Pensei, logo pedi ao ChatGPT

Já não sei escrever um email sem perguntar primeiro ao ChatGPT. Não porque não saiba escrever. É precisamente esse o problema.
Às vezes sei exatamente o que quero dizer. Outras vezes não sei. Mas, em vez de ficar cinco minutos a olhar para o cursor a piscar, a escrever uma frase, apagá-la, escrever outra e perceber finalmente o que queria dizer, abro o ChatGPT.
“Faz isto soar mais profissional.”
“Torna isto mais simpático.”
“Dá-me três opções.”
“Ajuda-me a responder a este email.”
E ele responde.
Quase sempre bem. Então é difícil resistir.
Durante muito tempo, a tecnologia foi inventando maneiras de nos poupar trabalho. A calculadora tirou-nos o peso de fazer contas à mão. O GPS acabou com boa parte da aventura de nos perdermos. A máquina de lavar roupa tornou uma tarefa interminável numa coisa que fazemos enquanto fazemos outra qualquer.
Mas o que estamos a delegar agora é diferente. Não estamos apenas a pedir a uma máquina que faça uma tarefa. Estamos, cada vez mais, a pedir-lhe que faça a parte da tarefa em que tínhamos de decidir o que pensamos.
E pensar dá trabalho.
É ficar a olhar para uma página em branco. É escrever uma coisa horrível e perceber, a meio, que afinal queríamos dizer outra. É ler uma frase duas vezes porque não a percebemos. É mudar de opinião a meio de uma conversa. É descobrir que a nossa primeira ideia não era assim tão boa.
Há uma tentação enorme em tratar qualquer momento de dificuldade como um problema à espera de ser resolvido. Se uma tarefa demora, automatizamo-la. Se não sabemos alguma coisa, pesquisamos. Se não conseguimos escolher, pedimos recomendações. Se não sabemos escrever, pedimos um texto. Se não sabemos o que pensar, pedimos argumentos.
A tecnologia tornou-se extraordinariamente boa a retirar-nos os obstáculos da vida. Só que nem todos os obstáculos são um problema. Alguns fazem parte do próprio processo.
Quando peço ao ChatGPT que me ajude a escrever, posso estar a poupar tempo, mas também posso estar a saltar precisamente a parte em que descubro aquilo que quero dizer. Quando lhe peço dez ideias antes de ter pensado numa sequer, posso estar a ser eficiente, ou posso estar a impedir-me de ter uma ideia suficientemente má para me levar até uma boa.
E é precisamente aqui que penso em Portugal.
Portugal não tem falta de pessoas inteligentes, nem de pessoas qualificadas. Temos universidades, investigadores, engenheiros, médicos, designers, empreendedores. O problema aparece muitas vezes na distância entre ter conhecimento e conseguir transformá-lo em coisas novas: empresas, produtos, processos, ideias.
Não precisamos de mais uma razão para achar que pensar é uma etapa dispensável.
Porque inovação não nasce apenas de saber a resposta. Nasce de fazer perguntas que ainda ninguém respondeu, de desconfiar da solução que já existe, de ficar tempo suficiente com um problema para perceber que talvez esteja mal formulado.
Nasce, muitas vezes, de alguém pensar: “E se fizéssemos isto de outra maneira?”. E essa pergunta raramente aparece quando estamos constantemente à procura da resposta mais rápida.
Não me preocupa particularmente que o ChatGPT consiga escrever um email melhor do que eu.
Preocupa-me mais que eu comece a achar que não vale a pena tentar.
A inteligência artificial não precisa de nos tornar incapazes. Basta tornar o esforço de pensar desnecessário o suficiente para que passemos a evitá-lo.
Eu própria não vou deixar de a usar. Vou continuar a pedir ao ChatGPT para melhorar textos, encontrar erros e organizar ideias. A questão não é usar a ferramenta. É saber o que estamos dispostos a entregar-lhe. Porque há uma diferença entre pedir a uma máquina que nos ajude a pensar e pedir-lhe que pense por nós.
E talvez, numa época em que conseguimos finalmente pedir a uma máquina quase tudo, a competência mais difícil de preservar seja precisamente aquela que não conseguimos delegar: saber o que pensamos.
Pensei. Logo, pedi ao ChatGPT. E talvez, daqui a uns anos, o mais importante seja ainda sabermos qual das duas coisas aconteceu primeiro.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.
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