar a discordar da minha opinião, mas eu estou a achar que estão de mim. Que já não gostam tanto de mim. Sim. Eu penso que eu sou bué assim também. Eu não consigo separar a linha profissional da linha pessoal. Se é uma crítica a algo que tem a ver com o meu trabalho, mas eu acho que é a mim. Porque também é difícil separar, porque está tudo bué ligado, principalmente na nossa área. Mas eu acho que mesmo às vezes em trabalhos convencionais, pode existir isso. Se acho que em trabalhos eu tenho um problema que é: eu sou muito mais confiante a dizer coisas na net e na minha vida pessoal do que no meu trabalho. No meu trabalho "full time" das 9 às 17. És mais insegura? Sim, tenho mais medo, sou mais insegura. Está bem que eu hoje em dia já está melhor, mas no início era muito tímida, muito calada, muito não dizer coisas. Mas por quê? Achas que é falta de experiência? Acho que era. Tinha medo de não ser boa o suficiente. E então qualquer coisinha que eu fizesse de mal ali, corria mal e era sempre sobre trabalho, mas na vida pessoal estava tudo bem, que é uma coisa estranha, que não faz muito sentido. E como é que foste ganhando essa confiança? É viver e a fazer. E com medo. Sim, é isso. É em pânico a fazer e a perceber: "Ah, ok, está tudo bem, não é assim tão grave." E é o aprender a fazer erros no trabalho. Eu antes, eu fazia um erro no trabalho. Não dormia, e "ai, que drama, e ai, agora vou ser despedida e não sei o quê." Eu tive um problema uma vez num trabalho em que eu encomendei produto, porque eu tinha que fazer encomendas de produto, eu encomendei €10 mil extras de produto. €10 mil. Eu quando percebi que fiz isto, eu pensei: "Não acredito, vou ser despedida." Não vais ter de devolver? Não. €10 mil. "Tia, deixa eu ver aqui a conta poupança para pagares." Eu juro que eu pensei mesmo nisso. Mas depois a minha chefia foi supertranquila em relação a isso, arranjou-se uma solução e está tudo bem, o produto vendeu-se. Mas que pânico, não dormi aquela noite. Mas se calhar ajuda pensar: não morre ninguém. Pois não. Mas €10 mil. Para uma empresa grande, se calhar não é nada. Sim, é pior para nós. Mas fogo, que pânico mesmo. Mas depois tu fazes esta e percebes: "Ok, está tudo bem, não aconteceu nada." Tudo se resolve. Então ganhas. Sabendo que eu no trabalho também já tive uma insegurança supergrande em relação ao colegas de trabalho. Eu achei durante muito tempo, num trabalho que eu tive, que as pessoas parecia que gostavam do meu trabalho, ou eu sabia, mas não tinha certeza, que gostavam do meu trabalho, diziam que gostavam do meu trabalho, mas eu estava sempre à espera do dia que me despedissem, de saber se me odiavam e tal. Mas eu percebo perfeitamente isso, claro. Mas eu tinha imenso isto. Sim, é síndrome do impostor. E depois tu pensas: "Agora fui promovida. Está bem, mas é porque tive sorte." Ou: "Agora aumentaram-me. Não, mas tive sorte, é porque eles não percebem bem e um dia vou fazer uma asneira e vão me descobrir." É superestranho. Mas é porque tu achas que podias estar a fazer mais, ou não? Eu acho que sim. Não sei se no teu caso era isso. Eu sentia isso, porque eu sentia que podia estar a fazer mais. Mas eu, na verdade, podia estar a fazer mais. Porque eu estava a jogar dois trabalhos. Isso é diferente. Isso era sempre na minha cabeça, por muito que eu até entregasse bons resultados no trabalho, tinha sempre ali, "back in my mind" que eu estou a gastar também tempo ali. Podia estar a usar ali. Estou a perceber. Mas se calhar isso também é mais culpa, porque se calhar tu estavas a fazer bem o teu trabalho. Sim. É isso. Estava. Entregava sempre tudo e tudo ótimo. Só que, como eu sabia que também estava ali a ter tempo, não era a 100%. Mas eu acho que, por exemplo, isto no meu caso era mesmo de eu sentir que não estou a fazer o suficiente. E um dia vão me descobrir e vão descobrir que eu sou péssima. Era isso, um dia vai acontecer qualquer coisa e vão descobrir isto aqui. Eu, por acaso, acho que tinha mais a ver com as pessoas. Tinha sempre medo que as pessoas, afinal, não gostassem de mim. Mas isso faz sentido, era o que estavas a dizer há bocado. Estavas a dizer que o teu trabalho tem a ver se as pessoas gostam de ti. Mas era um trabalho de equipa mesmo. Eu era produtora de televisão e eu tinha sempre receio disso. Não sei por quê. Eu não acho que fazia menos do que era suposto, não, estava tudo ótimo. Até ganhar, efetivamente, eu acho que eu própria confiança no meu trabalho. Ok. E as metas nos outros. Hoje em dia eu lido muito melhor com as críticas no trabalho, pedidos de correção, coisa assim, já consigo muito mais distanciar, mas é todo um processo. E agora, e pessoal que está a entrar de novo no mercado de trabalho e assim, acho que tem muito a ver com a personalidade de cada um. Há pessoas que conseguem. Eu tenho muita dificuldade em ter conflitos no trabalho. Percebo perfeitamente. Eu não consigo. Eu quando tive que me despedir, e é horrível, eu achei que ia morrer. Eu achei que ia ter um ataque cardíaco, eu estava tão nervosa. E eu odiava o meu trabalho, eu queria me despedir, mas eu estava tão nervosa só de pensar que alguém podia ficar chateado comigo. Sim, é que isso é um processo muito difícil de navegar. Eu já fiz isso. De falar, estou tão nervosa. Não, é tipo tu saberes o que é que vais dizer na conversa, depois tens que- Sabia tudo ...tinha tudo. E tentas imaginar a conversa na tua cabeça, o que aquela outra pessoa vai dizer, mas depois tu não consegues controlar. Como mega pinças. É horrível. É um pânico

Depois penso: "Aquela pessoa vai me odiar para sempre". Por outro lado, ajuda pensar que se eu me estou a despedir, vou sair desta empresa e é o melhor para mim, então se calhar também já não vos vou ver mais.

Vou fugir. Tchau.

Não, para mim ajuda. Na altura, penso: "Se calhar essas pessoas não vão fazer parte mais da minha vida".

O problema é-

Podem vir a fazer.

Exato, é isso.

Mas em Portugal, em Espanha, era difícil.

É outro mundo. É que aqui é tudo tão pequenino que essas pessoas, não sei, elas vão aparecer de algum lado. Tenho a certeza.

Sabem o que eu percebi sobre isso do trabalho? Quão mais honesta tu fores, melhor as coisas correm.

100%. Isso é verdade.

Mas dá vontade de não ser, porque queres fugir às coisas.

No trabalho e na vida, não é?

Sim, se tu fores honesta, vulnerável e disseres a verdade, só se for uma pessoa completamente atrasada mental do outro lado, porque senão ela vai compreender sempre.

É verdade. E normalmente quando estás em pânico é falso, porque depois na vida real não é assim tão mau como estavas a imaginar. Nunca é.

Nunca.

Qual é o teu spin?

O meu era isso, era estar overwhelmed. Mas eu estou overwhelmed com vida profissional, vida pessoal. Eu sinto que tudo está caótico, que não consigo chegar a todo lado ao mesmo tempo e que é tudo bué dramático e que estou a falhar e não sei o quê. Mas eu sinto que estou sempre com este discurso. Eu acho que já da última vez que vim cá, eu disse este spin, acho eu.

Faz isto à agenda.

Mas eu tenho a agenda. Só que eu sinto sempre que não consigo chegar a todo lado.

Não achas que precisas de priorizar, se calhar, algumas áreas e deixar outras de lado?

É isso.

E sabes o que é que podes cortar?

Sei. E há coisas que eu tenho que começar a dizer que não e que não dá mesmo e acabou. Pronto, não dá para chegar a todo lado. Essa é que era a minha semente, que é começar a dizer que não a projetos, porque eu digo que sim a tudo, porque eu na altura acho sempre: "Sim, eu consigo fazer. Consigo. É daqui a um mês, eu consigo." E depois...

É um problema para a Mónica. Eu também sou muito assim. Para a Marina do futuro. Eu hoje em dia consigo dizer que sim a coisas para a semana e encho a minha semana toda, depois quando lá chego, fico ansiosa porque disse que sim a demasiadas coisas.

Também eu. E depois sinto-me completamente desorganizada, que é uma coisa que eu detesto.

E eu detesto voltar atrás.

Não, já disse que sim, agora vai acontecer.

Mesmo que seja planos sociais. Eu detesto voltar atrás.

Mas em planos sociais eu às vezes estou por dentro a pensar que a outra pessoa deve marcar.

Sim.

Eu tenho muito esse problema.

Sabes que eu acho mesmo, e sou cada vez mais apologista de, primeiro, é importante quando marcas uma coisa, às vezes forçares um bocadinho, só porque sabes que te vai fazer bem. Mas por outro lado, então se for com uma amiga tua, que tu tens super confiança, às vezes mais vale ser super honesta e dizer: "Olha, não dá. Amiga, olha, eu até posso, mas estou super cansada, estou isso, estou aquilo."

Mas o que me acontece é, imagina, não dá hoje, mas vou ver a minha agenda, eu só consigo daqui a duas semanas.

Pois.

E isso para mim é: ela vai passar a gostar um bocadinho menos de mim.

Mas eu acho que só dá sempre daqui a duas semanas. É muito difícil.

É vida adulta ou é má gestão?

Não, é vida adulta.

Não, é vida adulta.

É vida adulta. Porque se alguém te disser: "Olha, na quarta-feira da próxima semana dá?" Não, não dá, está lá outra coisa já. Não é por mal, mas está mesmo. E eu acho que a maior parte das pessoas, estamos aqui três, toda a gente sente isto.

Às vezes, o que acontece, mesmo raramente, mas tenho uma amiga: "Olha, queres ir correr logo ao fim do dia?" "Claro, posso." Como é que deu? "Queres ir jantar logo?"

Mas esses são os melhores planos.

Ei, mas isto é grande cena. Quando isto acontece é tipo: "Meu Deus, eu nem sequer tenho nada e até estou fixe hoje para marcar coisas."

Eu adoro esses dias, adoro esses planos.

Nunca acontece. Mas isso irrita-me. Ou é tipo: "Eu vou te cancelar, eu só consigo daqui a três semanas."

E depois tens que conjugar com a agenda dos outros. Então combinar coisas com grupos grandes. Boa noite, é em dezembro.

Olha, isso podia ter sido a minha rosa. Eu consegui este ano ir de férias com as minhas amigas de infância.

Uau, isso é incrível.

E todas vivemos em cidades e países diferentes.

Nice!

Isso é mesmo fogo, impressionante.

Ninguém vive na mesma cidade, só eu e outra vivemos em Portugal, mas o resto todas vivem em países diferentes, continentes diferentes, e conseguimos ir de férias.

E correu tudo bem?

E correu superbem, parece que tínhamos 16 anos outra vez.

Quantas eram?

Seis?

Seis. Ainda é muita gente para conseguir combinar.

É que eu vou ter uma viagem, vou a Dublin com as minhas amigas de secundário. Nós nunca viajamos juntas. Ever. Portanto, é uma viagem que vão ser cinco dias. É daquelas que eu devia ter dito que não, porque pela altura que é, é mesmo complicado para mim. No entanto, é a primeira viagem que nós vamos fazer na vida. E nós somos amigas há anos e eu não podia dizer que não a isso.

E tu não te vais esquecer. Vais te esquecer do tópico.

Se eu assisto a viagem, ver os stories delas, as fotos delas, ia ficar com fomo.

Claro, isso é horrível.

E foi demais, porque esteve super mau tempo, nós em Palma de Mallorca, super mau tempo, e mesmo assim.

Foi megadivertido.

Porque tu falas sobre coisas e a forma que tu falas sobre as coisas é, ninguém pode ouvir aquelas conversas.

É uma amizade que são pessoas que tu sais que são, conhecem todas as partes.

Todas as histórias, todas as coisas. Não tens que explicar nada. É muito giro mesmo.

E é o sentir que está tudo igual. Isso não é um alívio gigante, quando não estás com alguém há muito tempo, mas a pessoa é muito tua amiga e de repente está tudo bem. Está tudo normal.

E há fases, e entre nós já houve fases entre uma e outra, e há fases e há coisas que vão acontecendo, e as amizades vão afastando e aproximando quando são amizades de tantos anos.

Eu acho que isso é normal.

Porque vamos para cidades diferentes e fazemos outros amigos, e estamos nisso e estamos naquilo. Mas é mesmo giro, porque no final de contas, e eu acho que depois começas a chegar a uma fase da tua vida em que há muitos planos, muitas coisas, e tu tens que optar por, e tu falavas imenso disso antes, tu tens que escolher quais são as amizades que alimentas mais e menos, porque não há tempo para tudo. E é mesmo giro nós, passado tantos anos, voltarmos Que tenha parado de acontecer, mas agora cada vez mais a alimentar essas amizades de sempre.

Sim, eu voltei muito mais desde que voltei para o Porto, a alimentar muito mais as amizades de secundário e de faculdade.

São amizades de casa, eu acho.

Ya.

Eu também sinto isso desde que estou mais cá para cima, mas eu acho que também tem a ver com a distância, neste caso, que é estar mais próxima das pessoas, então naturalmente estou mais com elas. Mas eu acho que é super normal tu teres fases em que estás mais afastada e outras que estás mais próxima, porque não há hipótese, tu não consegues estar em todo lado.

Sim, mas eu acho que também tem a ver com ter mais um equilíbrio na vida, pelo menos para mim. Foi uma fase em que eu estive em Lisboa, em que estava muito mais trabalho. Afastei-me também de, não é de família, mas acabei por não estar presente, não estar tão próxima dos meus primos, por exemplo, porque estava numa fase de trabalho e era tudo prioritário ir ao trabalho. Quando mudei para cá, também muda o chip disso e passa a haver mais equilíbrio. Havendo equilíbrio, tu tens mais tempo e priorizas também o estar com amigos, que neste caso são casa e família. Agora para mim é: surge uma cena de trabalho, fui convidada agora para um evento domingo, ia ser uma marca top relacionada com desporto, ia ser grande dia, mas para mim domingos é dia de ir a casa, ir almoçar, estar com a minha família, com a minha avó, com os meus primos. Prefiro não, prefiro ir a casa.

Mas eu acho isso incrível.

E há três anos eu não ia ser essa pessoa. E acho que isso também vem com maturidade.

Mas acho que eu tenho esse problema. Eu ainda não estou aí e eu adorava estar aí, porque eu digo sempre que sim a coisas de trabalho e meto o pessoal um bocado mais de lado.

Mas sabes por quê? Porque tu ainda não estás 100% realizada naquilo que estás a fazer.

Sim, também é verdade.

Acho que tem a ver com isso.

E acho que tem a ver com o tempo e tu aprenderes. Eu aprendi imenso isso. Eu agora tenho um equilíbrio muito maior. Eu achava que a minha vida era só trabalho. Eu era outra pessoa.

Pois. Isso não é fixe, eu sei.

Eu estava sempre estressada, eu só queria saber do trabalho. Durante um ano e tal eu não saía à noite, não fui back office nunca com os meus amigos. Eu não ia a lado nenhum, eu cancelava, tinha férias, viagens com pessoas e na semana anterior dizia: "Não consigo porque eu tenho trabalho."

Mas tu não achas que é preciso haver essa fase de construção?

Acho que tem que haver essa fase de construção, mas acho que eu me perdi muito nessa fase. Paguei a conta.

Não ao teu custo, sim.

Paguei a conta cara porque eu me perdi, porque eu sou todas essas coisas, eu não sou só trabalho. E eu perdi muita da minha essência.

Mas já estarias onde estás hoje se não tivesse sido essa fase? É isso que eu não sei. Pergunta-me isso.

Essa pergunta é muito complicada.

Pergunta-me isso que eu não sei. Eu tive uma fase também de três anos só trabalho. Perdi muita coisa, mas eu agora estou num ponto em que eu consigo fazer escolhas.

E a verdade é que eu sinto que consegui ir lá buscar tudo de novo.

Portanto, também pode ser uma fase.

Isso a mim dá-me paz. Se é uma fase, dá-me paz.

Mas acho que o objetivo é que seja o mais curta possível.

Mas quando é que tu sentiste que já não dá mais, já não consigo estar mais assim?

Quando acabou a relação.

Exato, a minha vida explodiu. Aí que eu percebi.

Foi isso, ok.

Sim, eu e o meu ex-namorado acabamos muito também por causa disso. Isso foi uma das coisas principais e eu pus um bocado a minha vida toda em perspectiva. E foi toda uma fase de construção. E foi assim, mas lá está, não é muito fixe.

Olha, foi provar ali para mim, deu-me um clique.

Ya, pois. Não, isso eu lembro-me. Pois, não sei. E acho que quando te rodeias de pessoas, por algum motivo a tua vida te obriga a parar e te rodeias de pessoas que vivem a vida delas, acho que isso também te inspira.

Não, isso 100%. E como estar no outro espectro é igual também. Quando estás muito rodeado de pessoas que só trabalham muito.

Tu és as pessoas que tu és. Quando estás rodeada desse mindset workaholic, milionário, estás destinada.

E também é importante estares rodeada de pessoas que gostam da vida delas e daquilo que fazem. Porque acho que, principalmente quem tem um trabalho que não adora e anda muito naquele loop de "a vida é uma merda". Tu depois também achas que a tua vida é uma merda e que não consegues sair daquele ciclo. E se estiveres com outras pessoas que têm vidas fixes e que se calhar até um caminho que tu até gostasses mais, tu ficas com aquele bichinho de "é possível".

É isso, porque enquanto tu não acreditares que é possível, então ficas presa àquilo, mas isso é sempre assim. Tive essa conversa com as minhas amigas quando estávamos de férias. Todas trabalhamos em áreas diferentes, todas elas em áreas corporativas. E estávamos a falar sobre quem é que gosta e quem é que não gosta do seu trabalho. E é mesmo engraçado. Algumas delas adoram o que fazem, é mesmo uma parte muito importante do dia delas e trabalham mesmo muitas horas porque têm objetivos profissionais muito grandes. Mas outras gostam daquilo que fazem, mas não é a coisa que mais gostam e outras nem gostam daquilo que fazem, mas focam-se muito mais nos benefícios que lhes traz o trabalho atual e na vida que estão a construir fora do horário de trabalho. E honestamente, há coisas que eu invejo dessa escolha de work-life balance que elas têm, porque não tem que ser igual para toda a gente. Há pessoas que o trabalho é mesmo uma coisa extremamente importante. A minha mãe, por exemplo, para ela o trabalho, ou seja, aquilo que ela estava a fazer, não era a coisa mais importante. Para ela, tinha que ser uma coisa.

Mas são tantas horas que tu passas a trabalhar, que para mim faz-me um bocadinho de confusão pensar assim.

A mim também. Eu sou o tipo de pessoa que não conseguia. E já tentei. E não consigo não gostar daquilo que eu faço. Claro que há tarefas que eu não gosto, mas não consigo não gostar.

Mas também tem noção do privilégio.

Mas tenho noção.

Temos.

Tenho noção do privilégio que temos, mas também sei que existem muitos riscos associados e já tive que levar com imensos riscos desses associados e muitas vezes invejo as outras pessoas e fico a ponderar, afinal.

Mas eu acho que isso acontece a toda a gente, que tu estás sempre, tu queres ir para o outro lado. Quando estás num sítio, pensas sempre: "Mas se calhar o outro lado é melhor."

Toda a gente reva as vagas do LinkedIn de 15 em 15 dias. Eu acho.

Estás sempre a pensar: "E se eu agora fosse não sei o quê?" Portanto, eu percebo, embora eu esteja a tentar afastar-me das nove às cinco, eu percebo que quem não está cá possa querer vir para cá outra vez. Eu entendo isso. É outra estabilidade.

É isso. Porque lá está, os dois têm coisas megapositivas.

Claro.

É isso.

Mas por acaso eu tenho grupos de amigas em que sinto que é um bocadinho esse loop negativo de não gosto da minha vida, não gosto do meu trabalho, e não sei o quê. E eu aí, nesses momentos, eu fico calada, porque acho que também não avanço.

Exato, o que te apetece dizer não lhe vai acrescentar.

Por exemplo, agora de férias, eu tive imenso tempo de férias. E obviamente que não é uma coisa que eu queira estar sempre a dizer que estou cansada das férias. Isso é absurdo de dizer.

Estou a perceber.

E eu até escrevi no meu "journal", quando estava em Cabo Verde: "Eu sinto culpa, mas apetece-me voltar a casa e à minha rotina e ao meu trabalho." Porque eu sinto-me mesmo sortuda por ter construído uma vida que eu adoro.

Mas isso é incrível e eu acho que não tens de te sentir mal por sentir isso.

Me sinto culpada por-

Mas estás no sítio onde estás também porque trabalhaste para isso.

Sentes-te culpada, se calhar, quando estás rodeada de pessoas que não sentem isso.

"Que bem, segunda-feira voltar ao trabalho." Eu fico calada, porque é que eu tenho a dizer? Que aí que vem a segunda-feira, estou excitada.

Sim, eu percebo o que é que estás a dizer. Mas ao mesmo tempo eu acho que não te deves sentir culpada por isso, porque o sítio onde tu estás não foi uma sorte.

Não, se calhar culpada não é a palavra certa. Não sei.

Sentes que não deves dizê-lo?

Sinto que não é o meu espaço para o dizer.

E também concordo, acho que isso demonstra sensibilidade do teu lado com a outra pessoa, porque é verdade, às vezes não vai acrescentar nada estarmos quase uma pessoa que está numa situação-

A esfregar uma cena.

Olha, eu adoro.

"A minha vida é uma merda." "Olha, a minha é espetacular."

Exato.

Recomenda-se.

Queres trocar?

Queres trocar? Sim. Mas são conversas que o mais normal é se ouvir isso. E mesmo agora no regresso ao trabalho, pós férias, eu acho que muita gente à nossa volta, há muito essa ansiedade que causa o voltar ao trabalho.

Sim, eu chorei no final das férias. E tive uma semana de férias. Portanto, eu percebo perfeitamente. Mas eu também sei que isto é um "loop", ou seja, há forma de sair daqui. Eu sei que as pessoas não têm que ficar presas a isto para sempre, mas às vezes demora tempo, ou seja, isto não é carregar no botão e agora toda a gente amanhã se vai despedir e é a solução para todos. Não, há pessoas que têm que-

Eu também acho, mas acho que há vários tipos de pessoas. Há pessoas que me irritam porque passam a vida inteira a queixar-se de uma coisa e não fazem nada para mudar. Isso tira-me do sério.

Sim, eu acho que há muita gente que gosta do que faz, mesmo estando em "corporate" e tendo horários loucos, mas gostam do que fazem, sentem que estão realizados e têm propósito, está tudo certo. Eu acho que também tem muito a ver com a questão da idade. Eu estava a estudar Economia na FEUP e lembro-me perfeitamente de uma conversa que eu tive com uma amiga minha, que ela me disse: "Eu não quero bem saber onde é que eu esteja a trabalhar no futuro ou o que é que eu vá fazer, eu só quero é ter uma coisa estável, um salário, para depois poder construir a minha família, ter a minha vida." Aquilo para mim, aquele discurso, arrepiou-me, eu fiquei assustadíssima.

"Será que é isto a minha vida?"

"Nem pensar, eu quero é adorar a minha vida, fazer coisas." Eu ainda não estava na internet sequer, mas já aí eu tinha em mim que eu queria fazer qualquer coisa diferente. Eu não queria seguir aquele caminho.

Eu acho que há pessoas que, exato, é isso, que sofrem mais com o não estar a fazer uma coisa que gostam. Não estou a dizer que toda a gente adora estar a odiar a vida, não é isso, mas há pessoas que sofrem mais com isso, que é uma coisa por dentro que não aguentam.

Sim, e há pessoas que encontram depois outras coisas fora do trabalho e rotinas fora do trabalho que adoram e que têm aqueles horários que nem é detestável, até conseguem, e depois o resto, a vida é incrível. Pronto, e se encontram esse equilíbrio, está tudo bem.

É isso.

Sim, mas acho que é mesmo importante isso, a vida que tu constróis. É muito importante, obviamente, tu gostares daquilo que fazes, mas acho que também é muito importante a vida que tu consegues construir fora disso.

Sim. Estamos aqui a chegar ao final. Vamos passar para sementes.

Bora.

Queres começar? Sabes a tua?

Sei. Eu já disse a minha há bocado, que é: eu tenho que começar a dizer que não a projetos. É quando perguntarem: "Olha, em outubro podes não sei o quê, no dia não sei o quê?" "Não, não posso, porque já tenho muitas coisas e não dá para dizer que sim a tudo." Porque o meu problema é, eu sinto, no momento eu quero dizer que sim, porque eu gosto de dizer que sim a tudo e é tudo uma experiência, é tudo uma coisa e é tudo muito giro. Só que depois eu sei que vou chegar àquela altura e vou estar completamente baixo d'água e não vou conseguir chegar a tudo e não vou estar bem. Ou seja, estou-me a prejudicar a mim por uma coisa que é supostamente boa para mim. Pronto, é dizer que não.

Mas é muito difícil.

Pois é.

É super difícil.

E o problema é: a quem é que digo que não e a quem é que digo que sim?

Não, mas é que às vezes já disseste que sim a uma coisa e depois vem outra melhor.

Sim, mas aí não há hipótese. Eu quando já disse que sim, depois não vou dizer que não. Não, é dizer que não a coisas que-

Dizer que não é difícil, sem dúvida.

É coisas que ainda não me comprometi, coisas que já estão, já estão. Isso aí já não dá para saltar.

A minha semente tem a ver com isto tudo, "overwhelmed" e de começar o ano e não sei o quê, porque é pegar em objetivos pendentes e perceber como é que os posso aplicar.

Objetivos até ao fim do ano, objetivos assim grandes?

Objetivos até ao fim do ano. Se eu tenho?

Se é sobre objetivos grandes que tens?

Sim. E até coisas pequenas também. Olha, que eu até te disse, estava a gozar, mas a falar sério, que eu tenho um problema de chegar atrasada às coisas e todos os anos eu tento. Janeiro tentei, agora setembro vamos recomeçar, vamos voltar a tentar chegar a horas às coisas. Também essas coisas pequeninas acho que é importante. Em setembro gosto de pegar nos objetivos, nos grandes, nos pequenos, e relembrar porque é que eles existem e estar mais "aware" deles para conseguir implementar.

A mim, também tem um bocadinho a ver com isto, com a ansiedade, de que forma é que eu posso controlar esta ansiedade que sinto neste mês e de tudo acontecer. Eu acho que tem a ver com eu pensar muitas vezes em objetivos macro, que me assusta e me causa ansiedade, e tentar desligar um bocadinho disso, que é tipo: "Ai, meu Deus, eu estou mesmo ansiosa, eu tenho que correr uma meia maratona." "Não, calma. Tu tens que correr três vezes esta semana. Vamos organizar o calendário." É tipo micro. Tentar trazer tudo para micro. É tipo, eu tenho um projeto grande que eu quero fazer, que é bué assustador, e eu pensar nele está-me a causar tanta ansiedade que eu não tenho feito absolutamente nada. Então, bora à micro. O que é que esta semana tu podes fazer? "Bem, vou só abrir o documento e ajustar ali uma página." Pronto, está feito.

Isso é um bom exercício. É uma boa dica.

Eu acho que me ajuda imenso a acalmar, seja para que área for.

Porque isso é a mesma lógica do calendário. Se tens muitas coisas para fazer, é começar a pôr em sítios. E aí é igual. É um projeto muito grande que tem muitas tarefas, tens de começar a dividi-las.

É isso, é só ajudar o teu cérebro a que não entre em loop, ajudá-lo a criar estratégias para se sentir mais no controle, que é um falso controle.

Não, mas aí acho que é controlar no sentido em que estás a avançar no projeto. É melhor do que não estar a fazer nada, porque é muita coisa e não fazes nada.

É tipo não pensares naquilo como-

A ansiedade para-me.

É isso, é que não seja um travão. Que te liberte, que tu consigas pelo menos dar um passinho, nem que seja entregar uma página de alguma coisa. Escreve duas linhas, já é melhor do que não escreveres nada.

Exatamente. Se colocares como objetivo duas linhas todos os dias, vais entregar.

Mesmo com a leitura ou whatever, o hábito que seja. Tentar voltar a ser pequeninos passos para menos ansiedade.

É uma boa dica, vou implementar.

Olhem, está feito por hoje. Gostei muito deste trio, acho que correu bem. Gostaram?

Foi muito bom.

Sentiram-se bem?

Sim, eu senti.

Portanto, não trouxemos temas, só fizemos rosa, espinha e semente.

Mas falámos de muitos temas.

Isto aqui é complicadíssimo para mim, de agora eu pôr um título e uma descrição a este episódio. Mixar de temáticas e ninguém ouve. Zero pessoas.

Então pega numa frase mais polémica.

Vamos pegar assim. Não dissemos ali nada...

Sobre gostar de trabalho ou não, sinto que pode ser aí.

É isso. Pegas no mais polémico que houver.

Ou então inventamos uma frase. Qual era o podcast que faziam isso?

Pois era.

Havia um que inventava uma frase.

Vamos falar tipo...

Qual era? Era as pequenas reivindicações de liberdade.

Então não sei qual é.

Não? É um podcast observador. E elas pegavam numa frase aleatória e definiam com o convidado uma frase aleatória e punham no título e não tinha nada a ver. Era bué polémico. Podíamos fazer isso do género.

Vamos dizer qualquer coisa de traições e coisas. Diz aí uma cena para o Vasco cortar. Ele traiu-te mesmo?

Foi sem querer esta.

Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?

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