Clonagem de voz e identidade: como os golpes com IA mudaram no Brasil
Uma ligação de alguém conhecido, um anúncio com a imagem de uma autoridade ou uma mensagem que parece ter sido enviada por uma empresa podem carregar um problema que não existia da mesma forma poucos anos atrás: a possibilidade de fabricar sinais digitais convincentes de identidade.
No Brasil, a inteligência artificial já aparece entre as ferramentas usadas para sofisticar fraudes, enquanto tentativas de manipulação da identidade digital seguem em alta.
A Serasa Experian identificou quase 1,5 milhão de tentativas de fraude em cadastros e validações de identidade no primeiro trimestre de 2026, uma ocorrência a cada cinco segundos.
O levantamento também aponta o uso indevido de IA, identidades sintéticas e fraude como serviço entre as tendências observadas.
A voz virou mais uma peça da fraude
Um dos caminhos é a clonagem de voz. Com amostras de áudio, ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir falas que imitam características da voz de uma pessoa. O material pode então ser usado para tornar mais convincente um contato fraudulento.
A Febraban cita, por exemplo, a possibilidade de criminosos utilizarem voz clonada em golpes por WhatsApp, fazendo a abordagem parecer uma conversa com alguém conhecido.
A entidade também alerta para outro risco: o uso de vozes artificiais em tentativas de contornar sistemas de autenticação por reconhecimento de voz.
Isso muda uma premissa importante dos golpes baseados em confiança. Ouvir a voz de um familiar, colega ou conhecido já não é, sozinho, uma confirmação suficiente de quem está do outro lado.
O problema vai além da voz
A IA também pode ser usada para produzir imagens, vídeos e outros conteúdos falsos.
Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que um levantamento do NetLab/UFRJ encontrou 544 anúncios fraudulentos relacionados a renegociação de dívidas nas plataformas da Meta.
Do total, 38% haviam sido produzidos com uso de IA, enquanto 72% usavam indevidamente o nome ou a imagem do governo e de marcas conhecidas para aparentar legitimidade.
A combinação de diferentes elementos aumenta a dificuldade de identificar uma fraude. Um criminoso pode utilizar uma identidade falsa, uma imagem manipulada e uma mensagem construída para provocar urgência na mesma abordagem.
Como a proteção precisa acompanhar a mudança
A evolução dos golpes também altera a forma de verificar uma identidade. Bancos e empresas passaram a olhar para diferentes etapas da jornada digital, em vez de depender de um único sinal.
A própria Febraban destaca a necessidade de reforçar mecanismos de identificação diante de ataques que envolvem deepfakes e manipulação de dados.
Em 2026, a entidade também firmou uma cooperação com o Ministério da Gestão e da Inovação e associações do setor para ampliar o uso da Carteira de Identidade Nacional em processos de identificação digital.
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