Priscila Sol: 'Precisei ir ao fundo do poço para me reerguer'

Priscila Sol, de 46 anos, considera ter passado por virada de chave depois de se tornar 40+ e busca se apropriar de quem realmente é. "Estou apaixonada pelo meu amadurecimento. Percebo minhas mãos envelhecendo. Não ligo para as manchinhas nelas. Antes, meu olhar estava treinado para ver defeitos em mim", afirma a atriz, lembrada por personagens como Paixão, de Viver a Vida (Globo, 2009), e Tia Perucas, de Carinha de Anjo (SBT, 2015).
Ela conta que, de maneira inconsciente, temia não ver o filho, Vitor Abate, de 23, crescer. "Perdi meu pai quando ele tinha apenas 42 anos. Fiquei com medo de morrer cedo, com a mesma idade dele. A dor da perda do meu pai é inexplicável. Foi um baque na minha vida. Tenho ansiedade diagnosticada, um estresse pós-traumático", afirma Priscila, que estava às vésperas de sua festa de 15 anos quando o pai foi assassinado.
Aos 15, ela desenvolveu uma compulsão alimentar e começou com a bulimia. "Tive bulimia dos 15 aos 39 anos. Vomitava todos os dias. Nesse intervalo de tempo, só parei de provocar os vômitos durante a minha gravidez", afirma, contando que o distúrbio alimentar a acompanhou durante os trabalhos que realizou na TV. "Tinha medo de chegar para gravar e não ter lugar para vomitar", conta.
Priscila diz ainda que não tinha um diálogo aberto com pessoas próximas sobre a situação que vivia. "Era escondido. Eu me autossabotava. Minha mãe e minha irmã chegaram a presenciar algumas situações, o Vitor, meu filho, também. Mas ninguém sabia que eu vomitava tanto", diz.
Ela admite que já foi refém de pressões estéticas. "Entre meus 24 e 25 anos, era o auge das mulheres com silicone. Desde a adolescência, meu peito foi grande. Era a única parte do meu corpo que eu gostava, justamente porque os meninos gostavam. 'Nossa, a Pri é peituda' e 'A Pri é gordinha, mas tem um peito bonito' eram comentários que ouvia. Depois de amamentar, meu peito ficou murcho. Minha reação? Ah, não vou perder meu único atrativo (risos). Botei o silicone, mas nunca gostei. Quando eu deitava, sentia aquelas duas bolas dentro de mim. Passei anos fingindo que gostava", afirma a atriz, que fez o explante das próteses e viralizou nas redes sociais ao explicar o motivo para não usar sutiã.
Driblando os comentários de terceiros, a atriz também decidiu assumir os fios grisalhos. "Todo mundo falava: 'envelhece muito'. Eu digo que ninguém nos segura de cabelo grisalho. A gente fica muito empoderada. Meu cabelo estava apodrecendo de tanta tintura. Não existe coisa mais feia do que uma mulher se escondendo dela mesmo."
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Solteira, Priscila fala ainda sobre o comportamento masculino nos relacionamentos. "No sexo, tudo pode, desde que você queira. A mulher não foi ensinada a falar 'não', 'não quero', 'isso está me machucando', 'bota a camisinha'. O tempo inteiro encontramos caras que querem transar sem camisinha. Quantas posições eu já fiz na minha vida que não queria e que não me deixavam confortável? A gente foi ensinada a agradar o homem pelo o que eles viam no pornô. Não tenho trauma de homem, não tenho raiva de homem. Crio um filho homem. Os homens não souberam evoluir como as mulheres."
A atriz avalia que o mercado de trabalho esteja pouco satisfatório em aspectos financeiros. "A arte é subvalorizada. O mercado está esquisito. É preferível alugar meu apartamento por R$ 1,8 mil a diária (de locação de algum projeto audiovisual), do que ganhar 300 reais como atriz. Não estou desmerecendo os 300 reais, mas é pouco para ver a sua imagem perpetuar. Acredito na aposta em novelas verticais, mas não dá para pagar uma miséria pro ator que terá a imagem perpetuada por anos nas plataformas.
Ainda assim, a atriz não esconde o desejo de voltar às novelas. "Neste tempo que não trabalhei tanto, eu me trabalhei. Passei a vida inteira buscando personagens para me esconder de mim. Quando me vi sem um personagem para fazer, para quem eu tive que olhar? Para mim. Eu me sinto pronta para pegar personagens fortes."
Leia a entrevista completa abaixo:
Quem: Você tem levantado bandeiras das mulheres 40+ nas redes sociais. Quando se sentiu estimulada a falar sobre o amadurecimento?
Priscila Sol: Quando comecei a deixar meu cabelo natural, muita gente começou a questionar o motivo. Sempre tive uma aparência jovial. Sou mãe de um filho de 23 anos, gosto de andar com a turma dele, já namorei caras mais novos… Em um momento, até eu me questionei sobre isso. Perdi meu pai quando ele tinha apenas 42 anos. Inconscientemente, eu tinha medo de morrer cedo, com a mesma idade dele. Quando ultrapassei os 42, tive uma virada de chave.
Você perdeu seu pai quando era muito nova. Como encarou esse baque ainda adolescente?
Eu tinha 14 anos, faltavam poucos dias para a minha festa de 15. Tudo foi cancelado. Ele foi assassinado. Foi um baque na minha vida. A dor da perda do meu pai é inexplicável. Tenho ansiedade diagnosticada, um estresse pós-traumático. Eu tinha uma festa de 15 anos programada – talvez, a maior festinha da minha vida – e meu pai morreu. Desenvolvi uma compulsão alimentar e tive bulimia dos 15 aos 39 anos. Vomitava todos os dias. Nesse intervalo de tempo, só parei de provocar os vômitos durante a minha gravidez.
Foi um período muito extenso com bulimia. Você já tinha uma carreira na TV, inclusive.
Sim. Fiz a Tia Perucas (personagem da novela Carinha de Anjo, em 2016) e a Paixão (de Viver a Vida, em 2009) enfrentando essa situação. Eu tinha medo de chegar para gravar e não ter lugar para vomitar. Na época de Carinha de Anjo, a bulimia atacava de forma mais forte quando estava ansiosa.
E, pelo o que você falou, era uma frequência constante.
Era escondido. Eu me autossabotava. Minha mãe e minha irmã chegaram a presenciar algumas situações, o Vitor, meu filho, também. Mas ninguém sabia que eu vomitava tanto.
Como são suas relações familiares?
Em casa, tive duas referências muito fortes, minha mãe e a Dedé. A Dedé é uma grande amiga da minha mãe e participou da minha criação. As duas vieram do Ceará para São Paulo na década de 1970. Minha mãe é loira de olho azul; Dedé, uma mulher preta. Elas tiveram oportunidades diferentes de trabalho. Depois que nasci, a Dedé ajudou a cuidar de mim, como babá, ganhando salário mínimo. Por um período, questionava o porquê da minha mãe não ter tempo para mim. Fui filha única até os 13 anos, quando minha irmã nasceu.
Você citou que passou por uma virada de chave na sua vida. Como foi isso?
Sou muito comunicativa, abraço as pessoas, falo ‘te amo’. Meus namorados – exceto o pai do meu filho, que é um grande amigo meu e parceiro de vida, conselheiro, relação fraterna, sem atração sexual – nunca entenderam muito bem esse lado. Nunca nenhum homem levantou a mão para mim. O mais perto disso foi no meu último relacionamento, mas os meus guias me protegeram e ele saiu de casa antes que isso acontecesse. Não tenho trauma de homem, não tenho raiva de homem. Crio um filho homem. Os homens não souberam evoluir como as mulheres. E nós, mulheres, vivemos querendo agradá-los. Não é certo. Temos que fazer isso por nós.
Você foi mãe relativamente cedo. A maternidade foi desafiadora?
Sou mãe de um rapaz de 23 anos, tinha 23 quando ele nasceu. Como fui mãe jovem, fui uma mãe-irmã. Era muito inexperiente. Engravidei na primeira relação que tive com o pai do meu filho. Perdi minha virgindade de um jeito que não gostei, tinha me machucado, não foi legal. Foi com um outro namorado, quando estava com 20, quase 21 anos. Na época, eu fui no embalo, apenas para não ser mais a única virgem da turma.
Para você, sexo já foi um tabu?
No sexo, tudo pode, desde que você queira. A mulher não foi ensinada a falar “não”, “não quero”, “isso está me machucando”, “bota a camisinha”. O tempo inteiro encontramos caras que querem transar sem camisinha. Quantas posições eu já fiz na minha vida que não queria e que não me deixavam confortável? Hoje, por falar de questões difíceis e me posicionar, eu fui me apoderando e me empoderando. Um exemplo: tapa no sexo. Chega um cara e enfia a mão na sua cara, fora de contexto, sem saber se você gosta, se está de acordo, sem clima, sem conexão. Do nada, vem um tapa. Puf! É a cultura do pornô. A gente foi ensinada a agradar o homem pelo o que eles viam no pornô. Foi daí que veio a onda do silicone – esses peitos gigantescos – no fim dos anos 1990 e os anos 2000.
Você se viu influenciada por aquele tipo físico colocado como ideal na época?
Claro! Eu amamentei meu filho por um ano. Quando estava de 24 para 25 anos, era o auge das mulheres com silicone. Sempre tive cara de menina, mas com peito grande. Desde a adolescência, meu peito foi grande. Era a única parte do meu corpo que eu gostava, justamente porque os meninos gostavam. “Nossa, a Pri é peituda”, “Ó, o peito dela é bonito” e ‘A Pri é gordinha, mas tem um peito bonito” eram comentários que ouvia dos meninos. Depois de amamentar, meu peito ficou murcho. Minha reação? Ah, não vou perder meu único atrativo (risos). Aí, botei o silicone para poder continuar usando decote. Mas nunca gostei (do silicone). Pesava minhas costas. Não era por mim, era pelo outro. Sempre gostei de pular, de brincar e não podia mais. Se eu pulava, o silicone doía. Quando eu deitava, sentia aquelas duas bolas dentro de mim. Aprendi a conviver com o silicone. Passei anos fingindo que gostava. Hoje, aos 46, sinto que me apropriei de mim e ainda quero viver muito. Quero me preparar para ser avó e quero continuar me cuidando. Eu me cuido pra caramba.
Como é a sua relação com a beleza?
Nós, mulheres, estamos perdendo a noção do que é beleza e autenticidade. Há uma padronização. Você troca o carisma – algo que só você tem – pelo padrão. Eu fumei dos 15 aos 39, fumava Marlboro vermelho. Não fumo mais. Já fiz botox – e fico com o rosto com aspecto mais descansado –, mas nunca foi tão elogiada pela beleza como agora. Há mais de um ano não coloco botox. Talvez eu faça, mas aprendi que ruga não significa descuido. Sempre gostei de me cuidar. Não sou uma clean girl. Posso ter uma cara padrão, mas sou um pessoa que mexe e gesticula.
E a decisão de assumir o cabelo grisalho?
Você acha que foi fácil deixar o meu cabelo grisalho e curtinho? Não foi. Todo mundo falava: “envelhece muito”. De cabelo grisalho, ninguém nos segura. A gente fica muito empoderada. Queria ver minha mãe assumir o branco, queria que a Dedé parasse de alisar o cabelo, mas não vou ver isso – e tudo bem. Elas são de outra geração. Meu cabelo estava apodrecendo de tanta tintura. Acho que eu tingia desde que tinha uns 30 anos. Não existe coisa mais feia do que uma mulher se escondendo dela mesmo.
Hoje em dia, você consegue se aceitar? Nenhuma autossabotagem?
Estou me aceitando. Passei a vida inteira me machucando, me ferindo, ferindo minhas cordas vocais. Tenho muita vontade de voltar a cantar. Precisei ir para o fundo do poço para me reerguer. Quero envelhecer com saúde física. Quero ter força para brincar com meus futuros netos. Estou apaixonada pelo meu amadurecimento. Percebo minha mão envelhecendo. Não ligo para as manchinhas na mão. Antes, meu olhar estava treinado para ver defeitos em mim. Hoje, gosto de sentir o vento na minha cara enquanto ando na rua com a minha bicicletinha. Ando de bike porque vendi meu carro para me capitalizar e fazer uma renda.
O meio artístico é instável. Já passou perrengues financeiros ou consegue viver bem?
Consigo ter uma estrutura. Mesmo não sendo uma atriz que emenda uma novela na outra, consegui construir patrimônio. Construí patrimônio fazendo publicidade. Eu era da mesma turma de Paloma Bernardi, Gabriel Godoy, Renatinho Góes, Marisol Ribeiro, Johnnas Oliva. Eu e minha mãe sempre tivemos um olhar para imóveis. Tenho meu apartamento – que tem um condomínio baixo e acho lindo – e outros imóveis, que alugo e me garantem uma fonte de renda. Isso me dá uma estrutura, caso contrário estaria passando fome. Não posso me dar ao luxo de viajar e ter gastos extraordinários.
Nota que o mercado passou por muitas mudanças? Uma precarização da mão de obra, o fim dos contratos longos...
O mercado mudou bastante, mas acho justo os contratos por obra. No segmento dos artistas, a minoria ganha cachês extraordinários. A maioria é trabalhador que rala. No tempo que eu fiquei sem trabalhar, não quis me fazer de vítima da situação. Vou ficar contestando as pessoas que dizem que eu não aparento idade? Vou brigar com quem diz que eu aparento ser muito nova para ser velha e muito velha para ser jovem? Dizem que eu não tenho cara de mãe. Mãe tem cara? Minha geração tem um ego muito grande. Sou um universo de possibilidades. Sou atriz, sou mãe, sou decoradora, sou empreendedora. Posso trabalhar com figurino, maquiagem... O que me chateia é ver que o artista é subvalorizado.
Nos cachês, você diz?
Tem projetos em que a locação é mais valorizada que o artista. Gastam muito com a locação, mas o cachê para quem atua é baixíssimo. Plataformas ganhando alto e pagando o mínimo. A arte é subvalorizada. O mercado está esquisito. É preferível alugar meu apartamento por R$ 1,8 mil a diária, do que ganhar 300 reais como atriz. Não estou desmerecendo os 300 reais, mas é pouco para ver a sua imagem perpetuar. Acredito na aposta em novelas verticais, mas não dá para pagar uma miséria pro ator que terá a imagem perpetuada por anos nas plataformas.
Percebe muita "panelinha"?
Até faço um desabafo sobre isso: sou uma atriz paulistanérrima, levanto a bandeira da cidade, a TV tem ambientado uma novela atrás da outra em São Paulo, mas com vários atores cariocas precisando disfarçar o sotaque. Pô, chega de repetir elenco. Tem um monte de ator em São Paulo bom pra caramba.
E seus desejos para 2027?
Quero fazer novela. Faz dez anos que não faço novela e adoraria voltar. Além disso, minha mãe e a Dedé são de uma geração que consome novelas desde sempre. Queria fazer uma novela por mim e por elas. Dedé está com 83 anos e sempre foi noveleira. Elas merecem me ver. Sei que tenho a agregar nos projetos, que sou boa no que faço. Se não fosse, não receberia tantas mensagens até hoje de pessoas falando que recordam os meus personagens. Também quero fazer teatro. Acho que farei um projeto com o Lucas Papp. Ter um papel em novela é desafiador. Não tenho feito teste, mas ainda tenho muito a viver e fazer. Neste tempo em que não trabalhei tanto, eu me trabalhei. Pude me apropriar de mim. Passei a vida inteira buscando personagens para me esconder de mim. Quando me vi sem um personagem para fazer, para quem eu tive que olhar? Para mim. Eu me sinto pronta para pegar personagens fortes. Fora isso, estou levantando uma palestra para mulheres 40+. A gente tem que se apropriar do que a gente é.
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