Dirigente de garimpo em Oiapoque é anti-Lula: 'Brasil é um imenso cabaré'
A confirmação pela Petrobras da existência de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá, tem feito a alegria de muitos moradores de Oiapoque. O município no extremo norte do país é o mais próximo da bacia.
A cidade de quase 30 mil habitantes já vive a expansão. No ano passado, foram emitidos cerca de 800 alvarás de construção e transferências, segundo a prefeitura.
Morador de Oiapoque há mais de três décadas, Bruno Terraalta anda animado. Dono de dois grandes terrenos na cidade, está preparando o loteamento para colocá-los à venda.
Não é sua única atividade. Também dirige a Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros do Lourenço (Coogal) em Calçoene, cidade a cerca de 400 km de Oiapoque. Os principais minérios extraídos são ouro e tantalita, muito usado na indústria eletrônica. "Somos mais de 700 cooperados e trabalhamos legalmente."
É ainda consultor de comércio internacional e tradutor público, função popularmente conhecida como tradutor juramentado, o profissional apto a traduzir documentos, como certidão de nascimento, de uma língua estrangeira para o português –ou do português para outro idioma.
Autodidata, aprendeu línguas como francês, inglês, espanhol e italiano, além de dialetos do Suriname e da Guiana Francesa, países que fazem fronteira com o Amapá.
Em relação à renda, o objetivo dele é "entrar no rol dos mais tranquilos". Aliás, para Terraalta, que se considera um homem preto, o preconceito no Brasil está mais associado à condição social do que à cor da pele. "As pessoas não gostam de pobre."
"Eu não diria Dubai, seria um exagero, mas Oiapoque vai se tornar a capital do petróleo aqui do Norte", prevê. O apoio à exploração na foz pela Petrobras une políticos de diferentes matizes ideológicos —do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), que é do Amapá.
O entusiasmo de Terraalta ao falar das perspectivas econômicas da região vira indignação quando o tema é a política nacional. "Não existem inocentes neste jogo."
Embora aponte como aspecto positivo de Flávio Bolsonaro o fato de ser "flexível" ("coisa que o pai dele não foi"), diz "não morrer de amores" pelo candidato do PL à Presidência. Mas deve votar nele, sobretudo, porque é hoje quem tem mais chance de derrotar o atual mandatário. "Sou anti-Lula."
Terraalta reclama das "esquerdas corruptas", mas não só. "O presidente é um apedeuta [ignorante], tenho horror de gente assim", afirma ele, que votou em Jair Bolsonaro para presidente nas eleições de quatro anos atrás.
Para o dirigente de garimpo, o Bolsa Família, bandeira histórica de Lula, é "importante porque tem gente que realmente necessita". Mas faz um contraponto, com ênfase. "As pessoas não querem mais assinar carteira, com a possibilidade de ganhar bem e de crescer em um certo segmento, para não perder o programa."
Terralta também critica os "excessos" de órgãos como Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) na preservação da biodiversidade.
Reclama da iniciativa de agentes de botar fogo nas balsas de extração de minérios. "Dizem que estão combatendo um risco ambiental, mas acabam criando uma situação ainda pior. Imagina quanto combustível das balsas vai para as águas do rio."
Outro ponto que o incomoda é a falta de patriotismo dos brasileiros, uma percepção que ficou mais evidente em recente viagem ao Paraguai. "Em Assunção, os estabelecimentos que visitei tinham a bandeira do país, percebi um orgulho nacional muito grande. Aqui, isso se perdeu."
Quando garoto, ele acreditava que seguiria a vida sacerdotal. Mas um amigo, justamente um padre, disse que Terraalta não tinha vocação. "Conheci a primeira mulher aos 17 anos e depois fui para o Exército", lembra. Na década de 1980, atuou como militar durante quatro anos em diferentes regiões da Amazônia —foi nessa época que conheceu Oiapoque.
Hoje, aos 59 anos, ele vive há mais de duas décadas em união estável, que lhe deu dois filhos, ambos estudantes universitários. Teve outros quatro filhos em relações anteriores.
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"Gosto das mulheres, elas sempre foram uma motivação para tudo na minha vida", diz. Para ele, a mulher tem papel preponderante na sociedade, mas o feminismo contemporâneo é um "modismo".
"No meu tempo, feminismo eram as mulheres que se vestiam como mulheres. Ao longo da história, a mulher foi educada para ser feminina e encantar. Não diria seduzir, mas encantar, fazer com que o provedor tenha desejo por ela e sinta necessidade de cuidar dela."
Apesar de tantas queixas em relação ao governo federal e à sociedade, ele vislumbra uma possibilidade de melhora. "O Brasil é um imenso cabaré, mas eu acredito que nós podemos mudar isso aí."
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