Por que a United Airlines criou um vinho a 35 mil pés para classe executiva
As uvas do Air and Vine vêm das encostas de Cabernet Sauvignon da Farrow Ranch, vinhedo da Aperture Cellars em Geyserville, no condado de Sonoma, mas a decisão sobre a forma como elas seriam combinadas foi tomada a cerca de 10,7 mil metros de altitude. O enólogo Jesse Katz levou as amostras de cada componente para um voo da United Airlines entre Nova York e São Francisco e provou nove versões de corte dentro da cabine até chegar à que procurava, segundo relato da revista britânica Decanter.
O vinho final, da safra 2024, reúne 76% de Cabernet Sauvignon, 12% de Malbec, 6% de Merlot, 4% de Petit Verdot e 2% de Cabernet Franc, e passou 24 meses em barricas, 40% delas de carvalho francês novo. A estreia está prevista para 2028 na Polaris, a classe executiva da United, em rotas internacionais selecionadas.
O projeto integra uma parceria de três anos entre a vinícola e a companhia aérea, que prevê a chegada de um novo rótulo exclusivo da Aperture à Polaris a cada ano.
O que muda no paladar a bordo
De acordo com Katz, o ar seco da cabine abafa os aromas e a fruta do vinho, enquanto deixa a acidez, os taninos e a textura mais perceptíveis. Quando ele repetiu a prova em terra, logo depois do voo, o efeito se inverteu, com aromas mais abertos e fruta mais intensa. "Provar em altitude definiu diretamente as proporções do corte final", disse o enólogo à Decanter.
Um estudo encomendado pela Lufthansa em 2010 ao Instituto Fraunhofer de Física da Construção, na Alemanha, foi conduzido em uma câmara de baixa pressão que abriga a seção dianteira de um Airbus A310. Os testes indicaram que a percepção de sal e de açúcar cai até 30% nessas condições, enquanto aromas frutados e sabores ácidos se mantêm relativamente estáveis. A umidade dentro do avião, que costuma ficar entre 10% e 20%, resseca as mucosas do nariz e prejudica o olfato. Uma pesquisa da Universidade Cornell acrescentou o barulho à equação ao mostrar que o ruído intenso reduz a percepção do doce e reforça a do umami.
Herança de viagem
Katz fundou a Aperture em 2009, com foco em variedades bordalesas de vinhedos de clima frio de Sonoma, e trabalhou em safras no Pétrus e no Screaming Eagle. Filho do fotógrafo Andy Katz, cresceu acompanhando o pai em viagens a regiões vinícolas de vários países, muitas vezes a bordo da United. "Eu realmente não seria enólogo se não fosse pela arte e pelas viagens do meu pai", afirmou.
A relação comercial com a companhia começou antes do Air and Vine, quando a Aperture passou a fornecer Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc para a Polaris. Os Cabernets de vinhedo único da vinícola partem de cerca de US$ 150 a garrafa, o equivalente a aproximadamente R$ 800 pelo câmbio de 27 de outubro.
Corrida pela classe executiva
Para Aaron McMillan, diretor-geral de programas de hospitalidade da United, o vinho precisa acompanhar o investimento que os clientes fazem em viagens premium. "Não dá para negligenciar uma parte e deixar o programa de vinhos para trás", disse à Decanter. A revisão da carta coincide com a chegada dos assentos Polaris Studio e do novo interior Elevated aos Boeing 787 da empresa.
Montar uma seleção desse nível esbarra no volume exigido pela operação, já que cada rotação dura cerca de três meses e pode demandar de 6 mil a 7 mil caixas, quantidade fora do alcance da maioria dos pequenos produtores. A United tem testado ciclos mais curtos, como o do chileno VIK, servido por apenas um mês, e vê na produção sob medida outra forma de garantir oferta. Na cabine Studio, a carta reúne em geral oito rótulos, incluindo um Champagne Laurent-Perrier e um vinho do Porto, e o menu traz uma folha destacável em que o passageiro escolhe até três vinhos para provar lado a lado.
American Airlines e Delta também mexeram em suas cartas premium ao longo de 2026. A American levou novos vinhos californianos às cabines Flagship First e Flagship Business a partir de 13 de maio, na primeira fase de uma reformulação do programa. A Delta passou a servir em 1º de outubro uma nova seleção na Delta One, com 13 rótulos de 11 vinícolas escolhidos entre cerca de 1,6 mil avaliados com a master sommelier Andrea Robinson, com participação de membros do programa SkyMiles em degustações às cegas. O Champagne Taittinger, antes restrito às rotas internacionais, também chegou aos voos domésticos da cabine.
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