Afinal, que língua falava D. Afonso Henriques?

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Setembro passou a voar. O "Português Suave" já sabe, eu ia dizer de segunda a sexta, como sempre.
Quer dizer, as pessoas podem ouvir de segunda a sexta, se quiserem.
Podem ouvir, é verdade. Se tiverem episódios em atraso, à quarta e ao domingo. Marco Neves, bem-vindo, olá.
Obrigado. Olá, João. E hoje vamos falar de português e de várias línguas.
Hoje já não é o episódio da batata.
É um bocadinho, porque eu vou falar de muitas outras línguas, mas vamos terminar com uma dúvida muito interessante, que eu digo já qual é, porque eu acho que as pessoas vão estar interessadas, que é: quando Afonso Henriques fundou Portugal, que língua é que ele falava? E vamos falar disso no final do episódio, está bem?
Muito bem.
Mas, para já, língua das notícias. Não falamos já de Afonso Henriques, porque ele não está nas notícias, já foi há uns tempos.
Fica mais pra frente.
Fica mais pra frente. Ontem, dia 26 de setembro, foi o Dia Europeu das Línguas, um dia em que a União Europeia celebra a diversidade linguística. Nós já falamos disso noutros anos. Eu gostava aqui de voltar a lembrar que a União Europeia, enquanto instituição, é constituída por vários países, cada um desses países tem um regime linguístico diferente, há várias línguas em muitos desses países, mas a própria União Europeia tem línguas oficiais. Toda a legislação europeia é publicada nessas línguas oficiais e é uma instituição que, em contraste com muitas outras instituições internacionais, tem um elevado número de línguas oficiais. As Nações Unidas têm seis línguas oficiais. A União Europeia tem 24 línguas. O princípio geral, que não é cumprido 100%, é que cada Estado tenha direito a emprestar, entre aspas, uma língua à União Europeia. Claro que há Estados que partilham a língua. A Áustria partilha a língua com a Alemanha, só pra dar um exemplo, e com a Bélgica também, que também tem uma parte em que se fala alemão. Também há países que não deram nenhuma língua à União Europeia, como o Luxemburgo, que tem o luxemburguês, mas não é oficial. Mas o princípio geral é aquele e por isso ficamos com 24 línguas oficiais. Há algumas discussões sobre isto. Por exemplo, a Espanha está a tentar já há alguns anos que o catalão, o basco e o galego também sejam línguas oficiais da União Europeia. Não está a conseguir.
Há muitos entraves, Marco, nesse sentido?
Há entraves econômicos, porque é caro ter mais uma língua oficial. Alguns galegos, curiosamente, dizem, e eu conheço vários que dizem isto, e eu concordo com eles, que o galego poderia entrar como variedade de uma língua que já é oficial. Aliás, há alguns deputados europeus galegos que falam em galego e são traduzidos pelos tradutores portugueses, porque conseguem perceber bem o que eles estão a dizer, mas isso é uma questão pra outro episódio. Devo dizer também que há agora uma, entre aspas, pequena polêmica sobre o montenegrino, que poderá vir a tornar-se a 25ª língua oficial, mas tem uma característica particular: é muito semelhante a uma língua que já existe e que já é oficial, que é o croata.
Ok.
Havia alguns responsáveis da União Europeia que preferiam que o croata e o montenegrino fossem considerados variedades da mesma língua, mas o governo do Montenegro não aceita e por isso vamos mesmo ter uma 25ª língua quando Montenegro entrar na União Europeia.
Montenegro, o país. Não estamos aqui a falar do nosso primeiro-ministro.
Exatamente. Não. Nós já falamos aqui muitas vezes de variedades, mas acho que não chegamos ao ponto de ter um primeiro-ministro com uma língua própria.
Nunca se sabe, Marco.
Nunca se sabe. Um dia.
Não vamos morder a língua.
Ainda no último episódio, falamos de como a inteligência artificial anda a criar línguas diferentes. Se calhar, vamos ter um caso desses. Mas vamos ao mapa da língua.
Não vamos dar ideias. Vamos ao mapa da língua, exatamente.
E não vamos mudar de tema. Estas 24 línguas que eu falei ainda agora, posso dizer que fazem parte várias famílias de línguas, e estou a falar só destas 24. Há uma delas que faz parte de uma família muito diferente das outras. Ou seja, temos uma língua oficial da União Europeia que é uma língua semítica, ou seja, da família do árabe, e esta língua é o maltês, a língua de Malta. Depois temos o húngaro, o finlandês e o estônio. Estas três línguas fazem parte da família urálica. Apesar de fazerem parte da mesma família, o finlandês e o estônio, por um lado, e o húngaro, por outro, são muito diferentes. Já estão separados há muitos séculos e por isso são línguas muito diferentes, mas fazem, na sua origem, parte da mesma família. E depois temos todas as outras, que fazem parte de uma grande família chamada família indo-europeia. Tal como eu disse agora em relação ao húngaro e ao finlandês, as línguas indo-europeias também já estão separadas, muitas delas há muitos séculos, e por isso são muito diferentes. E no caso das 24 línguas da União Europeia, temos várias subfamílias: as línguas latinas, onde está o português, as línguas germânicas, onde está o inglês, o alemão, o neerlandês e por aí fora, as línguas eslavas, como o polaco, o búlgaro e mais umas quantas, as línguas bálticas, que são só duas, neste caso, as línguas célticas, que é só uma, que é o gaélico irlandês, e temos ainda o grego, que faz parte de uma subfamília à parte. Todas essas famílias são primas. O português é primo do grego, primo do gaélico irlandês, primo do letão e do lituano, do búlgaro, do alemão Somos todos primos.
Muito curioso estas famílias e como tudo se organiza. Eu já imaginava que o português pudesse estar aqui reunido com o espanhol, com o francês, o italiano. Com o romeno, por acaso, nunca tinha pensado, mas é engraçado pensar nisto desta forma, como tudo está organizado.
Devo dizer que há línguas faladas na União Europeia que não estão nesta lista, como o basco, já falámos disso. Não fazem parte porque não são oficiais. E o basco é muito interessante porque também não faz parte de nenhuma destas famílias, é completamente isolado, mas como não é uma das 24, não falei dele. E pronto, agora vamos ao tema que eu prometi no início.
Exato. Vamos falar de alguém que anda desaparecido nas notícias, pelo menos, mas agora no "Português Suave", está aqui a marcar presença. Vamos a isso.
O João Miranda enviou-nos esta pergunta: "Estava aqui a pensar", pergunta para o podcast, "quando Dom Afonso Henriques fundou Portugal, ele devia falar galego ou alguma língua parecida. Quando é que surgiu o português e qual é a primeira referência à língua portuguesa?" É possível, e muitos galegos fazem isto, dizer que de facto Dom Afonso Henriques falava galego. Fernando Venâncio, um linguista de que já falei aqui, dizia isso claramente no livro "Assim Nasceu uma Língua", que também já partilhei por aqui e recomendo, que é um excelente livro sobre língua portuguesa. Há, de facto, uma referência à língua falada naquilo que é hoje a Galiza e o norte de Portugal como galego, na época, mas é uma referência única. A maior parte das pessoas não chamava nada de particular à língua, não dizia: "Isto é galego, isto é português". Na época de Dom Afonso Henriques, as pessoas escreviam, quem escrevia, em latim e tínhamos o latim também da igreja, tínhamos o latim dos documentos oficiais. Aquilo que se falava na rua, a maior parte das pessoas diria que era linguagem, ou seja, era um latim já muito alterado. As pessoas já tinham ideia, ou pelo menos os especialistas estão convencidos, de que as pessoas já tinham uma boa noção de que não era latim, ou seja, que a língua já tinha mudado.
Já era outra coisa.
Já era outra coisa, mas não se aplicava propriamente o nome. Mesmo quando começam a aparecer os primeiros documentos escritos, não havia propriamente um nome que aparecesse. Quando Dom Dinis, muito depois de Dom Afonso Henriques, começa a usar de forma mais regular o português, também não há nenhum documento na época que diga "português". O nome português só aparece na década de 1430, num texto de Dom Pedro, o Infante das Sete Partidas. Só aí é que aparece a primeira referência à língua portuguesa. Não é quando é que aparece a língua portuguesa na escrita, isso é muito antes, é quando é que aparece uma referência ao nome português. Portanto, é esta a resposta, só por volta de 1430.
João Miranda, espero que tenha ficado esclarecido.
Mas deixa-me só dizer mais uma coisa. Dom Afonso Henriques falava, de facto, o mesmo que os galegos falavam e que as pessoas do norte de Portugal falavam e o norte de Portugal entendi de forma bastante lata. Por isso, sim, podemos dizer que Dom Afonso Henriques falava galego, ou podemos dizer que os galegos também falavam aquilo que veio a ser mais tarde o português. Ainda não havia uma distinção clara nessa altura entre as duas línguas. Tal como ainda hoje, muitos galegos e alguns portugueses continuam a dizer que não há, que as duas línguas são diferentes, mas podem não ser duas línguas, podem ser duas variedades de um mesmo sistema. Mas isso também é uma discussão de que já falámos aqui. Até já cá tivemos o Ramón Pitxel, não sei se te lembras, José Ramón Pitxel a falar sobre isto.
Não foi há muito tempo.
Não, não foi há muito tempo, foi aqui há uns meses. Mas havemos de voltar depois ao tema. Agora vamos ao livro da semana.
Exatamente. Vamos ver o que é que o Marco Neves tem aqui para nos sugerir esta semana.
Eu aqui nos livros da semana, às vezes trago livros sobre língua, outras vezes trago livros em português, particularmente importantes. E hoje trago um livro-
Já trouxe um sobre a língua gestual, ainda há uns três, quatro episódios.
Sim. Portanto, é variado. Neste caso, eu trago um livro que não foi escrito originalmente em português, mas foi traduzido para português por um grande tradutor. O autor é Dante Alighieri, a "Divina Comédia". Dante, aliás, é muito importante na história das línguas latinas, porque ele é um dos primeiros que olha para as línguas latinas e tenta descrevê-las e dar-lhes nome, o que é muito curioso. Mas depois temos esta tradução de Vasco Graça Moura, que já não é recente, mas eu posso dizer, e isto acontece em alguns casos, que eu considero esta tradução para português um clássico da nossa língua. Nós não nos podemos esquecer que as traduções também fazem parte da tradição de cada língua. Os livros trazidos para a nossa língua são parte da nossa tradição linguística e por isso Vasco Graça Moura escreveu esta tradução de Dante Alighieri, mantendo estrutura rítmica, estrutura de rimas. Ou seja, fez aqui uma obra tremenda. Eu posso só dizer os famosíssimos três primeiros versos: "No meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura, porque a direita via era perdida". Isto, quem se lembrar do original, saberá que este início é muito famoso. Eu só queria dizer que temos aqui um clássico da nossa língua, que é uma tradução, e isto não é nenhuma contradição. As traduções também fazem parte de cada uma das culturas. E era isto que eu queria hoje trazer aqui.
Marco Neves, o "Livros" todas as semanas, ao domingo, sempre a surgir aqui na Rádio Observador, como eu dizia ainda há pouco, há cerca de dois, três episódios, tivemos um livro que foi muito elogiado, o Joana Bertolo, penso eu, sobre a língua gestual. Muitos ouvintes acabaram por agradecer essa sugestão, porque, lá está, o "Português Suave", nós falamos muito sobre a nossa língua, muitas vezes também sobre outras, o mirandês, que esteve em destaque no passado domingo, mas queremos, de certa forma, também incluir e falar de outras línguas que influenciam diretamente a nossa. E, portanto, também é importante falarmos sobre isso neste programa, porque às vezes pensamos que as coisas não estão muito ligadas e depois vai-se a ver-
Estão.
E estão, realmente. Dúvidas, de regresso na quarta-feira. Há um e-mail para onde pode enviar e esse o Marco sabe decor.
Sei.
Até eu acho que sabe de trás para a frente, mas nós vamos dizer bem.
Não vou dizer de trás para a frente.
Nós vamos dizer bem, que é para que as suas dúvidas cheguem até cá.
Sim, portuguesSuave@observador.pt e o telefone é...
Também não vou dizer de trás para a frente, vou dizer em condições, 910 002 41 85. Queremos ouvir a sua voz, queremos ouvir as suas discussões entre amigos, o que quiser. O Marco Neves, o nosso ninja, está cá para esclarecer. Marco, mais um abraço.
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