Recuperámos os 3.200 milhões de euros da TAP? — Ouvintes

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Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que os ouvintes enviam para o e-mail foradobaralho@observador.pt. Esta semana é o Luís Aguiar Conraria a responder a perguntas sobre a TAP, numa semana em que o governo escolheu a Lufthansa para comprar 49,9% do capital da TAP por 1,2 mil milhões de euros. Luís, sem dúvida que este assunto marca os últimos dias e o nosso ouvinte João Fernandes deixa-nos uma pergunta que está na cabeça de muita gente por estes dias: recuperamos ou não os 3200 milhões de euros que foram investidos na TAP?
Não recuperamos. Recuperamos cerca de metade disso. Deixa-me explicar uma coisa. É evidente que foi uma boa venda, evidente que foi vendido a um preço acima do que se esperava há alguns meses. No discurso do Pontal, penso que o Montenegro falou nisto e já tinha ficado a sensação de que viriam boas notícias. Isto são boas notícias. E por serem boas notícias é que eu não consigo perceber porque são essas contas de merceeiro que parecem ter como único objetivo entregar uma vitória ao Partido Socialista, que é permitir a Pedro Nuno Santos, à sua entourage e ao Partido Socialista em geral, poder vir dizer: "Vejam, fizemos bem em ter investido aqueles 3200 milhões de euros entre 2020 e 2022 na TAP, porque conseguimos recuperar esse dinheiro". O problema é que isso são mesmo contas de merceeiro e isso choca-me um bocado, que no mesmo governo onde se anda a promover a literacia financeira, onde até tivemos o Ministro da Educação, que é economista, a ir a escolas secundárias promover a literacia financeira, ter um ministro a fazer contas que, de um ponto de vista financeiro e de alguém que perceba minimamente do valor do dinheiro ao longo do tempo, são um absurdo. Vamos lá ver, 3000 milhões de euros em 2020 não é a mesma coisa que 3200 milhões de euros em 2030. O dinheiro tem um valor, por isso é que quando as pessoas pedem empréstimos, pagam taxas de juro. E por isso é que quando avaliamos cashflows, temos de descontar ou atualizar o valor do dinheiro ou dos fluxos financeiros. Não se pode simplesmente comparar este investimento de 3200 milhões de euros que foi feito entre 2020 e 2022, com o que iremos eventualmente receber, que ainda não é certo, lá para o fim desta década. Não, é preciso atualizar. E uma taxa de juro conservadora seria alguma coisa na casa dos 5%. Se uma pessoa for fazer essas contas, não vou fazer aqui as contas na rádio, evidentemente, descobre que recuperamos cerca de metade do dinheiro, considerando já a privatização a 100%. E portanto, eu não consigo perceber este seu absurdo.
Mas no estado parece um bom negócio neste momento.
Não, mas lá ver. É bom negócio porque o que se passou em 2020, 2022, passou, acabou. Não interessa. Fizemos mal em ter empatado aquele dinheiro, fosse 3200 milhões de euros, fosse 6000 milhões, fosse 1000 milhões, é passado. A companhia vale o que vale neste momento. E face ao que vale neste momento e face às condições atuais que existem, parece que terá sido uma boa venda. Eu não sou especialista, não percebo de setor da aviação para ter a certeza absoluta que foi um excelente negócio, mas tudo indica que sim. Agora, isso é uma parte. A parte de dizerem que o investimento foi recuperado e as contas de merceeiro que estão a ser feitas, e fez-se paratos ainda maiores. Ele começou a somar os dividendos futuros que iremos receber caso tenhamos aquela participação na Lufthansa, ao valor que iremos ter das ações da Lufthansa. Quer dizer, não se pode somar uma coisa com outra. O valor das ações da Lufthansa já inclui em si os dividendos futuros, portanto, as coisas não são somáveis, e muito menos andar a somar cashflows de 2030 e 2040 sem fazer a devida atualização. Portanto, acho que isto foi uma vitória do governo. Dou os parabéns a Pinto Luz pelo trabalho que fez. Não consigo perceber estas contas de merceeiro, quer dizer, parece que querem vender a ideia de que isto foi um resultado verdadeiramente extraordinário. Um amigo meu tem uma interpretação que é engraçada, que é: estão a fazer isto de propósito para passar a mão pelo pelo do Partido Socialista e de Pedro Nuno Santos, de forma a virem a ter apoio do Partido Socialista para a tal privatização a 100%. Pronto, se for esse o objetivo e se conseguirem fazer isso, eu como defendo a privatização a 100%, ficarei contente com esse resultado.
Concordas que aí estarão a ser bem sucedidos.
Não. Ficarei contente com o resultado Mas não gosto do meio, porque este meio é uma promoção da iliteracia financeira portuguesa, e isso é um dos nossos problemas. Não gosto nada de ver um governante a promover a iliteracia ou o analfabetismo financeiro dos portugueses, que é o que ele fez. E depois vai toda a gente atrás. Já vi editoriais do "Público", alguns jornalistas não percebem isto e vão atrás e comem isto tudo. É mesmo uma promoção descarada do analfabetismo financeiro do público português.
E ainda neste tópico, olhando para aquele que foi um dos grandes protagonistas de tudo isto, numa entrevista à CNN, no próprio dia do anúncio do governo, Pedro Nuno Santos disse que foi um dia divertido, não tanto pelo reconhecimento, também pelo incômodo do próprio governo e de AD, e justificou que a venda de parte da companhia aérea só existiu porque houve alguém que salvou a TAP, leia-se o PS e Pedro Nuno Santos. É assim, Luís? Tem alguma razão?
Tem razão.
É factual.
É factual. Se eles tivessem feito o que deviam ter feito, que era ter deixado a TAP ir à falência, ter feito o que se fez em Itália. O que se fez em Itália foi uma operação em que se deixou a companhia ir à falência, neste caso deixar-se a TAP ir à falência, constituir-se imediatamente uma nova companhia ao lado com os ativos, ou seja, impunha-se o custo aos credores. Basicamente, quem tinha ações da TAP e quem tinha feito empréstimos à TAP era quem devia ter suportado o prejuízo da TAP ir à falência. O que nós fizemos foi fazer um resgate financeiro aos capitalistas que tinham o capital metido na TAP. Isso foi o que nós fizemos, e era o que nós não devíamos ter feito. Era ter deixado a TAP ir à falência, ter criado uma companhia ao lado e essa nova companhia poderia ir para a Lufthansa e teria sido bem mais barato. Assim nós perdemos cerca de metade do dinheiro, perdemos cerca de 1600 milhões de euros. Na Itália, que se fez uma operação semelhante, acho que se ficou por poucas centenas de milhões de euros, teria sido mais barato. Agora, é verdade. Factualmente, é verdade. Esta venda só existe porque atuaram como atuaram na altura da pandemia. Isso é factual. E depois o governo pinta luz com estas contas de merceeiro, permitiram a Pedro Nuno Santos vir fazer este festival para a televisão, e é normal que o faça. É humano. Tanta gente a insultá-lo, tanta gente a tratá-lo mal, tanta gente a criticá-lo, e de repente, o governo apresenta isto como tendo sido uma coisa fantástica.
Grande conquista.
Que realmente decorre factualmente daquilo que ele fez no passado. É natural.
Que venha elogiar-se a si próprio.
Se ninguém mais o faz, é um bocado como a Cristiano Ronaldo. Se ninguém mais o faz, faz ele.
Muito obrigada, Luís. Este "Fora do Baralho", ouvintes, fica por aqui. Para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para que os ases respondam, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Até para a semana.
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