Ed Motta prova que sua genialidade continua intacta em show em São Paulo

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Com sucessos da carreira, músicas de Tarzan e até um título de doutor honoris causa, cantor apresentou o espetáculo Manual Prático 30 Anos no Teatro Bradesco
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
O nome de Ed Motta parece caminhar constantemente entre dois extremos: de um lado, as polêmicas que frequentemente colocam o artista no centro das discussões; do outro, a genialidade musical que o consolidou como uma das figuras mais talentosas da música brasileira. São duas facetas que, goste-se ou não, parecem inseparáveis de sua personalidade. Mas basta o cantor subir ao palco para que tudo isso fique do lado de fora. O que se vê, então, é um músico virtuoso, capaz de reger sua banda com precisão, conquistar o público com seu carisma peculiar e demonstrar, sem muito esforço, por que continua sendo capaz de lotar uma casa de espetáculos.
Foi justamente essa versão de Ed Motta que o público encontrou na última sexta-feira (16), no Teatro Bradesco, em São Paulo, durante a apresentação de Manual Prático 30 Anos. O espetáculo, com direção musical de Michel Limma, revisita diferentes momentos de sua trajetória, reunindo sucessos, composições menos lembradas e algumas surpresas. Depois de um medley instrumental com “Lustres e Pingentes“, “Por Você Ser Mais” e “Birinaite“, o artista fez questão de lembrar por que seu repertório atravessa gerações, emendando uma sequência de hits com “Fora da Lei“, “Manuel“, “Colombina” e “SOS Amor“. Uma abertura que praticamente dispensa apresentações e estabelece, desde os primeiros minutos, a cumplicidade entre o cantor e a plateia.
Mas o espetáculo também reservou espaço para um capítulo pouco explorado de sua carreira. Pela primeira vez, Ed Motta apresentou ao vivo canções que gravou para a versão brasileira da animação Tarzan (1999), da Disney. “Um dos motivos desse show é que nunca tive a oportunidade de cantar essas músicas”, explicou. Além de “Dois Mundos“, o cantor interpretou “No Meu Coração Você Sempre Vai Estar” e relembrou uma frustração da época: seu sonho era ouvir a própria voz cantando a música no rádio, algo que nunca aconteceu. Segundo ele, o contrato previa que apenas a versão original de Phil Collins, “You’ll Be in My Heart“, poderia ser trabalhada nas emissoras.
Entre as viagens ao passado, houve também espaço para o presente. Ed Motta apresentou faixas de Toc-Toc, seu trabalho mais recente, incluindo “O Desejo Está Nu” e a canção-título. O repertório evidenciou a versatilidade de um artista que transita com naturalidade entre soul, funk, jazz e música brasileira, sempre acompanhado por uma banda que entende os caminhos, muitas vezes complexos, de suas composições. Mais do que reproduzir os arranjos de estúdio, o espetáculo permitiu observar a atenção do músico aos detalhes, conduzindo os instrumentistas e encontrando espaço para demonstrar sua potência vocal.
O virtuosismo, porém, não impediu que Ed Motta transformasse o palco em um espaço para suas histórias e brincadeiras. Em determinado momento, o cantor explicou que precisava consultar as letras das músicas porque sua memória já não era a mesma. “Estou com 55 anos, mas depois dos 40 não consigo decorar mais nada”, brincou. A confissão abriu caminho para outra lembrança, desta vez dos tempos de escola, quando utilizava a própria perna para esconder anotações durante as provas. “Eu tenho a coxa bem grande, na escola cabia a prova inteira nela”, disparou, arrancando risadas da plateia.
É justamente nessa espontaneidade que reside parte do encanto de assistir a Ed Motta ao vivo. Entre uma música e outra, o cantor parece incapaz de resistir a um comentário, uma lembrança ou uma provocação. E, naturalmente, uma apresentação sua dificilmente estaria completa sem alguma reclamação. Durante “Minha Casa, Minha Cama, Minha Mesa“, sentado ao piano, o artista gesticulou repetidas vezes em direção à equipe técnica, solicitando mais volume em seu microfone. Sem conseguir o ajuste desejado, interrompeu a execução e pediu que a música fosse reiniciada. “Preciso que me olhem durante o show, estou pedindo mais volume aqui”, reclamou.
O episódio poderia ter criado um clima desconfortável, mas o próprio cantor tratou de transformar a situação em piada. “Depois o público acha que o Ed Motta briga com todo mundo”, comentou, demonstrando consciência da reputação que o acompanha fora dos palcos. Ao término da canção, ainda pediu desculpas pela reclamação. Se a interrupção quebrou momentaneamente o ritmo da apresentação, também acabou revelando algo sobre a relação de Ed Motta com sua própria obra: para ele, a execução musical parece ser um assunto sério demais para aceitar concessões.
Superado o pequeno contratempo, a apresentação seguiu sem maiores problemas, mas ainda guardava um momento bastante inusitado. Em pleno espetáculo, Ed Motta recebeu o título de doutor honoris causa em música, concedido pela U: VERSE São Paulo. A homenagem abriu espaço para um discurso mais emotivo, no qual o cantor lamentou que seus pais não estivessem vivos para testemunhar a conquista. Também relembrou a decisão de abandonar os estudos para se dedicar à música, contrariando a vontade do pai, e reconheceu que a aposta poderia ter terminado de outra maneira. “Dei sorte porque logo fui contratado pela Warner Music”, contou.
A homenagem acabou provocando uma pequena mudança no roteiro. Depois de receber o título, Ed Motta decidiu mexer no repertório e apresentar “Vamos Dançar“, que descreveu como “a primeira música que eu compus na vida”. O repertório ainda encontrou espaço para pot-pourris que reuniram composições como “O Melhor de Mim“, “Nascente” e “Ainda Lembro“, além de músicas como “Marta“, “Daqui pro Méier” e “Baixo Rio / Vendaval“.
Na reta final, “Tem Espaço na Van / Love X Love” antecedeu o bis com “Outono no Rio“, encerrando uma apresentação que soube equilibrar a nostalgia dos grandes sucessos com a riqueza de um catálogo que vai muito além deles. A seleção também evidenciou como Ed Motta consegue alternar momentos de descontração com passagens musicalmente sofisticadas, sem perder a atenção da plateia.
Ao fim, Manual Prático 30 Anos funciona como um retrato de seu protagonista, com todas as contradições que isso implica. O Ed Motta que reclama do som é o mesmo que brinca com a própria fama, emociona-se ao lembrar dos pais e conduz uma banda com a segurança de quem conhece profundamente cada detalhe de sua música. O que fica evidente é que existe algo que nenhuma controvérsia consegue diminuir: a capacidade de Ed Motta de fazer da música, acima de qualquer outra coisa, o centro das atenções.
Setlist:
Abertura — Medley: Lustres e Pingentes / Por Você Ser Mais / Birinaite
- Fora da Lei
- Manuel
- Colombina
- SOS Amor
- Dois Mundos
- Mágica de um Charlatão
- Toc-Toc
- O Desejo Está Nu
- A Flor do Querer
- Minha Casa, Minha Cama
- Drive Me Crazy
- Dez Mais um Amor
- Dias de Paz
- Estranhos Como Eu
- No Meu Coração
- Falso Milagre do Amor
- Medley: Melhor Pra Mim / Nascente / Ainda Lembro
- Marta
- Baixo Rio / Vendaval
- Daqui pro Méier
- Vamos Dançar
- Tem Espaço na Van / Love X Love
Bis: Outono no Rio
Tema de encerramento: Magnum P.I.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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