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Sunday, October 18, 2026

Lubrificante e atenção às preliminares melhoram o sexo na menopausa

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Quando decidiu se separar do marido, aos 50 anos, a atriz Angela Dippe, hoje com 64, ouviu do pai: "Cuidado, esse pode ter sido o último vagão que passou". Ela brinca que, no lugar, apareceu um trem com vários passageiros. Os anos seguintes foram seu ápice de atividade sexual, conta.

Pouco antes de ficar solteira, Dippe entrou na menopausa, o que trouxe junto alguns "perrengues biológicos". Entre eles, secura vaginal e infecção urinária recorrente, que atrapalhavam a vida sexual. "É só um corpo diferente, que a gente precisa conhecer melhor."

Com o fim da menstruação, vem a redução abrupta dos níveis de estrogênio, que já vinham oscilando, explica a ginecologista e sexologista Lucia Alves da Silva Lara, coordenadora do serviço de saúde sexual do Setor de Reprodução Humana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Isso provoca mudanças no corpo e sintomas que afetam a vida sexual.

Parte das mulheres apresenta redução do desejo sexual e dor durante a relação nessa fase, afirma Lara, que também é vice-presidente da comissão nacional de sexologia da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

A diminuição do apetite sexual na menopausa foi o sintoma mais relatado (84,2%) pelas mulheres em pesquisa da consultoria Reds e do laboratório botânico Herbarium. O estudo foi feito online com 530 participantes de 45 a 60 anos que estão em diferentes etapas do climatério e da menopausa. Para 85,8%, isso impactou a qualidade de vida, afetando a autoestima (51,4%) e o relacionamento (50,6%).

O estrogênio é responsável pelo trofismo —nutrição, volume e manutenção dos tecidos— da mucosa vaginal e vulvar, explica Lara. Na menopausa, ele reduz o número de camadas de células da mucosa, reduz a irrigação e o número de vasos e terminações nervosas prazerosas, enquanto evidencia as sensíveis à dor.

A queda hormonal pode causar ainda atrofia, ressecamento, queimação e coceira na região genital, além de diminuir a lubrificação.

Além disso, as comuns alterações do humor, irritabilidade e dificuldade de concentração "conspiram para que a mulher tenha uma modificação negativa de sua função sexual", diz a ginecologista.

Por outro lado, há casos raros em que o apetite sexual aumenta. Isso acontece porque a mulher deixa de produzir estrogênio, mas continua produzindo testosterona, explica Lara.

Tratando os "perrengues biológicos", é possível manter uma vida sexual ativa e prazerosa na menopausa. O principal tratamento é a terapia hormonal geral, além da terapia local na vagina com estrogênio, para restaurar os tecidos e a mucosa.

Nem todas, porém, se ajustam à terapia hormonal. Uma opção são os hidratantes vaginais tópicos, que ajudam a reduzir a dor.

A principal recomendação é conversar sobre o assunto com o ginecologista, diz Lara. O constrangimento e a falta de diálogo nas consultas médicas, no entanto, são um obstáculo para muitas e invisibilizam o problema.

Metade (49,9%) das entrevistadas no levantamento da Reds e Herbarium disseram sentir desconforto em falar de sexualidade, e 44,2% levaram mais de um ano para buscar ajuda médica.

Dia Mundial da Menopausa é celebrado neste domingo (18). A data foi criada em 2009 pela Sociedade Internacional da Menopausa em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) para disseminar informações sobre as mudanças que ocorrem na saúde da mulher na perimenopausa e também depois da menopausa, que é a última menstruação, confirmada de forma retroativa após 12 meses consecutivos sem nenhum fluxo menstrual.

A atriz Angela Dippe conta que reposição hormonal, terapia a laser e fisioterapia pélvica melhoraram os sintomas. Outro aliado é o lubrificante —ela brinca que virou sommelière do item, que não deve ser motivo de vergonha.

O produto melhora a lubrificação da vagina e evita dor na penetração, diz Lara, que orienta aplicá-lo no pênis, dedo ou dispositivo sexual e na vagina. É importante lembrar que penetração não é a única forma de sexo, e dor na relação não deve ser normalizada.

É preciso fazer uma "releitura da vida sexual" para melhorar esse cenário, resume Lara. Isso inclui inovar nas práticas na cama, melhorar o tempo e a qualidade das preliminares e conversar sobre suas preferências.

Além de buscar ajuda médica, Dippe recomenda não se comparar com outras pessoas, se abrir sem vergonha e experimentar outros parceiros, se não tiver um fixo. É normal sentir mais tesão com um parceiro novo do que num relacionamento antigo com a mesma pessoa, ela observa.

A atriz percorre o país com a peça "Da Puberdade à Menopausa" e comanda o podcast "Memórias da Puberdade à Menopausa". No espetáculo, ela diz que o sexo não precisa seguir sempre no mesmo roteiro. "Não é um botão de ligar tesão. Tem beijo, toque, masturbação, brinquedo, carinho."

Muitas mulheres chegam nessa fase de mudanças hormonais em relacionamentos de longa duração e após passar muito tempo dedicadas à família, diz Lara. Dificuldades num relacionamento longo podem atrapalhar no sexo. Fatores culturais, o tabu do sexo e a repressão sexual que molda o comportamento feminino também comprometem o desejo sexual, diz a médica.

"Isso dá a impressão de que, após a menopausa, a mulher automaticamente não tem interesse em sexo. Mas a pulsão sexual ainda existe", diz ela. Dippe concorda: "A gente cresce ouvindo que mulher envelhece e deixa de ser desejada. Menopausa não é aposentadoria do prazer".

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