China coloca indústria europeia contra a parede e ameaça empregos, diz estudo
O avanço tecnológico da China ameaça ampliar a perda de empregos e enfraquecer setores tradicionais da indústria europeia, o que pode comprometer a competitividade do continente nos próximos anos. O alerta vem de um estudo da Chatham House, think tank britânico de pesquisa em relações internacionais, que analisa os efeitos da concorrência chinesa sobre as economias da União Europeia (UE) e do Reino Unido.
O relatório argumenta que a disputa deixou de se concentrar na produção de bens baratos e intensivos em mão de obra; empresas chinesas agora avançam em segmentos de alta tecnologia, combinando preços competitivos, escala industrial e capacidade de inovação para conquistar mercados antes dominados por companhias ocidentais.
O movimento é acompanhado pelo agravamento dos desequilíbrios comerciais. O superávit comercial chinês atingiu quase US$ 1,2 trilhão em 2025, enquanto o déficit da União Europeia no comércio de bens com a China alcançou € 359,81 bilhões.
Para a Chatham House, portanto, a pressão competitiva tende a persistir porque decorre de vantagens estruturais, como cadeias de fornecimento integradas, formação de profissionais especializados, investimentos em pesquisa e subsídios governamentais.
Inovação e perigo
A dimensão do avanço também se reflete nos indicadores de inovação. Residentes na China registraram 1,8 milhão de pedidos de patentes em 2024, contra pouco mais de 500 mil nos Estados Unidos, segundo dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual citados pelo estudo.
A China também instalou cerca de 295 mil robôs industriais em 2024, mais do que todos os outros países somados naquele ano, ampliando a automação e a produtividade de suas fábricas.
O relatório analisa quatro setores particularmente expostos à concorrência chinesa: medicamentos, veículos elétricos, energia eólica e máquinas-ferramenta. Em todos eles, fabricantes do país asiático avançam em segmentos de maior valor agregado, pressionando empresas europeias e ameaçando empregos e conhecimentos industriais acumulados ao longo de décadas.
Na indústria farmacêutica, a China ganha espaço com pesquisas e ensaios clínicos mais rápidos e baratos, além do uso de inteligência artificial no desenvolvimento de medicamentos.
Em 2025, empresas chinesas responderam por cerca de metade do valor global dos acordos de licenciamento de medicamentos para comercialização no exterior, superando os Estados Unidos.
O avanço ocorre enquanto laboratórios ocidentais buscam substituir receitas de remédios cujas patentes estão vencendo, aumentando a dependência desses laboratórios de pesquisas desenvolvidas na China.
Nos veículos elétricos, a combinação de escala produtiva, tecnologia de baterias e preços competitivos fortaleceu marcas como BYD e fabricantes como a CATL. A China respondeu por quase 75% dos veículos elétricos produzidos no mundo em 2025.
Naquele ano, marcas chinesas também alcançaram cerca de 70% do mercado doméstico de automóveis de passeio do país, contra 38% em 2020, pressionando montadoras estrangeiras, inclusive as alemãs. As empresas europeias têm respondido com mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento na China, buscando acelerar a inovação.
Na energia eólica, fabricantes chineses disputam espaço com empresas europeias ao oferecer turbinas que podem custar pelo menos 30% menos, segundo executivos ouvidos pela pesquisa.
A China já concentra mais de 60% da fabricação mundial desses equipamentos e componentes. O estudo alerta para o risco de a indústria eólica europeia repetir a trajetória do setor solar, no qual fornecedores chineses passaram a dominar o fornecimento de painéis no continente europeu.
Nas máquinas-ferramenta, equipamentos essenciais para a fabricação de peças industriais, a China ultrapassou a Alemanha como maior exportadora mundial em 2025. As exportações chinesas de máquinas-ferramenta de alta tecnologia cresceram 21% naquele ano, enquanto os pedidos à indústria alemã recuaram. O avanço sinaliza que a concorrência chinesa já alcança setores em que os fabricantes europeus mantinham vantagens tradicionais em qualidade e precisão.
O que a UE pode fazer?
Diante desse quadro, a Chatham House propõe uma estratégia que combine a proteção de setores sensíveis com a abertura seletiva à tecnologia chinesa, em vez de um confronto comercial generalizado.
Os governos europeus deveriam definir publicamente quais áreas representam riscos à segurança nacional ou à economia e estabelecer limites claros para os investimentos chineses nessas áreas. Nas demais atividades, o estudo recomenda atrair capital e tecnologia da China, desde que as empresas cumpram as normas e os mecanismos de fiscalização locais.
A instituição também defende reformas para recuperar a competitividade europeia, incluindo a redução da burocracia, a modernização da infraestrutura, a formação de profissionais em robótica e inteligência artificial e a aceleração dos processos de licenciamento.
A União Europeia ainda deveria avançar na implementação das recomendações do relatório de competitividade elaborado por Mario Draghi em 2024.
Por fim, o estudo recomenda coordenar as políticas europeias com as dos Estados Unidos para estabelecer critérios previsíveis para a participação chinesa em setores estratégicos.
A falta de regras claras, argumenta a Chatham House, pode aumentar a desconfiança, afastar investimentos potencialmente benéficos e aprofundar uma dinâmica de Guerra Fria tecnológica.
Para o centro de pesquisa, preservar a indústria europeia exige tanto reconhecer a dimensão da concorrência chinesa quanto melhorar a capacidade de inovação e produção do próprio continente.
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