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Sunday, October 11, 2026

A língua portuguesa está a perder espaço na China?

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Português Suave na Rádio Observador, sempre ao domingo e também à quarta-feira, comigo, João Costa e Silva, e claro, com o ninja que a língua já consagrou e os muitos ouvintes que nos ouvem. Marco Neves, bem-vindo.

Olá, está tudo bem? Obrigado. Olá, João. Eu vou te dizer já que descobri que temos um ouvinte famoso, mas não vou revelar hoje.

Muito importante.

Muito importante, mas vou ficar aqui um cumprimento. Ele provavelmente sabe quem eu estou a falar, mas na quarta-feira nós revelamos quem é, porque tem que ver com dúvidas que nós já resolvemos e não resolvemos, e por isso fica pra quarta-feira, também pra levar as pessoas a ouvir o episódio de quarta-feira sobre dúvidas.

Mas digamos que é uma pessoa assim com, não queria dizer poder, mas com uma tarefa muito importante no país. É verdade.

Exatamente.

Revelamos tudo na quarta-feira.

Na quarta-feira, fica prometido. E hoje vamos falar da China e vamos falar de uma discussão. Pela primeira vez, conseguimos aquele objetivo que nós tínhamos de ter alguém a discutir ao vivo e nós a tentar resolver a discussão. O problema, eu percebi que o nosso pedido era genuíno, mas agora percebi que caímos aqui numa pequena armadilha, mas já falamos disso. Vamos avançar para a língua nas notícias. Então, João, andei à procura de notícias que tivessem a ver com a língua e cheguei à China.

Andaste muito.

Andei muito, é verdade. Cheguei à China virtualmente. Já lá fui ao vivo, aliás, já falamos disso nessa altura, mas a notícia que apareceu aqui foi do encerramento de vários cursos de português. Apareceu a notícia, e bem, foi aliás um aviso de pessoas relacionadas com o IPOR, que é o instituto que ensina português em Macau. Nós temos o Instituto de Camões, que está responsável pelo ensino de português na maior parte do mundo, e depois temos o IPOR, que trata desse ensino, em particular em Macau, ali centrado na China. Nós sabemos que Macau é hoje parte da China. E o que se passa é que, de facto, a China, ou melhor, certas instituições do ensino superior na China estão a encerrar ou suspender as inscrições de alguns cursos de português. Isto pode preocupar-nos, mas eu gostava aqui de dizer duas coisas. Primeiro, eu acho que cá em Portugal, a notícia a que poucas pessoas têm acesso, e não sei se concordas comigo, João, é a própria notícia de que há muitos cursos de português na China. Portanto, eu gostava de enquadrar isto.

Eu acho que muitos de nós, portugueses, temos essa percepção, não é?

Tem, pronto. Ainda bem, mas eu não sei se temos percepção dos milhares de pessoas que aprendem português na China.

Da dimensão real.

Sim. E, portanto, este encerramento é mau, claro, pelo menos na perspectiva de quem gosta que a nossa língua seja mais estudada e mais conhecida, mas é uma pequena alteração que depois tem explicações relacionadas com a diminuição, em geral, dos cursos de línguas naquelas instituições, não é do português em particular, de questões demográficas. Portanto, é uma preocupação, mas eu gostava aqui só de sublinhar o fato de termos mesmo assim muitos alunos de português na China, e é também continuando a ter essa relação com esses alunos que se interessam por nós e pela nossa língua. Eu posso só dar um exemplo. Ainda há uns anos, conversei com uma professora que ensina português na Áustria. E ela disse-me: "Nós temos muitas pessoas interessadas, mas varia muito. Às vezes basta haver uma alteração política no Brasil, vamos imaginar, que já vão ter menos pessoas interessadas, porque tem que ver com a forma como as pessoas se relacionam com aquele país." Portugal, nesse aspeto, se calhar, não muda tanto no que toca à questão política, mas o que eu quero dizer é que há certas flutuações relacionadas com a língua, o país, o que está nas notícias ou não, mas há este interesse contínuo pelo português, também na China e noutros países, como nós já aqui dissemos várias vezes. Só na Espanha há mais de 50 mil pessoas a aprender português. No Senegal há mais de 50 mil pessoas, ou quase 50 mil pessoas, à volta desse número. Portanto, temos este interesse pela nossa língua, que eu gostava muito de deixar aqui sublinhado e deixar também aqui um agradecimento a todos os professores de português por esse mundo fora, que têm esse trabalho de ensinar a nossa língua a pessoas que a querem aprender.

Marco, só aqui uma coisa, porque eu sou de São João da Madeira, no norte do país, fica muito perto do Porto, a 20 minutos, pertence ao distrito de Aveiro, e há esta questão do mandarim. Sei que em São João da Madeira, o mandarim começou por lá num projeto em 2012, depois foi alargado a outros conselhos, e entretanto há cerca de duas, três semanas, soube-se, e foi notícia, que o ensino de mandarim deixou de ser regular no primeiro ciclo nas escolas em São João da Madeira. Será que há aqui uma quebra de adesão que está a acontecer neste momento?

Aqui estamos a ver ao contrário. Estamos a ver o interesse do mandarim cá em Portugal. Mais uma vez, houve um pico a certa altura. Parece-me haver uma quebra, eu não sou especialista nisto. Há professores de mandarim em Portugal. Olhe, se algum deles nos estiver a ouvir e quiser enviar algumas informações, alguma impressão que têm sobre isto. O que me parece é que, de facto, houve essa quebra. Eu não sei explicar, mas imagino que tenha também.

Na notícia diz isso mesmo, ou seja, que o ensino regular de mandarim chega ao fim no primeiro ciclo. Falam da quebra de adesão, mas ainda assim vão manter o projeto através de outras modalidades de formação.

Pois. Parece-me que houve também, a certa altura, uma certa ideia, que também não sei se é verdadeira ou falsa, e mais uma vez, se houver algum professor de mandarim aqui que queira dizer o que acha sobre isto. O mandarim já não é assim tão importante, mesmo para a China, porque nós vamos à China e eles também têm muito conhecimento de inglês. Esta é uma ideia geral e que me parece um bocadinho falsa, para dizer a verdade. Mas há esta ideia de que o inglês basta, que não é preciso aprender outras línguas mesmo para conseguir ir à China. Não sei até que ponto é que isso é interessante. É que é verdade. Eu também devo dizer que podemos estar a assistir a um momento em que há um menor interesse em aprender outras línguas, porque as pessoas têm a impressão que com inteligência artificial conseguimos comunicar bem.

Mas é uma falsa ilusão.

É sim, exatamente. Mas, por outro lado, também é verdade que há muito mais produção hoje em muitas línguas para lá do inglês. Não sei se depois não vai haver um acerto e a certa altura nós percebemos que é bom que conhecemos mais línguas, porque há muita coisa que está a ser feita noutras línguas e que não passa pelo inglês e a inteligência artificial pode não chegar. Portanto, vamos ver o que é que vai acontecer, mas o que estás a dizer prova precisamente que estas questões passam por flutuações que são, por vezes, todas as línguas, não só do português ou não são do mandarim. Mas fica aqui o convite, se algum professor de mandarim ou alguém que conheça esta questão mais a fundo quiser enviar uma mensagem, pode enviar. E agora, João, vou te pedir ajuda para dizeres.

O número.

Em português e não em mandarim.

910 002 41 85. Também em mandarim não iam ter sorte, porque eu não ia conseguir.

E pode ser para o portuguesdosova@observador.pt. Estávamos muito a ouvir o que têm a dizer. E pronto, vamos sair da China e vamos avançar para o mapa da língua em Portugal. Vamos ao Língua no Mapa.

Eu reparei que hoje aqui no documento escreveste a língua no mapa.

A língua no mapa.

Em vez do mapa da língua. Por acaso reparei.

Estamos a falar do documento em que nós temos algumas notas para irmos partilhando as notas e atrapalhei-me com a língua.

Faz parte.

Vamos ouvir uma discussão, pela primeira vez, uma discussão ao vivo sobre a língua portuguesa. Vamos lá.

Vamos a isso.

Mas toda a gente isso ouve isso abreviado, isso escreve-se abreviado. Se calhar lá na tua zona não se escreve.

Mas tu escreves "porque é que", não é? Com acento circunflexo.

Isso funciona noutros sítios. Tu tens, por exemplo, "o que é que" também é uma coisa que se diz.

Mas não podes abreviar "o que é que" com o E e o É ficarem circunflexos.

E o que é, é o que, é igual. Não, mas isso acontece em vários sítios. Aliás, até a contração entre palavras diferentes, com alteração do acento, é bastante comum em português.

Eu acho que nesse caso não faz sentido. Tu és madeirense, eu sou flaviense. Vamos ver o que é que eles vão dizer.

A minha ideia aqui, João, não sei se concordas, é que a discussão é muito interessante, mas como as pessoas estão a discutir, nós podemos ter alguma dificuldade em perceber qual é o ponto da discussão. E o ponto aqui parece-me ser uma certa intrusão do inglês. Não sei. Mas vamos avançar.

Mas olha, conseguimos.

Sim, conseguimos a discussão. Muito obrigado ao flaviense e ao madeirense. Não tenho aqui os nomes registados.

O que enviou o áudio foi o Pedro.

O Pedro. Não sei se o Pedro é o flaviense, se é o madeirense. O Pedro está a discutir com outra pessoa, mas é uma discussão a sério. Espero que tenha corrido bem.

E que sejam amigos ainda.

Que sejam amigos agora. Nós queremos é amizade nas várias formas de falar português entre a Madeira e Trás-os-Montes. A pergunta é se nós podemos escrever de forma contraída "porque é que". Já agora, na ortografia habitual em Portugal, e não é de agora, isto é já bastante antigo, este "porque" inicial escreve-se tudo junto, ou seja, porque sem espaço. Neste caso, "porque é que". Mas não quero falar dessa razão, isso levava-nos para um só um episódio sobre isso, havemos de falar disso a outra altura. Agora, a pergunta é se nós queremos porque é, tudo junto, ou seja, contraído. Penso que é essa a discussão. E, na oralidade, claro que nós juntamos. Porque é que juntamos. É até uma palavra que parece cacofónica, mas é muito comum em português. Este "é que" é uma expressão fixa que serve para enfatizar. Eu posso dizer: "Eu é que vou. Porque é que tu fizeste isto?" Este "é que", se nós virmos bem, pode ser retirado em quase todas as situações. No caso das perguntas, se nós retirarmos, vamos ter de fazer uma alteração à estrutura da frase. Se eu disser: "Porque é que tu vais?" Se eu tirar o é que, já vou ter de escrever: "Porque vais tu?" Senão fica uma pergunta muito estranha. De qualquer forma, é uma expressão fixa, em geral invariável, embora sendo invariável na maior parte dos casos, há casos em que nós dizemos: "Porque foi que ele disse isso?" Portanto, há um ou outro caso em que nós mudamos. Quanto à pergunta da discussão, eu nunca vi isto contraído. Eu nunca vi porque é que tudo junto, na escrita. Portanto, eu sempre vi isto: porque, espaço, é, espaço, que. A contração num texto informal talvez possa ser feita, mas num texto formal não é considerada uma contração correta. Nós temos que escrever porque, espaço, é, espaço, que, espaço, e depois o resto. Eu acho que era esta a pergunta. Portanto, está aqui a resposta.

Agora resta saber se vão gostar da resposta.

Pois, e a discussão vai voltar, porque é o que acontece sempre nestas questões. Eles vão continuar a discutir, um deles vai dizer: "Ele tem razão", o outro vai dizer: "Ele não tem razão", e vão continuar. Faz parte. Devo dizer que há contrações, obviamente, contrações oficiais padronizadas da língua portuguesa, como o á com acento grave, o do, é uma contração de de u. O da, o nele, o dum, que muitas pessoas não gostam desta contração, mas ela existe e é oficial, se quisermos, faz parte do padrão, dum ou duma. Portanto, contrações há muitas. Porque é que não é uma contração oficial? Nós dizemos na oralidade, claro, mas depois temos que escrever por extenso na escrita formal. Eles falaram de flaviense e de madeirense. Eu lembrei-me, João, se concordares, de falar aqui um pouco das Destes gentílicos, destes nomes de habitantes de terras ou de adjetivos que são diferentes. Flaviense, nós sabemos que é de Chaves.

Exato.

Como é que é uma pessoa de São João da Madeira?

É sanjoanense.

Sanjoanense. Acho que já tínhamos falado disso. Eu lembro-me de vir aqui procurar mais uns quantos interessantes.

Porque há alguns que não são tão óbvios.

Pois, alguns não são nada óbvios. Nós temos os naturais de Guimarães. Não é óbvio, mas acho que é bastante conhecido, vimaranense. Ainda vamos falar hoje de um vimaranense.

É verdade.

Vamos falar de um vimaranense, mas já lá chegamos. Depois temos o natural de Lagos, lacobricense ou lacobrigense.

Não ia chegar lá, por exemplo.

E um natural de Matosinhos, sabes?

Matosinhos.

Matosinhense. Natural de Marco de Canaveses aparece marquense, marquense ou canavese. Eu estou a consultar agora a Infopédia, fica aqui a fonte referida.

Há uns que nós ouvimos mais.

Sim, há alguns nós sabemos. O albicastrense, de Castelo Branco.

Exato.

Pacense, de Paços de Ferreira ou pacense.

E Peniche, qual é?

Peniche tem dois. Um é muito bem comportado, outro um pouco mais, digamos, um é penichense, pá, Peniche, penichense, nada a dizer. O outro é muito popular em Peniche, não é muito bonito, é um bocadinho feio, mas é engraçado, é penicheiro.

Pois, bem me parecia que já tinha ouvido isso em algum lado.

Eu sou penicheiro. Sim, só que como acaba em "cheiro", a pessoa depois não gosta.

Depois não gostam muito.

Eu gosto, eu não tenho nada contra penicheiro. Eu acho que até é a forma que eu prefiro, mas admito que é mais feio. Não é muito bonito. Depois temos, estava aqui a olhar para mais, fafense, de Fafe, eborense, de Évora, covilhanense, de Covilhã. Albicastrense já tínhamos visto. Temos também bejense, de Beja. Vamos voltar a isto.

Bragantino, que é de Bragança, não é?

Exatamente. Bragança tem vários: bracarense, bracaralgustano, brácaro, bragano e bragês. Bragantino é de Bragança, portanto Braga eu disse, agora Bragança é bragantino, bragançano, braganção, bragancês, bragantino. Portanto, algumas terras são ricas em gentílicos.

Muito bem.

E pronto, esta discussão levou-nos aqui a isto e vamos avançar.

Uma bela viagem. Já fomos à China, já viajámos pelo país todo.

Ainda vamos voltar a Guimarães. Mas agora vamos aos mitos e origens da língua. Hoje vou fazer batota, às vezes faço isto. Nós temos as dúvidas que vamos tratar. Vamos tratar dessas dúvidas na quarta-feira, mas recebemos aqui uma dúvida sobre irritações. Não sei se os nossos ouvintes se lembram que tivemos um episódio sobre irritações.

Foi o último, o de quarta-feira.

Exatamente, foi no último quarta-feira e vamos voltar a este tema. Mas o Luís Cerqueira enviou-nos uma mensagem a dizer que uma das coisas que o irrita é quando nós dizemos coisas como: "uma das coisas que mais me irrita" ou "foi um dos estrangeirismos que não desapareceram". E eu desconfio que fomos nós que dissemos isto e o Luís ficou um pouco irritado e espero que ele nos perdoe. E é verdade, eu posso dizer que todos nós temos inclinações e erros comuns. Cada pessoa tem a sua forma de falar e essa forma de falar às vezes é apenas a frequência do uso de certas expressões, outras vezes são erros que a pessoa pode tentar evitar, mas nem sempre consegue. E este, eu confesso que é um dos meus, esta concordância errada em que nós dizemos: "uma das coisas que mais me irrita". E repare, e já falámos disto, é uma de, é uma de o quê? As coisas que mais me irritam. Portanto, pela lógica, tem de ser irritam, as coisas que mais me irritam. Há muitas coisas que me irritam e eu estou a falar de uma delas. E, portanto, temos de dizer: "uma das coisas que mais me irritam." "Foi um dos estrangeirismos que não desapareceram" e não que não desapareceu. Portanto, provavelmente eu disse no episódio: "foi um dos estrangeirismos que não desapareceu" e deveria ter dito: "foi um dos estrangeirismos que não desapareceram." Portanto, fica aqui um obrigado ao Luís Cerqueira. Ele diz que irrita-se, mas não muito. Pronto, ainda bem.

Ainda bem, Luís, não queremos que se irrite conosco.

O mito aqui é a ideia de que ninguém dá erros, e nós damos erros.

Exato. Num programa de língua portuguesa acontece. E quantas vezes já não fui buscar um estrangeirismo para falar de uma coisa que existe em português. Acontece muitas vezes. Olha, vamos deixar a sugestão do livro para podcast, porque estamos aqui mesmo em cima do nosso tempo.

Eu digo já que é um livro de Guimarães, mas vamos avançar então para o podcast. E pedimos aos nossos ouvintes, na quarta-feira teremos um episódio sobre dúvidas, irritações e a revelação do nosso ouvinte mistério.

É isso mesmo, muito conhecido. Um abraço, Marco. Até lá.

Um abraço.

E para os nossos fiéis ouvintes que continuam conosco agora em podcast, Marco.

O livro da semana é um livro de um vimaranense.

Queres o separador? Eu posso passar o separador.

Vamos ao separador.

Então vamos lá. É que um separador destes tem de se ouvir.

É verdade. Grande separador. Então, hoje temos um livro recente de João Zammit. Eu fui ver como é que se dizia o nome, porque eu não sabia. Eu até tinha feito um pequeno vídeo no Instagram em que dizia que não sabia e até falei com ele depois, com o autor, porque ele agradeceu-me esse vídeo, mas depois também não me revelou como é que se diz o nome. Eu penso que é João Zammit, espero que esteja a dizer bem. Eu nesse vídeo até tinha dito de outra maneira, mas depois eu tentei encontrar outras pessoas a dizer o nome e seria assim. Seja como for, o livro que ele escreveu é "Que o Inferno Pareça Aqui", é o segundo livro. Ele trabalhou em edição, tem um mestrado em Literatura Portuguesa, é vimaranense e eu não acabei de ler o livro, estou neste momento a ler, mas eu quero já falar dele, porque é um livro que tem uma ligação à língua portuguesa muito particular. Primeiro, o livro é Policial, terror, um livro muito interessante e tem aqui algo que eu queria sublinhar, que é o uso da língua portuguesa de uma forma muito rica, no sentido em que de acordo com a personagem, de acordo com o contexto, usa, por exemplo, o discurso dos servidores Discord ou do WhatsApp ou de mensagens da internet. Ou seja, nós temos aqui a língua toda. Ele tanto consegue escrever de forma mais formal quando é um advogado a falar, quando depois temos um jovem. Às vezes há pessoas que tentam fazer isto e falham redondamente. Tentam, mas não conseguem imitar a linguagem de um jovem, fica muito artificial. Neste caso, ele consegue muito bem e ao mesmo tempo é um livro, ou seja, este uso das várias linguagens que a nossa língua tem, é um uso literário, artístico. Ele consegue fazer disto um excelente tecido literário, se quisermos usar este termo. Isto não é novo, acho que o livro dele é muito original e muito bom, mas o que eu quero dizer é que não é o único que faz isto. Há uma tradição antiga nos bons romancistas, de usar material de vários discursos: legal, da rua, do parlamento. E o romance, enquanto género, muitas vezes caracteriza-se precisamente por juntar todas estas linguagens. Às vezes as pessoas têm a ideia de que a literatura vai ter um estilo muito próprio, muito elevado, muito literário, entre aspas. Quando, na verdade, quanto a mim, a boa literatura usa a língua toda e foi isto que o João Zammit fez aqui neste livro, ou está a fazer, como eu estou a ler, para mim, ele está neste momento a fazer isso na minha cabeça e gosto mesmo muito deste livro. E o livro é interessante, por vários motivos. Portanto, fica aqui a minha recomendação, "Que o Inferno Pareça Aqui", João Zammit, da Penguin.

Muito bem. E brevemente vai poder adicionar mais um livro à sua estante, o do Marco Neves. Está quase a sair. "Morte em 22 Letras" e mostra-nos aqui uma nova vertente da escrita do Marco.

O responsável por este aviso és tu. Eu não quero que as pessoas estejam a pensar que eu estou sempre a bater na mesma tecla, embora tenha de ser. Um autor tem de fazer essas coisas.

Claro, quem ouve o teu podcast, este "Português Suave", tanto ao domingo como à quarta-feira, estou a supor que possivelmente já te leu em alguns dos teus livros. E este é diferente.

É muito diferente.

É um policial que cruza investigação criminal, podemos lhe chamar assim, não é? Com a língua portuguesa. E daí o nome também, "Morte em 22 Letras".

Neste caso, ao contrário do João, quando eu digo que incluo a língua portuguesa, estou a falar da própria história da língua portuguesa. Portanto, eu devo dizer que não faço o mesmo jogo de muitas linguagens diferentes, é de outra maneira. São livros diferentes. Mas sim, foi um desafio para mim. E já agora, não sei se podemos dizer isto, acho que sim. Eu também vou ter no próximo sábado, uma conversa com uma pessoa que já esteve aqui, essa conversa até saiu daqui do "Português Suave", que é o Ricardo Aires Pereira.

Boa!

Em Óbitos, no Fólio. Portanto, fica aqui também o convite. Hoje foi aqui um pouco de publicidade.

E sei que horas? Sabes as horas?

Não me lembro.

Então falamos disso na quarta-feira. Para lembrar os nossos ouvintes, para não nos esquecermos.

Para eu não me esquecer também, convém lá aparecer, não é?

Exato.

Isso fica assim. Está bem. Obrigado, João.

Nada que agradecer. Sai dia 20, não é? O que sai.

Exatamente, dia 20.

Estamos aqui em contagem decrescente. Dúvidas, já sabe, nós estamos de regresso na quarta-feira para o número 91 002 41 85. Já hoje cumprimos um desejo, ouvimos uma discussão pela primeira vez.

Verdade.

Mas há também um e-mail, Marco, não é?

portuguessuave@observador.pt. Enviem mensagens, reclamações, irritações, o que quiserem. Elogios também, claro.

Nós somos o consultório das lamentações da língua portuguesa. Vamos chamar-lhe assim.

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