Último encontro

Depois de muitos anos, quando nos reencontrámos, o cheiro dela tinha mudado. Eu passara a vida inteira a fantasiar sobre o seu perfume, a imaginar o seu cheiro perto de mim, a pensar nas suas mãos, no aroma do seu abraço, do pescoço, do cabelo.
Sonhava pegar ao colo o seu corpo leve. Sonhava que ela me pegava ao colo.
Quando nos reencontrámos, passados dez anos, tínhamos ambas envelhecido e o cheiro mudara. Havia pouco tempo e pouco ou nada falámos. Fizemos e desfizemos malas, desfizemo-nos.
Que é uma mala de viagem? Ela abria e fechava a bagagem, esquecendo-se daquilo de que estava à procura, e manifestava sempre a mesma paciência para, após ter fechado a mala, voltar a abri-la, numa amnésia que me exasperava. Onde é que pus o aparelho de medir a tensão? Onde está o passaporte? Viste a minha escova de dentes? Perdi o bilhete de identidade, tenho de voltar a abrir a mala.
Não era em minha casa, mas no sítio onde tinha calhado ser acolhida por mim algumas horas. Não era a nossa vida inteira que estava em jogo, mas o reconhecimento do nosso cabal apartamento.
Já não havia nada a dizer, nem sequer lugar à desilusão.
O corredor da casa fora tomado pelo cheiro da sua roupa, a mofo, cânfora, naftalina, perfumes passados, suor, óleo de amêndoas doces, coisas há muito guardadas, que me deviam ter sido entregues e não foram entregues a tempo. Ilusões, desejos frustrados. As ofertas, guardadas por anos fechadas em sacos e malas, pareciam ter saído de arcas antigas, cheiravam ao pó de que éramos feitas. Ela desfiava o passado, num discurso contínuo. Revisionista, mentia sobre factos de que eu me lembrava. Eu ouvia sem responder, e depois entre mim e a voragem da sua fala ergueu-se um muro de aço. Deixei de a ouvir, entendendo que não falava comigo, apenas consigo mesma em voz alta.
Mas era o fim do enleio do seu perfume o que assinalava que tinha cessado a esperança entre nós. O seu cheiro incomodava-me. Tornara-se humana. O feitiço cessara, assim como o seu poder.
Aquele perfume incómodo era o perfume da minha liberdade. Tendo esperado por ela toda a minha vida, não podia antecipar que o paraíso não cheira a flores.
Refugiei-me no perfume no meu pescoço, esperando que a noite passasse e com ela o nosso último encontro na vida.
Ela lançava redes ao passado, tentando alcançar-me. Vendo que não reagia, era cruel. Ao que antes me molestava e permanecia anos em mim, sou agora indiferente.
Tão profundo e longo sofrimento, para tudo terminar com a mulher importante a dormir ao meu lado no sofá, enquanto eu escrevia estas linhas, sem que ela pudesse voltar a anular-me ou fazer-me regredir.
Em nada diferia de ter estado apaixonada por alguém e ter deixado de estar. E depois percebi que o perfume dela era o mesmo de sempre. Quem mudara fora eu. Um perfume talvez seja sempre uma mentira.
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