Steve McQueen e o dueto entre Nina e Bowie que nunca existiu

Acima de tudo, explica à imprensa, trata-se de uma forma de se “livrar do enquadramento”. Os enquadramentos atravessam o quotidiano, sobretudo para quem, como McQueen, se dedica à construção de imagens. Libertar-se deles é também um gesto de rutura. “Toda a minha vida foi mapeada por enquadramentos, do cinema às paredes do museu. Estou interessado em criar ambientes que escapam a essa lógica”, afirma. A instalação não se limita, porém, ao espaço que a acolhe: estabelece também um diálogo com a arquitetura do Guggenheim Bilbao e com a sala icónica de Richard Serra, marcada pelas suas monumentais paredes de ferro. “Funciona como uma caixa de ressonância dentro do museu de Frank Gehry”, diz McQueen, sublinhando que 66-76-26 exige condições espaciais muito particulares. “Há muito poucos espaços que te dizem ‘estás aqui, podes parar’, é isso que sucede neste edifício”, conclui.
Embora seja amplamente conhecido pelo cinema, McQueen (que representou o Reino Unido na Bienal de Veneza em 2009) tem desenvolvido um percurso artístico que atravessa diferentes meios, da fotografia à instalação, explorando formas de criação que escapam à representação convencional. 66-76-26 inscreve-se nessa procura, ao fazer do som e do espaço os principais elementos da experiência. A instalação nasceu de um convite lançado há seis anos pela curadora Lekha Hileman, que reencontrou o artista depois de uma exposição em Chicago. “Ele visitou o edifício, onde pensou como trabalhar com o som em relação ao espaço e isso foi fundamental para este projeto”. Esta é, de resto, a primeira vez que o Guggenheim apresenta uma instalação neste formato, exclusivamente sonoro, que funciona como um convite a que “nos percamos no espaço e a deixarmo-nos levar pela imaginação”, sublinha.
Isto é arte?
No meio da escuridão, há poucos elementos que saltam à vista: a luz baixa, os bancos ao centro e as colunas que projetam o som. Numa conversa com a curadora incluída no catálogo, McQueen explica por que razão quis deixar evidente a origem sonora da instalação. “Sem qualquer pretensão de que o som venha de outro lugar (…), esses dois objetos funcionam como uma âncora visual, um ponto focal”. São uma espécie de centro gravitacional a que se pode regressar enquanto a mente vagueia, sintetiza. Num espaço tantas vezes fotografado pelos visitantes, McQueen propõe um abrandamento e uma experiência em que as únicas imagens são aquelas que cada um constrói mentalmente. A instalação interroga, assim, não só o som enquanto matéria artística, mas também as próprias expectativas em torno daquilo que pode ser uma obra de arte. “Se te intriga, é porque estás no sítio certo, a fazer algo que é arte”, afirma.
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