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Monday, October 19, 2026

Ed Motta prova que sua genialidade continua intacta em show em São Paulo

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Com sucessos da carreira, músicas de Tarzan e até um título de doutor honoris causa, cantor apresentou o espetáculo Manual Prático 30 Anos no Teatro Bradesco

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

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Ed Motta prova que sua genialidade continua intacta em show em São Paulo (Foto: Jorge Bispo)
Ed Motta prova que sua genialidade continua intacta em show em São Paulo (Foto: Jorge Bispo)

O nome de Ed Motta parece caminhar constantemente entre dois extremos: de um lado, as polêmicas que frequentemente colocam o artista no centro das discussões; do outro, a genialidade musical que o consolidou como uma das figuras mais talentosas da música brasileira. São duas facetas que, goste-se ou não, parecem inseparáveis de sua personalidade. Mas basta o cantor subir ao palco para que tudo isso fique do lado de fora. O que se vê, então, é um músico virtuoso, capaz de reger sua banda com precisão, conquistar o público com seu carisma peculiar e demonstrar, sem muito esforço, por que continua sendo capaz de lotar uma casa de espetáculos.

Foi justamente essa versão de Ed Motta que o público encontrou na última sexta-feira (16), no Teatro Bradesco, em São Paulo, durante a apresentação de Manual Prático 30 Anos. O espetáculo, com direção musical de Michel Limma, revisita diferentes momentos de sua trajetória, reunindo sucessos, composições menos lembradas e algumas surpresas. Depois de um medley instrumental com “Lustres e Pingentes“, “Por Você Ser Mais” e “Birinaite“, o artista fez questão de lembrar por que seu repertório atravessa gerações, emendando uma sequência de hits com “Fora da Lei“, “Manuel“, “Colombina” e “SOS Amor“. Uma abertura que praticamente dispensa apresentações e estabelece, desde os primeiros minutos, a cumplicidade entre o cantor e a plateia.

Mas o espetáculo também reservou espaço para um capítulo pouco explorado de sua carreira. Pela primeira vez, Ed Motta apresentou ao vivo canções que gravou para a versão brasileira da animação Tarzan (1999), da Disney. “Um dos motivos desse show é que nunca tive a oportunidade de cantar essas músicas”, explicou. Além de “Dois Mundos“, o cantor interpretou “No Meu Coração Você Sempre Vai Estar” e relembrou uma frustração da época: seu sonho era ouvir a própria voz cantando a música no rádio, algo que nunca aconteceu. Segundo ele, o contrato previa que apenas a versão original de Phil Collins, “You’ll Be in My Heart“, poderia ser trabalhada nas emissoras.

Entre as viagens ao passado, houve também espaço para o presente. Ed Motta apresentou faixas de Toc-Toc, seu trabalho mais recente, incluindo “O Desejo Está Nu” e a canção-título. O repertório evidenciou a versatilidade de um artista que transita com naturalidade entre soul, funk, jazz e música brasileira, sempre acompanhado por uma banda que entende os caminhos, muitas vezes complexos, de suas composições. Mais do que reproduzir os arranjos de estúdio, o espetáculo permitiu observar a atenção do músico aos detalhes, conduzindo os instrumentistas e encontrando espaço para demonstrar sua potência vocal.

O virtuosismo, porém, não impediu que Ed Motta transformasse o palco em um espaço para suas histórias e brincadeiras. Em determinado momento, o cantor explicou que precisava consultar as letras das músicas porque sua memória já não era a mesma. “Estou com 55 anos, mas depois dos 40 não consigo decorar mais nada”, brincou. A confissão abriu caminho para outra lembrança, desta vez dos tempos de escola, quando utilizava a própria perna para esconder anotações durante as provas. “Eu tenho a coxa bem grande, na escola cabia a prova inteira nela”, disparou, arrancando risadas da plateia.

É justamente nessa espontaneidade que reside parte do encanto de assistir a Ed Motta ao vivo. Entre uma música e outra, o cantor parece incapaz de resistir a um comentário, uma lembrança ou uma provocação. E, naturalmente, uma apresentação sua dificilmente estaria completa sem alguma reclamação. Durante “Minha Casa, Minha Cama, Minha Mesa“, sentado ao piano, o artista gesticulou repetidas vezes em direção à equipe técnica, solicitando mais volume em seu microfone. Sem conseguir o ajuste desejado, interrompeu a execução e pediu que a música fosse reiniciada. “Preciso que me olhem durante o show, estou pedindo mais volume aqui”, reclamou.

O episódio poderia ter criado um clima desconfortável, mas o próprio cantor tratou de transformar a situação em piada. “Depois o público acha que o Ed Motta briga com todo mundo”, comentou, demonstrando consciência da reputação que o acompanha fora dos palcos. Ao término da canção, ainda pediu desculpas pela reclamação. Se a interrupção quebrou momentaneamente o ritmo da apresentação, também acabou revelando algo sobre a relação de Ed Motta com sua própria obra: para ele, a execução musical parece ser um assunto sério demais para aceitar concessões.

Superado o pequeno contratempo, a apresentação seguiu sem maiores problemas, mas ainda guardava um momento bastante inusitado. Em pleno espetáculo, Ed Motta recebeu o título de doutor honoris causa em música, concedido pela U: VERSE São Paulo. A homenagem abriu espaço para um discurso mais emotivo, no qual o cantor lamentou que seus pais não estivessem vivos para testemunhar a conquista. Também relembrou a decisão de abandonar os estudos para se dedicar à música, contrariando a vontade do pai, e reconheceu que a aposta poderia ter terminado de outra maneira. “Dei sorte porque logo fui contratado pela Warner Music”, contou.

A homenagem acabou provocando uma pequena mudança no roteiro. Depois de receber o título, Ed Motta decidiu mexer no repertório e apresentar “Vamos Dançar“, que descreveu como “a primeira música que eu compus na vida”. O repertório ainda encontrou espaço para pot-pourris que reuniram composições como “O Melhor de Mim“, “Nascente” e “Ainda Lembro“, além de músicas como “Marta“, “Daqui pro Méier” e “Baixo Rio / Vendaval“.

Na reta final, “Tem Espaço na Van / Love X Love” antecedeu o bis com “Outono no Rio“, encerrando uma apresentação que soube equilibrar a nostalgia dos grandes sucessos com a riqueza de um catálogo que vai muito além deles. A seleção também evidenciou como Ed Motta consegue alternar momentos de descontração com passagens musicalmente sofisticadas, sem perder a atenção da plateia.

Ao fim, Manual Prático 30 Anos funciona como um retrato de seu protagonista, com todas as contradições que isso implica. O Ed Motta que reclama do som é o mesmo que brinca com a própria fama, emociona-se ao lembrar dos pais e conduz uma banda com a segurança de quem conhece profundamente cada detalhe de sua música. O que fica evidente é que existe algo que nenhuma controvérsia consegue diminuir: a capacidade de Ed Motta de fazer da música, acima de qualquer outra coisa, o centro das atenções.

Setlist:

Abertura — Medley: Lustres e Pingentes / Por Você Ser Mais / Birinaite

  1. Fora da Lei
  2. Manuel
  3. Colombina
  4. SOS Amor
  5. Dois Mundos
  6. Mágica de um Charlatão
  7. Toc-Toc
  8. O Desejo Está Nu
  9. A Flor do Querer
  10. Minha Casa, Minha Cama
  11. Drive Me Crazy
  12. Dez Mais um Amor
  13. Dias de Paz
  14. Estranhos Como Eu
  15. No Meu Coração
  16. Falso Milagre do Amor
  17. Medley: Melhor Pra Mim / Nascente / Ainda Lembro
  18. Marta
  19. Baixo Rio / Vendaval
  20. Daqui pro Méier
  21. Vamos Dançar
  22. Tem Espaço na Van / Love X Love

Bis: Outono no Rio

Tema de encerramento: Magnum P.I.

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Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.

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