Lula e Flávio evitam escolher lado, mas China está no bastidor da eleição
O Brasil vai às urnas neste domingo (4), e quem acompanhou a campanha pela TV quase não ouviu falar da China. Num ano dominado pelo caso Banco Master, pelas brigas com o STF e pelo tarifaço de Donald Trump, Pequim só aparecia quando servia de munição.
Flávio Bolsonaro usou essa munição em Natal no dia 21, quando disse que o governo Lula "lambe bota da China" e, na mesma fala, prometeu uma relação "pragmática economicamente" com os chineses.
Lula, que trocou o debate por uma entrevista ao Flow Podcast, elogiou no programa gravado no Planalto a "ousadia dos investidores chineses" na América Latina.
No fundo os dois repetem a ideia de que o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington, algo que dificilmente sobreviverá ao próximo mandato, ganhe quem ganhar.
Essa ideia fazia sentido enquanto a relação com a China cabia num navio de soja ou de minério de ferro, porque nenhum governo americano pediu ao Brasil que parasse de vender grãos aos chineses que compram perto de 30% de tudo o que o país exporta.
A conversa vai mudar quando entrarem em cena os minerais críticos, como as terras raras usadas em ímãs de motores elétricos e de mísseis, cujo refino a China controla quase por inteiro.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás só da própria China, o que fez de Goiás uma espécie de laboratório da disputa. Em abril, a americana USA Rare Earth acertou a compra da mina de Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões, num projeto em que o Pentágono pôs mais US$ 750 milhões em agosto, antes de Pequim oferecer uma parceria a Brasília. A chinesa CMOC, aliás, está no estado desde 2016, quando comprou as minas de nióbio da Anglo American.
Flávio Bolsonaro deixou claro de que lado está em março, quando apresentou o Brasil num encontro conservador em Dallas como a resposta americana ao domínio chinês sobre esses minerais. Dias antes, segundo o site Amado Mundo, o aliado André Marinho havia levado a doadores ligados a J .D. Vance, o vice de Trump, um documento que prometia aos EUA uma cadeia de suprimento paralela à chinesa. Marinho diz que o texto não tinha nada a ver com a campanha, embora trouxesse a marca dela.
China, terra do meio
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Lula quer que o minério seja processado aqui antes de sair do país, com sócio de qualquer bandeira. A lei que ele sancionou em 16 de setembro criou um conselho ligado à Presidência para avaliar participação estrangeira em projetos estratégicos, mas nem essa neutralidade agrada a Washington, que em janeiro chegou a pedir ao Itamaraty que revisse a venda de minas de níquel da Anglo American à chinesa MMG.
Algumas decisões vão cair no colo do vencedor de qualquer jeito, como a da carne bovina, cuja cota aberta pela China ao Brasil em 2026 já se esgotou, de modo que o excedente paga sobretaxa de 55% e ampliar o limite de 2027 ficará a cargo do próximo governo. No mesmo ano, Xi Jinping preside o Brics, bloco que o programa de Flávio Bolsonaro não cita nenhuma vez em seu plano de gestão.
Se Flávio ganhar, é provável que o agronegócio consiga manter o comércio com Pequim onde está, mas duvido que aconteça o mesmo com as terras raras. Se o vencedor for Lula, a cobrança tende a vir de Washington, pelo mesmo tarifaço que já serviu para questionar negócios chineses.
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