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Monday, October 12, 2026

Nossa Senhora Aparecida: por que a santa envolvida em polêmica eleitoral é a padroeira do Brasil?

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Nossa Senhora Aparecida: por que a santa envolvida em polêmica eleitoral é a padroeira do Brasil e 12 de outubro virou feriado nacional?

    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Milão para a BBC News Brasil
  • Published

  • Tempo de leitura: 9 min

Nossa Senhora Aparecida ganhou o centro do debate eleitoral em 2026, após polêmica sobre um suposto movimento envolvendo setores evangélicos para alterar o status de padroeira do Brasil por meio de um projeto de lei.

Nas redes sociais, apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) associaram o projeto a Flávio Bolsonaro (PL), que negou a associação e classificou a informação como falsa. A contenda foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que decidiu pela proibição de publicações associando o senador à proposta.

Assim, o feriado do dia 12 de outubro este ano, consagrado à padroeira, acontece num momento em que a santa está em alta no imaginário nacional.

O feriado tem uma razão religiosa para existir, dentro da tradição católica brasileira.

Nossa Senhora Aparecida é o nome que acabou sendo dado a uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, feita de terracota, com 36 centímetros de altura e 2,5 quilos, que teria sido encontrada em outubro de 1717, por três pescadores no Rio Paraíba do Sul em São Paulo.

Como a santa foi "aparecida", a alcunha logo pegou. O episódio foi considerado um milagre — e logo outros relacionados à santa foram sendo narrados. De sorte que a pequena capela originalmente erguida, em 1745, para abrigá-la passou a atrair mais e mais romeiros, e o local aos poucos se transformou em uma cidade: Aparecida.

Basílica do Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, localizada na cidade de Aparecida, estado de São Paulo.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Anualmente, cerca de 12 milhões de romeiros visitam o Santuário Nacional Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no município de Aparecida (SP)

Hoje Aparecida é o principal ponto de turismo religioso do país. Anualmente, cerca de 12 milhões de romeiros visitam o Santuário Nacional — que já recebeu três papas do catolicismo: João Paulo 2º, Bento 16 e Francisco.

No feriado dedicado à santa, o local costuma ser visitado por 200 mil pessoas.

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Em julho de 2013, quando visitou o Brasil, o papa Francisco celebrou uma concorrida missa no Santuário Nacional de Aparecida.

Ao fim da cerimônia ele afirmou que deveria voltar em 2017 — revelando, portanto, que estava em seus planos tomar parte nas comemorações pelos 300 anos da descoberta da imagem da padroeira brasileira. Por algum tempo, muito se especulou se ele tornaria a viajar para o país.

A negativa acabou sendo justificada por problemas de agenda. Entretanto, especulou-se que ele teria declinado da possibilidade diante do cenário político instável atravessado pelo país desde o impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido um ano antes.

Em mensagem em vídeos transmitida na missa do dia 12 de outubro de 2017, o papa criticou o "problema da corrupção do país".

O arcebispo de Aparecida, Raimundo Damasceno (à esquerda), entrega uma réplica de Nossa Senhora Aparecida ao Papa Francisco antes de ele celebrar a missa na Basílica de Nossa Senhora Aparecida — o santuário católico mais venerado do Brasil —, em Aparecida, no estado de São Paulo, em 24 de julho de 2013.

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O então arcebispo de Aparecida, Raimundo Damasceno, e o papa Francisco, duante visita do religioso ao Brasil, em 2013

Devoção nacional

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Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

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E como foi que a santinha foi parar no rio?

Conforme aponta o jornalista Rodrigo Alvarez no livro Aparecida - A Biografia da Santa que Perdeu a Cabeça, Ficou Negra, Foi Roubada, Cobiçada pelos Políticos e Conquistou o Brasil, o mais provável é que alguém a tenha descartado porque ela estava quebrada — e muitos acreditam que ter uma imagem quebrada de santo pode dar azar.

Já a cor original da santa muito provavelmente não era negra. Ficar anos sob as águas deve ter tornado a imagem escura tal e qual a conhecemos.

De acordo com especialistas, entretanto, a devoção a Nossa Senhora Aparecida demorou para se espalhar em todo o Brasil. Para o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), esta fama de Nossa Senhora Aparecida se espalhou mesmo com o trabalho realizado pelos missionários da Congregação Redentorista, que iniciaram os serviços em Aparecida em 1895.

"Lentamente, a devoção popular acabou assumida pela Igreja Católica. O fervor foi amplificado com a chegada dos redentoristas e, depois, com a construção da Rodovia Dutra. Estrategicamente, Aparecida fica no meio das duas metrópoles, Rio e São Paulo", aponta o teólogo.

"Antes, a devoção estava concentrada no Vale do Paraíba e Sul de Minas."

Basílica Histórica de Nossa Senhora Aparecida

Crédito, Wikimedia Commons

Legenda da foto, Antiga Igreja de Aparecida: Dom Pedro teria visitado capela onde a santa estava exposta em 1822, em uma viagem entre o Rio de Janeiro e São Paulo que acabaria terminando com a declaração da Independência do Brasil

"Havia uma devoção, mas não em nível nacional, como hoje", diz o historiador e pesquisador Paulo Rezzutti.

No seu livro D. Pedro: A História Não Contada, ele relata que o próprio primeiro imperador do Brasil visitou a igrejinha onde a santa estava exposta. Aparecida foi uma das paradas do percurso que Pedro fez, a cavalo com uma comitiva, entre Rio e São Paulo, em agosto de 1822.

Viagem esta que acabaria terminando com a declaração da Independência do Brasil, às margens do rio Ipiranga.

Memorialistas populares afirmam que o monarca teria feito uma promessa ali: se ele se tornasse governante do Brasil, transformaria Nossa Senhora na padroeira do país.

Isto nunca ocorreu. "Em 1826, o Brasil ganhou seu primeiro padroeiro: São Pedro de Alcântara, por solicitação de Dom Pedro 1º ao papa", conta Rezzutti.

"Esse santo era de devoção particular da família imperial. É de onde vem o nome Alcântara, que está no nome completo tanto de Pedro 1º quanto de Pedro 2º."

Para o pesquisador e estudioso de santos José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia, a devoção a Nossa Senhora Aparecida só ultrapassou os limites da então Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, região da descoberta da imagem, quando começaram a se espalhar as histórias de milagres.

"Há o relato da libertação de um escravo chamado Zacarias, preso por grossas correntes que, quando passou pela igreja construída para abrigar a imagem da santa, pediu ao feitor permissão para rezar. Ajoelhado diante de Nossa Senhor Aparecida, as correntes que o prendiam teriam se soltado, tornando-se ele então livre", conta Lira. "Essas histórias foram se espalhando."

Corrente do escravo Zacarias, parte do acervo do Museu de Nossa Senhora Aparecida

Crédito, Divulgação/Museu Nossa Senhora Aparecida

Legenda da foto, A corrente do escravo Zacarias está exposta no Museu de Nossa Senhora Aparecida, no santuário dedicado à padroeira no interior de São Paulo

Princesa Isabel e a coroa

Outro relato lembrado por Lira diz respeito à neta de dom Pedro 1º, a princesa Isabel.

"Em 1868, conta-se que ela foi a Aparecida pedir proteção de Nossa Senhora Aparecida para conseguir ter um filho. Já estava casada há quatro anos, sem conseguir engravidar", conta o hagiólogo.

"Em 1874, Isabel teve uma criança, natimorta, e, entre 1875 e 1878, teve três filhos, que garantiriam a sucessão imperial."

Em novembro de 1888, um ano antes da Proclamação da República do Brasil, a princesa teria retornado para Aparecida. Levou uma doação preciosa, conforme afirma Lira: uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis e um manto azul.

Esta coroa seria utilizada em 1904 em uma cerimônia oficial. "Um representante do papa a coroou oficialmente Rainha do Brasil", diz o pesquisador Rezzutti.

Segundo ele, isto pode ter ocorrido pela influência de Isabel junto ao Vaticano.

"Ela tinha muito contato com a cúpula da Igreja. E isto se reforçou durante seu exílio na Europa, quando a família imperial foi obrigada a deixar o Brasil, depois da República. Foi muito simbólico a princesa, herdeira do trono e da coroa imperial — que nunca usaria — doar uma coroa para a 'rainha do Brasil'. De certa forma, é como se ela transferisse sua coroa para a santa."

Mas essa coroação não fez de Nossa Senhora automaticamente a padroeira do Brasil.

Oficialmente, isso só ocorreria em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio 11º. Conforme contextualiza Altemeyer, havia uma pressão grande das arquidioceses tanto do Rio quanto de São Paulo para que o Vaticano formalizasse tal reconhecimento. Desde então, São Pedro de Alcântara passou a ser considerado "nosso segundo padroeiro", como explica Lira.

"O ato do pontífice legitimava o que o próprio povo brasileiro já havia consagrado no coração. No decreto, o santo padre afirmou que atendia ao pedido do episcopado e do povo brasileiro, 'o qual com fervor e piedade constantes, desde os anos do descobrimento das regiões brasílicas até nossos tempos, tem venerado e venera a Imaculada Virgem Mãe de Deus'", conta Altemeyer.

No ano seguinte, em 31 de maio de 1931, uma missa solene ocorreu no Rio de Janeiro, então capital federal, para oficializar o decreto. "Para a ocasião, a imagem da santa foi levada em romaria de Aparecida até o Rio", ressalta o teólogo.

O vermelhinho no calendário, entretanto, viria apenas 50 anos mais tarde.

A declaração de feriado nacional foi sancionada pelo presidente João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar do Brasil, em 30 de junho de 1980, exatamente no dia em que o país recebeu a visita de João Paulo 2º, primeiro papa a pisar em terras nacionais.

Presidente Figueiredo

Crédito, Orlando Brito/Agência Senado

Legenda da foto, A declaração do 12 de outubro como feriado nacional foi sancionada pelo presidente João Figueiredo, em 30 de junho de 1980

A partir daquele ano, portanto, ficou "declarado feriado nacional o dia 12 de outubro, para cultura público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil", conforme o texto da lei.

"Desde então, houve muitos questionamentos acerca da lei, por conta de o Estado ser laico e da separação entre Igreja e Estado promovida pela República", comenta Lira.

"Eu não vejo controvérsia. Nossa Senhora Aparecida é reconhecidamente participante do imaginário brasileiro, da vida brasileira. Se feriamos, por exemplo, o dia da morte de uma personalidade histórica que às vezes não alcança o percentual significativo da nação e lhe prestamos homenagens públicas, por que não homenagear a padroeira e feriar o dia a ela dedicado?"

Há, entretanto, uma curiosidade histórica. De acordo com os relatos antigos, a imagem de Nossa Senhora foi encontrada no Rio Paraíba do Sul na segunda quinzena de outubro de 1717 — não poderia ter sido, portanto, no dia 12. Muitos acreditam que a data exata tenha sido dia 17.

Por que então entrou para a história o dia 12 de outubro?

De acordo com historiadores, a escolha da data não foi algo aleatório, mas sim uma decisão simbólica. O 12 de outubro já era um dia importante. Foi em 12 de outubro — de 1492 — que Cristóvão Colombo aportou no continente americano. E foi em 12 de outubro — de 1822 — que dom Pedro 1º acabou aclamado imperador do Brasil.

Pedro 1º, aliás, nasceu em um 12 de outubro, em 1798.

Velas e fiéis na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Desde que 12 de outubro foi consagrado a Nossa Senhora, houve muitos questionamentos acerca da lei, por conta de o Estado ser laico e da separação entre Igreja e Estado

Devoção

Não há um número consolidado sobre quantas igrejas dedicadas a Nossa Senhora Aparecida existem no Brasil, mas certamente se trata da santa de maior devoção popular no país.

"É muito difícil uma diocese brasileira que não tenha pelo menos uma paróquia dedicada à padroeira do Brasil", resume Lira. "Capelas, então, são inúmeras."

O pesquisador também acredita que a devoção à santa venha aumentando nos últimos anos graças à profusão de canais de TV e espaços na internet e redes sociais dedicados a espalhar a fé católica. "Há uma valorização da padroeira", acredita ele.

Lira ainda frisa a importância de Nossa Senhora Aparecida ser negra, à imagem de boa parcela da população brasileira.

"Nas aparições de Maria Santíssima que foram aprovadas pela Igreja, vemos que Nossa Senhora se tornou semelhante ao povo do local de aparição, o que nos remete ao texto bíblico: fomos feitos à imagem e semelhança do Pai do Céu. Aqui, a imagem veio com a cor de uma raça sofrida, pequenina, mas, com um sorriso esboçado. Tem nosso cheiro, nossa terra, nossa cor miscigenada", aponta o hagiólogo.

Esta reportagem foi publicada originalmente em 10 de outubro de 2018 e atualizada em outubro de 2026.

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