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Thursday, October 15, 2026

Salazar, os americanos e as lajes

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O uso pelos norte-americanos da base das Lajes, recentemente evocado pela visita do Secretário de Estado Marco Rubio a Lisboa e pelos protestos da esquerda parlamentar pela passagem pela Terceira de aviões destinados a operações aeronavais na guerra do Médio Oriente, trouxe para a actualidade um tema-base das relações luso-americanas ao longo da História do século XX.

Os Açores estiveram no centro da política externa portuguesa em momentos decisivos em que Salazar foi determinante. Agora que, por decisão da autarquia de Santa Comba Dão, os trabalhos do novo “Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência” ficaram entregues à Ephemera de José Pacheco Pereira, os portugueses vão finalmente ficar esclarecidos quanto a este e outros aspectos da vida e obra do munícipe mais notório da terra.  Ou não, já que o Centro Interpretativo de Santa Comba, talvez na ânsia de surpreender e de fazer incidir nova luz sobre o regime anterior e o seu “ditador”, abre com uma exposição sobre… a Censura. Dificilmente se poderia ilustrar melhor a divisa da exposição – “Só existe o que se sabe que existe”.  O resto continua a não existir.

Adiante. Durante a Segunda Guerra Mundial, Salazar, que em 1936, no princípio da Guerra Civil de Espanha, acumulara a presidência do Conselho de Ministros com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, equacionou os interesses nacionais com a neutralidade. O império ultramarino português, entre os territórios de África, a então Índia portuguesa, na costa ocidental da Índia inglesa, e Timor e Macau, no Extremo-Oriente, dependia dos ingleses. Ingleses esses que, em Setembro de 1939, não tinham solicitado assistência militar. E Salazar embirrava com Hitler, que considerava um demagogo histriónico.

Na Segunda Guerra Mundial

Mas a neutralidade portuguesa implicava a neutralidade peninsular. E embora Franco, o exército e o povo espanhol, saídos da guerra civil meses antes do começo da guerra na Europa, não quisessem nem pudessem dar-se ao luxo de entrar no conflito, havia entre a ala nacionalista radical do regime franquista fortes simpatias pró-alemãs: afinal, Berlim ajudara militarmente os rebeldes franquistas na guerra civil e a Wermacht tomara a França na Primavera de 1940, numa campanha relâmpago.

Franco jogava, então, na ambiguidade manhosa. Enquanto, na entrevista de Hendaia, proclamava inequívoca solidariedade anticomunista com Berlim, ia pondo a Hitler condições que sabia que o Führer não lhe podia dar.

As ilhas atlânticas de Portugal, principalmente os Açores e Cabo Verde, estavam em causa, já que F. D. Roosevelt e alguns na sua Administração pensavam que os alemães podiam invadir e ocupar Portugal com a cumplicidade de Madrid. Preventivamente, em Washington, gizavam-se planos de ocupação e houve mesmo o deslize de falar das ilhas como se fossem terra de ninguém, o que levou Lisboa a enérgicos protestos diplomáticos, reforçados por Londres.

As coisas acalmaram, até os americanos voltarem à carga em 1943, com o núcleo duro do OSS – Office of Special Services, o antecessor da CIA – pronto a pôr em acção uma operação para ocupar os Açores. Por sorte, quem estava em Lisboa como conselheiro da Embaixada americana era George F. Kennan, depois autor do “Longo Telegrama” de Moscovo e o grande estratega da Política de Contenção.  A morte do embaixador, Bert Fish, apadrinhado por Roosevelt, tornou Kennan responsável pela Embaixada e pelas negociações directas com Salazar.

Kennan tinha ideias conservadoras e realistas e estabeleceu com Salazar uma relação de admiração e respeito mútuo. De regresso a Washington, Kennan soube da operação Alecry do OSS para tomar os Açores e tentou, em vão, pará-la em sede própria. Depois, através de Harry Hopkins, teve acesso a Roosevelt e explicou-lhe quem era e quem não era Salazar – e o que não era, seguramente, era um “ditador de república das Bananas”. Roosevelt, que conhecia bem os Açores dos seus tempos de Subsecretário da Marinha durante a Grande Guerra, quando a Marinha norte-americana ali estivera instalada, ficou convencido com os argumentos de Kennan e escreveu uma carta a Salazar, ditada por Kennan, dando garantias do respeito de Washington pela soberania portuguesa sobre as ilhas. E tudo se resolveu a bem, e por bem, graças ao prestígio do “ditador”.

Na Guerra de África

Os Açores voltaram a ser importantes para a afirmação dos interesses portugueses no início da guerra do Ultramar em Angola, em 1961-1962. Os Estados Unidos, sob a Administração J.F. Kennedy, decidiram optar por uma política “anti-colonial”, a fim de agradarem ao bloco terceiro-mundista, agregando os novos Estados saídos da descolonização europeia. Era compreensível: estava-se em plena Guerra Fria e no quadro da disputa com a União Soviética nas Nações Unidas e na cena mundial.

O grande impulsionador dessa política era o Subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos, Mennen “Soapy” Williams, um progressista norte-americano que, em 1961, ao eclodir a guerra insurrecional em Angola, com os sangrentos massacres da UPA de Holden Roberto no Uíge e no Norte, levou os Estados Unidos a votar contra Portugal nas Nações Unidas.

Salazar não gostou. Mas primeiro tratou de controlar internamente o grupo de generais conspiradores, liderado por Júlio Botelho Moniz, Ministro da Defesa que, com alguma simpatia de Washington, tinha paralisado o envio para Angola de reforços à escala das necessidades. E em 13 de Abril, apoiado por João Lumbrales e Santos Costa, e com o decisivo suporte de Kaúlza de Arriaga, então Subsecretário da Força Aérea, Salazar deu o contragolpe, assumiu a pasta da Defesa, “falou à Nação” e promoveu o envio de tropas “rapidamente e em força” para Angola.

Depois da chegada dos reforços, sob a responsabilidade dos generais Venâncio Deslandes, governador e comandante em chefe da Província, e Silva Freire, comandante da Região Militar de Angola, acelerou-se a reocupação das zonas tomadas pelos guerrilheiros da UPA no Norte, em Nambuangongo.  Foi a Operação Viriato, em que se distinguiram o tenente-coronel Armando Maçanita e o tenente miliciano de Engenharia Jardim Gonçalves. Em Agosto, a maior parte do território voltava ao controlo português.

Os americanos não se mostraram muito sensíveis à nova situação e, no fim do ano, dava-se a invasão da Índia portuguesa pelo Exército indiano, por decisão do primeiro-ministro Nehru. Também aí, faltaria a “solidariedade ocidental”.

Mas em 31 de Dezembro de 1962 ia ser preciso rever o Acordo das Lajes, e Salazar e Franco Nogueira deram a entender aos norte-americanos que não haveria renovação do uso da base caso os Estados Unidos continuassem hostis à política ultramarina portuguesa. A opinião dos responsáveis americanos estava dividida: Mennem Williams e Chester Bowles (grande adepto da política de captação do Terceiro Mundo à custa dos aliados europeus) faziam pressão pela continuação da oposição a Lisboa, enquanto os militares do Pentágono insistiam na importância das Lajes.

Dean Rusk, Secretário de Estado de Kennedy, veio a Lisboa, onde esteve 22 horas.  Rusk percebeu a determinação de Salazar em ir para frente com a não-renovação dos Acordos se não houvesse uma mudança de política.

E houve. Rusk esteve com Salazar duas horas e a política norte-americana mudou – embora, “para Terceiro Mundo ver”, se mantivessem as ambiguidades retóricas.

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