Livro acusa Netanyahu de ignorar alertas sobre ataque do Hamas e adiar resgate de reféns por cálculo político
Israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27) em uma eleição legislativa na qual a responsabilidade do governo pelo ataques terroristas cometidos pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 é um dos principais temas em disputa.
Oponentes do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu acusam-no de falhar na proteção do país. Nisso, pesam as acusações feitas pela imprensa. A mais impactante foi a do livro "Sequestrados: 843 Dias de Abandono" (tradução livre), de Shlomi Eldar e Ruth Yuval. Na obra, disponível apenas em hebraico por enquanto, os dois jornalistas afirmam que Netanyahu havia sido alertado sobre os planos do Hamas de atacar Israel, mas não agiu.
O premiê nega as acusações e está processando diversos veículos de imprensa israelenses e jornalistas, incluindo Eldar, por divulgarem a denúncia. O primeiro-ministro diz que se trata de uma "calúnia" com fins eleitorais.
Segundo o livro, Netanyahu recebeu um telefonema de Mohammed bin Zayed no fim de setembro de 2023. O presidente dos Emirados Árabes Unidos o alertou de que o Hamas preparava uma grande operação militar. Netanyahu o tranquilizou e disse estar preparado para qualquer ataque.
Cerca de dez dias depois, em 7 de outubro, combatentes liderados pelo grupo terrorista Hamas invadiram Israel, mataram 1.200 pessoas e sequestraram 251. Foi o ataque mais letal da história do país. Israel deflagrou, na sequência, uma campanha militar contra Gaza que matou mais de 75 mil palestinos.
A acusação de que o premiê foi avisado com antecedência sobre o ataque é grave, em um país que ainda vive em luto. O livro, ademais, responsabiliza Netanyahu pela demora em resgatar os reféns mantidos em Gaza, dezenas dos quais morreram.
"Ele é um perigo para Israel", diz Eldar à Folha. Veterano da imprensa israelense, com passagens por grandes veículos de televisão, ele afirma ter entrevistado mais de cem fontes durante a apuração do livro.
Apesar das negativas de Netanyahu, Eldar mantém sua acusação. Por sua vez, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos não confirmou nem negou o telefonema, mas afirmou que informações relevantes de inteligência são compartilhadas com Israel.
Segundo Eldar, a história começou em meados de setembro, quando as autoridades dos Emirados Árabes receberam a informação de que Yahya Sinwar, então líder do Hamas, planejava uma grande operação militar. A palavra que Sinwar usou em árabe foi "zilzal", ou seja, "terremoto".
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Bin Zayed telefonou a Netanyahu cerca de duas semanas depois e o avisou. Eldar diz também que, em paralelo, o chefe de inteligência do Egito, Abbas Kamel, encaminhou uma mensagem semelhante ao israelense.
Eldar diz que, com base nas suas fontes, não tem dúvida de que aquilo aconteceu. A questão, afirma, é por que Netanyahu não agiu. Segundo o livro, o premiê nem sequer comunicou a alta cúpula do aparato de segurança de Israel.
A hipótese de Eldar é que Netanyahu estava, naquele momento, empenhado em normalizar as relações entre Israel e Arábia Saudita. Tinha receio de que, ao divulgar a ameaça, seria forçado por seus aliados a atacar Gaza, o que prejudicaria as negociações.
Após o atentado, Netanyahu lançou uma campanha militar contra Gaza e a normalização com os sauditas foi interrompida. Em seguida, veio outro desafio político: lidar com os refénsno território palestino. O livro de Eldar faz outra acusação grave: a de que a decisão de não resgatá-los rapidamente foi um cálculo político do premiê.
"Netanyahu estava pensando em como sobreviver politicamente. Em todas as ocasiões em que teve a oportunidade de resgatar os reféns, ele recuou", afirma Eldar. Na sua avaliação, Netanyahu temia que os partidos de extrema direita abandonassem a coalizão caso ele firmasse algum tipo de acordo com o Hamas.
O repórter dá o exemplo das negociações realizadas em meados de 2024. Segundo Eldar, Netanyahu esteve perto de aceitar uma proposta de libertação de reféns em troca de um cessar-fogo. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, ameaçou deixar o governo caso o premiê aceitasse o acordo. Netanyahu recuou em meio à oposição de seus aliados.
Eldar diz que não sabe dizer se seu livro terá, de fato, impacto na eleição. "Não o escrevi por motivação política", afirma. Mas conta também que, desde a publicação, algumas pessoas o param na rua, apertam-lhe a mão e dizem "kol hakavod" —"parabéns", em hebraico.
A questão, diz, é que Netanyahu dividiu o país durante os quase 20 anos em que atuou como primeiro-ministro. Construiu, no ínterim, o que Eldar descreve como uma "máquina de veneno", com a qual espalha narrativas favoráveis a seu governo. "Nem todos os israelenses acreditam na minha reportagem. Para eles, Netanyahu é Deus", afirma.
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