Outubro Rosa: elas venceram o câncer de mama, mas precisaram enfrentar outro desafio na carreira
Quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama, em agosto de 2016, Silvia Sobrinho de Carvalho não pensou primeiro na própria saúde. Sua preocupação foi com o marido, que tem distrofia muscular e depende dos seus cuidados, e com os funcionários e contratos da empresa de prestação de serviços que administrava.
"Quando recebi o diagnóstico de câncer de mama, minha primeira preocupação foi como eu cuidaria do meu marido e o que aconteceria com a minha empresa. Havia pessoas e responsabilidades que dependiam de mim", conta Silvia.
A empresária, hoje com 53 anos, precisaria enfrentar uma cirurgia e 16 sessões de quimioterapia. Mas, mesmo durante o tratamento, não conseguiu interromper a rotina profissional nem as responsabilidades familiares.
A cerca de dez anos daquele diagnóstico, ela continua trabalhando, mas reconhece que ainda enfrenta dificuldades para encontrar tempo para cuidar da própria saúde.
A experiência é diferente da vivida por Angela Martins da Silva, de 58 anos, ex-secretária de uma empresa do setor portuário em Santos, no litoral paulista. Diagnosticada com câncer de mama em 2009, ela recebeu apoio da empresa para se afastar durante o tratamento. Quando se sentiu preparada para voltar, porém, encontrou um cenário de reestruturação e a possibilidade de perder o emprego.
Angela acabou se aposentando por invalidez, mesmo desejando continuar a carreira.

Silvia Sobrinho de Carvalho com o marido e o neto: "Quando recebi o diagnóstico de câncer de mama, minha primeira preocupação foi como eu cuidaria do meu marido e o que aconteceria com a minha empresa" (, Silvia Sobrinho de Carvalho /Arquivo Pessoal)
Outubro Rosa: uma campanha que não dura apenas um mês
As duas histórias revelam lados diferentes de um mesmo problema: o que acontece com a vida profissional de uma mulher depois que ela recebe um diagnóstico de câncer de mama?
A discussão ganha força durante o Outubro Rosa, campanha dedicada à conscientização sobre a doença. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama feminina em 2026. A doença representa cerca de 30% dos novos casos de câncer entre mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma.
Embora a campanha incentive a realização de exames e o diagnóstico precoce, especialistas defendem que o cuidado também precisa alcançar o ambiente de trabalho, especialmente quando a profissional necessita de afastamento, reorganização das atividades ou apoio para retomar a carreira.
O que as empresas precisam fazer além das campanhas de Outubro Rosa?
As experiências de Silvia e Angela mostram que o impacto do câncer de mama na vida profissional não termina quando o tratamento acaba.
Para Joyce Romanelli, sócia da Fluxus e professora universitária, o desafio das organizações é transformar as campanhas de conscientização em práticas que garantam acolhimento e continuidade das oportunidades profissionais.
"Uma campanha convida a mulher a cuidar da saúde. A liderança precisa criar condições para que esse cuidado caiba na rotina. Isso exige conversar sobre trabalho, combinar ajustes e não transformar uma necessidade de saúde em uma dúvida permanente sobre a competência da profissional", afirma.
Segundo a especialista, o primeiro passo é garantir um espaço reservado para que a funcionária possa conversar sobre suas necessidades, sem ser obrigada a expor detalhes do diagnóstico ou do tratamento aos colegas.
A partir dessa conversa, gestores e profissionais de Recursos Humanos podem discutir possíveis afastamentos, reorganização das entregas e adaptações na rotina, respeitando as orientações médicas e os procedimentos aplicáveis.
O cuidado também exige atenção para que a tentativa de proteger a funcionária não acabe prejudicando suas perspectivas de crescimento.
"Acolher não é decidir tudo pela mulher. É perguntar o que ela precisa, respeitar as orientações de saúde e construir acordos possíveis. A intenção de proteger não pode servir de justificativa para afastá-la de conversas sobre desenvolvimento ou presumir que ela deixou de ter ambição profissional", afirma Joyce.
Isso significa que uma profissional em tratamento não deve ser automaticamente excluída de projetos, promoções ou oportunidades de desenvolvimento por suposições sobre sua capacidade de trabalho.
O retorno depois de um afastamento também exige planejamento. A empresa precisa considerar as condições de saúde da funcionária, atualizar suas responsabilidades e avaliar possíveis adaptações, sem transformar a volta em uma cobrança para recuperar imediatamente todas as tarefas acumuladas.
Para Joyce, o acolhimento deve continuar enquanto houver necessidade, mesmo depois do fim do tratamento.
A campanha acaba em outubro, mas os desafios continuam
As histórias de Silvia e Angela mostram que o diagnóstico de câncer pode provocar mudanças profundas na relação das mulheres com o trabalho.
Enquanto uma precisou continuar trabalhando durante a quimioterapia para sustentar as responsabilidades profissionais e familiares, a outra desejava retomar a carreira, mas não conseguiu voltar ao emprego.
As duas encontraram formas de seguir em frente, embora ainda convivam com consequências da doença e das decisões que precisaram tomar.
Para Silvia, o objetivo agora é conquistar algo que parece simples, mas continua distante: tempo para si mesma.
"Quero continuar trabalhando e conseguir reservar tempo para a minha saúde. Fazer exercícios e cuidar mais de mim são projetos que desejo tirar do papel em breve", afirma.
Angela, por sua vez, transformou a própria experiência em acolhimento para outras mulheres.
"Aprendi a ser uma multiplicadora daquilo que vivi. E cada vez que a minha experiência ajuda alguém a se sentir menos sozinha, encontro mais um motivo para compartilhá-la."
As duas trajetórias deixam uma questão para empresas e lideranças: depois que as campanhas de Outubro Rosa terminam, quem continua cuidando das mulheres que precisam conciliar a saúde com a própria carreira?
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