Ex-Bahia e Vitória lembra troca de rival, ação contra a homofobia e celebra conquistas na Liga Saudita

Os desafios no Oriente Médio moldaram um Flávio mais maduro e permitiram a realização de sonhos dentro e fora dos campos. Aos 30 anos, o jogador falou sobre passado, presente e futuro em entrevista exclusiva ao ge.
Passado: mágoa e carinho na dupla Ba-Vi
Flávio Medeiros fez parte da seleção do Campeonato Baiano 2019 — Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia
Flávio faz parte do grupo de jogadores que defendeu e foi campeão pelos rivais Bahia e Vitória. O meio-campista terminou a formação na Toca do Leão e se lançou ao cenário profissional de vermelho e preto, mas perdeu espaço no clube até ser liberado pela diretoria em uma saída que deixou cicatrizes no jogador.
"Tenho muita gratidão pelo Vitória, mas ficou sim uma mágoa, acho que eles poderiam ter agido de outra forma comigo", lembrou Flávio.
- Tive meu nome vinculado ao Bahia e fui crucificado por ir para o rival. Falaram de Judas, traidor, mas não foi eu que quis sair do Vitória. Um dia no treino o diretor da época chegou em mim e falou que o clube não contava mais comigo, que eu estava liberado para procurar outros clubes - inicia o jogador.
- Foi um baque muito grande, eu tinha um nome no Vitória, no meu primeiro ano fui eleito a revelação do Campeonato Baiano, tive uma convocação para seleção brasileira sub-20, subimos o time da Série B para a Série A. De 38 jogos, eu joguei 34, estava feliz, aí, em 2016, o Vitória praticamente trocou o elenco todo por causa da Primeira Divisão, acabei perdendo espaço - completou o jogador.
Flávio em treino do Vitó — Foto: Maurícia da Matta / EC Vitória / Divulgação
Ainda vinculado ao Vitória, Flávio passou por um empréstimo para a Ferroviária, depois assinou com o Santo André. Lá, recebeu um convite para defender o Bahia, uma relação que começou com o "pé atrás", mas durou três temporadas e só terminou com uma valorizada negociação com o futebol turco.
"Não me arrependo, minha trajetória no Bahia fala por si só. Ela foi linda, maravilhosa. Eu entrei no Bahia uma pessoa e sai outra", conta.
- Fiquei com o pé atrás sobre como seria a recepção da torcida, do grupo, porque eu tinha uma história no Vitória, mas aceitei o desafio e fui. Cheguei em 2018, e em 2019 fui titular absoluto. Dali para frente foram só coisas boas, meu nome sendo consolidado, até em 2020 receber uma proposta da Turquia e dar esse passo gigantesco em minha carreira - lembra Flávio.
Flávio pelo Bahia — Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia
A passagem de Flávio pelo Bahia ficou marcada por boas atuações, dois títulos do Campeoanto Baiano e um gesto contra a homofobia no futebol. A partir de uma ação do clube, o jogador adotou a camisa 24, número normalmente ignorado pelo atletas por estar associado a homossexualidade.
- Eu lembro que começou um burburinho no grupo durante os treinos porque teria uma ação de marketing do Bahia e queriam selecionar um jogador para usar o número 24. Eu fiquei na minha, acho que dois ou três jogadores recusaram usar, aí o Diego Cerri [diretor de futebol do Bahia na época] me perguntou. Inicialmente seria ação só para um jogo, e eu falei que não tinha problema, que usaria de boa. E assim foi feito - conta Flávio.
- Eu fui muito bem no jogo e adotei o número, passei a usar ele. Perguntei para a direção se teria algum problema, eles falaram que não, aí fiquei usando. Usei na Turquia, no começo aqui da Arábia também. Hoje eu uso o oito, dei uma trocada de número, mas usei por um bom tempo o 24, não tenho nada contra o número. Se for para usar novamente, usaria sem problema algum, pelo contrário, tenho muito orgulho de ter usado e marcado meu nome no Bahia com ela.
Bahia; vestiário; Gregore; Flávio; Juninho Capixaba — Foto: Divulgação/E.C. Bahia
O número 24 no uniforme colocou Flávio como alvo de piadas e provocações, mas ajudou o jogador em um processo de amadurecimento que ganhou novos capítulos anos depois, quando ele foi jogar no Oriente Médico e precisou lidar com outros preconceitos, desta vez longe de casa e da família.
"Infelizmente no futebol a gente vive em um meio que é machista. Essa é a verdade".
- Do grupo, ninguém (fez piada), era mais os meus amigos, torcedores rivais que vinham com gracinha, jogando indireta na internet. Mas isso entrava por um ouvido e saia pelo outro. Como eu falei, não me arrependo e usaria sem problema algum - completa o jogador.
Presente: maturidade no Oriente Médio
Flávio Medeiros em entrevista ao ge — Foto: ge
Do Bahia, Flávio partiu para o sonho do futebol europeu e passou duas temporadas na Turquia com as camisas do Trabzonspor e do Giresunspor. Até que, em 2022, veio o convite para defender o Al-Taawoun na, até então, pouca conhecida Liga da Arábia Saudita. O meia está no país até hoje, após quatro anos de desafios dentro e fora dos campos com uma cultura cheia de restrições.
Foi difícil, o primeiro ano foi muito difícil, principalmente para a família né?! E aí você acaba sofrendo junto, para minha esposa foi muito difícil
- Eu sou da tese que você precisa saber chegar para saber sair. Independente de onde você está, você tem que respeitar a cultura, respeitar o povo. Foi assim no Brasil, podem falar que não gostam de mim como jogador, mas não vão falar da minha postura, da minha conduta, eu nunca fiz nada neste sentido e na Arábia não foi diferente.
Para ilustrar o cenário de restrições que encontrou na Arábia Saudita, Flávio relatou o episódio em que ele e a esposa se sentiram acuados porque ela não estava vestida com a abaya, uma túnica longa, solta e de mangas compridas usada por mulheres muçulmanas para cobrir o corpo.
- Aqui as mulheres, não é obrigatório, mas é de bom tom usar a abaya, uma roupa preta que cobre do pescoço até o pé. Minha esposa, como tinha acabado de chegar, ainda não tinha essa roupa. Um dia a gente saiu para comprar utensílios de casa, e eu lembro que falei para ela colocar a roupa mais larga que ela tinha. Ele colocou uma calça jeans bem larga, uma blusa larga, e a gente foi.
- Foi uma coisa que eu nunca vou esquecer, uma sensação horrível, não desejo para ninguém. A gente chegou na loja, e cada corredor que a gente passava parecia que estava cometendo um crime, que a gente era bicho e estava fora da jaula. Olhavam para a gente assim, não disfarçam. Lembro de olharem para minha esposa, e eu fiquei mal por ela. O carrinho já estava praticamente cheio, e lembro que deixamos lá e fomos embora - lamenta Flávio.
Volante Flávio pelo Al Taawoun, seu primeiro clube na Arábia Saudita — Foto: Divulgação /Al Taawoun
Apesar das dificuldades iniciais, o meia garante que se adaptou ao Oriente Médio e está feliz na Arábia Saudita. Mais uma vez, Flávio citou o respeito para explicar como driblou os preconceitos colocados em seu caminho.
- Teve esse episódio, no começo foi bem difícil essa questão de sair. Até a gente se familiarizar com isso levou um tempo. Tem que entender que é a gente chegando no país deles, tem que respeitar. É meu quinto ano aqui na Arábia, e estou muito feliz, totalmente adaptado, acostumado com a cultura, com a religião. Estou muito feliz, teve só essa questão de adaptação no começo, mas estou indo para meu quinto ano, então isso fala por si só. Se eu não estivesse me adaptado, se não estivesse feliz, não estaria aqui tanto tempo.
A Arábia Saudita também foi um espaço de realização de sonhos para Flávio, que pouco depois de sua chegada viu o país virar destino de grandes craques do futebol mundial como Cristiano Ronaldo, Benzema, Neymar, Roberto Firmino, Mané e muitos outros, todos atraídos pelo investimento do governo local no esporte.
- Eu vivi tudo aqui na Arábia. Quando eu cheguei, não tinha ainda Cristiano Ronaldo, Mané, Wijnaldum, agora Martinelli, um cara que acabou de jogar uma Copa do Mundo e veio para cá. Não tinha muito ainda isso. Logicamente que o lado financeiro já me chamou a atenção há cinco anos, e eu aceitei o desafio. E logo depois, uns meses, começou esse movimento.
- Eu fico feliz, isso enaltece e engrandece o Campeonato. De certa forma é bom para mim também porque tem mais visibilidade, muita gente olhava o campeonato de uma forma antes, e depois da vinda desses craques renomados mundialmente passaram a olhar a Liga de outra forma. Isso é bacana, é legal, valoriza de outra forma. Aqui temos grandes jogos, estádios lotados, isso foi muito legal, e eu pude viver isso de perto.
Levar a carreira até a Arábia Saudita proporcionou a Flávio um sonhado e inesquecível encontro com Cristiano Ronaldo. O atacante português é um dos ídolos do meio-campista, que conta com orgulho como foi a primeira vez que ficou frente a frente com o craque internacional.
- Eu sou fã assumido dele, um cara que eu acompanho desde pequeno. Quando eu soube que ia enfrentar ele pela primeira vez foi um choque. É uma sensação boa, eu cheguei até aqui, conquistei grandes coisas, e vou jogar contra o melhor que eu vi jogar. Eu tenho a imagem bem clara em minha cabeça de quando eu entrei no túnel e o vi parado ali para entrar no campo. Nunca vou esquecer.
- Muita gente pergunta se eu peguei a camisa e tal. Mas pensa, eu ganhei de 2 a 0, quando eu fui tentar falar com ele, ele já estava no vestiário, já estava puto, chateado por ter perdido. Imagino que chateado também por não ter feito gol. Mas é isso, uma imagem ali que não sai da cabeça é essa da primeira vez que eu vi ele de perto, entrando no túnel. Se eu pudesse, faria um quadro dessa imagem - completa Flávio.
Futuro: mais família e menos futebol
Flávio Medeiros comemora título Bahia ao lado do irmão Fernando — Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia
A vida profissional de Flávio começou em 2015 e já dura 12 temporadas. O jogador de 30 anos defendeu oito clubes em três países diferentes, e prefere não colocar limites quando projeta a reta final da carreira. Ao mesmo tempo, não esconde que voltar para casa e estar mais perto da família é um desejo que ganhou mais força desde o nascimento do filho.
“Eu sou da bola, se tiver proposta do Japão, da China, da Arábia, Brasil, Turquia, eu escuto todo mundo”, disse o meia.
- Estou com 30 anos, me sinto muito bem. Vou jogar ainda por um bom tempo, mas não vou jogar para sempre. Então eu tenho essa consciência de que com 35, 36 ou 37, daqui a no máximo mais uns sete anos de carreira, eu vou parar. Então eu estou aberto ao mercado, tenho mais um ano aqui na Arábia. Graças a Deus meu nome é sempre bem falado, principalmente nos mercados que eu já passei.
- Se for para voltar para o Brasil eu voltaria muito feliz, é meu país, minha casa. Estou com filho pequeno agora, que vai fazer um ano e seis meses. Gostaria que ele crescesse no Brasil, perto da família, mas o futuro a Deus pertence. Vamos ver o que Deus tem reservado para mim no futuro - completou Flávio.
Pelos próximos seis ou sete anos o meio-campista ainda vai “ser da bola”, mas, depois, Flávio vai ser da família. Os sacrifícios e o desgaste da vida de atleta fizeram o jogador entender que o futebol não vai fazer parte de sua rotina depois da aposentadoria. Para explicar a decisão, ele cita a mágoa de não poder acompanhar o nascimento do filho.
- Hoje eu não penso em trabalhar com futebol no pós-carreira. É muito desgastante, muita viagem, você acaba perdendo um tempo precioso com sua família. Eu tenho uma coisa que infelizmente vou levar para o resto da minha vida, eu não consegui ver o nascimento do meu filho - lamenta Flávio.
O futebol me deu casa, estabilidade financeira, uma vida muito boa, mas ele me tirou muitas coisas também. Tem o bônus e tem o ônus. Eu acabei não tendo o privilégio de ver meu filho nascer
— Flávio Medeiros, ex-jogador de Bahia e Vitória.
FICHA TÉCNICA:
- Nome: Flávio Medeiros da Silva;
- Idade: 10/02/1996 (30 anos);
- Posição: meio-campista;
- Clubes: Vitória, Ferroviária, Santo André, Bahia, Trabzonspor (Turquia), Giresunspor (Turquia), Al-Taawoun (Arábia Saudita) e Al-Faisaly (Arábia Saudita);
- Títulos: Campeonato Baiano (2016, 2019 e 2020); Supercopa Turca (2020).
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