Carros elétricos e híbridos são 16% das vendas, mas avanço esbarra em infraestrutura
RESUMO +
Os veículos elétricos e híbridos alcançaram 16% das vendas de veículos leves no Brasil no primeiro semestre de 2026, quase o dobro dos 8,7% de um ano antes. Segundo estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo, o ICCT Brasil, os elétricos a bateria lideraram o avanço, com 90 mil unidades vendidas e alta de 196%.
Os veículos elétricos e híbridos chegaram a 16% das vendas de veículos leves no Brasil no primeiro semestre de 2026, praticamente o dobro dos 8,7% registrados no mesmo período de 2025.
É a primeira vez que esse grupo de tecnologias supera a faixa de 10% do mercado brasileiro, segundo levantamento do Conselho Internacional de Transporte Limpo, o ICCT Brasil. Em 2022, elétricos a bateria, os BEVs, híbridos plug-in, os PHEVs, e híbridos convencionais, os HEVs, respondiam juntos por menos de 2% das vendas.
Entre as tecnologias analisadas, os elétricos a bateria apresentaram o maior avanço. As vendas passaram de 30 mil unidades no primeiro semestre de 2025 para 90 mil no mesmo período deste ano, uma alta de 196%. Os híbridos plug-in também cresceram, de 32 mil para 76 mil unidades, avanço de 80%. No mesmo intervalo, o mercado total de veículos leves aumentou 20%, de 1,1 milhão para 1,4 milhão de unidades.
O crescimento mostra que os modelos eletrificados deixaram de ocupar uma parcela residual do mercado, mas o avanço ainda ocorre de forma desigual entre fabricantes, regiões e tipos de infraestrutura.
Em informações obtidas com exclusividade pela EXAME, Vitor Luis Andrade, pesquisador do ICCT Brasil, afirma que o aumento das vendas foi impulsionado pela maior competitividade desses veículos em relação aos modelos a combustão, tanto no preço de compra quanto na economia com combustíveis.
A chegada de novos fabricantes ao mercado nacional também ampliou a competição, segundo Andrade, e teve reflexos até sobre os modelos tradicionais. “Esse processo foi impulsionado pela chegada de novos fabricantes no mercado nacional e resultou, inclusive, em reduções de preços de alguns modelos a combustão produzidos pelos líderes do mercado brasileiro”, afirma.
Crescimento concentrado em poucas fabricantes
Apesar do avanço geral, a eletrificação permanece fortemente concentrada. A BYD respondeu por 64% dos veículos elétricos a bateria vendidos no Brasil no primeiro semestre de 2026 e por 54% dos híbridos plug-in. No mercado de BEVs, o grupo Volvo-Geely ficou em segundo lugar, com 20% das vendas. Entre os PHEVs, a GWM respondeu por 19% e a Chery, por 10%. Já entre os híbridos convencionais, a Toyota concentrou 52% das unidades comercializadas.
A composição contrasta com o ranking geral do mercado brasileiro. Stellantis, Volkswagen, GM e Hyundai-Kia foram as quatro maiores fabricantes em vendas de veículos leves no primeiro semestre, mas ainda mantêm seus portfólios predominantemente concentrados em modelos a combustão. Entre elas, apenas a GM apresentou uma participação relevante de elétricos a bateria, ainda assim limitada a 3,6%.
“O mercado brasileiro de veículos elétricos e híbridos está crescendo, mas esse crescimento não ocorre de forma homogênea entre as fabricantes. Enquanto algumas empresas já têm uma parcela significativa de suas vendas concentrada em tecnologias elétricas e híbridas, as quatro maiores montadoras do país ainda mantêm seus portfólios predominantemente baseados em veículos a combustão”, afirma Andrade.
Para o pesquisador, um novo salto nas vendas dependerá também da reação dessas fabricantes. À EXAME, ele afirma que avanços mais substanciais estarão ligados tanto às decisões das maiores montadoras do país de ampliar a oferta de elétricos, em uma tentativa de evitar perda de participação de mercado, quanto aos investimentos dos novos fabricantes para produzir esses modelos no Brasil.
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A BYD é hoje o exemplo mais visível dessa mudança. A fabricante superou a Toyota e passou a ocupar a quinta posição entre as maiores em vendas totais de veículos leves no Brasil, com 100% das vendas concentradas em BEVs e PHEVs no primeiro semestre. O grupo Geely e a Leapmotor também registraram 100% de suas vendas nessas duas categorias. Na GWM, essa participação foi de 48%; na GAC, de 44%; e na Chery, de 15%.
Infraestrutura acompanha vendas, mas estradas ainda são gargalo
O crescimento da frota eletrificada também tem sido acompanhado pela ampliação da infraestrutura de recarga, sobretudo em áreas urbanas. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico citados pelo ICCT, o número de eletropostos no país quase dobrou entre setembro de 2025 e setembro de 2026, com expansão principalmente em locais públicos, como supermercados e shopping centers.
Houve também avanços regulatórios. Alagoas, Bahia, São Paulo e Sergipe aprovaram leis que tratam do direito à recarga em prédios e condomínios e estabelecem normas de segurança para a instalação dos equipamentos. Projetos semelhantes estão em tramitação em outros estados, o que pode ampliar a possibilidade de carregamento residencial e condominial à medida que a frota cresce.
Ainda assim, a expansão da infraestrutura não ocorre no mesmo ritmo em todos os segmentos. Andrade avalia que a disponibilidade de carregadores rápidos e ultrarrápidos nas estradas continua sendo uma lacuna importante, especialmente se a eletrificação avançar para o transporte de cargas.
“Vale lembrar que, apesar desses avanços, ainda é necessário expandir a disponibilidade de carregadores rápidos e ultrarrápidos em estradas, medida que será ainda mais relevante para viabilizar a expansão da frota, ainda limitada, de caminhões elétricos no Brasil”, afirma. No primeiro semestre de 2026, foram comercializados 168 caminhões elétricos no país.
Incentivos ajudam, mas regulação deve ganhar peso
Na avaliação do ICCT, políticas de incentivo à demanda continuam tendo papel importante na expansão dos veículos eletrificados. Entre os exemplos estão reduções e isenções de IPVA, vigentes em nove estados, e condições mais favoráveis de financiamento, como as implementadas recentemente pelo programa MOVE Brasil.
No longo prazo, porém, o instituto avalia que os incentivos ao consumidor precisarão ser acompanhados por regras capazes de influenciar diretamente as estratégias das fabricantes.
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Para Andrade, regulamentações podem estimular uma maior oferta de modelos elétricos no Brasil e aproximar os portfólios comercializados no país daqueles encontrados em mercados de origem das montadoras, como Europa e Estados Unidos.
O pesquisador também aponta para 2027 como um ano relevante nessa agenda. Segundo ele, a definição de novas metas de redução de emissões no âmbito do programa MOVER pode ter efeito sobre a composição das vendas ao incentivar uma participação maior de veículos híbridos e elétricos, considerados mais eficientes e menos poluentes.
Importações mudam de perfil com avanço dos eletrificados
A transformação do mercado também aparece no perfil das importações. Os BEVs e PHEVs responderam por 70% dos veículos leves importados no primeiro semestre de 2026, ante 56% no mesmo período de 2024.
Segundo o ICCT, o pico no volume de importações deste ano foi superior ao volume de emplacamentos de veículos importados, movimento que pode estar relacionado à antecipação de compras antes do aumento do imposto de importação ocorrido em julho.
Ao mesmo tempo, as exportações brasileiras de veículos leves somaram US$ 2,5 bilhões no primeiro semestre, uma queda de 14% em relação ao mesmo período de 2025. A retração foi provocada principalmente pela redução dos embarques para a Argentina, um dos principais destinos dos veículos produzidos no Brasil, ao lado de Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai.
Os dados indicam que a eletrificação já alterou a composição das vendas e das importações brasileiras, mas o mercado ainda convive com uma forte concentração entre poucas fabricantes e com diferenças relevantes na disponibilidade de infraestrutura.
A próxima fase desse crescimento tende a depender menos apenas da entrada de novos modelos e mais das decisões de investimento das grandes montadoras, da expansão da produção local e das políticas que deverão orientar a oferta e as emissões dos veículos vendidos no país.
'Perguntas frequentes'
Qual é a participação dos veículos elétricos e híbridos nas vendas no Brasil? +
Os veículos elétricos e híbridos responderam por 16% das vendas de veículos leves no primeiro semestre de 2026, segundo estudo do ICCT Brasil. No mesmo período de 2025, a participação era de 8,7%.
Quanto cresceram as vendas de carros elétricos no primeiro semestre de 2026? +
As vendas de veículos elétricos a bateria passaram de 30 mil para 90 mil unidades, alta de 196%, segundo o ICCT Brasil. Os híbridos plug-in avançaram 80%, de 32 mil para 76 mil unidades.
Quais fabricantes lideram o mercado brasileiro de veículos eletrificados? +
Segundo o estudo do ICCT Brasil, a BYD concentrou 64% das vendas de elétricos a bateria e 54% das vendas de híbridos plug-in no primeiro semestre de 2026. O grupo Volvo-Geely teve 20% dos elétricos a bateria, enquanto a Toyota respondeu por 52% dos híbridos convencionais.
Por que as vendas de veículos elétricos e híbridos cresceram? +
O crescimento foi impulsionado pela maior competitividade dos modelos eletrificados no preço de compra e na economia de combustível, avalia Vitor Luis Andrade, pesquisador do ICCT Brasil. Segundo Andrade, a entrada de novas fabricantes também aumentou a concorrência e provocou reduções de preços em alguns veículos a combustão.
A infraestrutura de recarga acompanha o crescimento dos carros elétricos? +
O número de eletropostos quase dobrou entre setembro de 2025 e setembro de 2026, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico citados pelo ICCT. Vitor Luis Andrade afirma, porém, que ainda é necessário ampliar a oferta de carregadores rápidos e ultrarrápidos nas estradas.
Qual é a participação dos elétricos e híbridos plug-in nas importações? +
Os elétricos a bateria e híbridos plug-in representaram 70% dos veículos leves importados no primeiro semestre de 2026, ante 56% no mesmo período de 2024. Segundo o estudo do ICCT, uma das hipóteses para o aumento das importações foi a antecipação de compras antes da elevação do imposto de importação em julho.
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