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Sunday, November 1, 2026

João Van Zeller: “Gerir uma empresa de media? Maior dor d...

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Mas um dia eu estava no hotel Sheraton em Buenos Aires e recebi um telefonema às 03:00 da manhã dos Montoneres a dizer que se eu não fosse embora no dia seguinte, levava um tiro na cabeça.

Licenciou-se em Direito e acabou na gestão, geriu empresas do setor financeiro um pouco por todo o mundo. Nos anos 90 regressou a Portugal, foi fundador da TVI, fez-se produtor de Vinho do Douro, escreveu em jornais e revistas e tem vindo a escrever a sua autobiografia em várias fases. Os títulos dos quatro livros já editados são autoexplicativos: "Young Johnny", "Johnny Boy", "Johnny Man" e recentemente, "Johnny Senior". Em "40 Minutos", João Vanzeller, bem-vindo.

Muito obrigado por eu estar aqui. É um grande prazer estar aqui na Rádio Observador consigo, em particular, hoje.

Muito obrigado. É João ou Johnny?

Tratam das mais diversas maneiras. No Brasil chegaram a me tratar por senhor Van.

Senhor Van? O que tem graça, não é? Porque pode ser confundido com uma van. Uma carrinha.

Uma carrinha.

Muito bem. Tem uma larga experiência. Mas já agora, desculpe, Johnny é como tratam os amigos mais próximos ou não?

Sim, muitos tratam, foi uma coisa que eu nunca gostei muito, francamente. Lutei contra isso a minha vida inteira, até que finalmente tive que desistir. Johnny é nome de cão pra mim.

Não é Johnny, é Jony.

É Jony, ainda por cima.

Ok.

Havia um jogador do Salgueiros, o Extinto Salgueiro, não sei se ainda está vivo, que se chamava Jony, que eu achava aquele um bado especial.

Muito bem. João Vanzeller, o último livro desta série que tem vindo a publicar nos últimos anos, dedicado à sua pessoa, chama-se "Johnny Senior: Cultura Britânica e Inglesices". Está muito presente em si a cultura britânica?

Muito presente. Eu digo aqui, logo no princípio, é uma coisa que me saiu espontaneamente, e até passei a dizer isso com alguma frequência: nasci praticamente dentro de uma pipa de vinho do Porto. Porque a minha família, família Vanzeller, é dos mais antigos, senão o mais antigo produtor de vinho do Porto desde os finais do século XVII. Eu estive rodeado da comunidade com a colônia britânica nos meus primeiros 18 anos no Porto.

Lá no Porto, sim. O que recebeu de mais importante e que serviu de ferramenta para ao longo da sua vida usar, que tenha recebido dos ingleses, dos britânicos?

Primeiro foi o idioma. Sou fluente em inglês e em português. E segundo, foi a cultura própria deles. Eu tenho algumas inglesices.

Por exemplo?

Tomo chá às 17:00.

Com ou sem leite?

"With a drop of milk." Os ingleses dizem, com uma gota de leite. Muita coisa, a pontualidade. Sou maníaco na pontualidade. Infelizmente, durante os anos que estive em Inglaterra, deixei de ser prolixo, voltei a Portugal, tornei a ser prolixo. Os ingleses escrevem o mesmo que têm a dizer numa folha A4. Os portugueses necessitam de duas pra dizer exatamente a mesma coisa. Eu tenho uma história do amigo do meu pai, que era presidente do Leal Senado em Macau. Presidente do Leal Senado, cargo importantíssimo. Macau, como sabe, tinha um estatuto especial, como a antiga colônia tinha um estatuto especial e as relações com a China, aquela coisa toda. E um dia foi lá um ministro que lhe pediu pra traduzir o discurso pra inglês, porque ele é fluente em inglês, absolutamente fluente. Ele traduziu o discurso, que tinha duas páginas, efetivamente, ele traduziu aquilo numa página e duas linhas, qualquer uma coisa assim. E o ministro zangou-se, pensou que ele estava a censurá-lo e esteve quase pra o mandar pra rua. Imagine, o presidente do Leal Senado, que criou ali uma crise incrível, porque ele disse apenas o que o ministro dizia, mas só que à inglesa. Conciso.

Condensou. Nós somos muito palavrosos, não somos, em Portugal?

Sim, nós temos sentido de humor, eles têm muito sentido de humor, nós temos pouco sentido de humor. Os discursos normalmente são muito maçadores.

Gostamos muito de palha, não é?

Gostamos imenso de palha. Não, salvo seja.

Não, palha, verbos de encher, adoramos.

Mas é curioso. É claro, noutros fóruns é diferente, mas, em geral, os discursos têm que ter piada. Até quando as pessoas morrem. Os ingleses costumam enterrar os seus mortos em total discrição, apenas com a família direta. Mais nada. Ponto final. Passado 15 dias, há um service, que é uma espécie de missa anglicana, a celebração da palavra, na realidade, ou três semanas, é indiferente, e há uma cerimônia, uma liturgia numa igreja anglicana, obviamente Então é convidado alguém para fazer o que em inglês é eulogy. Mas eulogy não é elogio, é falar acerca da pessoa que morreu. E essa pessoa tem que ter graça, porque se não puser os crentes a rir, não tem hipótese. Portanto, é preciso ter piada nessas coisas. Depois, no final da liturgia, vai tudo pro pub ou pro hotel e apanha tudo uma grande diversão.

Daquelas de caixão à cova, não é?

Não é de caixão à cova. Mas enfim, ficam muito contentes, apesar de estarem tristes.

Sim. A ocasião é espiritual. Pede bebida espiritual.

É álcool, efetivamente.

Acha que o grande defeito dos portugueses é não terem humor, João Vanzeller?

Não, não é defeito.

Qual é o nosso maior defeito? Diga lá.

Sei lá.

O João que já andou pelo mundo, dirigiu empresas, dirigiu pessoas.

Sabe que eu prefiro sublinhar a nossa maior qualidade.

Que é?

Generosidade. Eu fico assombrado com a generosidade dos portugueses.

Apesar da nossa tão propalada inveja?

A inveja existe.

Existe.

Como eu sou completamente independente em todos os campos, foi uma coisa que eu tenho sentido. Mas não é nada que não incomoda absolutamente nada, mas às vezes há uns indícios.

Ok. Portanto, somos invejosos, mas também somos generosos.

Não, a inveja é um pecado como outro qualquer e, portanto, atribuo zero importância a isso. O que eu atribuo importância é à generosidade, que de fato, em muitos campos em que eu estou envolvido, é absolutamente comovente e surpreendente na maior parte das vezes.

Também partilha da tese que às vezes são os que menos têm, que mais dão?

Olhe, uma vez eu estava no Pingo Doce, ali ao pé do Cemitério de Cascais, porque eu fui um dos fundadores do Banco Alimentar, há 35 anos, acho eu, 36, já não me lembro, em 91. Não gosto de dizer isto, peço desculpa, não devia ter dito. Estávamos numa das duas campanhas anuais que fazemos. Eu ando ali pelos supermercados, a minha função, à parte dos órgãos sociais, é estar no terreno. Eu estou no terreno praticamente todas as semanas, agora com este livro não tive, porque isto me tomou tanto tempo, que não pude. Mas nessa ocasião, assisti uma cena realmente comovente. Primeiro, aquilo é ao pé da Quinta da Marinha, apareceram dois rapazes muito bem vestidos, encheram dois carrinhos muito acima do nível do carrinho, um carrão, saíram, pagaram e entregaram tudo, saíram sem nada.

Uau!

Passados cinco minutos, aparece uma pessoa com um aspecto muito humilde, que traz um saquinho e entrega. E aquele contraste assombrou-me, de fato. E fui lhe perguntar: "Olhe, muito obrigado por estar aqui a contribuir para os que mais precisam, etc." E ele diz: "Sabe, eu moro aqui neste bairro social e de vez em quando preciso ir ao Banco Alimentar. Desta vez posso dar e aqui estou."

Bonito

O que é que há de mais comovente que isto?

É verdade, é um sinal de boa generosidade esse.

Não, há muita. Sabe que eu ando muito nesse mundo, circulo muito nesse mundo. Eu não devia estar a falar nisto, mas enfim, já que puxou por isso, acabo por dizer isso. Tenho a noção, penso que correta, de que o povo português é generoso.

Sim. Tem pena que não vivemos melhor? Porque é uma coisa que se discute já há muito tempo.

A humanidade tem pena de não viver melhor.

Pois.

Toda a gente. Agora o Musk diz que daqui a uns anos não é preciso trabalhar sequer e toda a gente vai viver muitíssimo bem.

Mas nós vivemos, independentemente das convicções políticas que cada um possa ter, temos sempre esta convicção coletiva de que o país poderia ser outra coisa, e outra coisa melhor. O João Vanzeller também acha isso?

Nós achamos sempre que tudo pode ser melhor.

Sim.

E depois tudo muda. Chegado a esta perfecta idade, eu devo lhe dizer que assisti a mudanças radicais. E quando eu penso que o meu pai nasceu no final do século XIX, no último ano do século XIX, e viveu até aos 97 anos, imagino o que ele também não passou. Andava de carro de cavalos e de carro de bois, para passar ao automóvel, ao avião, aos computadores. Viveu tudo isso. As guerras, duas guerras mundiais.

Sim, muito bem. João Vanzeller nunca se interessou pela política? Nada?

Zero.

Por quê?

Desconheço. Eu acho, possivelmente, porque a minha mãe me repetiu mil vezes: "Nunca deve querer ser ministro." Eu ouvi isto tantas vezes, até aos 15 anos, suponho eu, ou 16 ou 17 ou 18. Olhe, fui pra faculdade num tempo de grande agitação na faculdade de direito.

Na faculdade de direito de Lisboa.

Eu nasci no Porto e vim pra faculdade de direito de Lisboa, em 1960. Aquilo era uma turbulência total, esquerda, direita, comunistas, gente ligada ao Salazar. Havia de tudo.

Foi uma experiência enriquecedora?

Se foi. Eu era amigo daquela gente toda. Não ligava muito a isso. É claro que tenho as minhas ideias, mas guardo-as para mim.

Ok. E nunca sentiu o apelo da política?

Zero.

Nem um convite?

Zero.

Também não?

Zero.

Muito bem.

O primeiro trabalho que eu tive, não. Quando eu me licenciei, não me licenciei em Direito. Eu, de facto, tenho tido sorte na vida. Tenho pensado nisto, por acaso. Eu não chamo de sorte, chamo de providência divina, mas realmente aconteceu uma coisa incrível quando eu concluí o meu curso de Direito. Eu cheguei ao exame de Processo Penal, era a última cadeira em outubro e estavam lá os meus amigos todos, que queriam festa, sabiam que eu ia formar naquele dia. De certeza que me ia formar. Ainda por cima, eu estava muito bem preparado naquela cadeira.

Era bom aluno, o João Vanzeller?

Não. Queria me formar com 10. A minha ambição era formar-me com 10.

Serviços mínimos.

Não era serviços mínimos. Era um disparate como outro qualquer adolescente.

Era uma manifestação da irreverência, será?

Não, nem isso. Era um disparate, adolescente.

Ok.

Fim da adolescência, aliás.

Vai a exame, não é?

Vou ao exame. Chego lá, estava super bem preparado naquela cadeira, mas nunca tinha ido mal. E o professor, aquilo do quinto ano, como nos outros exames, havia um desembargador do Tribunal da Relação, um conselheiro do Supremo, havia o professor catedrático e havia o assistente. Eram três professores. O desembargador, normalmente, ou o conselheiro, estava a dormir. E o assistente atento e o professor muito atento pra chegar bem ao candidato a doutor. E então, eu nunca tinha ido mal. Era fácil e nunca fui mal. E, portanto, havia uma palavra que eu nunca tinha ouvido, que era arguido. Nunca tinha ouvido a palavra. Eu só li e pronunciava, como nunca tinha ouvido, pronunciava "arguido".

Ok.

E portanto, eu dei a resposta matematicamente correta, só que em vez de arguido, disse arguido. E o professor, que era o professor Cavalheiro Ferreira, deu um murro na mesa: "Ó, senhor Vanzeller, o senhor não vem para a instituição primária. Como é que é possível o senhor estar aqui a fazer este exame? Como é que chegou aqui ao quinto ano?" E eu, perplexo, porque eu não sabia do que ele estava a falar. Porque pra mim aquilo era a mesma coisa que eu dizer "catro" em vez de quatro, está me entendendo? Enfim, uma coisa assim, desse gênero. Mas eu não sabia, nunca tinha ouvido a palavra quatro, como nunca tinha ouvido a palavra arguido. Quatro sabia, de cor e salteado, como é evidente, desde a primária.

Como é que justificou esse lapso?

Não justifiquei nada. Ele durante cinco minutos esteve a perorar aos gritos. Finalmente, chamou-me os piores nomes, que a gritaria ouvia-se no Campo Grande, acho eu. Estava indignado comigo. E no fim, ele passou à matéria. Depois lá acalmou, passou à matéria e eu fiz um exame que não falhei uma.

Muito bem. Teve boa nota, então.

E é claro, chegamos cá fora, aquela malta toda, os namorados, na altura, os amigos, estava à espera de festa. "Passaste bem, não tiras um 14." Realmente, eu fiz um magnífico exame, devo lhe dizer, sem falsa modéstia. "Não tiraste 14, vais tirar um 13, porque tiveste aquela maçada, aquela chatice ao princípio." Saem as notas, excluído. Foi a minha sorte. Porque aquilo era outubro, eu tinha que repetir um ano inteiro só com uma cadeira. Eu fiquei consternado, não pensei o que me ia acontecer. Eu, naquela altura, estava a trabalhar part-time, no que se poderia chamar o Ministério da Informação e Turismo, na altura. Chamava Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo, era assim que se chamava. E o dito ministro, que se ocupava daquilo, era uma pessoa que eu tinha em grande estima, que se chamava César Moreira Batista. Eu tive dois dias perdido. Pedi a um amigo pra ir dizer a casa, eu vivia no Porto. Portanto, eu nasci no Porto e vivi pra casa dos tios meus aqui em Lisboa. Eu não tive coragem de ir a casa dizer que tinha chumbado. Não tive coragem e, portanto, andei perdido aí por Lisboa durante dois dias. Eu gostava da boemia também, devo lhe dizer. Mas naquela idade também a gente gosta.

Sim, faz parte.

E portanto, andei perdido durante dois dias e ao fim de dois dias lá apareci com a corda de Meninas ao pescoço em casa e fui trabalhar pro SNI de manhã, que era em part-time. E chego lá, toda gente já sabia da história, o meu amigo tinha dito à família que também trabalhava lá comigo e tal. E toda gente já sabia daquela tragédia. E pronto, paciência, é isto. E passado meia hora de eu lá estar, o dito ministro, digamos assim, chama-me ao gabinete. E eu nunca tinha ido àquele gabinete, que era uma coisa monumental, ali no Palácio Foz, ali na Praça dos Restauradores, uma coisa fantástica, uma coisa muito bonita. Dá pra Praça dos Restauradores, com uma varanda estupenda. Eu fiquei a olhar pra aquilo. E ele disse-me: "Ó Vanzeller, você quer ir pra Angola?" Sabe que eu nem hesitei, nem perguntei pra quê. "Quero, claro que quero. Quero!" Ele pega no telefone, liga ao ministro da pasta do Ultramar, das antigas colónias, e diz: "Fulano, está aqui aquele rapaz de quem eu lhe falei. Você pode receber?" E lá fui. Lá fui recebido e fui nomeado para uma coisa de máxima importância em Angola. Passado um mês estava em Angola e eu não tinha ideia. Diga.

E depois foi dirigir o serviço de-

O CITA, o Centro de Informação e Turismo de Angola.

Exatamente. Que idade é que tinha na altura?

23, 24 anos. Mas tinha um estatuto destes. Quando entrei no avião, eu não tinha reparado, ia em primeira classe na TAP. Cheguei ali, sem haver um puxado.

E nem licenciado era, não é? Porque lhe faltava uma cadeira.

E nem licenciado era. É verdade.

Acabou essa cadeira ou não?

No ano seguinte.

No ano seguinte. Vai cá fazer o exame.

Eu cheguei no ano seguinte e o assistente fez-me exatamente a mesma pergunta que o professor tinha feito. O professor, felizmente, não apareceu. Ele fez-me exatamente a pergunta que o professor tinha feito.

Muito bem. E acabou o licenciada.

Eu respondi, argui com imenso cuidado, isso eu sou letrado. Tem o seu exame feito e deu-me um 13.

Muito bem. E lá se concluiu a sua licenciatura. Estamos à conversa com João Vanzeller. Vamos fazer aqui uma pausa, regressamos já a seguir. Até já. E no "Em 40 Minutos" desta semana, estamos à conversa com João Vanzeller. João, há pouco, no final da primeira parte, contava-nos de forma bastante divertida as circunstâncias que o levaram a dirigir o CITA.

Centro de Informação e Turismo de Angola.

Centro de Informação e Turismo de Angola, com apenas 23 anos.

24.

Vinte e quatro e ainda sem canudo. Depois veio a Lisboa acabar a licenciatura. Quando olha para Angola hoje, o que é que sente?

Eu sou angolano de coração, apaixonado. Aquilo foi e é a minha amante.

Quanto tempo trabalhou em Angola? Trabalhou e viveu.

Cinco anos.

Cinco anos. É um país pelo qual nos apaixonamos facilmente, ou não? No seu caso.

Eu estou a dizer que Angola é minha amante, portanto, imagine. Até hoje. Eu estive lá dois períodos, primeiro dois anos e meio nessas condições, nessas funções, e depois como CEO de um banco que era 45% do maior banco do mundo naquela altura, que era o Citibank, e do maior banco português, que era o Banco Espírito Santo. Eu tinha 5% do capital, eu creio, havia duas outras pessoas que tinham o resto. As minhas funções eram completamente diferentes. A primeira parte eu fiz uma imersão na cultura angolana, ou seja, eu fiquei imerso.

Quando diz primeira parte é?

De 78 a 80. Estive imerso na cultura angolana, imerso, porque eram as minhas funções, eu tinha que ir muito longe, muitas vezes, por muitas razões. Percorri Angola de Cabinda ao Cunene, percorri Angola de Nova Redonda a Teixeira de Sousa, fiz o caminho inteiro, o caminho de ferro de Benguela completo, do Lobito até Teixeira de Sousa. Fui a Diamang, fui para as Terras do Fim do Mundo, que aquilo era uma coisa extraordinária. Enfim, eu conheço aquela terra como as minhas mãos. E assisti a cerimónias angolanas ligadas à poverdade, ao matrimónio, aos falecimentos, etc. Coisas absolutamente espantosas. Eu assisti e eu sentia-me parte de Angola. Era o meu mundo.

Era?

Era, completamente. Eu em 75, quando o 25 de Abril, escrevi uma carta aos meus pais, que ainda tenho, a dizer que queria ter passaporte angolano.

Engraçado.

É. Mas naquela altura, na primeira parte, na primeira estadia, aquilo foi fascinante. É claro, eu era muito novo e não consciencializava o que é que me estava a acontecer. Mas a cultura angolana, sob o ponto de vista etnográfico, sob o ponto de vista dos idiomas, dos diversos dialetos, sob o ponto de vista das tradições mais profundas que ali se podem viver, a natureza infinda, a fauna, uma coisa formidável.

É um país super diverso.

Eu chegava à Europa e só me queria ir embora, porque aqui sentia-me apertado. Não havia espaços.

Engraçado.

E depois, na segunda volta, foi diferente, completamente diferente. É claro, o banco foi constituído em 1972 e eu estive no ato de constituição, é claro, e assinei aquela escritura, aquela coisa toda. Vieram personalidades muito importantes, veio o presidente do Citibank, a Luanda, porque a economia de Angola estava a explodir. E uns meses depois veio o 25 de Abril e aconteceu aquilo que aconteceu e eu estava à frente do banco e imagino o que é que me aconteceu.

Nunca mais voltou a Angola?

Nunca. Agora há a hipótese de eu voltar.

O que acha que vai encontrar, João Vanzeller?

Não faço a menor ideia. Francamente, não faço. Sabe que eu, ao longo dos últimos 50 anos, desde que voltei de lá, tinha, dentro do CITA, um gabinete de publicações. Publicava muita coisa. Aliás, fui um dos inspiradores de uma revista que achei que devia ser parecida com a National Geographic. É claro que não lhe chegava aos calcanhares, mas que reuniu autores de grande categoria, como Óscar Ribas, Zé Redinha, várias pessoas conhecedoras do mundo profundo de Angola. Publicávamos livros, etc. Voltei para Portugal e continuei a comprar livros.

Sobre Angola?

Apenas sobre Angola.

Apenas sobre Angola.

Eu sou um leitor-

Angolomaníaco. E também é um ávido leitor

Não, não sou angolomaníaco, sou um leitor compulsivo. E Angola, eu tinha que saber o que a minha amante andava a fazer.

Uma boa frase essa.

Comprei

Muitos livros sobre Angola.

Neste momento, a biblioteca tem cerca de 1200 livros.

Uau!

E eu, no ano passado, decidi mandar catalogar. Pedi a uma pessoa que eu conhecia, um catalogador profissional, para catalogar aquilo. Quando li o relatório inicial, descobri que tinha uma coisa que ninguém tinha, ou seja, um manancial de conhecimento, tanto de história como de poesia. Tenho, por exemplo, uma peça do Agostinho Neto que não existe. Foi apreendida pela PIDE, não sei como é que me veio parar às mãos, não tinha nada a ver com a PIDE. Mas foi apreendida e aquilo não existe em parte nenhuma.

Portanto, quem quiser escrever a história de Angola, tem de consultar a sua biblioteca.

Não sei se tem que, porque há muita outra coisa. Quer dizer, eu conheço coleções importantes.

Mas tem uma boa biblioteca que conta bem a história de Angola.

Bom, não só a de Angola. Tenho vários livros de história, como tenho volumes de um interesse científico absolutamente extraordinário na etologia, na geografia, na parte de mineralogia, nos portos, em todas as áreas. Eu doei aquilo à Biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa e à Universidade Católica de Angola, e vão ser digitalizados para uso dos alunos, professores, investigadores, etc, da Universidade Católica de Angola.

Muito bem. Lá está, a generosidade portuguesa. Aí está ela.

Não é generosidade.

É, então não é?

É um destino, sabe o que é?

Podia guardá-los.

Diga?

Podia ter guardado os livros e não fazer nada.

Guardar para quê?

Guardar para si.

Guardar para quê? Eu já tinha livros.

Para deleite pessoal. Há pessoas que gostam disso.

Eu já estou a chegar a um ponto em que tenho que pensar no meu futuro, que vai ser para além do que aqui estamos. Se Deus quiser, se Deus me contemplar, se Deus me perdoar tanto pecado que fiz, espero ter uma vida melhor do que a que estou a ter.

Ainda bem que fala nisso. Era uma pessoa pecaminosa, João Vanzeller?

Claro que sim.

Somos todos, não é?

Você também é.

Ah.

Ainda não é?

Qual é o seu maior pecado?

Não vou te dizer.

Para além de ter uma amante chamada Angola.

Mas isso não é pecado nenhum.

Sim.

Olhe, uma coisa que eu não tenho é inveja de ninguém, nunca tive. Nunca quis mal a ninguém, detesto dizer mal das pessoas, é uma coisa que eu não faço. São duas coisas que, ao menos, Deus Nosso Senhor vai me perdoar alguma coisa.

Sim.

Isso não tenho.

Muito bem. João Vanzeller tem um nome que é histórico em Portugal. Pelo menos tem peso, é um nome que tem peso, família Vanzeller.

Pode ter.

Alguma vez sentiu que o apelido o prejudicava ou o beneficiava, João Vanzeller?

A minha ideia inicial era ir para o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Queria ser diplomata.

Queria ser diplomata. E graças a Deus fui para Angola, porque depois a minha vida deu umas tais cambalhotas que perdi tudo, fiquei no zero, tornei a ganhar, etc. Tive várias estropações na vida, andei pelo mundo inteiro, etc. Mas eu queria ir para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e sempre pensei que um nome estrangeiro me ia prejudicar.

Porquê?

Não era um nome português. A minha família no Porto, de facto, houve pessoas que se salientaram. Eu tenho uma ascendente que era de sangue inglês, eu tenho costelas inglesas, daí a cultura britânica e as inglesices deste último livro, "João e o Sr.", que era uma Isabel Wheaton Hall Vanzeller, que era uma inglesa que casou com um Vanzeller, e que quando o Jenner descobriu a vacina contra a varíola, ela vacinou na casa da família, onde meu pai nasceu, em Avintes. Hoje em dia é da Quinta da Aveleda, dos meus primos da Quinta da Aveleda. Tem um jardim zoológico fantástico, aliás, e a casa está uma perfeição de manutenção. Mas ela, isto foi no princípio do século XIX, vacinou pessoalmente, naquela casa, 14 500 pessoas contra a varíola. Foi acusada de bruxa, quiseram prendê-la, porque era bruxa. Curava as pessoas, uma bruxa. E nada, depois acabaram por a premiar.

Sim.

O Almeida Garrett até escreveu, eu acho que foi encomendado pela família que pagou ao Almeida Garrett, um poema que nunca mais acabava sobre a maravilha que era essa senhora.

Ainda bem. Fomos traídos aqui pelo telemóvel. João Vanzeller, dirigiu instituições financeiras, foi o fundador da TVI. Onde é que gostou mais de trabalhar até hoje? Instituições financeiras em Portugal e no estrangeiro.

No meu banco, eu saí de Luanda e fui para Nova Iorque para uma reunião e depois não pude voltar para Luanda. Levei uma malinha e 3 ou 4 mil dólares para umas voltas que eu tinha que ter reuniões com bancos na Europa, fui primeiro fazer uma ronda pelos bancos da Europa e depois fui para Nova Iorque e no regresso por Londres, soube que eles me queriam prender e, portanto, não voltei. O meu bolso ficou completamente vazio, porque andei à procura de emprego, era uma altura de crise, toda a gente me dizia: "Você tem qualificações excessivas, isto para nós não serve". Eu ouvi esta ladainha até que um dia consegui entrar para este banco, numas circunstâncias também muito rocambolescas, e isso foi o período mais gratificante da minha vida profissional, porque reuni uma equipa de 40 ou 50 pessoas extremamente qualificadas, todas estudaram em Oxford, em Cambridge, no INSEAD e que foram uma lição de vida para mim. Aliás, alguns deles vieram de propósito de Inglaterra ao lançamento do meu livro na Gouveia, na passada quinta-feira, dia 22.

Muito bem. Esse que tem nome "Johnny Senior: Cultura Britânica, Inglesices", que conta o seu período de vida entre 1941 e 1983. 1983 é o ano em que regressa a Portugal, não é?

Não. 1983 foi o ano em que eu deixei o Greenland's Bank, esse banco que eu referi.

O tal banco em Londres.

Sim.

Portanto, regressa mais tarde então a Portugal. Nos anos 90 é um dos fundadores da TVI. Gerir uma empresa de média é uma grande dor de cabeça?

Maior é difícil. É, sim.

Por quê?

Francamente, muitas pessoas me querem perguntar sobre isso, eu falo muito pouco sobre isso, porque eu estive 14 anos na administração daquela empresa e passei por tudo quanto é possível imaginar. Aquilo que começava era um projeto da igreja. Em 1991, era um projeto da igreja e eu achei que devia aderir e andei a captar os fundos por sei que meca, aqui em Portugal. Ainda não tinha regressado, só regressei no final de 92 definitivamente. E aquilo era um projeto mal concebido e perdeu 300 milhões de euros em cinco anos, ficou praticamente falido e isso foi muito perturbador para a Igreja Católica e para todas as pessoas que nos acompanharam naquele projeto. E depois, graças a Deus, aquilo deu uma reviravolta e graças ao José Eduardo Moniz, pois o José Eduardo Moniz foi o homem que trouxe a varinha de condão para transformar aquilo.

Mas é só uma dor de cabeça?

Foi contratado pelo Carlos Moreira da Silva. Houve um período de seis meses em que a SONAE esteve na administração.

Sim. Quando eu há pouco perguntava se é uma grande dor de cabeça, era no sentido de não só do ponto de vista financeiro, mas também de todos os outros pontos de vista.

Sim, porque a televisão, sabe que o ecrã cria vícios. E, portanto, não é fácil lidar. A administração não interfere.

Nos conteúdos.

Liberdade absoluta.

Nunca sentiu a tentação de plantar uma notícia?

Nunca. Jamais. O professor Marcelo Rebelo de Sousa, eu estive envolvido na contratação dele para aquele famoso programa em que ele teve mais audiência que qualquer Benfica-Sporting durante quatro anos. Aos domingos, às 21:00, no prime time, ele tinha mais audiência que qualquer outro. Era imbatível. E foi um período muito fascinante, mas é evidente que todos os media, nomeadamente este onde estamos, o jornal e a rádio, são objetos de pressões políticas. E claro, eu já sabia. Eu sofri pressões políticas desde o princípio, portanto, tive que conviver com aquilo. Quando aquilo dava pancadas nos governos, é claro, eu já sabia que na semana seguinte ia começar a sofrer as chamadas de Moniz e sei lá de quem. Exatamente.

Chateavam muito?

Diga?

Chateavam muito?

Não, queriam que eu despedisse A, B, C e D, etc. Porque estavam a fazer mal ao país. É claro, cada um na sua cor.

Como é que geriu isso?

Diga?

Como é que fazia? Desligava o telefone?

Que ideia!

Chutava para canto? Disfarçava? Respondia sempre?

Diplomaticamente. É preciso ser diplomata nessas coisas. Não se pode chatear com essas situações. Não.

Muito bem. João Vanzeller, autor de quatro livros autobiográficos, o "Young Johnny", "Johnny Boy", "Johnny Man" e recentemente o "Johnny Senior". Qual é que se segue agora, João Vanzeller?

Eu creio que este é o canto do cisne.

Não diga isso. Então pronto.

Um cisne depenado, devo lhe dizer, neste momento.

Não diga isso. Se tivesse que regressar a uma das fases da sua vida descritas nesse livro, qual é que regressaria já se lhe dessem uma máquina do tempo, João Vanzeller?

Não sei. Eu não regressaria a uma em particular, que foi o que se passou em Buenos Aires. Muitas pessoas já não se lembram que o regime de Perón criou uma situação muito complicada naquele país. Muitas pessoas dizem que a Argentina é o país mais rico do mundo, se não fossem os argentinos, as pessoas que lá vivem. E continua a ser, como sabemos. Mas eu fui mais de 100 vezes na minha vida à Argentina, por várias razões. Mas houve uma altura em que eu estava ligado à gestão do Harrods em Buenos Aires, que não tinha qualquer ligação ao Harrods de Londres, aliás, já tinha sido independentizado havia anos, e estava envolvido em várias operações que tinham visibilidade pública e que vinham nos jornais, etc. Mas um dia eu estava no hotel Sheraton em Buenos Aires e recebo um telefonema às 03:00 da manhã, dos Montoneros, a dizer-me que se eu não fosse embora no dia seguinte, levava um tiro na cabeça. Eu estava com a minha mulher, enfim, acordou e eu disse: "Não é nada, esquece." O Harrods era perto, fui ter com o diretor-geral, subi ao sétimo andar, que era o último andar daquele edifício, que era uma rua formidável naquele dia, hoje em dia muito decadente, e aquilo fechou, etc. E ele apanhou um tal susto que não descemos pelo elevador, descemos pelas escadas, meteu-me na mala do carro e disse-me: "Olha, agora vou te levar ao meio de Satanhum, tu vais apanhar um táxi e vais pra Embaixada Britânica." E assim fiz. Quer dizer, fui na mala do carro, lá dentro, naquela escuridão, não sabia lá onde é que estava. Lá me deixou, às duas da tarde não havia ninguém, deixou-me num sítio deserto. Eu tive que andar ali às voltas a procurar um táxi pra ir pra embaixada. Fui pra embaixada, onde se deu a extraordinária coincidência do encarregado de negócios ter sido cônsul em Luanda, que eu tinha conhecido em Luanda nos anos 60, 68 e 70, que era meu amigo, ele e a mulher. Depois ele mandou chamar agentes secretos argentinos, não sei o quê, me briefar, o que eu devia fazer. Disseram: "Olhe, você vai para o hotel, tranquilamente, sobe para o seu quarto e a gente vai procurar arranjar o primeiro voo que sair amanhã, porque você tem que obedecer, se não obedecer, você corre um risco muito alto. Vai levar um tiro."

Portanto, foi nessas circunstâncias que saiu da Argentina.

Fui pro hotel e chegamos ao 17º andar, eu com a minha mulher, e estavam uns tipos com metralhadora à porta do elevador. É claro que aquilo era por causa deste seu amigo que aqui está. E ela dizia: "Deve estar aqui uma pessoa importante." "Deve estar, se calhar, deve estar."

Não sabia de nada.

Não sabia de nada. E no dia seguinte, eles disseram: "Olhe, você, quando sair para o avião, quando sair para o aeroporto, escolhe o primeiro táxi. E depois põe as malas todas lá dentro, etc. E depois diz que, olhe, afinal não quero este táxi, apanha o terceiro, quinto ou sexto que estiver atrás." Foi uma cena, é claro. Aquilo eram sacos de notas que eu paguei, homem, é claro, ao primeiro táxi, paguei a corrida para até o aeroporto e depois apanhei o quinto ou sexto, foi lá uma bulha entre os taxistas. E lá fui pro aeroporto. E a meio do caminho do aeroporto, o táxi parou e o homem disse: "Não tenho gasolina." Eu disse: "Pronto, chegou a minha hora." A minha mulher não sabia de nada. Não sabia de nada. Não tem gasolina, acabou-se-me a gasolina. E saiu do carro com o Jerry Can e foi à procura de gasolina, convencido eu que ia levar um tiro naquele instante. Estive 15 minutos na expectativa de aparecer alguém com uma metralhadora, arrasar, levar o carro pelos ares, uma coisa qualquer, que é uma coisa que acontecia naquele tempo. E passado um quarto de hora, lá aparece o taxista com o Jerry Can na mão. E regressei. Enfim, isso foi um momento realmente muito forte.

Agora à distância tem graça, não é? Mas na altura não teve graça nenhuma.

Não, você sabe que eu nunca li muito essas coisas. Hoje em dia, com essa coisa de fazer memorialismo, essas coisas vêm-me todas à cabeça. Eu tenho memória.

Sim, muito bem. João Vanzeller, foi um gosto recebê-lo aqui na Rádio Observador e conversar consigo.

Muito obrigado.

Boas memórias, continue a escrevê-las.

Já não sou Johnny Senior.

Já não és Johnny Senior. Agora é?

Já não sou só Johnny Senior, agora sou Johnny Super Senior. E já não vou escrever mais livros, suponho eu, mas foi um gosto estar aqui consigo e concluir desta maneira. Enfim, acho que foi muito agradável estar aqui esta tarde.

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