BMW aposta no sucesso de Série 3 para driblar crise do setor na Alemanha
Munique (Alemanha) |Financial Times Cercada por bairros residenciais em uma das cidades mais caras da Alemanha, uma fábrica centenária no centro de Munique tornou-se o polo de produção da BMW para sua próxima geração de automóveis.
A principal fábrica da empresa abriga 6.000 trabalhadores que produzem a nova versão totalmente elétrica do Série 3. A montadora alemã vendeu mais de 18 milhões de unidades do modelo desde seu lançamento, em 1975, enquanto a produção da oitava geração começou em agosto.
"É aqui que produzimos os carros do futuro", comentou o diretor da fábrica, Peter Weber, durante uma visita às instalações.
A modernização da unidade de Munique está no centro de uma aposta de alto risco da BMW no futuro da indústria na Alemanha. Enquanto Volkswagen e Mercedes reduzem a capacidade produtiva no país em meio aos altos custos de mão de obra e energia, a BMW tenta se desvincular do declínio da indústria alemã, que vem eliminando até 15 mil postos de trabalho por mês.
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"Definitivamente vemos futuro para a Alemanha como polo industrial", afirmou Raymond Wittmann, chefe de produção do grupo.
A fábrica, que iniciou suas atividades produzindo motores de avião e motocicletas em 1922, foi reconstruída ao longo dos últimos cinco anos. A produção se estende por três andares interligados por elevadores, com robôs autônomos entregando peças diretamente à linha de montagem.
A BMW investiu cerca de 2 bilhões de euros (R$ 10 bilhões) em suas unidades de produção do Série 3 em Munique e Dingolfing e em uma nova fábrica de baterias, cerca de 135 km a nordeste de Munique. "É um compromisso muito claro com o local onde estamos sediados e que consideramos nossa casa", declarou Wittmann.
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Embora o grupo também tenha gasto cerca de 2 bilhões de euros em uma nova fábrica em Debrecen, na Hungria, e esteja eliminando mais de 8.000 postos administrativos, os operários não estão incluídos nos cortes.
Assim como suas rivais, a BMW foi duramente atingida pela queda das vendas na China e pelas tarifas dos EUA. Milan Nedeljković, que assumiu o cargo de presidente-executivo em maio, alertou no verão europeu (inverno no Brasil) que seriam necessários mais de cinco anos para que a margem de lucro operacional da BMW retornasse à faixa histórica de 8% a 10%. Neste ano, o grupo se prepara para uma margem entre 1% e 3%.
Produção doméstica
A produção doméstica da BMW tem se mantido melhor do que a de suas rivais alemãs. Um em cada quatro veículos fabricados na Alemanha no ano passado era um BMW, com uma produção de 1,07 milhão de automóveis, pouco abaixo do número fabricado em 2024.
Embora a produção alemã total tenha recuado 10% em 2025 em relação aos níveis anteriores à pandemia, a BMW registrou aumento de 6%, ajudada pela decisão de internalizar a produção do Mini Countryman, do X1 e de alguns modelos do Série 5 —antes feita por parceiros na Holanda e na Áustria.
"Nos últimos anos, a [BMW] ganhou participação de mercado e manteve de forma consistente uma utilização de suas fábricas na Alemanha superior à da Mercedes ou da Volkswagen", avaliou Patrick Hummel, chefe de pesquisa sobre o setor automotivo europeu no UBS.
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Por ser uma marca premium, a BMW enfrenta, por enquanto, menos concorrência de novas rivais chinesas em seu mercado doméstico. Em comparação com concorrentes voltadas ao mercado de massa, as montadoras premium conseguem obter lucro maior por veículo, o que geralmente se traduz em margens mais elevadas e ajuda a absorver os custos da mão de obra alemã.
"Há uma cultura [corporativa e de gestão] diferente na BMW", disse ao FT Horst Ott, chefe do sindicato IG Metall na Baviera e membro do conselho de supervisão da BMW. Segundo ele, a liderança da BMW adotava uma perspectiva de prazo mais longo.
A estratégia da BMW
A posição atual do grupo deve muito a decisões tomadas anos atrás, entre elas a de produzir localmente uma parcela maior dos veículos vendidos na China e nos Estados Unidos. Como consequência, as fábricas alemãs são menos afetadas pela queda nas vendas na Ásia e pelo impacto das tarifas de Donald Trump.
A BMW também aderiu aos carros elétricos antes de suas rivais alemãs, lançando o primeiro i3 em 2013. O modelo foi um fracasso comercial, mas ensinou à BMW lições importantes sobre os riscos de uma produção dedicada exclusivamente a veículos elétricos.
A montadora tem sido sustentada por uma sólida demanda subjacente, que Hummel descreve como "extremamente forte".
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Helena Beron Wisbert, professora de economia automotiva na Ostfalia Hochschule Wolfsburg, atribui isso a uma linha de veículos "relativamente nova" e à "tecnologia de ponta" para veículos elétricos.
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Ainda assim, a montadora não consegue escapar das difíceis condições econômicas de produzir na Alemanha.
"De uma perspectiva econômica estritamente pragmática, há poucos motivos para investir em novas fábricas na Alemanha", analisou Moritz Kronenberger, gestor de fundos da Union Investment, citando os altos custos de mão de obra e energia. "O dinheiro provavelmente seria mais bem investido em outro lugar."
C-Level
Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesWeber, diretor da fábrica da BMW, afirmou que, apesar da história da unidade de Munique e de sua proximidade com a sede, "não desfrutamos de nenhum status especial". Sua fábrica precisa ser "tão competitiva quanto qualquer outra unidade de produção", ressaltou.
Os custos de produção por veículo caíram 10% após a modernização da fábrica e a adoção da plataforma "Neue Klasse". O novo sistema é digitalizado e simplificado, e a proporção de peças entregues "just in time" aumentou de 45% para 68%, reduzindo os custos de armazenamento.
Embora os custos de mão de obra por hora na Alemanha sejam cerca de três vezes maiores do que na Hungria, a diferença nos custos totais de produção é muito menor, segundo Wittmann.
"Considerando tudo, não há grandes diferenças", afirmou. Os custos de materiais de um veículo elétrico ficam entre 20 mil euros e 25 mil euros (R$ 100,04 mil e R$ 125,05 mil), enquanto os custos de mão de obra variam de 1.500 euros a 2.000 euros (R$ 7.503,30 a R$ 10 mil). As fábricas alemãs também se beneficiam da proximidade com fornecedores essenciais, o que mantém baixos os custos logísticos.
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Ainda assim, mesmo dentro da BMW há preocupações de que os fatores econômicos possam passar a desfavorecer suas fábricas alemãs. Wittmann afirma que a competitividade das fábricas alemãs pode se deteriorar "no médio e longo prazo" caso a rede de fornecedores se desloque para o leste europeu e uma parcela maior das peças passe a ser adquirida localmente.
Custos logísticos menores "poderiam inclinar ainda mais a balança" a favor da produção no leste europeu, disse ele. "É por isso que é importante que os custos de mão de obra, os custos de energia e o sistema como um todo na Alemanha continuem sendo otimizados."
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