A Inteligência Artificial já inventa a sua própria língua?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Português Suave, sempre na Rádio Observador e também em podcast, com o Marco Neves e comigo, João Costa e Silva.
Olá, tudo bem?
Olá, Marco.
Está tudo bem, João.
Está tudo bem por aqui e por aí, onde tu estás?
Está tudo bem, como é habitual. Nada a dizer. Hoje vamos falar do mirandês e vamos terminar com um tema, eu espero que os nossos ouvintes não se importem muito, que não tem muito que ver com a língua, mas eu acho muito interessante.
Mas está sempre relacionado, ou não?
Está. Há sempre maneira de relacionar todos os temas, nem que seja através das palavras que nós usamos pra falar deles. Por isso, há ali uma palavra muito particular que liga o tema à língua portuguesa, mas eu não vou dizer qual é o tema pra que as pessoas ouçam até o fim. Pra já, vamos à língua das notícias, como é habitual. E a língua de que quero falar hoje é o mirandês. Esta semana foi especialmente importante pro mirandês. No dia 17 de setembro, foi o Dia da Língua Mirandesa, porque faz anos que o mirandês foi reconhecido oficialmente pela Assembleia da República Portuguesa. O mirandês não apareceu nesse dia, o mirandês já existia há muitos séculos, mas foi reconhecido, e foi dada a possibilidade, por exemplo, ao município de Miranda, de escrever alguns documentos oficiais em mirandês. Ao contrário do que às vezes se diz, o mirandês não é a língua oficial de Portugal, a língua oficial de Portugal é o português apenas, mas o mirandês está reconhecido e há algumas possibilidades de escrever e, por exemplo, ensinar mirandês na escola. E é também sobre isso que eu queria falar, porque no dia 17 de setembro, portanto, na última quinta-feira, foi apresentado o primeiro manual escolar de língua mirandesa. O mirandês já está sendo ensinado nas escolas de Miranda do Douro há 41 anos, mas só agora temos um manual escolar virado pro primeiro ano. Foram também anunciadas outras notícias, como uma pós-graduação para professores de mirandês e um centro de formação para professores de mirandês. Eu devo dizer, e já disse isto aqui anteriormente, que as escolas que ensinam mirandês em Miranda do Douro ensinam como opção, mas muitos alunos escolhem estudar mirandês e, curiosamente, nessas escolas, as notas de português são também particularmente elevadas, o que é muito curioso. Devo dizer também que foi apresentado um plano estratégico para a promoção e salvaguarda do mirandês nesta última semana, e está a ser apresentada uma tradução da Constituição da República Portuguesa para esta que é a segunda língua. É difícil dizer que é a segunda língua do país, porque nós também temos a língua gestual portuguesa, não nos podemos esquecer. Portanto, estas três línguas têm algum tipo de reconhecimento: o português como língua oficial, a língua gestual portuguesa como língua que deve ser protegida pelo Estado e o mirandês como língua reconhecida oficialmente. E depois há muitas outras línguas que também são faladas no nosso território, mas sobre isso havemos de falar noutros dias.
O mirandês, então, está em crescimento, Marco. Quanto mais não seja, um reconhecimento por esse crescimento.
É o que acontece com outras línguas minoritárias por essa Europa afora. São línguas que algumas delas estão em diminuição de uso habitual, mas estão a ser cada vez mais reconhecidas e protegidas institucionalmente. O mirandês é falado por poucos milhares de pessoas, é verdade. Não sei, não tenho dados pra saber se está a ser cada vez mais usado no dia a dia, mas que está a ser cada vez mais ensinado, isso sem dúvida que sim, e está a ser protegido, o que implica também uma proteção daquela tradição não só linguística, mas também de lendas, de histórias, de ditados. Cada uma das línguas que nós falamos tem também lá dentro muita coisa que merece ser protegida. E o mirandês, quanto a mim, ainda bem, está a ser cada vez mais protegido.
É isso mesmo. Bem, vamos avançar agora.
Vamos pro mapa da língua.
Exato, o mapa da língua.
E neste caso, também não vamos falar do português. Estamos a afastar aqui do Português Suave. Hoje estamos a falar Mirandês Suave. Estamos a falar de outro aspecto. Todas as línguas variam, já falamos disto aqui muitas vezes. Variam de acordo com a situação, com a região, com a classe social. Tudo o que nos distingue enquanto seres humanos, também distingue, em geral, o uso de cada uma das línguas. E isto é de todas as línguas, não é só do português. Nós podemos pensar nisto, eu há pouco estava a pensar numa forma de explicar por que razão é que isto é tão inevitável. Uma língua, na verdade, é um conjunto de hábitos seculares, que ligam sons a significados e a situações sociais. É uma descrição muito particular do que é uma língua. Se nós pensarmos, por exemplo, na hora de ponta. Na hora de ponta, todas as pessoas saem de casa e vão pro trabalho e parece que todas as pessoas têm o mesmo hábito. Isto, no fundo, é uma metáfora pra aquilo que acontece com a língua. Todos têm o mesmo hábito de dizer determinada coisa usando certos sons. Mas se nós pensarmos na hora de ponta, cada pessoa tem um percurso ligeiramente diferente. Não vão todos da mesma casa pro mesmo local de trabalho.
Isso seria muito chato.
Seria muito chato e muito terrível ir pra aquela casa e pra aquele local de trabalho.
E o trânsito já é o que é, imaginem irmos todos pro mesmo sítio.
Bem, a solução seria pôr o local de trabalho de todas essas pessoas naquela casa. O que eu quero dizer é que toda aquela massa de pessoas na hora de ponta, na verdade, é um conjunto de pequenos hábitos ligeiramente diferentes. E a língua também é a mesma coisa. No fundo, todas as pessoas passam por caminhos ligeiramente diferentes e por isso é que a língua varia. E eu estou a dizer isto tudo Porque parece, e isto é curioso, que a inteligência artificial agora está muito virada para aquilo que se chama os agentes, ou seja, o ChatGPT, o Claude, todos esses nomes que nos habituámos agora a conhecer e que estão a ser discutidos à exaustão em relação aos perigos, vantagens, desvantagens e tudo mais. Mas todas essas ferramentas hoje têm aquilo que se chamam agentes, ou seja, quando nós pedimos para que algo seja feito, há uma série de pequenos agentes, cada um deles a fazer uma coisa, que podem comunicar uns com os outros. E o que se encontrou agora nas últimas semanas, e que não está nas notícias de forma tão presente como outras situações relacionadas com a inteligência artificial.
O que é que tu descobriste, ninja Marco Neves?
Li uma notícia, neste caso no The Guardian, na Inglaterra, que os linguistas estão a descobrir hábitos linguísticos destes agentes. Ao conversar uns com os outros, eles vão criando expressões que não existiam ou não eram comuns na comunicação humana, mas que começam a ser comuns entre aquelas pessoas, que não são pessoas, entre aspas, que estão a comunicar. Por exemplo, duas expressões em inglês, porque eles comunicam em inglês. Ledger remembers. Os agentes, ao comunicarem uns com os outros, usam muito esta expressão para lembrar o outro agente que fica tudo registado, quase a dizer: "Olha, tem cuidado com o que fazes, porque isto está tudo registado". Então dizem muitas vezes ledger remembers, quase como se fosse um chavão de uma série qualquer medieval em que alguém diz ledger remembers. Também criaram a expressão forge smith, que significa um agente que cria ferramentas para outros agentes, é um forge smith. Além de ser interessante por si, a inteligência artificial está aqui a criar novos hábitos linguísticos. Lembra-nos que quando há comunicação num grupo fechado a trabalhar, normalmente esse grupo vai criar hábitos linguísticos ligeiramente diferentes dos outros grupos. Deves ter essa experiência, João, quando conversamos com um grupo de pessoas que tem uma profissão diferente da nossa, que nós às vezes não percebemos nada do que eles estão a dizer, mesmo enquanto estão a falar.
Às vezes nem com legendas, digo isso muitas vezes.
Às vezes nem com legendas. E curiosamente, por vezes, quando pessoas que pertencem ao mesmo grupo profissional, mas têm línguas diferentes, quando se encontram, às vezes entendem-se melhor, mesmo entre línguas diferentes, porque as palavras são mais parecidas do que nós pensamos. Tudo para dizer que cada grupo desenvolve hábitos, até grupos de agentes de inteligência artificial desenvolvem hábitos linguísticos particulares. E era isto que eu queria falar no mapa da língua. E por que isso tem a ver com o mapa? Porque tem a ver com as tais diferenças que vão sendo criadas ao longo do tempo, porque as pessoas quando comunicam mais uns com as outras do que com outros grupos, desenvolvem hábitos particulares.
Olha, e agora vamos àquele tema.
Vamos ao tema que tem a ver com a língua portuguesa. Vou já dizer com o que tem a ver.
Vamos a isso então.
O tema está relacionado com a palavra portuguesa parabéns, mas não está relacionado diretamente com a origem da palavra, de que não vou falar agora. Esta semana tive uma série de pessoas da minha família e amigos a fazer anos, aniversário, incluindo eu próprio, há que dizer, fiz anos há uns dias. E então lembrei-me de repetir um pequeno vídeo que tinha feito no ano passado, em que falava do dia em que mais pessoas fazem anos. E nessa altura, recebi uma comunicação muito simpática e muito desenvolvida de José Basílio, que é bioinformático, nessa altura, ano passado, na Universidade Médica de Viena, onde ele trabalha com a análise de dados biomédicos e enviou-me, na altura, e confesso que este ano quando fiz um novo vídeo, não me lembrei dele, mas agora lembrei-me e quero falar dele. Ele enviou-me a distribuição mensal dos nascimentos em vários países europeus. E eu acho isto interessante. Eu sei que não tem diretamente a ver com a língua portuguesa, mas podemos torcer aqui um pouco as coisas.
Eu acho que sempre.
Podemos dizer, em que altura do ano é que nós dizemos mais vezes a palavra parabéns? O José Basílio descobriu que entre 1960 e 1980 o padrão era bastante claro. O maior número de nascimentos era na primavera, entre março e maio. Depois, houve uma deslocação. Entre 1990 e 2020, o pico vai deslocando para o final do verão, para o início do outono, sobretudo agosto e setembro, e hoje parece que setembro é, sem grande margem de dúvidas, o mês em que mais pessoas nascem. Aliás, há várias estatísticas que mostram que os dias com mais nascimentos nas últimas décadas, os 10 dias com mais nascimentos, são todos no mês de setembro. Agora, ele também descobriu, José Basílio, que a transformação não ocorre da mesma maneira em todos os países. A tendência geral é clara, em direção a setembro, mas não ocorre ao mesmo ritmo. Por exemplo, em Portugal, ainda em 1980, quando eu nasci, o mês com mais nascimentos ainda era maio, só depois é que houve a deslocação até setembro. Ele anda a estudar isto com mais profundidade, até com colaboração de outras universidades, e por isso eu vou lhe pedir que me envie mais informações logo que as tenha. Ele não sabe, ele nem ninguém, já procurei, ninguém sabe exatamente por que razão é que há esta mudança ao longo do século XX. Há quem diga que tem a ver com a generalização da contraceção, da pílula, mas outras transformações sociais, com a maior participação das mulheres no ensino superior e no mercado de trabalho. Mas é difícil ligar estas transformações, que são reais, à mudança para setembro. Por que razão é que isto leva a que. Eu, em jeito de brincadeira, digo que setembro é um bom mês para haver muitos nascimentos, porque nove meses antes temos o Natal e o fim de ano.
Exato. Fazendo as contas, não é?
Fazendo as contas, nós percebemos que temos o Natal e fim de ano. Mas por que razão é que houve esta mudança, nós não sabemos. Mas fica aqui primeiro o agradecimento ao José Basílio por ter enviado estas informações todas e também o incentivo para que continue a estudar, porque não sei por quê, eu acho este tema muito interessante.
Eu também acho.
E descobri que muitas pessoas também acham.
E olha, Marco Neves, o teu aniversário foi bom?
Foi bom. Muito animado, no sentido em que tive muita coisa para fazer e muitas viagens. Estive com a minha família. Depois também tive o aniversário da minha cunhada, que fez 50 anos, a Dora. Portanto, foi uma semana muito preenchida.
Agora juntam-se todos e fazem um banquete.
Há tantas pessoas da minha família e amigos que fazem anos em setembro, é incrível. Eu estava agora aqui meia hora só a dizer os nomes de toda a gente.
É uma festa.
Vamos ao livro da semana?
Vamos a isso.
E este é o episódio da batota, porque eu não ando a falar nem da língua portuguesa. E desta vez nem vou falar de um livro.
O episódio da batota.
Exatamente, nem vou falar de um livro. Vou falar de um exemplar de uma revista, National Geographic, que eu compro de vez em quando. Confesso, não todos os meses, mas sempre que os temas me interessam particularmente. E desta vez interessava particularmente. O tema que está na capa é como começámos a falar. É uma excelente reportagem, que não vou aqui reproduzir, claro, mas que convido as pessoas a ler, também sobre outras espécies humanas, porque nós hoje já só temos uma espécie humana, mas já houve outras espécies, e aqui a National Geographic faz um excelente resumo sobre o que se sabe hoje. Devo dizer que há muita coisa por descobrir, há muita coisa que nós não sabemos sobre o início da linguagem. Mas o que sabemos está aqui resumido nesta excelente reportagem da National Geographic, que aconselho a leitura. Não é um livro, mas é como se fosse.
Acho que é melhor até, não é? Mais rápido para aquelas pessoas que não têm muita paciência para estar a ler.
É verdade, mas depois também o meu convite é para que leiam. Atenção, a reportagem é bastante desenvolvida, mas leiam reportagens, vejam vídeos, falem com pessoas e depois vão ler os livros sobre os temas que aprofundam sempre as questões.
E entretanto, Marco, vamos ter também mais um novo livro para ler, teu.
Sim, é verdade.
E eu a meter aqui da melhor forma a bucha, como se costuma dizer.
É um livro, mais uma vez batota, porque é sobre língua portuguesa, mas não é o habitual. É um romance policial que tem um bocadinho da língua portuguesa pelo meio. Vai sair em breve, é verdade. E posso dizer aqui o título, acho que não faz mal.
Sim, vamos a isso.
"Morte em 22 letras" e sai em outubro. Há lá um inspetor e uns quantos mistérios relacionados com uma morte, é verdade, em Sintra, e sobre um aspeto particular da língua portuguesa.
Muito bem.
E não vou dizer mais, para já.
Em breve falamos melhor também sobre este novo desafio que tu escreveste. Penso que foi nas férias ou um pouco antes disso, não foi?
Exatamente. Sim, foi um dos meus projetos deste verão e não sabia se conseguia ou não, e consegui. Não é um livro muito longo, é um livro curto, um romance policial curtinho, mas eu gostei muito de escrever e espero que as pessoas gostem de ler.
Claro. Vamos voltar a falar disso aqui em breve no "Português Suave". Entretanto, nós estamos de regresso na quarta-feira. Já sabe que é o dia em que esclarecemos as dúvidas dos nossos ouvintes, que podem enviar para o nosso e-mail, não é, Marco?
portuguesSuave@observador.pt.
Ou então através do nosso WhatsApp, que é o 91 002 41 85. Queremos ouvir os nossos ouvintes. É sempre mais bonito ouvir as vozes deles, não é?
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