Lena Aires. Da primeira ModaLisboa ao upcycling náutico

E como é o processo a partir do momento em que recebe uma vela?
A primeira coisa que faço é lavar. Lavo com uma esponja, em casa, na banheira ou na varanda. Ou então, muitas vezes, faço uma lavagem, depois vejo os sítios melhores, corto e, depois de cortar, como já está mais pequeno, lavo novamente. Há certas manchas que custam a sair, e há muitas manchas que eu deixo ir, porque faz parte. E isso é que faz confusão às pessoas: “Ah, mas isto está manchado, não faz muito sentido”. Mas a vela foi usada. A mancha também conta uma história. O meu filho já velejou no mundo inteiro, Tóquio, Bahamas, campeonatos em todo o mundo. As velas e os veleiros têm uma história. Portanto, se a vela tem uma história, a história tem continuidade e continua através de acessórios ou de um saco, em que tem utilidade. Podia estar descartada no chão, ou num caixote do lixo. Gostava muito de chegar a uma encomenda e ter alguém a pedir: “Sou velejador, tenho a vela comigo e gostava de ter uma peça de recordação”.
E depois dos moldes cortados, como o processo continua?
Depois trabalho com ateliers pequenos em Lisboa para a confeção. Procurei muito, porque agora está tudo fora de Lisboa e sacos também nem todos fazem. Têm pormenores e acabamentos diferentes da roupa. Então procurei mesmo fazer com pessoas que fazem mesmo só sacos. Encontrei um atelier na Ericeira, um casal onde dizem que já tiveram uma fábrica de sacos, trabalhavam com napa e peles. Quando viram isto, assustaram-se, porque escorrega. Então estavam ali um bocado à toa, também esbarraram um bocado com as primeiras peças. Mas por isso é que tem de ser tudo muito simples. As velarias são diferentes, porque têm as máquinas próprias para isto. Mas não consigo produzir com velarias, porque dizem-me que não lhes compensa. Ganham muito mais a fazer velas ou a arranjar velas. Entretanto, também vou a algumas velarias buscar restos. Sobram bocados e eles até me agradecem. E então faço os acabamentos em casa. Procuro os adereços, como por exemplo este fio de lã, que lhes dá a direção do vento. Isto está na vela e eles olham quando estão a velejar, seja a treinar ou seja em competição. Todos os terminais, as ilhas (ilhós), os cabos, as precintas, tudo isto faz parte do barco. E há também material que não existe na vela, mas que é o material do qual são feitos os sacos onde a vela entra depois de enrolada, para guardar.
Então praticamente toda a peça é upcycling.
Exatamente. E as cordas e cabos são novos, mas de lojas náuticas. Há uns que são muito duros, não dá para cortar, têm de ser cortados com ferro quente. E para dar o nó também é difícil.
Qual foi o primeiro saco que vendeu?
O primeiro saco que vendi foi exatamente um destes que era da vela do meu filho. Tinha os números, as letras POR, o símbolo ILCA 7. Foi para a China, para Macau. O comprador é português, mas trabalha em Macau, Hong Kong e China, então ficou super contente, apaixonado pelo saco por dizer POR.
Como foi esse regressar às vendas?
Estive uns oito meses a produzir, porque pensei: “Eu não posso fazer só meia dúzia de peças”. Lançámos o Instagram no Natal. Nunca trabalhei no Instagram, nunca estive online, nem quando tinha loja, porque na altura não era comum haver sites. Mas foi uma desilusão porque eu achava que online se vendia tudo a correr, mas não. Tive um feedback giro, contactos de pessoas e gente jovem, que é um público que eu até gostava de atingir, de alguns velejadores e de estrangeiros também. Apoiaram, gostaram e elogiaram imenso as peças. Só que a maior parte das pessoas dizia: “Eu quero ver, tem loja? Tem espaço físico onde ver, onde comprar?”. Quando eu respondia que não, não havia resposta.
Tem esse desejo, de ter um ponto físico?
Sinto que as pessoas precisam de ver. Consigo vender a pessoas que me conhecem, às amigas das amigas, as amigas de antigos clientes. Já tentei lojas, mas é difícil vender para as lojas por causa do preço. Trabalho com ateliers, depois faço os acabamentos peça a peça. Nenhuma peça é repetida. São peças únicas, com história, e não são repetíveis. Em alternativa, à consignação, as peças ficam um bocado esquecidas na loja… Depois temos que dar uma comissão muito alta, feitas as contas não faz muito sentido. Normalmente é uma média de 30%, portanto não vale a pena. E com isso tudo acrescido, a peça fica mais cara na loja.
Isso dos sacos e malas era um mundo dentro da moda que até então ainda não havia explorado…
Nunca estive ligada muito aos acessórios, estive mais ligada à roupa. Os acessórios eram só para a loja, ou então para os desfiles, para haver um complemento qualquer. Aliás, eu até trabalhava o show-off: tinha malas enormes, de médico, por exemplo. Mas nunca me aventurei a fazer só acessórios. Quando fechei a loja fiquei farta da roupa — com tanta oferta que há, já não faz assim muito sentido. Era a roupa de autor, e as pessoas estavam a procurar mais a moda descartável. E então resolvi: “vou fazer qualquer coisa diferente. Já fiz tanto lá na roupa. Vou-me atirar para os acessórios.” E quando descobri marcas que já faziam peças com o tecido das velas, vi que este material tem pano para mangas. Dá para decoração, dá para fazer candeeiros, atoalhados individuais, até cortinados de casa de banho, porque é impermeável, dá para forrar as espreguiçadeiras… Por enquanto estão nos sacos e malas, mas quero explorar mais o lado da decoração.
O reutilizar de materiais era uma prática que já havia experimentado?
Nunca tinha feito, mas eu também não fui atrás da moda do sustentável. Agora também está demasiado na moda, em voga, o que acaba com o conceito do sustentável. Há muita aldrabice por aí… O sustentável é um bom tema. É o não deitar fora e transformar, dar uma nova vida.
Gostava de explorar outros materiais?
Sim. Há por exemplo o material das balsas de salva-vidas dos submarinos, que são aquelas balsas que estão fechadas e quando acontece alguma coisa, ela enche, cai na água e faz o salva-vidas. Só há em duas cores, laranja e preto, e é meio borrachada. É descartável, já não tem utilidade nenhuma na balsa, mas também pode ser engraçado… E depois tem peças, como a válvula de encher. Também tenho tecidos que me deram que são os coletes. Tenho andado a olhar para aquilo e a pensar… dá peças pequenas, bolsas menores, ou até detalhes nas peças. Mas tenho que fazer experiências, porque são tecidos que talvez tenham uma maleabilidade maior.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.