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Thursday, September 24, 2026

Abraão: o que têm em comum Cristianismo, Islão e Judaísmo?

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Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Nesta terceira temporada, todas as semanas, às quintas-feiras, continuamos a responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Temos recebido muitas perguntas, muitos comentários e sugestões no nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também são muitos aqueles que nos têm deixado comentários, por exemplo, no YouTube e também nas plataformas de podcast. Nós estamos aqui todos os domingos, às 9h, na antena da Rádio Observador e sempre em podcast. E também às quintas-feiras. Este episódio é mais curto, é exclusivo do podcast, para responder às dúvidas dos nossos ouvintes. Portanto, já sabem, não se esqueçam de seguir o podcast na plataforma onde habitualmente nos ouve para receber notificações de todos os novos episódios. Todos aqueles que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós, no episódio do último domingo, estivemos a conversar sobre José, o patriarca que foi vendido pelos irmãos e foi parar ao Egito. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast, em todas as plataformas. E esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada por e-mail pela nossa ouvinte Dina Araújo. Ela diz-nos o seguinte: "Boa tarde, gostaria antes de mais por congratular-vos pela qualidade do podcast".

Muito obrigado.

Vocês já sabem que gostamos sempre de ler este início dos e-mails dos nossos ouvintes. "Descobri-lo coincidiu mais ou menos com a altura em que tomei a decisão de começar a ler a Bíblia e cada episódio tem sido um contributo para tornar ainda mais interessante e enriquecedor esse caminho. Correndo o risco de ser um pouco fora do tema, a minha sugestão prende-se com uma reflexão sobre aquilo que existe em comum entre as três religiões abraâmicas. Que papel representam os profetas que partilham cada uma delas? Que mensagens procuram difundir? Que tradições se cruzam e se sobrepõem? E tentar perceber por que é que ao longo dos séculos se perseguiram mutuamente. Por que os caminhos de religiões que no seu âmago professam os valores universais da paz, amor e misericórdia, são sempre tão sangrentos. Este tema tem-me vindo a fascinar. E já agora, se existe na Bíblia alguma pista, alguma história, profecia ou passagem que aponte para o diálogo inter-religioso como caminho pra paz". Ora bem, esse nosso ouvinte pergunta-nos basicamente sobre esta raiz comum entre cristianismo, judaísmo e islão, que encontramos nesta figura, Abraão, daí que chamemos as religiões abraâmicas, e depois estas religiões partilham mais ou menos entre si muito daquilo que é contado na Bíblia. Daniel, o que podemos dizer aqui ao nosso ouvinte? O que estas religiões têm em comum e por que não se entendem?

A resposta já está, de certa forma, contida na pergunta. O que têm em comum é Abraão, e por isso são ditas religiões abraâmicas, que têm todas as três o patriarca Abraão como uma figura fundamental, inicial. É verdade que o patriarcado é uma palavra que tem má fama atualmente. Mas de facto, Abraão, como vemos nas escrituras judaicas e cristãs, e portanto, nesse sentido, é óbvio porque é uma figura fundadora para cristianismo e judaísmo, na medida em que o cristianismo também usa, recebe estes textos do Antigo Testamento, como sabemos. É este o primeiro a ser chamado ali da Mesopotâmia pra ir pra Terra Prometida. Portanto, por assim dizer, funda o povo. Como já vimos noutros episódios, tudo o que está na Bíblia antes de Abraão é mais fora do tempo, são outro tipo de textos mais míticos, por assim dizer. E Abraão é esta figura no tempo mais antiga que funda esta relação com Deus único, esta relação de fidelidade, de confiança em Deus. Isso marca muito a história bíblica, como qualquer leitor se apercebe. No cristianismo, depois também é utilizado como a figura que São Paulo e a Carta aos Hebreus e outros textos exploram como precisamente figura exemplar de fidelidade. No islão também. É interessante que o islão, nas suas várias tradições, vai fazer remontar a sua história até Abraão, não através desta linhagem bíblica. Sim, Ibrahim, que é um nome que todos conheceremos árabe, que é a versão árabe de Abraão. Não através desta via normal, ou seja, nós na nossa leitura bíblica vemos sobre todos os patriarcas Abraão, Isaac, Jacó, José, e depois vamos chegar a Moisés e depois vamos, em última análise, até Jesus. Mas na tradição islâmica, Maomé vem nesta linhagem de Abraão, não através de Isaac, este tal filho, que é no fundo o segundo filho, o primeiro filho de Abraão e Sara, mas que Abraão já tinha tido um filho natural com a escrava Agar, que é Ismael E é através de Ismael que é feita esta linhagem na tradição islâmica. Aliás, até há ramos do Islã hoje de que dizemos ismaelitas, aí é outro Ismael. Mas de qualquer forma, o nome Ismael tem aqui alguma importância. O Islã quando surge no século VII, 600 e tal, surge numa zona que já tem tradições antigas judaicas e também cristãs. É interessante que até, a dada altura, cristãos desse tempo no Ocidente pensavam que o Islã fosse uma espécie de heresia do cristianismo, fosse uma espécie de outra seita cristã, que não era, de fato. Percebe-se como é que historicamente estas coisas estão ligadas e como sabemos, no Islã, não percebo muito de islamismo e não conheço bem o Corão, mas sabemos que para o Islã todos estes personagens bíblicos têm importância, são referidos como profetas, também Moisés, até o próprio Jesus, até Maria, são de certa forma venerados ou pelo menos bem considerados como figuras proféticas no Corão. É isso que une todos estes personagens. O nosso ouvinte faz esta pergunta também, a questão de violência. Olhando para os textos, olhando para tudo isto, nada disto nos coloca em antagonismo, nada disto nos provoca luta. O que depois provoca luta são outras coisas mais humanas, mais políticas, por exemplo. Basta olharmos hoje para o conflito Israel-palestiniano. As questões não são religiosas. As questões são políticas, históricas, de posse ou não de território.

Embora os argumentos religiosos às vezes sejam muito marcantes.

Os argumentos são religiosos. O próprio Abraão é uma figura de paz. Isso é um ponto também interessante. Abraão, este que é chamado a ir para a terra prometida, mas nesta terra prometida, nos seus altos e baixos, aventuras e desventuras, dialoga com gente do Egito, com gente de Canaã, encontra consensos e, portanto, a figura em si de Abraão. É verdade que dada altura também pega em armas, mas é basicamente uma figura de consenso pacífica, que cria paz. Historicamente, vimos que entre cristãos e judeus, entre cristãos e muçulmanos, entre muçulmanos e judeus, houve muito sangue, continua a haver sangue, infelizmente, mas isso não é devido ao ponto em si religioso. Não é dizer: "as escrituras, a Bíblia ou o Corão diz que devemos matar o infiel", mas por outras vicissitudes.

João, como o Daniel dizia aqui, as personagens da Bíblia não são estranhas à tradição islâmica, por exemplo. Obviamente, à tradição cristã e judaica partilham. Mas esta segunda parte da pergunta do nosso ouvinte talvez seja a mais difícil de responder. O que é que dificulta o diálogo entre três religiões que até partilham uma tradição tão antiga em comum?

Nós ontem estávamos, por estes dias, a falar em off daquela frase da Anna Karênina com que o Tolstói começa esse prestigiado livro a dizer: "Todas as famílias felizes são iguais, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". E nós podemos adaptar e dizer que realmente estas três religiões falam de misericórdia, amor, amizade, concórdia, paz, mas cada uma à sua maneira. E a verdade é que, não sei até que ponto, não sendo isto um programa religioso, a violência, também não existem pontos de vista teológicos que são muitas vezes irreconciliáveis. Dou aqui dois exemplos: o facto de o cristianismo e os vários cristianismos, o católico, protestante, ortodoxo, etc., definirem que Deus é uma trindade, é um Deus único com três pessoas, permite, por exemplo, o desenvolvimento de estruturas políticas inspiradas no cristianismo, como por exemplo, a separação de poderes. É lógico, se Deus é também em si uma espécie de poder tripartido entre três pessoas, que o poder civil se torne um poder tripartido. Mas como o Islã defende que existe um só Deus e que esse um só Deus é absolutamente uno, é mais normal que as pessoas de inspiração islâmica tendam a ver como absolutamente normal e como imagem de perfeição, um poder monolítico e absoluto, por exemplo. Outra ideia está relacionada com a questão da Bíblia. Nós já percebemos que a leitura da Bíblia hoje, devido a várias evoluções, não há uma leitura literalista da Bíblia. Nós temos o método histórico-crítico. Percebemos que a Bíblia para os cristãos, é um testemunho inspirado da história da salvação. Tudo que está lá escrito é inspirado, mas reconhecemos os erros, que às vezes até gramaticalmente lá existem. Temos gradações para compreender, por exemplo, a maneira como lemos o Gênesis. A grade de leitura que aplicamos não é necessariamente a grade de leitura que aplicamos ao Cântico dos Cânticos ou ao primeiro livro das Crônicas, aos Evangelhos, às Cartas de Paulo. Grades de leitura diferentes, há gradações. É uma palavra inspirada por Deus, mas nós não reconhecemos que ela é ditada

Por Deus a uma pessoa. Aliás, a Bíblia tem um conjunto diversificado de autores, espalhados por muito tempo, com livros, já falámos até ter vários autores e durante vários séculos. A revelação no Islão culmina realmente no Corão, que é uma palavra definitiva de Deus ditada a Maomé. Isto também tem consequências na maneira como nós entendemos o que é o ideal e a perfeição. Embora nós estejamos sempre a falar dos mesmos ideais de amor, paz, misericórdia, não se chega a esses ideais da mesma maneira e esses ideais, muitas vezes, embora sejam parecidos, também têm fundamentos teológicos e mundividências diferentes.

Já agora, só para pôr aqui uma nota sobre a última parte da pergunta do nosso ouvinte. Podemos encontrar na Bíblia alguma pista, alguma história que aponte para esta ideia muito contemporânea do diálogo inter-religioso?

Sim. Antes disso, só acrescentar que essas diferenças permitem debate. É interessante que algo muito simples que nós fazemos, pelo menos cristãos católicos aqui, quando começamos a rezar, fazemos o sinal da cruz: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Amém. Os cristãos no Oriente em língua árabe ou os cristãos de língua hebraica fazem o sinal da cruz e dizem: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Deus único, amém. O que é interessante, que é uma forma de sublinhar que este Deus cristão é Trindade, mas é unidade, que é um só Deus. O que se percebe claramente porque quer o Islão, quer o judaísmo sempre acusaram o cristianismo de ser não um monoteísmo, mas ter três deuses. Portanto, são coisas que são debatidas, que fazem parte de um argumentário teológico, filosófico, que depois os condicionavismos históricos muitas vezes vão aproveitar disso para lutar, para que haja guerras, mas isso até dentro do cristianismo. Basta olharmos para o século XX, na Irlanda do Norte, e perceber que no contexto cristão, católicos e protestantes, isso legitimou ou serviu de desculpa, num certo sentido, para problemas políticos e guerras. Quanto ao que perguntavas, acho que há uma leitura, quer do Antigo Testamento, quer do Novo Testamento, que mostra a importância também do diálogo. Já referi isso há bocadinho, a figura de Abraão a dialogar com o faraó, a dialogar com gente que à partida tem outras fés. É verdade que há textos bíblicos, sobretudo aqueles mais da conquista da Terra Prometida, Josué, que já falámos aqui noutra temporada, que são muito aguerridos, em que há muita violência contra inimigos, contra gente de outra fé. Mas por acaso os patriarcas em geral, Abraão, Isaque e Jacó, têm uma postura também de diálogo com gente de outros povos. Eu diria que até no Novo Testamento, também para os cristãos, isso é algo relevante na medida em que há também diálogo entre várias sensibilidades dentro deste seguimento de Jesus. Basta vermos certos textos dos Atos dos Apóstolos ou certas cartas de Paulo para perceber a importância de conciliar sensibilidades diferentes dentro de cristãos que vêm do judaísmo ou cristãos que vêm do paganismo. Portanto, esta ideia de um diálogo, de procurar pontos em comum dentro da diversidade, é algo que também é muito bíblico, apesar de tudo o que possa haver de violência dentro das Escrituras.

Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder a esta dúvida enviada pela nossa ouvinte Dina Araújo. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast "As Histórias da Bíblia", pode escrever-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa terceira temporada. Vamos falar sobre Moisés, a figura que resgatou o povo hebreu do Egito. Na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.

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