Como Portugal quer preparar as cidades para o calor extremo

Um novo estudo publicado já este ano chegava a conclusões só ligeiramente diferentes. Em “Cooling benefits are greater in already cooler areas” (“Os benefícios do arrefecimento são maiores nas zonas que já são mais frescas”), os investigadores estudaram 8.919 grandes áreas urbanas. A conclusão foi a de que a redução potencial na ilha de calor em função das árvores existentes ia de 41 a 49%. E que 914 milhões de pessoas beneficiariam de uma descida de temperatura de 0,25°C.
Mas quanto arrefece realmente uma árvore? Quer o alcatrão ou asfalto das ruas e estradas, quer o cimento e betão dos prédios absorvem e armazenam o calor. Se não houver árvores, nem vegetação, além de não haver sombra, não há evapotranspiração. Além disso, a disposição dos prédios e das outras estruturas pode dificultar ainda mais a circulação do ar e a libertação do calor acumulado numa cidade. Sobretudo durante a noite. Daí a existência de cada vez mais noites tropicais ou tórridas: o calor não se esvai e de manhã a cidade já está quente a que vai somar o calor do dia que começa.
A existência de grandes espaços de árvores ajuda de duas formas. Por um lado, impede que parte da radiação solar atinja diretamente as superfícies. Por outro, liberta vapor de água. Há vários estudos científicos dos últimos anos que chegam (quase todos) a essa conclusão. Os números é que são muito variáveis. Voltamos a eles. Em 2021, foram analisadas 293 cidades europeias para as quais havia dados de satélite. Comparando zonas com árvores e zonas só urbanizadas, havia diferenças médias de temperatura de menos 8 a menos 12ºC na Europa Central e de até menos 4ºC no sul da Europa, em concreto na Ibéria. Título/conclusão da investigação: “Treeless urban green spaces are overall less effective” (“Os espaços verdes urbanos sem árvores são, em geral, menos eficazes”).
O que nos leva diretamente a um outro estudo, de março deste ano. Em “A remote sensing-based assessment of the cooling effects of urban trees in European cities” compara-se a cobertura de árvores com a densidade de construção. Lisboa, com mais 20% de árvores e o mesmo aumento de edifícios, deixaria de produzir calor e arrefeceria. Aliás, Lisboa, Madrid e Atenas aparecem entre as capitais onde a probabilidade do atual aquecimento poder baixar é de cerca de 12%. Há mesmo um cálculo global sobre qual seria a quantidade de árvores necessárias para anular por completo o calor produzido pelo crescimento urbano destas cidades. A fórmula matemática é: mais 25% de verde para mais 40% de construção é igual a uma queda até 28% da probabilidade de aquecimento.
O primeiro grande número vem contudo de 2024: falava da tal redução de temperaturas em menos 12ºC. “Cooling efficacy of trees across cities”, conhecido a 10 de dezembro de há dois anos, fazia uma análise a 182 estudos, de 110 cidades ou regiões, com 17 tipos de clima diferentes. E apontava para essa redução de temperatura brutal, dependendo do clima, da forma das cidades e, claro, do tipo das próprias árvores. Poucos meses antes, em setembro desse ano, em “Green spaces provide substantial but unequal urban cooling globally”, tinham sido estudadas cerca de 500 grandes cidades, mas a conclusão tinha dado um número bem diferente: os espaços verdes valiam apenas menos 3ºC de baixa das temperaturas, e só no verão e com grandes desigualdades no norte e no sul do planeta.
O último estudo foi publicado há menos de três meses, em julho deste ano. Em “Urbanization processes widen global divergence in extreme temperature variability”, a conclusão é fácil de sintetizar. O verde em meios urbanos garante além de temperaturas mais baixas, também temperaturas menos instáveis. Foram estudadas 10.522 cidades em todo o mundo, com base nos dados de temperatura diária entre 1950 e 2020 e analisando fatores como vegetação, água, impermeabilização dos solos, edifícios e calor produzido pelas atividades humanas.
Do Pinhal de Leiria ao corredor verde de Monsanto: o que Portugal já fazia
O PRO NAT.URBE está longe de ser pioneiro nas medidas que apresenta agora para Portugal. Muitos já ouviram, de uma forma ou outra, falar do corredor verde de Monsanto. Mas há outros: o do Vale de Alcântara, o do Rio Seco ou o Corredor Oriental, além dos recentes incluídos no programa Arrefecer a Cidade. No Porto, o mais conhecido é o Parque Central da Asprela, mas tem havido também outras intervenções que combinam árvores com espaços públicos e gestão da água.
Portugal tem antecedentes no planeamento ecológico. Antes de o contexto climático mudar e ser tão falado, já o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles fazia a defesa de sistemas verdes interligados. Defendeu a sua maior ideia, o Corredor Verde de Monsanto, desde os anos 70. A Câmara de Lisboa concluiu-o em 2012. Tem cerca de 2,5 quilómetros de ligação principal e 51 hectares de áreas verdes.
Mas o maior antecedente histórico português é o Pinhal de Leiria. Mostra a utilização planeada de plantação de árvores para responder a um problema ambiental concreto. A origem do pinhal é anterior ao reinado de D. Dinis, mas foi com ele que se realizaram as grandes plantações de pinheiro-bravo para fixar as areias do litoral. O objetivo era proteger os terrenos do interior, incluindo as áreas agrícolas.
As árvores e a saúde pública: a mata do Bussaco e a regra do 3-30-300
Os espaços verdes e o arrefecimento das cidades são também uma questão de saúde pública. De redução dos números da mortalidade pelo calor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em 2017 um guia sobre o tema. O “Urban Green Spaces: a Brief for Action” quer apoiar as autoridades locais a planear, criar e avaliar espaços verdes. E também aponta os riscos que devem ser evitados.
“Put the green space close to people” (“Ponham os espaços verdes perto das pessoas”) tem um racional: a chamada regra 3–30–300. Foi proposta por Cecil Konijnendijk para ser usada nos bairros das cidades: três árvores visíveis de casa, 30% do bairro com cobertura de copas de árvores e um espaço verde público a menos de 300 metros. A proposta científica, publicada em 2022, não é uma recomendação oficial da OMS. Mas é a mesma orientação que a Organização Mundial da Saúde dá no seu guia.
Em Portugal, a mata do Bussaco é um exemplo de floresta terapêutica. Foi pensada como uma floresta em termos de saúde e bem-estar e preservada como tal durante séculos, desde 1628, quando os terrenos foram entregues pelo bispo de Coimbra, D. João Manuel, aos Carmelitas Descalços. Os monges protegeram e transformaram a mata. Agora, o percurso terapêutico de cerca de dois quilómetros está direcionado para a neuropsicologia e intervenção familiar. O que lhe valeu, a 17 de julho, a certificação oficial de Floresta Terapêutica, atribuída pelo Healing Forest – International Certification Office. É a primeira certificada da Península Ibérica e uma das quatro no mundo.
Das Grandes Muralhas Verdes de África e da China a Paris, Madrid e Barcelona: os grandes projetos
Nem todos os planos de arborização têm o mesmo objetivo. Mas a corrida às árvores já leva algum tempo. Há projetos que visam em concreto arrefecer cidades, como Barcelona, Madrid, Paris, Singapura ou Medellín: que avaliam agora se o calor baixou ou não. Outros que pretendem travar a desertificação, onde se incluem duas Grandes Muralhas Verdes, a Africana e a da China: as que foram plantadas verificam quantas árvores sobreviveram e que terrenos foram recuperados. E aqueles que procuram recuperar ecossistemas, como Portugal, Costa Rica ou Itália: que só vão conhecer os resultados depois de plantar as árvores e esperar o seu crescimento. Mas nem todos os grandes projetos, ou os megaempreendimentos verdes que atravessavam continentes, avançaram. Há ideias concretizadas. Há outras que nem saíram do papel. E sobre a grande maioria ainda não é possível fazer medições: portanto, não há resultados.
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