Bafo de Dragão

Os cientistas e o público interrogam-se sobre as melhores circunstâncias para aprender as principais virtudes políticas, morais e religiosas. Calculam que um regime político virtuoso facilita a aprendizagem das virtudes políticas; e que um regime moral virtuoso a das morais; e que naturalmente um religioso a das religiosas. E concluem que os regimes virtuosos promovem a virtude; e que os não-virtuosos não as promovem.
A teoria é absurda, e também incompleta. É absurda porque não explica como é que os regimes virtuosos, políticos, morais e religiosos emergem, se considera que as virtudes relevantes só emergem nesses regimes. Terá assim de conceder que pessoas sem virtudes políticas podem engendrar regimes políticos virtuosos e com o tempo pessoas cheias de virtudes políticas; e nessa medida contradiz-se, porque tem de admitir que um regime político não-virtuoso pode gerar virtudes políticas apreciáveis; e assim sucessivamente.
Mas a teoria é além disso uma teoria incompleta, visto que, supondo que comunidades cheias de virtudes encorajam comunidades cheias de virtudes, não consegue explicar como comunidades sem grandes virtudes geram comunidades cheias de virtudes. Se a primeira parte da suposição for o caso (e admitiremos a benefício de tese que sim), a segunda parte não consegue explicar certas ocorrências muito comuns: em especial que pessoas boas apareçam tantas vezes entre pessoas más, e que pessoas politicamente indecentes possam gerar decência.
Imaginemos alguém rodeado apenas por pessoas com mau hálito; imaginemos que essa pessoa é desfavoravelmente impressionada pelo hálito dos seus próximos; e imaginemos finalmente que tem o poder de eliminar esses próximos, ou condená-los a um exílio numa terra distante onde nunca terá de pôr os pés. Se essa pessoa agir apenas movida pelas suas impressões desfavoráveis acabará por se tornar na única pessoa com bom hálito na sua parte da terra; mas não conseguirá arranjar namorados, empregos, canalizadores e oftalmologistas.
Segue-se que o bom hábito implica viver com o mau hálito. Não sendo claro que se possa aprender virtudes relevantes se só estivermos rodeados de pessoas como nós e que partilhem a mesma aversão à halitose, depreende-se que só das nossas deambulações num mundo de bafos draconianos podem emergir os hábitos certos. As virtudes relevantes podem ser muita coisa; mas só são relevantes em relação à ausência das virtudes relevantes.
O bafo de terceiros não se altera por persuasão; e no entanto os nossos altos critérios também não são fortificados quando nos retiramos para longe dos dragões. A ideia de se ser a única pessoa num mundo com hálito de hortelã pimenta não tem sentido se implicar que o mundo pereça para que o hábito da hortelã-pimenta triunfe como ideia. Num mundo sem gente não há virtudes relevantes; nem virtudes. Num mundo com gente as virtudes relevantes decorrem dos maus hálitos dos outros, e permitem esperar que a hortelã-pimenta, que é uma qualidade das coisas boas, faça o seu trabalho.
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